perspectivas

Segunda-feira, 18 Abril 2011

O determinismo protestante e a liberdade católica (2)

Filed under: cultura,filosofia — O. Braga @ 5:26 pm
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No postal anterior falei do determinismo protestante que ditou grande parte da clivagem cultural a que assistimos hoje entre a Europa do sul, por um lado, e a Europa no norte, por outro lado — e isto a propósito da teoria da “cultura feminina” dos povos católicos, segundo o Pedro Arroja. Uma análise ou teoria que se pretenda minimamente “científica”, tem que ter em consideração as causas e não só os efeitos; uma teoria que só se debruça sobre os efeitos de um determinado fenómeno, não é científica.

O luteranismo foi a primeira grande religião política da Europa, porque defendeu a submissão absoluta e inegociável da religião — e do povo religioso — em relação ao Estado; em contraponto, a Igreja Católica sempre defendeu a insubmissão da religião em relação aos Estados.
Podemos discutir a bondade (ou a não-bondade) da Igreja Católica nessa sua posição supra-estatal, mas a verdade é que através da sua independência em relação aos Estados, a Igreja Católica colocou-se fora das ideologias políticas que surgiram na Europa na sequência da Reforma protestante.

Neste particular, Erasmo de Roterdão (entre outros) opôs-se a Lutero. Quando Lutero convidou Erasmo a apoiar a Reforma, este recusou-se a tal — exactamente porque Erasmo não concordava nem com o determinismo luterano, nem com a submissão da religião ao Estado. Esta submissão total da religião e do povo religioso ao Estado teve como corolário a crítica de Lutero às obras sociais de beneficência provenientes da sociedade civil; para Lutero, apenas o “dever civil” (isto é, o trabalho de cada um, a profissão) é o único “serviço divino”, e a “única obra” em que se baseia o Cristianismo.

De certa forma, Lutero coarctou a liberdade do cidadão enquanto tal. Dizia ele que “não são as práticas piedosas” (a caridade, a dádiva voluntária, a ajuda aos pobres) que constituem as “obras boas”, mas antes é o “dever civil” (o trabalho) que é a “única obra boa” e a “justificação divina” da existência do Homem.

Ao mesmo tempo, Lutero defende que a fé cristã é “o abandono absoluto do Homem a Deus” — e é nisto que consiste o determinismo de Lutero, que Erasmo criticou, e foi este determinismo luterano que deu origem — muito mais tarde e através de um processo de diferenciação cultural — , ao existencialismo de Kierkegaard.

O “abandono absoluto do Homem a Deus”, segundo Lutero, compagina-se coerentemente com a “submissão absoluta e inegociável do cidadão ao Estado”. É nisto que consiste a noção da primeira grande religião política que surgiu na Europa: o luteranismo.

Segundo Lutero, não se pode admitir simultaneamente a liberdade humana, por um lado, e a liberdade divina, por outro lado.

Portanto, segundo Lutero, o cidadão não é livre, e deve-se submeter totalmente ao Estado e abandonar-se absolutamente a Deus. Nasceu aqui a primeira ideologia totalitária da Europa, que teve sequência no calvinismo — e nos puritanos ingleses que estiveram na base da guerra civil inglesa (1642 – 1651), no protectorado puritano de Oliver Cromwell (1653 – 1659) e da revolução sangrenta de 1688 em Inglaterra. O determinismo ideológico e o movimento revolucionário europeus tiveram o seu início com o luteranismo.

(segue)

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