perspectivas

Sexta-feira, 28 Outubro 2016

A demagogia protestante

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 10:05 pm
Tags: ,

 

“Por que gastar fortunas em templos suntuosos, que não duram para sempre? Por que não gastar essa fortuna em escolas cristãs, para formar almas eternas?”

demagogia-protestante

 


Em primeiro lugar, as igrejas (os templos) na Europa católica medieval foram as primeiras escolas públicas.

E mesmo na Europa protestante, as igrejas (os templos) desempenharam (séculos XVI e XVII) o papel de escolas públicas.

Portanto, não existe uma diferenciação necessária entre um templo e uma escola.


Em segundo lugar:

"E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês tu esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; mas esta regou-me os pés com lágrimas, e enxugou-mos com os seus cabelos." → Lucas 7:44

"Não me deste ósculo, mas esta, desde que entrou, não tem cessado de me beijar os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta ungiu-me os pés com unguento." → Lucas 7:45-46

As obras (por exemplo, a construção de uma catedral, ou a oferta de uma esmola) contam: são objectivas e concretas.

Anúncios

Sábado, 15 Outubro 2016

Os Evangélicos Pentecostais Carismáticos, e a Inquisição católica

 

“A Igreja Católica nasceu oferecendo mártires, a igreja protestante NASCEU MATANDO.”

Comentário feito hoje pelo filósofo esotérico Olavo de Carvalho, numa tentativa de posar de católico e criar intrigas entre católicos e evangélicos e minar o movimento pró-família.

Na época dos primeiros mártires, não existia uma Igreja Católica, que só foi iniciada oficialmente com esse nome depois do período dos mártires. O resto é fantasia forçada.

Na verdade, se Olavo conhecesse a Igreja Evangélica do jeito que ele conhece ocultismo e bruxaria islâmica, ele saberia que a Igreja Evangélica NASCEU SOB INCRÍVEIS AMEAÇAS DE MORTE. Quem não lê, não sabe.

A INQUISIÇÃO FOI APENAS UMA DESSAS AMEAÇAS, QUE TAMBÉM ATINGIA FORTEMENTE OS JUDEUS.

Se o Olavo está tão depressivo e descontente com a Igreja Evangélica, POR QUE ELE ESCOLHEU VIVER NOS ESTADOS UNIDOS, O MAIOR PAÍS EVANGÉLICO DO MUNDO, POSANDO DE CATÓLICO?”

Júlio Severo


1/ Confunde-se aqui o “evangelismo”, por um lado, e o “protestantismo”, por outro lado, como sendo a mesma coisa.

Os grupos evangélicos, Pentecostais e carismáticos (a que pertence o autor do comentário), são apenas seitas muito recentes derivadas do protestantismo. Nos Estados Unidos, a maioria é protestante de várias seitas (luteranos puros, anglicanos ou episcopais, metodistas, etc.), mas essa maioria não é a dos grupos Evangélicos Pentecostais e Carismáticos.

2/ Olavo de Carvalho referiu-se ao protestantismo do século XVI (luteranismo, e um pouco mais tarde, o Calvinismo).

Morreu mais gente inocente durante a guerra civil inglesa causada pelos calvinistas ingleses (Cromwell) no século XVII, do que todas as vítimas da Inquisição católica em toda a Europa e em toda a Idade Média.

Porém, o que os católicos franceses fizeram aos Huguenotes (e isto não teve nada a ver com a Inquisição, mas com a política do rei Luís XIV) também não foi bonito.

evangelicos

3/ a ideia segundo a qual “a igreja evangélica foi perseguida pela Inquisição” é um sofisma.

Os membros destes movimentos evangélicos Pentecostais e carismáticos (por exemplo, do Júlio Severo) nascidos nos Estados Unidos depois do século XIX, são milenaristas no sentido da escatologia do “dia do juízo final” — o que os diferencia dos luteranos primevos —; alguns destes grupos defendem a ideia de que o mundo irá experimentar um período de sete anos de miséria e tribulação, mas que os seus fiéis serão poupados. Isto nada tem a ver com o luteranismo puro, com o anglicanismo nas suas diversas manifestações tradicionais (episcopalismo, metodismo, por exemplo).

É falso que uma seita (evangélicos Pentecostais e carismáticos) que nasceu no século XIX nos Estados Unidos tenha sido perseguida pela Inquisição que já não existia no século XIX.

4/ a ideia segundo a qual “na época dos primeiros mártires, não existia uma Igreja Católica”, é análoga à ideia segundo a qual “o Brasil não existia antes dos primeiros exploradores europeus”.

É claro que o “Brasil”, enquanto território, já existia: só que não tinha esse nome (chamavam-lhe Terra de Vera Cruz): é uma questão de semântica. O Júlio Severo agarra-se à semântica para negar verdades de facto.

A primeira igreja universal cristã foi fundada em Roma, e teve em S. Pedro o primeiro papa (Bispo de Roma). Essa igreja fundada em Roma foi mais tarde chamada de “católica” (Igreja Católica Apostólica Romana). Esta é uma verdade de facto que ninguém inteligente deve negar.

Sábado, 25 Junho 2016

O protestantismo de Anselmo Borges

 

O Anselmo Borges escreve o seguinte:

Muitos terão ouvido sermões semelhantes a este, de São Leonardo de Porto Maurício. Jesus tinha de morrer para pagar uma dívida infinita contraída com Deus pela humanidade e assim reconciliá-lo. Foi esta concepção que levou muitos ao abandono da fé. Aí está um Deus bárbaro, inexorável, que se não deixa comover, e uma teologia da satisfação expiatória que santifica a justiça próxima da vingança. O contrário do Deus que Jesus revelou como Abbá e Misericórdia, na parábola do filho pródigo. "O dolorismo heterodoxo que a Cruz produziu no nosso catolicismo vem, em boa parte, daqui: estamos a um passo de uma redenção "sadomasoquista", com a perversão de uma grande verdade: "Tudo o que vale custa" transformou-se num falso princípio: "Tudo o que custa vale."

As dez heresias do catolicismo actual (1)


Em traços muito gerais e básicos, podemos distinguir os católicos, os luteranos e os calvinistas da seguinte forma:

1/ Os católicos seguiam a doutrina da salvação de S. Anselmo (baseada em Santo Agostinho), segundo a qual o pecado humano poderia ser resgatado por intermédio da expiação e da penitência, através das quais o ser humano se tornaria “amigo de Deus” através da Graça; ou seja, segundo a Igreja Católica tradicional, existe uma relação “social” cognoscível entre Deus e o ser humano (a ideia cristã de Deus como “Pai”).

2/ Lutero convenceu-se (seguindo a ideia de Erasmo de Roterdão) de que a ideia de expiação do/pelo pecado, estava contra o Evangelho; e que todas as formas de comportamento penitencial ou compensatório eram inúteis — através de uma interpretação enviesada de S. Paulo. Ao dizer que estamos desculpados só porque temos fé, ou apenas pela dádiva gratuita de uma Graça que é recebida em um estado de desconfiança quanto à bondade de Deus, Lutero estava a dizer ao seu povo que a expiação ou a reparação dos actos eram irrelevantes para a reconciliação com Deus; ou que, se pensavam que Deus ficaria satisfeito com os actos compensatórios realizados em relação ao outro, estavam enganados.

Ao contrário de S. Anselmo, o pensamento de Lutero não partiu da relação entre o Pai e o Filho.

O que em Anselmo era uma oferta adequada de compensação para afastar a justa vingança de Deus, e reatar as relações amigáveis entre Deus ofendido e o homem ofensor, foi adaptado por Lutero como uma submissão ao castigo exigido por uma ofensa criminal (introdução ao Direito Positivo, que culminou em Grócio) de carácter público. Na teoria criminal e penal de Lutero sobre a expiação, não havia “troca” entre Deus e o pecador: as partes não eram propriamente “reconciliadas” no sentido em que os dois se poderiam transformar em um só, uma vez que o acto de reconciliação era puramente unilateral e unívoco (de Deus para o homem).

Não havia, em Lutero (e ao contrário do que acontecia em Anselmo, que explicava a relação de Jesus Cristo e Deus através do parentesco entre o Pai e o Filho), nenhum axioma natural ou social para explicar a ideia segundo a qual Jesus era um substituto do ser humano em geral, na relação com Deus.

3/ Calvino, nas “Instituições” [II XVI – XVII], representou em Cristo “as penas propostas a ladrões e malfeitores”, evocando a agonia que Cristo sentiu na cruz ao ser finalmente julgado pelo Pai, e “sofreu na sua alma os terríveis tormentos de um condenado e escorraçado”. Calvino aplicou à justiça divina a moderna analogia da lei do Direito Positivo, que já estava, de certo modo, implícita (mas não explícita) em Lutero — e de tal modo que o mistério da reconciliação com Deus, de Lutero, se transformou, com Calvino, na doutrina da predestinação.

Eu penso que o raciocínio do Anselmo Borges se aproxima do Calvinismo, ou pelo menos do luteranismo.

Quinta-feira, 23 Junho 2016

O puritanos da Esquerda moderna, e os puritanos do século XVII (parte 1)

 

Os Ranters eram uma seita calvinista inglesa do século XVII. Juntamente com os Seekers e com os Quakers, formavam as principais seitas calvinistas em Inglaterra.

quakerOs Ranters, que interpretavam a sua própria vitória sobre o “corpo” e sobre a “carne” (sobre a “matéria”, em termos gerais) denominando-se a eles próprios como o “corpo de Deus” — defendiam o fim da hierarquia social e o fim da propriedade privada, para além de serem contra o casamento monogâmico e contra a privacidade da família nuclear tradicional, porque diziam eles que a propriedade privada e o casamento monogâmico eram obstáculos à formação de uma verdadeira comunidade (tal como Engels defenderia dois séculos mais tarde).

Mas, ao mesmo tempo que queriam abolir a hierarquia social e a propriedade privada, os Ranters acreditavam na predestinação da “salvação dos eleitos”; e eles consideravam-se a si próprios como os “eleitos”. Ou seja, só os eleitos — eles próprios — seriam salvos, e por isso toda a gente deveria pensar como eles para serem salvos.

Temos aqui a génese do pensamento totalitário da Esquerda moderna.

Os Quakers e os Seekers não diferiam muito dos Ranters. Os Seekers, para além de concordarem com a doutrina dos Ranters, eram uma seita terrorista: para eles, não era suficiente que os “eleitos” se mantivessem fora do mundo (vivendo em uma espécie de apartheid): deviam pegar em armas, destruir todos os governos existentes, e erigir um regime teocrático (totalitário), com uma disciplina divina.

Se retirarmos dessas crenças calvinistas os conceitos de “Cristo” e de “Espírito”, vemos semelhanças com a Esquerda. É neste sentido que Eric Voegelin tem razão quando relaciona espistemologicamente os gnósticos da Antiguidade Tardia, os movimentos puritanos do século XVI, e o movimento revolucionário do século XIX e seguintes.

Domingo, 6 Março 2016

Descartes copiou Santo Agostinho, e a cultura dividiu a Europa

“Lutero só se deixa convencer pelas Escrituras e pela razão (plain reason). A experiência está omissa. Descartes vai pegar no argumento da razão para fazer o seu célebre exercício intelectual "Cogito ergo sum", penso, logo existo.”

Pedro Arroja

1/ Na “Cidade de Deus”, Santo Agostinho escreveu o seguinte:

“¿Quem quereria duvidar de que vive, se lembra, compreende, pensa, sabe ou julga? É que, mesmo quando se duvida, compreende-se que se duvida… portanto, se alguém duvida de tudo o resto, não deve ser dúvidas acerca disto. Se não existisse o Eu, não poderia duvidar absolutamente de nada. Por conseguinte, a dúvida prova por si própria a verdade: eu existo se duvido. Porque a dúvida só é possível se eu existo”.

Santo Agostinho antecipou, no século IV, a famosa ideia de Descartes do século XVII: “cogito, ergo sum”. Ou seja, basicamente Descartes copiou Santo Agostinho.

Descartes — assim como Kant — tem sido vítima de algumas acusações infundadas por parte de católicos; porque se queremos acusar Descartes do “cogito”, teremos que acusar, em primeiro lugar, Santo Agostinho.


2/ O protestantismo (Lutero) surgiu por questões políticas (inerentes à organização social e política dentro do Sacro Império Romano-Germânico), e por questões culturais. Das primeiras não vou falar aqui e agora. Sobre as questões culturais, invoco aqui o fenómeno cultural do carnaval.

O termo italiano carnevale deriva do latim dominica carnelevalis ou Domingo da quadragésima, que era uma festa que marcava, para o clero católico, a passagem do regime normal para o regime de penitência, e que significava a abolição da carne ou do peixe. Ou seja, carnevale significava a entrada no período temporal e sagrado da Quaresma, dando origem a outros termos vernaculares como antruejo, introitus, carême-entrant, etc. Não há nada que indique a existência do carnaval antes de 1200 d.C. .

Segundo o pregador alemão Johann Geiler von Kaysersberg, era mais difícil convencer o povo a fazer a abstinência e penitência durante o período de tempo que vai do dominica carnelevalis até à Quaresma, do que meter um cavalo num barco pequeno. Então, a partir de 1500, os ritos de dissolução, conhecidos entre o povo coevo como “carnaval”, passaram a ser particularmente cultivados — embora, já antes do século XVI existissem regiões da Europa onde o clero já teria conseguido, com maior ou menor sucesso, introduzir entre o povo a abstinência e penitência da Quaresma.

Porém, o carnaval não se propagou por toda a Europa católica: por exemplo, no noroeste de França e na província francesa da Bretanha, em Inglaterra, na Holanda (excepto na fronteira com a Bélgica), na Alemanha do norte e na Escandinávia, não existe alguma tradição do carnaval. De modo diferente, o carnaval disseminou-se em regiões como Itália, Espanha, Portugal, a maior parte da França, uma grande parte da Alemanha com fulcro na Baviera, e na Grécia.

A razão desta diferenciação cultural (e aqui chamo à atenção para aquilo que é, erroneamente, considerado como sendo uma diferença entre protestantes e católicos) tem a ver com a história da tradição da penitência nas diversas regiões da Europa, e com a forma como a cultura romana influenciou ou não essa tradição da penitência.

Nas regiões do norte e noroeste da Europa comia-se, na Idade Média, panquecas na Terça-feira Gorda, e não se celebrava o carnaval porque eram regiões onde as taxas (impostos) de penitência eram pacificamente aceites, e onde a confissão e a penitência eram vistos como assuntos privados e pessoais — ao contrário do que acontecia nas regiões da Europa mais influenciadas pela cultura romana, em que o processo litúrgico da penitência pública (e não privada) era uma tradição cultural especifica.

A partir do início do século XIII, o carnaval apareceu nas regiões de maior influência cultural romana, onde a tradição da confissão pública e da penitência foi sendo progressivamente abandonada em favor do avanço de uma maior privacidade e privatização.

Em suma: para além das questões políticas relacionadas com a unificação da Alemanha, por um lado, e com a guerra alemã contra o centralismo de Roma que absorvia recursos financeiros, por outro lado — temos as questões culturais. As tradições dos povos da Europa não eram todas iguais, e por isso o catolicismo não podia ser seguido da mesma forma por todos.

 

Segunda-feira, 8 Setembro 2014

A entropia do protestantismo conduz à incompreensão da Bíblia

Filed under: Igreja Católica — O. Braga @ 8:04 am
Tags: ,

 

“In the Roman Catholic Church, Vatican official have denounced what they refer to as radical feminism. But two official church dogmas proclaimed respectively in 1854 and 1950 involving Mary, the mother of the historical Jesus, strike me as expressing the spirit of radical feminism, albeit on a symbolic level: The Immaculate Conception (1854) and the Assumption of the Blessed Virgin Mary into Heaven (1950). So why aren’t Vatican officials today keeping up with the spirit of radical feminism of these two official church dogmas about Mary?”

Cardinal Mueller and Pope Francis Are Hopeless Misogynists


Este texto longo, escrito por um americano protestante, revela que as culturas protestante e a católica estão de tal forma afastadas entre si que dificilmente se entendem. O texto é longo, e por isso é impossível comentá-lo todo aqui; fico-me apenas pela introdução supracitada.

O dito protestante, que dá pelo nome de Thomas James Farrell, diz que os dogmas católicos da Imaculada Concepção (ou Conceição) e da Assunção de Nossa Senhora, são formas de “feminismo radical”; e, por isso, o dito protestante não entende por que razão a Igreja Católica critica o “feminismo radical” — na medida em que se parte do princípio que ambos os dogmas são, alegadamente, expressão de um “feminismo radical”.

O dogma da Imaculada Concepção de Maria é referido no Novo Testamento: parece que os protestantes necessitam de ler a Bíblia. Portanto, o dogma não é apenas católico: é inerente ao próprio Cristianismo desde a sua origem.

O dogma da Assunção de Nossa Senhora, introduzido pelo Papa Pio XII em 1950, surge no seguimento do reconhecimento oficial, pela Igreja Católica, das aparições de  Nossa Senhora em Fátima em 1917.

É claro que um protestante comum não acredita que a Santa Maria, Mãe de Jesus, tenha aparecido em Fátima aos três pastorinhos. Aliás, os protestantes não aceitam que a Mãe de Jesus seja santa, porque não aceitam o conceito católico de “santidade”.

A partir do momento em que os protestantes não aceitam que a Mãe de Jesus seja santa, Maria passa a ser considerada uma mulher qualquer — o que está em contradição com o estatuto de Maria no Novo Testamento, por um lado, e por outro lado está de acordo com a imagem de Maria que o Alcorão nos dá (“les bons esprits se rencontrent…”).

A entropia ideológica do protestantismo conduz a uma reinterpretação da Bíblia à luz de conceitos estritamente modernos, o que significa que se afasta progressivamente não só das origens do Cristianismo, como se torna cada vez mais difícil um diálogo com o catolicismo autêntico.

Domingo, 22 Junho 2014

Cada protestante é um profeta que pode fundar a sua própria igreja

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 9:55 am
Tags:

 

O protestantismo começou com Lutero mas foi imediatamente seguido por Calvino. O protestantismo ficou, então, dividido em duas alas: a Luterana (que seguia Lutero) e a Reformada (que seguia Calvino). Mas em breve surgia uma terceira ala protestante: os Anabaptistas.

Os Anabaptistas foram perseguidos pelos luteranos e pelos calvinistas — “bem prega Frei Tomás! Faz o que ele diz e não o que ele faz!” — essencialmente porque os primeiros defendiam a liberdade da religião em relação ao Estado, ao passo que os luteranos defendiam a submissão da religião ao Estado (ao príncipe), e os calvinistas defendiam uma certa forma de teocracia em que o Estado e a religião coincidiam.

Depois da formação destas três alas do protestantismo, foi um “ver se te avias”: formaram-se numerosas seitas protestantes, cada uma com as suas próprias características. Cada protestante queria ser dono e profeta da sua própria igreja. E quando estas seitas ganhavam alguma dimensão, fragmentavam-se a seguir para formar novas igrejas com novos profetas protestantes — por exemplo, a igreja Metodista e a igreja Baptista cresceram, consolidaram-se, e depois fragmentaram-se em novas igrejas com novos profetas. O protestantismo transformou-se na religião dos profetas.

Muitas igrejas protestantes, entretanto criadas, desapareceram entretanto — como é o caso das seitas dos Cowherdianos e dos Muggletonianos, seitas protestantes que surgiram na Inglaterra do século XVI e que tiveram pouca duração. Um protestante que se prezasse tinha que ser profeta e fundar a sua própria igreja.

As principais confissões protestantes modernas são os Luteranos, os Presbiterianos, os Anglicanos, os Metodistas, os Baptistas, as Igrejas Livres e os Pentecostais. Mas não podemos esquecer outras confissões protestantes (que surgiram em um contexto cultural protestante), como por exemplo a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (mórmones) ou as Testemunhas de Jeová.

Depois, a pulverização protestante criou mini-igrejas em uma quantidade incrível: só para falar nas mais importantes novas mini-igrejas protestantes:

  • A Nova Igreja (The New Church), por vezes chamada de Igreja da Nova Jerusalém, fundada em Londres em 1757;
  • a Igreja dos Irmãos, fundada a partir do anglicanismo por John Nelson Darby (neto de Lord Nelson) no século XIX;
  • a Igreja dos Cristadelfianos, fundada no século XIX pelo médico John Thomas;
  • a Igreja da Ciência Cristã, fundada no século XIX pela americana Mary Baker Eddy;
  • a Igreja Unidade, fundada no início do século XX pelo americano Charles Fillmore;
  • a Nova Igreja Apostólica, com sede em Zurique (Suíça), que foi fundada a partir da fragmentação de uma outra igreja protestante do século XIX, a Igreja Católica Apostólica;
  • o Pentecostalismo Único, que agrega cerca de 90 (noventa!) denominações religiosas diferenciadas;
  • a Igreja de Deus Universal (Worldwide Church of God), fundada em 1933 por Herbert W. Armstrong.

Ficaram de fora desta lista as igrejas comunitárias que se desenvolveram a partir dos Anabaptistas (por exemplo, os Hutteritas e os Menonitas), as novas igrejas protestantes de África, uma série de igrejas New Age dos Estados Unidos que se desenvolveram a partir do protestantismo, as novas igrejas Adventistas (como por exemplo a Igreja do Ramo Davidiano, que se separou da Igreja Adventista do Sétimo Dia, e que causou a tragédia de Waco em 1993), e outras igrejas asiáticas que se desenvolveram também a partir do protestantismo, como por exemplo os “Moonies” da Coreia do Sul.

O protestantismo pulverizou o Cristianismo. Cada protestante considera-se, consciente- ou inconscientemente, um profeta. Aliás, o protestantismo assenta em grande parte na profecia e no Livro do Apocalipse.

Sexta-feira, 9 Maio 2014

Antes ser ortodoxo do que protestante

Filed under: Igreja Católica — O. Braga @ 7:44 am
Tags: ,

 

“¿De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? ¿Acaso essa fé poderá salvá-lo?

Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhe disser: “Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome”, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, ¿de que lhe aproveitará? Assim também é a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta.”

Carta de Tiago, 3, 14

Ontem dei comigo a ver este vídeo sobre as profecias de Newton (o físico inglês) acerca do fim do mundo que, segundo os cálculos matemáticos dele, acabará no ano de 2060. Newton era protestante anglicano envolvido com a Cabala.

As profecias do fim do mundo são tipicamente uma “vocação” protestante.

Os dois livros da Bíblia mais importantes para os protestantes são os de Daniel e o Apocalipse. Os protestantes, tal qual os revolucionários, gostam de ter a certeza do futuro; e a tal ponto que os calvinistas negam (pelo menos parcialmente) o livre-arbítrio humano, na medida em que, segundo eles, há uma elite de predestinados (gnósticos) que será salva por Deus (os “Pneumáticos” modernos) e uma maioria de condenados à morte espiritual (os “Hílicos” modernos).

Mas há dois livros da Bíblia que os protestantes censuraram : a Carta de Tiago (de que lemos em epígrafe uma passagem), e os dois Livros de Macabeus. A Carta de Tiago foi censurada pelos protestantes porque afirma que a fé, sem as obras, não serve para nada; ou seja, “de boas intenções está o inferno cheio” — como diz o povo católico. Ora, Lutero retirou a Carta de Tiago da Bíblia luterana, porque para ele, as obras de caridade não contavam: o que contava era a fé e só a fé, e as obras de caridade eram deixadas por Lutero a cargo do príncipe e do Estado. Lutero esteve na génese do Camaralismo alemão (o Estado providência).

O livro de Macabeus fala da realidade do purgatório — e os protestantes não aceitam o purgatório. Consta que em Inglaterra, imediatamente depois do fim da II Guerra Mundial, não se realizaram cerimónias religiosas (leia-se, “missas”) pelas almas dos soldados ingleses mortos na guerra, porque o anglicanismo não aceita o purgatório. Ora, isto seria impensável em qualquer país católico.

A razão por que os protestantes não aceitam a realidade do purgatório é a de que eles acreditam que eles (protestantes) vão directamente para o Céu depois da morte, e que, por isso, o purgatório não faz sentido algum — nem sequer faz sentido que o purgatório seja o destino dos católicos, porque, segundo os protestantes, os católicos vão directamente para o inferno (porque não são protestantes e não fazem parte dos “eleitos”).

Quando vemos, por exemplo, o Júlio Severo criticar o “casamento” gay (e também criticar o catolicismo), devemos ficar surpreendidos: foi Lutero que retirou o casamento do rol dos Sete Sacramentos, transformando-o em um mero contrato celebrado pelas autoridades civis. E perguntamos: ¿que autoridade moral tem o protestante Júlio Severo para criticar o “casamento” gay? — quando foi o “chefe” dele que transformou o casamento em um simples contrato?!

Para os católicos, o casamento continua (ainda hoje) a ser um sacramento (segundo o simbolismo do casamento de Cristo com a sua Igreja), e por isso os católicos não perderam a autoridade moral para criticar o “casamento” gay.

O catolicismo está muito mais perto da Igreja Ortodoxa Grega ou da Igreja Ortodoxa Russa do que do protestantismo (qualquer que seja a seita). Por exemplo, os protestantes não acreditam na presença real de Jesus Cristo na celebração da Eucaristia, ao passo que, para os católicos e para os ortodoxos, essa presença de Jesus Cristo na Eucaristia faz parte da doutrina da fé.

Domingo, 17 Novembro 2013

Um recado para o Pedro Arroja

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 6:38 pm
Tags: , , , , ,

 

«O Estado é a ideia divina como existe na Terra. (…) O Estado encarna a liberdade racional, que se realiza e reconhece a si mesma em forma objectiva… O Estado é a ideia de Espírito na manifestação externa da Vontade humana e sua liberdade.»

— Hegel (Filosofia da História), alemão e protestante da secção luterana

«O Estado é a realidade da ideia moral — o espírito moral como visível substancial vontade, evidente em si mesma, pensando-se e conhecendo-se e realizando o que conhece tal qual se conhece.»

— Ibidem, Filosofia do Direito


Portanto, a estória do Pedro Arroja, segundo a qual “o Estado forte é coisa de católicos”, e que “os protestantes são mais livres em relação ao Estado”, está mal contada.

A história teria que ser contada de uma outra maneira: teria que se falar de “coisas pensantes”, como por exemplo Locke (que era protestante anglicano), por um lado, e Rousseau (calvinista), Fichte (luterano) e Nietzsche (ateu, filho de um pastor protestante piedoso), por outro lado. E depois, haveria que falar no legado de Hegel em Marx (que era alemão, filho pais de judeus que se converteram ao catolicismo e que acabou numa espécie de ateu mal fundamentado). E há que falar na maçonaria, que injectou o veneno da cultura francesa marcada pelo conceito de “vontade geral” de Rousseau — e do deísta Hegel — na cultura política portuguesa e nas dos países do sul católico em geral.

Talvez faça falta a Pedro Arroja, na sua qualidade de economista, ler a Filosofia do Direito de Hegel; mas também não lhe ficaria mal ler a Filosofia da História do mesmo figurão, que é, aliás, de muito mais fácil leitura.

Quarta-feira, 20 Abril 2011

O determinismo protestante e a liberdade católica (3)

Antero de Quental atacou a Igreja Católica com violência e brutalidade inauditas, responsabilizando o catolicismo por aquilo a que ele chamou de “atraso” por parte da Europa do sul em relação à Europa do norte. Deveria ser permitido a Quental ver a Europa actual, e verificar que os eventuais avanços em algumas áreas da sociedade implicaram necessariamente o retrocesso em outras áreas. Sob ponto de vista humano, a Europa retrocedeu e muito; a Europa sacrificou o valor das relações humanas em favor do chamado “progresso protestante do dever social” que evoluiu paulatinamente, e desde a Reforma, para uma espécie de “Estado do Sol” de Campanella.
(more…)

Segunda-feira, 18 Abril 2011

O determinismo protestante e a liberdade católica (2)

Filed under: cultura,filosofia — O. Braga @ 5:26 pm
Tags: , , ,

No postal anterior falei do determinismo protestante que ditou grande parte da clivagem cultural a que assistimos hoje entre a Europa do sul, por um lado, e a Europa no norte, por outro lado — e isto a propósito da teoria da “cultura feminina” dos povos católicos, segundo o Pedro Arroja. Uma análise ou teoria que se pretenda minimamente “científica”, tem que ter em consideração as causas e não só os efeitos; uma teoria que só se debruça sobre os efeitos de um determinado fenómeno, não é científica.

O luteranismo foi a primeira grande religião política da Europa, porque defendeu a submissão absoluta e inegociável da religião — e do povo religioso — em relação ao Estado; em contraponto, a Igreja Católica sempre defendeu a insubmissão da religião em relação aos Estados.
(more…)

Domingo, 17 Abril 2011

O determinismo protestante e a liberdade católica (1)

Filed under: cultura,filosofia — O. Braga @ 7:14 pm
Tags: , , ,

O Pedro Arroja tem vindo a insistir na teoria da “cultura feminina” que alegadamente “infecta” os povos católicos da Europa. No fundo, o que ele tenta fazer é explicar os fenómenos do presente de uma forma tal que a explicação se apresente desligada do passado histórico. Trata-se de uma tentativa de explicação presentista.

A tradição da Igreja Católica, mesmo depois do concílio de Trento (1545 – 1563) que instituiu a denominada Contra-Reforma, seguiu principalmente a filosofia metafísica de S. Tomás de Aquino. E a principal característica da metafísica de Aquino é o conceito de “futuros contingentes”, que concedia ao ser humano o livre-arbítrio (a liberdade de proceder de uma forma, e não de outra).

Este conceito de Aquino, e a sua negação por parte do protestantismo, é essencial para se perceber aquilo a que o Pedro Arroja chama de “cultura feminina” dos povos católicos.

A principal característica dos movimentos protestantes foi a negação da liberdade do Homem (o determinismo). Essa visão do ser humano como sendo destituído de liberdade, evoluiu até hoje através de uma diferenciação cultural que levou à actual corrosão da religião (e mesmo da religiosidade!) nas sociedades ditas “protestantes”, por um lado, e à manutenção de uma cultura do “dever social” que resultou dessa visão protestante e determinística da realidade, por outro lado.

Ou seja, nos países do norte da Europa, o protestantismo e a sua religiosidade já não existem, em termos gerais, na sua essência, mas ainda existem por lá os resquícios da cultura determinística protestante e luterana do “dever social” — estes últimos traduzidos na herança cultural do determinismo do Homem.

É nesta dicotomia cultural e na sua diferenciação ao longo de séculos, entre a visão determinística da condição humana, por um lado, e a visão que concede a liberdade ao ser humano, por outro lado, que devemos situar as diferenças culturais que caracterizam os povos do norte e do sul da Europa. Naturalmente que existem outras variáveis — por exemplo, as diferenças climáticas, ou genéticas; mas estas variáveis não explicam o fenómeno cultural per se.

(segue)

Página seguinte »

Create a free website or blog at WordPress.com.