perspectivas

Quinta-feira, 27 Janeiro 2011

A estratégia dos blogues portugueses de direita

Quando os blogues portugueses ditos de “direita” concentram praticamente toda a sua actividade em tópicos sobre a economia, estão a dar corpo e legitimidade à visão marxista da realidade, segundo a qual não só a História mas também a realidade, na sua totalidade, se resume à economia e à luta de classes. Em termos gerais, não existem hoje praticamente blogues portugueses de direita, na medida em que a maior parte deles faz o jogo político da esquerda marxista — ou seja, vive em função dessa esquerda marxista.

A verdadeira direita não vive fora da lógica dialéctica marxista, porque aquela não se pode dissociar desta e da realidade social e ideológica, mas tem que viver contra a dialéctica marxista. Este “viver contra” não significa necessariamente a assimilação dos mesmos processos dialécticos revolucionários (por exemplo, a defesa da violência como método de acção política) , mas antes se constitui como a estruturação de princípios, de um sistema de ideias, de uma linguagem, de um discurso, e de estratégias e de métodos de acção que desclassifiquem a concepção marxista acerca da realidade.

Perante o malogro estrondoso do marxismo como estrutura política, os marxistas reagiram como os vírus mortais que reagem aos antibióticos : mudaram de forma e adaptaram-se à nova realidade que fez prova do falhanço das suas ideias e praxis originais. Quem pensa que o marxismo morreu, desengane-se!
Para isso, os marxistas de depois da queda do muro de Berlim, reciclaram o seu sistema de ideias adoptando uma mescla de várias estirpes ideológicas marxistas do princípio do século XX — misturando a teoria gramsciana marxista (António Gramsci) do ataque às religiões como método de subversão cultural, com a teoria da escola de Frankfurt que juntou Karl Marx e Freud e a Utopia Negativa, e com outras estirpes ideológicas, que podemos sucintamente representar através de alguns protagonistas ideológicos, a ver:

Karl Marx/Freud — Nietzsche — Russell — Heidegger

O actual marxismo, a que podemos chamar de neomarxismo (ou marxismo cultural, ou politicamente correcto como sendo uma manifestação coeva e actual do mesmo) é um sistema híbrido de ideias resultante da mescla dessas distintas estirpes ideológicas. Porém, a base de todo o novo e actual sistema marxista continua a ser Karl Marx e o materialismo dialéctico. Ou seja, o acento tónico na economia como condição não só da existência humana mas também de toda a realidade, por um lado, e a terrestrialização coerciva e compulsória da realidade (ou seja, a eliminação, por via mais ou menos violenta, do Mundo III de Karl Popper), por outro lado, resultam na metafísica negativa que é o fundamento da nova religião política neomarxista.

A forma de contrariar essa estratégia neomarxista, é falar de economia colocando-a sempre como subsumida da cultura (e da política) — “cultura” não só entendida no sentido antropológico, mas também no sentido intelectual. “Viver contra” a lógica dialéctica neomarxista é atacá-la no seu âmago, baseando toda a análise económica na complexidade da realidade, e portanto, na cultura entendida em termos latos. A única forma de reduzir o marxismo cultural ao absurdo — que o é, na realidade, na medida em que a sua metafísica negativa é um absurdo porque se escora na metafísica que aquela nega e recusa — é atacá-lo culturalmente.

Na minha opinião, os blogues de direita, quando em análise da economia, devem fazer o seguinte percurso ideológico :

cultura —> política —> economia

Ou seja, esvaziando-se, assim, o conteúdo ideológico no neomarxismo — e não alimentando-o, como a blogosfera de “direita” faz.

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2 Comentários »

  1. Partilho inteiramente da sua opinião.

    Efectivamente, um dos erros de uma “soi-disant” direita em Portugal, também presente na blogosfera, consiste em restringir as suas análises à situação actual do mundo e das sociedades, fundamentando-se exclusivamente em argumentos de cariz económico, o que a meu ver é um erro crasso.

    Concordo com o método de acção que sugere para a maior eficácia dos blogues de direita.

    Comentário por José Filipe Sepúlveda da Fonseca — Quinta-feira, 27 Janeiro 2011 @ 7:29 pm | Responder

  2. “o acento tónico na economia como condição não só da existência humana mas também de toda a realidade, por um lado, e a terrestrialização coerciva e compulsória da realidade (ou seja, a eliminação, por via mais ou menos violenta, do Mundo III de Karl Popper), por outro lado, resultam na metafísica negativa que é o fundamento da nova religião política neomarxista.”

    Maneira mais simples e sintetizada de descrever o politicamente correcto é impossivel.

    Comentário por Luis Ribeiro — Quinta-feira, 27 Janeiro 2011 @ 7:53 pm | Responder


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