perspectivas

Sábado, 10 Setembro 2016

Roger Scruton está errado

 

“A Idade Moderna, com a sua crescente alienação do mundo, conduziu a uma situação em que o homem, onde quer que vá, apenas se encontra a si mesmo. Todos os processos da Terra e do Universo revelaram-se a si mesmos como feitos-pelo-homem ou como potencialmente feitos-pelo-homem.

Depois de terem devorado, por assim dizer, a sólida objectividade do dado, esses processos [científicos e históricos] acabaram por esvaziar de sentido o processo global único (que originalmente fôra concebido para conferir sentido ao particular), comportando-se, digamos, como um eterno espaço-tempo onde aqueles [os processos] podem evoluir sem conflitos nem tentativas de exclusão mútua. Foi isto o que aconteceu com o nosso conceito de História, tal como com o nosso conceito de Natureza.

Nesta situação de radical alienação do mundo, a Natureza e a História são de todo inconcebíveis. Esta dupla perda do mundo — a perda da Natureza e a perda do artifício humano no seu sentido mais lato, que inclui toda a História — deixou atrás de si uma sociedade de homens que, privados de um mundo comum que os relacionaria e separaria ao mesmo tempo, vivem ora num desesperado e solitário isolamento, ora comprimidos numa massa.

De facto, uma sociedade de massas não é mais do que o tipo de organização que se estabelece automaticamente entre os seres humanos quando estes ainda têm relações que os unem, mas perderam já o mundo que outrora era comum a todos eles”.

Hannah Arendt (“Entre o Passado e o Futuro”, página 103)


Roger Scruton é de opinião de que a herança cultural intelectual vai salvar o Ocidente da decadência, mesmo quando a religião cristã já não exista na cultura antropológica. É também contra este tipo de conservadores (como Roger Scruton) que se ergue a Direita Alternativa (AltRigt).

Num dos seus livros, Eric Voegelin dizia que Heródoto não compreendeu Homero; bastaram 300 anos para que Homero se tornasse incompreensível ao historiador grego; lá se foi a herança cultural pela pia abaixo.

No meu tempo de liceu, estudei “Os Lusíadas”, de Luiz de Camões, no 5º ano; hoje, “Os Lusíadas” foram eliminados do ensino secundário. E, com o novo Acordo Ortográfico, torna-se mais difícil aos alunos compreender Camões. Lá se foi a herança cultural pela pia abaixo.

A perda da religião cristã na cultura antropológica europeia levará a uma de duas hipóteses: ou à arbitrariedade do Poder político (laicismo radical e totalitário), ou ao Islão.

Sexta-feira, 15 Agosto 2014

Roger Scruton: “A ciência não pode explicar tudo”

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 5:04 pm
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Aconselho a leitura deste artigo de Roger Scruton no jornal britânico “The Guardian”.

Terça-feira, 5 Março 2013

Roger Scruton e a análise do partido conservador inglês

O filósofo inglês Roger Scruton escreve aqui um artigo acerca da tentativa dos conservadores ingleses em reformar o partido conservador, alegadamente para “resolver um problema de imagem em relação ao público pós-moderno”, e “acompanhar a mudança social”. No fundo, o que Roger Scruton critica é a tentativa de transformar o partido conservador inglês em um partido de esquerda, tornando a política inglesa num feudo do pensamento único esquerdista e politicamente correcto.

roger scruton daguerre webOs ideólogos da reforma do partido conservador inglês — tal como acontece aqui com os “submarinos” no CDS/PP de Paulo Portas — colocam a religião de parte e subestimam a soberania do país, ou seja, seguem à letra dois princípios fundamentais da acção política de esquerda. Na cultura antropológica, os “conservadores” ingleses seguem a estratégia política de fractura social, por exemplo, com o apoio ao “casamento” gay. Ou seja, as diferenças fundamentais e tradicionais entre o partido conservador e o partido trabalhista esbatem-se, abrindo espaço político para uma maior radicalização da esquerda inglesa.

Contra a postura dos reformadores do partido conservador, como é o caso, por exemplo, de David Cameron, Roger Scruton identifica o conceito de “modernização” com o conceito de “presentismo”; “modernização”, segundo a cultura intelectual actual, parece significar a eliminação da História e do passado histórico. E se o partido conservador se moderniza segundo este conceito, perderá o seu apoio social e será extinto.

Por outro lado, Scruton constata que o partido conservador não soube lidar com a retórica da igualdade, que caracteriza a esquerda. A retórica da igualdade não tem nada a ver com a verdade na política, mas apenas com sofismas, com a manipulação emocional e com o populismo de esquerda. A retórica da igualdade é a premissa de todo e de qualquer argumento da esquerda. O argumento da igualdade transformou-se na condição de qualquer proposição política de esquerda, a que se juntou a retórica esquerdista da liberdade — sendo que as duas retóricas esquerdistas, a da igualdade e da liberdade, são contraditórias, porque a partir do momento em que a liberdade é efectiva, esta entra em conflito invariavelmente com a igualdade.

A actual retórica política de esquerda é — nas palavras de Scruton — “simples, persuasiva e falsa”: é a prevalência cultural da doxa que Platão denunciou nos sofistas gregos, em detrimento do episteme da teoria do conhecimento que “já não consegue silenciar os gritos da retórica esquerdista do igualitarismo a qualquer custo”. A falácia esquerdista da “soma-zero”, que diz que a razão por que alguns são ricos é porque outros são pobres, já não pode ser destruída pelas teorias económicas da escola austríaca. A retórica sentimental esquerdista e simplista da “compaixão” destrói e corrói o conceito de justiça da lei comum, segundo Burke, e corrompe a defesa de Hegel em relação à família natural e às corporações da sociedade civil. A batalha política actual trava-se entre o sentimento da esquerda e a razão da direita.

Na medida em que modernização se identifica com presentismo, a retórica de esquerda incute no cidadão comum a ideia de Carpe Diem: “o que interessa é viver o dia de hoje, porque amanhã estaremos todos mortos”. Modernizar significa esquecer o passado e ignorar o futuro. “Nenhum de nós pagará pela desbunda dos empréstimos e gastos do Estado e pelos desregramentos na economia, e portanto, vamos gozar o presente porque a morte é certa. E quem vier atrás de nós que feche a porta.” Perante esta retórica esquerdista — diz Scruton —, os conservadores perderam a batalha, porque não têm nenhum argumento, que seja popular, contra ela. Na medida em que a retórica se relaciona com as aparências (doxa) e não com a verdade (episteme), qualquer argumento que contrarie a lógica “carpe Diem” epicurista da esquerda, está condenado ao fracasso.

Em nome da igualdade esquerdista, uma geração inteira de jovens ingleses vulgariza-se e perde qualidade. A modernização identificada com o presentismo e com a retórica carpe Diem, reduziu o nível de poupança das famílias inglesas a quase zero e o aumentou astronomicamente o nível de endividamento das famílias. Há 25 anos, as três profissões mais desejadas pelos jovens ingleses eram as de professor, economista e médico; hoje, as três profissões mais desejadas pelos jovens ingleses são as de futebolista, estrela rock e actor de telenovela. A decadência actual da sociedade inglesa não é uma mera “teoria da conspiração da direita”: antes, baseia-se em factos culturais concretos e em indicadores económicos objectivos e científicos.

Associada à retórica política populista de esquerda, está a desconstrução esquerdista de um ideal de sociedade e da sua ordem, e que dividiu o povo para poder reinar. A História inglesa foi desconstruída e passou a ser uma razão para se ter vergonha de ser inglês. Conclui Scruton que o conservadorismo inglês actual está morto. E concluo eu — e não Scruton — que a Europa, e não só a Inglaterra, está numa encruzilhada entre dois tipos de regimes políticos: ou um totalitarismo europeísta à esquerda que se agiganta a nossos olhos, ou um autoritarismo nacionalista à direita que seja um obstáculo seguro a esse totalitarismo.

Terça-feira, 20 Novembro 2012

A petição e a reivindicação

Deparei-me no Twitter com a seguinte frase de Roger Scruton:

“Quando as dádivas são substituídas por direitos, a gratidão é substituída por reivindicações. E as reivindicações alimentam o ressentimento.”

Podemos resumir a dissonância entre o movimento revolucionário e a sociedade em geral, à aceitação, ou não, da validade desta proposição de Roger Scruton.
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Quinta-feira, 10 Maio 2012

A ciência que “salva as aparências” [6]

Um artigo do filósofo Roger Scruton

“There are many reasons for believing the brain is the seat of consciousness. Damage to the brain disrupts our mental processes; specific parts of the brain seem connected to specific mental capacities; and the nervous system, to which we owe movement, perception, sensation and bodily awareness, is a tangled mass of pathways, all of which end in the brain. This much was obvious to Hippocrates.

Even Descartes, who believed in a radical divide between soul and body, acknowledged the special role of the brain in tying them together.

The discovery of brain imaging techniques has given rise to the belief that we can look at people’s thoughts and feelings, and see how “information” is “processed” in the head. The brain is seen as a computer, “hardwired” by evolution to deal with the long vanished problems of our hunter-gatherer ancestors, and operating in ways that are more transparent to the person with the scanner than to the person being scanned.

Our own way of understanding ourselves must therefore be replaced by neuroscience, which rejects the whole enterprise of a specifically “humane” understanding of the human condition.

In 1986, Patricia Churchland published Neurophilosophy, arguing that the questions that had been discussed to no effect by philosophers over many centuries would be solved once they were rephrased as questions of neuroscience. This was the first major outbreak of a new academic disease, which one might call “neuroenvy.”
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Terça-feira, 27 Setembro 2011

A história do Euro e da dívida dos países do sul da Europa

Este artigo de Roger Scruton revela um surpreendente desconhecimento da realidade política que esteve subjacente à construção e implementação do Euro — ou seja, eu não coloco em causa as conclusões a que ele chegou, mas parece-me que ele ignora ostensivamente os pressupostos reais. (more…)

Terça-feira, 13 Janeiro 2009

Roger Scruton

Filed under: filosofia — O. Braga @ 3:30 pm
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O conservador britânico Roger Scruton abriu um blogue no WordPress.com. O endereço é:

http://rogerscruton.wordpress.com/

Um blogue a seguir.

Segunda-feira, 3 Novembro 2008

O “Problema” da Humanidade Contemporânea (2)

Filed under: cultura — O. Braga @ 12:16 pm
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Roger Scruton vai de encontro às minhas preocupações expressas aqui. Com tantos insultos que levo aqui diariamente (vai tudo para SPAM) é bom saber que, afinal, não sou assim tão estúpido como me querem fazer crer alguns leitores assíduos — a não ser que os insultos sejam extensíveis a Scruton.

«After all, the Enlightenment happened three centuries ago; the arguments of Hume, Kant and Voltaire have been absorbed by every educated person. What more is to be said? And if you must say it, why say it so stridently? Surely, those who oppose religion in the name of gentleness have a duty to be gentle, even with – especially with – their foes?»


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