perspectivas

Quarta-feira, 8 Julho 2009

O gato de Schrödinger

Uma árvore, que cai na floresta, faz barulho se não estiver lá perto dela alguém que possa ouvir o ruído?

O senso-comum diz que sim. O facto de não existir uma pessoa perto da árvore que cai, e que possa por isso ouvir o barulho, não significa que o ruído da árvore a cair não exista. Assim, de repente, não me passa outra coisa pela cabeça.
O problema que se coloca aqui é que para que o “objecto” ― que é a árvore que cai ― possa ser verificável, terá que existir um “sujeito” ― uma consciência ― que o verifica. Poderemos dizer que provavelmente a árvore que cai, faz barulho, mas não podemos ter a certeza de que faz ruído porque não existe uma relação de sujeito-objecto que permita o conhecimento, e neste caso, a certeza de que a árvore caiu com ruído. A partir do momento em que o objecto (a árvore) não se encontra em relação com um sujeito (consciência), o comportamento que ela tenha passa a constar de uma lista de probabilidades, mas nunca pode ser considerado como uma certeza. A ciência pode dizer: “É provável que a árvore faça barulho quando cai, embora não exista ninguém no local para que possamos ter a certeza”. Em rigor, nem sequer podemos saber se a árvore existe.

Karl Jaspers coloca a questão assim (in “Sobre a Verdade”):

“O fenómeno primordial da nossa consciência é que eu (o sujeito) me dirijo a uma coisa (o objecto) pensando nela…Embora este fenómeno primordial irredutível seja o mais quotidiano, nem por isso deixa de ser misterioso.”

Karl Jaspers tem absoluta razão porque um objecto só o pode ser se for observado (por uma consciência), isto é, quando está sujeito a uma observação por parte de um ser dotado de consciência. Eugene Wigner, laureado com o prémio Nobel da Física, escreveu:

«Na mecânica quântica, o papel dos seres dotados de consciência deverá ser diferente daquele que é desempenhado pelos aparelhos de medição inanimados (…) Por outras palavras, a impressão obtida numa interacção, também chamada de resultado de uma observação, modifica a função ondulatória do sistema. Mais ainda, a função ondulatória modificada é geralmente imprevisível antes da impressão obtida haver penetrado na nossa consciência; é a entrada de uma impressão na nossa consciência que vai alterar a função ondulatória, pois ela vai modificar a nossa avaliação probabilística relativa a impressões diferentes que esperamos receber no futuro. É neste ponto que, inevitável e inalteravelmente, a consciência entra na teoria.»

Symmetries and Reflections (Indiana University Press, Bloomington, 1967), pp. 183,192

O que Wigner quis dizer ― embora de uma maneira a não chocar o neopositivismo newtoniano ― é que o pensamento consegue alterar a intensidade das funções ondulatórias quânticas. Se a intensidade de uma onda quântica é uma medida da probabilidade da ocorrência de um acontecimento, quanto maior for o grau de consciência do observador tanto mais aumentará a probabilidade de ocorrência do acontecimento. Naturalmente que quando dizemos “consciência”, queremos dizer “autoconsciência” (para não se confundir “sociologia” com “sociobiologia”). Naturalmente que a consciência limitada da esmagadora maioria dos animais ditos “irracionais” influi pouco ou nada na função ondulatória quântica.

Quando descemos ao nível das partículas elementares longevas ou PEL (electrões, neutrões, protões), verificamos que as leis físicas de conservação de energia deixam de existir: as PEL desaparecem e reaparecem em locais inesperados, violando as leis de conservação de energia. O físico David Bohm demonstrou que a onda quântica ― que se desloca mais rápido do que a luz ― pode entrar em conexão quântica (inglês: entanglement), ligando dois PEL em dois pontos do espaço-tempo distanciados em milhões de anos-luz.
O estado de conexão quântica manda às malvas o princípio de separabilidade de John Bell (também denominada de desigualdade de Bell). Isto significa que as observações feitas sobre um objecto afectam os resultados observados (por um sujeito) para um outro objecto mesmo quando esses dois objectos já não se encontram em qualquer contacto físico conhecido.

Em Novembro de 1979, o físico Bernard D’Espagnat escreveu na revista Scientific American :

«A doutrina segundo a qual o mundo é formado por objectos cuja existência é independente da consciência revela estar em desacordo com a mecânica quântica e com os factos estabelecidos através da experiência.»


  • A consciência pode não ser propriamente a função ondulatória quântica vulgar, ou melhor dizendo, existem vários graus de consciência;
  • A consciência é o sujeito que observa o objecto, sendo que este último pode ou não ter autoconsciência;
  • A consciência influi no comportamento da função ondulatória quântica;
  • O que determina os diferentes graus de consciência é a complexidade; a consciência humana consegue criar um número maior de conexões quânticas entre acontecimentos;
  • O pressuposto de que existem graus de complexidade inferiores à consciência humana, também serve para supor graus de consciência superiores à humana;
  • A probabilidade da existência de consciência superior à humana revela a probabilidade de a consciência existir no puro mundo quântico, aquém espaço-tempo e além do espaço-tempo.

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13 comentários »

  1. Pergunta o meu amigo:

    “Uma árvore, que cai na floresta, faz barulho se não estiver lá perto dela alguém que possa ouvir o ruído?”

    Com a actual tecnologia, designadamente um gravador de som e imagem, a sua pergunta pode ser respondida deixando um tal aparelho abandonado (mas ligado) numa floresta e ver se esta capta o som de uma árvore a cair. Se captar (como eu penso que acontecerá), não há necessidade de nenhuma “consciência” para que tal som se manifeste. Se não captar, levantar-se-á a questão (caindo a árvore) de saber se houve ou não ruido.

    Parece-me, caro amigo, que o Universo funciona desde mesmo antes de haver consciência humana, desde antes do aparecimento do Homem.

    Outra questão é qual a interferência da consciência humana na função ondulatória quântica…a nível microscópico…é que a nível MACROScópico funcionam as leis de causa e efeito, as causalidades materiais, conduzidas, no que ao ser humano concerne, pela sua consciência ou vontade, ou pensamento.

    Há, sem dúvida (para mim) uma realidade objectiva, “dentro da qual” está o ser humano. Essa objectividade “funciona” segundo certas Leis. O Homem, estando dentro dessa objectividade também a influencia e condiciona.

    O conhecimento humano (referência para qualquer conhecimento) existe apenas em função da consciência humana (não pode ser de outra maneira, sob pena de absurdo) pelo que quando anulamos tal conhecimento “tudo” parece desaparecer para os mesmos humanos.

    Comentar por vickbest123 — Quarta-feira, 8 Julho 2009 @ 9:49 pm | Responder

  2. Vamos lá a ver (porque estou sempre a aprender).

    Ora então, eu escrevi:

    «A partir do momento em que o objecto (a árvore) não se encontra em relação com um sujeito (consciência), o comportamento que ela tenha passa a constar de uma lista de probabilidades, mas nunca pode ser considerado como uma certeza.»

    Ora o meu caro amigo pensa que pelo facto de existir uma câmara no local, a relação sujeito-objecto deixa de existir. Digamos que, na sua opinião, a câmara faz “desaparecer” o sujeito (a consciência) da equação, ou seja, substitui o sujeito. A câmara transforma-se no próprio sujeito, prescindindo da consciência. É uma perspectiva original, e como lhe disse, estamos sempre a aprender.

    Eu não falei em “consciência humana” senão para falar em “graus de consciência”. Se reparar, falei só em “consciência” em termos gerais.

    Isto que escrevo não de fácil entendimento, e não quero dizer com isto que eu seja mais inteligente que outrem. A nível macroscópico a matéria segue o “caminho da acção mínima”. Quando a função ondulatória quântica só tem caminhos de acção mínima disponíveis, transforma-se em onda e desloca-se no espaço. A partir do momento em que a onda é observada por uma consciência (seja esta qual for, mesmo e SOBRETUDO a de Deus!), transforma-se imediatamente em partícula, ou seja, em matéria, aliás, objecto (deixa de ser onda).

    O meu amigo tem medo que a realidade quântica abale as suas convicções. Olhe que não… pelo contrário!

    «O conhecimento humano (referência para qualquer conhecimento) existe apenas em função da consciência humana (não pode ser de outra maneira, sob pena de absurdo) pelo que quando anulamos tal conhecimento “tudo” parece desaparecer para os mesmos humanos.»

    Não entendi este parágrafo.

    Comentar por O. Braga — Quarta-feira, 8 Julho 2009 @ 11:56 pm | Responder

  3. O meu amigo escreveu, referindo-se à minha pessoa:

    “O meu amigo tem medo que a realidade quântica abale as suas convicções.”

    Ora, ora, meu amigo: EU NÃO TENHO MEDO DE NADA!

    Mais escreveu o meu amigo:

    «O conhecimento humano (referência para qualquer conhecimento) existe apenas em função da consciência humana (não pode ser de outra maneira, sob pena de absurdo) pelo que quando anulamos tal conhecimento “tudo” parece desaparecer para os mesmos humanos.»

    Não entendi este parágrafo.”

    Pense sobre “isso” que vai ver que faz todo o sentido. (O meu amigo é, aliás como bem sei, inteligente e, como tal, pode bem desvendar, por si só,o sentido do parágrafo que questiona…).

    Só lhe deixo esta dica: “se” retirarmos o Homem do Mundo, o Mundo continua a existir? Se sim, para quem? Quem o vai questionar e interpretar? Quem tem consciência e inteligência para isso? “Se” retirarmos o Homem do Mundo voltaremos a ter Deus “solitário” e “só”! E se tivermos Deus “solitário” e “só” o Mundo “não existe” para nenhuma outra consciência.

    Pense nisso!

    Comentar por vickbest123 — Quinta-feira, 9 Julho 2009 @ 1:13 am | Responder

  4. Adenda:

    Disse ainda o meu amigo:

    “A partir do momento em que a onda é observada por uma consciência (seja esta qual for, mesmo e SOBRETUDO a de Deus!), transforma-se imediatamente em partícula, ou seja, em matéria, aliás, objecto (deixa de ser onda).”

    Se assim é e se Deus é omnisciente e omnipresente, a conlusão lógica a retirar da sua afirmação é que a “onda” é, afinal, sempre e só “partícula”. Um absurdo!

    Não pretendo ser acintoso consigo, mas apenas “conversar” abertamente.

    Espero que me interprete como tal, isto é, que só me move a boa-fé para chegar à Verdade.

    Comentar por vickbest123 — Quinta-feira, 9 Julho 2009 @ 1:25 am | Responder

  5. @ VickBest

    Respondendo aos seus dois últimos comentários:

    É óbvio que exagerei quando falei em “medo”. Diria antes que o VickBest não concorda com a ideia de que a ciência possa dar uma ajuda nestas questões, porque normalmente a ciência serve-se da razão para assumir posições irracionais.

    Se o homem desaparecer do mundo, não desaparece a consciência. Por isso é que eu falei da “consciência” em termos gerais. A consciência nem é só humana, nem é produto do cérebro (Epifenomenalismo), como diz a ciência neopositivista, porque o próprio cérebro ― como todo o corpo que é “objecto” ― existe como “função ondulatória quântica” no espaço-tempo.

    Por vezes parece extraordinário como pessoas que viveram há dois mil anos podem resumir simbolicamente o que se passa na realidade. Por exemplo, Orígenes (185-254) diz que o Logos (Cristo) é diferente do Pai pela “essência e pelo substrato”, e o Logos deixaria de ser quem é se não “contemplasse continuamente o Pai”. Esta “contemplação” a que se refere Orígenes é a manifestação da consciência do Logos em relação a Deus, e de Deus em relação ao Logos.

    Tudo o que existe só existe porque é contemplado pela Consciência ― vou distinguir “Consciência”, com maiúscula, da “consciência humana”, com minúscula. Naturalmente que a consciência humana também participa na equação, mas apenas em pequeníssima escala, até porque existe consciência humana fora do espaço-tempo (o que não significa que exista a consciência humana na dimensão da deidade).

    Não está provado que o ser humano seja o único animal autoconsciente em todo o universo. Nem sequer está provado que exista um só universo.

    A Consciência existe em cada consciência humana (panenteísmo) e para além do espaço-tempo. A Consciência existe no espaço-tempo e para além do espaço-tempo. A Consciência não é um objecto porque está fora da divisão sujeito-objecto, mas exactamente por isso é o SUJEITO PURO, que não é só o englobante mas está para além do englobante.

    O problema dos ateus é que consideram Deus um objecto, quando na realidade Deus está fora da multiplicidade da divisão universal sujeito-objecto própria do espaço-tempo; Ele é o sujeito puro e objecto de si mesmo.

    Sendo sujeito puro, a Consciência contempla o universo e este aparece “materializado” quando a função ondulatória quântica se transforma de onda em partículas ditas “materiais”quando a onda quântica é objecto de observação (contemplação).

    Se um átomo não for contemplado (observado) pela Consciência ou por uma consciência, desaparece no olvido, num tempo que pode ser de milhões de anos para nós, ou um só instante do imediatismo intemporal para Deus (a Consciência através do Logos).

    No fundo, o que é realmente criado é a “energia” que dá origem aos PEL (“Partículas Elementares Longevas”: electrões, neutrões, protões). O átomo já não é uma PEL, mas “matéria” susceptível de ser “objecto”. O átomo nunca assume a forma de onda quântica.

    A mecânica quântica é extraordinária porque até os físicos mais materialistas ― no sentido positivista do termo ―, como Roland Omnès, reconhecem que alguma coisa de profundamente errado existe na ciência clássica que surgiu da revolução burguesa de 1789.

    “Se assim é e se Deus é omnisciente e omnipresente, a conclusão lógica a retirar da sua afirmação é que a “onda” é, afinal, sempre e só “partícula”. Um absurdo!”

    Existe aqui, na minha opinião, e aparentemente, uma confusão da sua parte: pelo facto de Deus ser omnipresente, omnisciente, e omnipotente, não quer dizer que Deus seja obrigado a ser omnipresente, omnisciente, e omnipotente. Deus não é obrigado a nada porque é o livre-arbítrio na sua pureza absoluta. Posso estar enganado, mas o meu amigo parte de um princípio determinístico em relação a Deus. O perigo do panenteísmo é que pode ser ― parcialmente e em alguns conceitos determinísticos ― confundido com o panteísmo.

    Orígenes escreveu que “Deus é superior à própria substância” ― aqui entendia como “coisa em si” de Kant ―, “pois que não participa dela: a substância participa de Deus, mas Deus não participa de nada”. O que Orígenes quis dizer é que Deus não é obrigado por alguma necessidade a participar de alguma coisa, porque Deus é livre. Este raciocínio por parte de alguém que viveu há dois mil anos, é extraordinário.

    O problema do Budismo é que tem em si um determinado grau de necessidade. A quântica diz-nos que a necessidade só existe em função dos movimentos organizados e controlados pela vontade. É a vontade que cria a necessidade em determinado sentido, e essa necessidade pode ser mudada para outro sentido qualquer dependendo do livre-arbítrio e da capacidade de suplantar ou ultrapassar os condicionalismos impostos pelos “caminhos da acção mínima”.

    Em vez de Deus, prefiro falar em Consciência porque esta é apenas uma das particularidades de Deus, e Este está para além da Consciência. Eu prefiro chamar à Consciência, o “Logos”, e não Deus. Deus está para além do Logos e da Consciência.

    Um dos conceitos da quântica é que existe um fluxo de ondas quânticas (atenção: “ondas quânticas” e não “partículas” ou PEL!) no interior do espaço-tempo (a que podemos chamar de “Aquém Espaço-Tempo”) em direcção ao “Além Espaço-tempo” , e vice versa ― através da “espuma quântica” e dos seus “mini-buracos negros”, segundo o físico Nobel John Wheeler. Este fluxo de ondas quânticas é contínuo e realizado em ambas as direcções. Portanto, existe uma ligação ou conexão quântica contínua, permanente e bidireccional entre o Aquém espaço-tempo e o Além espaço-tempo. A onda quântica ― como é o caso, até certo ponto, da luz, mas não só a luz ― é uma manifestação daquilo que é propriedade comum entre o Aquém espaço-tempo e o Além espaço-tempo. A onda quântica é um denominador comum, é o princípio, é a ligação física entre o espaço-tempo e aquilo que está para além do espaço-tempo.

    Passando agora à metafísica, podemos dizer que a onda quântica é o objecto primordial que liga o universo físico àquilo que está para além do universo ― a onda quântica é a própria primeira manifestação da criação ( a bíblia diz que “Deus fez a luz”).

    Voltando à quântica, através do princípio da complementaridade, a “função ondulatória quântica” (não confundir com “onda quântica”) define que a partícula existe a partir do momento em que é objecto de estudo (observação, experimentação, etc). Porém, nem tudo é onda quântica porque a PEL só se assume como onda quântica quando existe uma predominância de muitas possibilidades de “caminhos de acção mínima” (CAM) à disposição da PEL. Se a PEL não tiver CAM em alguma quantidade, permanece como partícula e não se transforma em onda.

    O caminho de acção mínima (CAM) é a manifestação da não-observação directa da Consciência em relação aos PEL, porque o CAM é produto da própria Consciência em acção. Quando a Consciência se debruça particularmente sobre uma ou sobre um conjunto de ondas quânticas, estas transformam-se em PEL (partículas elementares longevas) e forma-se a “matéria”. A não-observação directa por parte da Consciência em relação aos PEL produz o aparecimento de múltiplos CAM, o que possibilita aos PEL deslocarem-se pelo espaço agora como ondas quânticas.

    A omnisciência, omnipresença e omnipotência de Deus não implica a necessidade, por parte de Deus, do exercício compulsório da consciência do Logos ― no sentido da observação directa das ondas quânticas. Estas são produto primordial do universo e são a “coisa em si” de Kant. A onda quântica não é “matéria” no sentido tradicional, assim como a luz não é matéria porque não tem massa. A onda quântica existe como criação de Deus, e Este não é obrigado a observar directamente, através da consciência do Logos, todas as ondas quânticas que são da Sua própria criação.

    A partir do momento em que a onda quântica é “interiorizada” (observada directamente) pela consciência do Logos, surge a partícula que vai formar a “matéria”. Esta observação por parte da consciência do Logos obedece a critérios que nos ultrapassam, mas sabemos que não pode ser sujeita a um determinismo porque a própria quântica prova que não existe determinismo senão por acção da inércia existente em função dos CAM: existem apenas possibilidades, em alguns casos, probabilidades, e estas são determinadas pela vontade das forças da consciência ― aqui em termos gerais ― organizadas a cada momento, com a certeza, porém, de que basta que a consciência do Logos nos “abandone”, nos deixe de “contemplar”, para cairmos todos no olvido (incluindo todo o universo).

    Comentar por O. Braga — Quinta-feira, 9 Julho 2009 @ 10:57 am | Responder

  6. Li e reli e gostei. Estou a “mastigar”. Mas… por ora, formulo apenas algumas questões/considerações:

    1. Se Deus não é obrigado a nada, porque é Livre e é o Livre-Arbítrio PURO, para que “criou” a Consciência e o Logos, para que “criou a Luz”, para que “criou” o Mundo e o Ser humano?

    Ao “criar” todas estas – chamemo-lhes assim -Suas manifestações, tinha necessariamente um PLANO ou INTENÇÃO.

    Se tinha, então estará “vinculado” a esse PLANO ou INTENÇÃO e não poderá “jogar aos dados” (na expressão Einsteiniana) e “deixar” que a Consciência e o Logos destruam ou possam destruir a sua “criação” e o seu Plano. Logo “vinculou-se” a tal Plano, perdendo assim, por vontade própria, o livre-arbítrio absoluto.

    Se não tinha caímos no existencialismo do mundo absurdo “camusiano”.

    Nesta última perspectiva, o Homem preferirá ser ATEU ou apenas EXISTENCIALISTA.

    2.Se Deus não é obrigado a nada – nem a “sustentar” o que “criou -, significa isso que criou “realidades” que “brincam” sem Ele sequer assumir as “obrigações paternas”, sem ser Pai delas, sem, ao menos, as “vigiar”?

    3. Como se liga, pois, Deus a estas “realidades”?

    4. Cristo chama-lhe PAI! A exposição do meu amigo (demasiado científica, mas incompleta nesta área, e também filosófica e metafisicamente) retrata-nos um Deus absolutamente indiferente…

    5. O meu amigo faz todo um discurso científico incompleto porque…Qual é a sua “teoria de tudo”, como responde à questão da ciência quanto à resposta de obter um “campo unificado” quanto ás forças fraca, forte, electromagnética e da gravidade?

    6. Mesmo sem resposta “científica”, aceitar-se-ia uma “Teológica”…

    Comentar por vickbest123 — Quinta-feira, 9 Julho 2009 @ 12:27 pm | Responder

  7. Este postal abordou a filosofia quântica ― que decorre da mecânica quântica ― e os meus comentários têm resvalado para metafísica. Nos dois últimos comentários meus coloquei um pé na filosofia (razão) e outro pé na metafísica ― o que não quer dizer que a metafísica não seja racional, mas antes que o seu grau de subjectividade é enorme. “O que é real é racional” (Hegel), e a realidade não é só aquilo que constatamos no mundo sensível. Portanto, e não obstante a necessidade de fazer a diferença entre religião e filosofia, não enjeitarei a possibilidade de resposta ao último comentário do VickBest.

    Através da liberdade, o ser humano não é só apenas um elo de uma cadeia causal macroscópica, mas pode também dar origem a uma tal cadeia, o que na linguagem religiosa se traduz através do discurso da “semelhança do ser humano com Deus”. Para além de poder dar origem a uma tal cadeia, o ser humano pode também ― se tiver capacidade para isso ― utilizar a sua consciência para modificar as funções ondulatórias quânticas. Isto significa que a consciência humana emana directamente da consciência do Logos; o que difere entre a primeira e a segunda é o grau de consciência ― a posição na hierarquia da consciência.

    Se a consciência ― aqui em termos gerais ― consegue modificar as funções ondulatórias quânticas, então o pensamento pode “saltar” por cima dos “muros de luz” ― que existem no interior dos “cones de luz”, através de sinais viajando a velocidades iguais ou inferiores à da luz ― que nos circundam e restringem. Este “salto quântico” do pensamento deve-de ao facto de as ondas quânticas viajarem a velocidades superiores à da luz ― estudos recentes falam em 10 mil vezes mais rápido. Sempre que se dá um salto quântico, a nossa consciência sofre também um salto quântico; é a isto que chamamos de “intuição súbita” ou “revelação súbita” ― trata-se de fenómenos que não podem ocorrer sem ao mesmo tempo alterarem o universo: a conexão entre a percepção de um acontecimento e o acontecimento em si é extremamente íntima.

    Naturalmente que a consciência humana ― entendida em termos medianos ― está no seu grau de evolução cósmico. Em termos que toda a gente pode entender, e segundo Kant, o ser humano pertence a dois mundos diferentes: ao mundo dos objectos e ao mundo moral. A maior parte dos acontecimentos macroscópicos do mundo (e por via do “caminho da acção mínima”) está subordinada a regras, de modo a que a A se segue inevitavelmente B (mundo dos objectos). Alguns acontecimentos do mundo (mundo moral) devem-se a decisões independentes de regras e autónomas (autodeterminação). Porém, se o ser humano soubesse ou pudesse utilizar plenamente a sua consciência, poderia ir muito mais longe na sua liberdade e na sua independência em relação ao mundo dos objectos. Acontece que o ser humano não pode porque se encontra no seu grau de evolução em dois mundos; contudo, existiram seres humanos que conseguiram suplantar algumas das limitações impostas pelo mundo dos objectos.

    Se transformarmos Deus num objecto (uma coisa), já vimos anteriormente que com isso a Sua existência é causada por um sujeito, e deste modo, o sentido do conceito de Deus foi invertido, e assim, a questão sobre se Deus existe ou não atrai aquele que se interroga para uma pista errada. O modelo teísta de Deus é posterior ao Concílio de Niceia e serviu a cristandade durante alguns séculos, porque, anteriormente, a patrística cristã não seguia o teísmo (já aqui falei de Orígenes). A ideia panenteísta de que “Deus está em todo o lado” pode induzir ao panteísmo; na verdade, o que está em “todo o lado” é a “função ondulatória quântica” ― seja em ondas, seja em PEL ―, que emanando de Deus, não é Deus propriamente dito.

    Atentemos às seguintes fórmulas:

    S → ← O ==> D (MM)
    A (E, P) ==> D (MM)

    S= sujeito na relação de conhecimento (consciência)
    O= objecto na relação de conhecimento
    A (E,P) = absoluto sob a forma da Exigência (questão da verdade) e da Participação (certeza existência do ser)
    D (MM) = Deus como mistério do mundo.

    Portanto, não podemos referirmo-nos a Deus como “Ele” senão por uma questão prática de comunicação. O teólogo protestante Paul Tillich escreveu que “um Deus que existe não existe”, porque Ele é a causa primeira que torna a existência possível, ou na linguagem de Kant, a condição de possibilidade de existência. Todas as coisas e tudo aquilo que existe no nosso mundo são representações do “englobante”, sem que este possa ser abarcado nelas.

    Começando agora a responder às perguntas: Leibniz, através do seu conceito de “Teodiceia”, dizia que “Deus criou o melhor dos mundos possíveis”. Isto significa que se Deus assim fez, é porque existiam outras possibilidades de mundos, o que pressupõe a liberdade absoluta de Deus: Ele achou livremente que este mundo, tal qual se apresenta, seria o melhor dos mundos entre uma infinidade possível. Desde logo, o facto de algo existir e de não ser nada, constitui o maior dos milagres e a prova da liberdade de Deus. E tudo aquilo que existe participa desse milagre que resulta do livre-arbítrio de Deus.

    Como disse antes, o Logos é o Verbo e depende de Deus ― como disse Orígenes, “o Logos depende da sua contemplação de Deus”. O que existe é uma intercedência do Logos em relação a Deus. Quem contempla Deus não pode ir contra a Sua vontade, a não ser por ignorância, e sendo ignorante não tem, em princípio e salvo excepções, o grau de consciência necessário para destruir conscientemente seja o que for.

    Naturalmente que quando escolhemos, por livre vontade, um caminho, assumimos esse caminho porque queremos, e não porque somos obrigados a assumir esse caminho. Se somos obrigados a seguir um caminho, não o escolhemos. Existe aqui uma relação directa entre o grau de consciência e os condicionalismos do macrocosmos; é esta relação que limita o ser humano. Acontece que esta relação não existe em Deus como existe na nossa realidade humana ― existe em Deus, com maior verosimilhança, naquela emanação de Deus que é o mundo quântico. Através do mundo quântico, que é o mundo da “coisa em si”, estamos muito mais próximos de Deus do que simplesmente olhando o universo na sua aparência macroscópica. E não há dúvidas absolutamente nenhumas que, a nível quântico, o determinismo não existe.

    O existencialismo materialista não é uma teoria credível porque parte de um princípio irracional: a “facticidade”, que é uma corruptela do determinismo científico clássico. Em face das conclusões da mecânica quântica, qualquer forma de determinismo é irracional, incluindo o milenarismo, o profetismo e a imanentização escatológica do gnosticismo. Não é possível ao ser humano dizer o futuro; podemos apenas apontar possibilidades, e Deus conhece todas as “possibilidades possíveis” (passo a redundância), pode interferir se assim quiser, mas deixa sobretudo ao ser humano a liberdade de decidir para que através do acto livre possa evoluir.

    Deus, como ser livre, é obrigado àquilo que Ele quer ser obrigado. É Ele quem se obriga a si próprio, e não é obrigado por uma necessidade intrínseca ou extrínseca, da mesma forma que eu não sou obrigado a estar sentado nesta cadeira neste momento ― sou livre de me levantar da cadeira, se assim eu quiser. A forma como Deus se obriga a si próprio, em acto de liberdade, em relação à “manutenção” da sua criação, segue uma hierarquia que se baseia nos graus de consciência: desde os mais elevados, que estão mais próximos Dele, até aos mais baixos, que incluem todas as formas de vida rudimentar. É nos graus mais elevados de consciência que existe o conceito de Logos.

    A “teoria do tudo” é o UNO que se manifesta na função ondulatória quântica. A partir desta, podemos formar todos os objectos possíveis. A função ondulatória quântica é uma espécie de plasticina que permite moldar a realidade macroscópica; se Platão vivesse hoje, gritaria “Eureka!” porque tinha encontrado a essência racionalizada do seu conceito de Forma.

    O que a ciência clássica e neopositivista fez foi compartimentar o UNO. Como dizia Santo Agostinho, “quando começamos a contar, começamos a errar”.

    Comentar por O. Braga — Quinta-feira, 9 Julho 2009 @ 6:54 pm | Responder

  8. Caro Orlando:

    Li e “mastiguei” a sua construção.

    Também tenho uma construção, embora usando termos diferentes, mas a sua não é incompatível com a minha, nem a minha com a sua, embora a sua seja mais profunda a nível de fundamentação científica.

    Vou-lhe contar uma pequena história real que se passou comigo, no início da minha “construção”:

    Deia-“a” a conhecer a um casal (na casa dos sessenta, ele Magistrado Digníssimo, ela Professora) e pedi-lhes um comentário: ele, sorrindo, disse: “Dou-te um 18”. Ela, amável embora, perguntou-me: “Então, na sua “construção”, não há uma palavra sobre o Amor, a Benevolência, a Misericórdia, a Caridade, de que qualquer religião digna fala?”.

    Claro que tive que rever a minha “construção” inicial, passando a introduzir nela, com conteúdo, todas aquelas palavras e respectivos sentimentos.

    Caro Orlando:

    Devolvo-lhe a pergunta que me fez aquela Excelente Professora.

    Cumprimentos.I

    Comentar por vickbest123 — Sábado, 11 Julho 2009 @ 3:01 am | Responder

  9. Hoje, o “amor” é um conceito bastamente prostituído. Em nome do “amor”, tudo se justifica. A inclusão do conceito de “amor” na minha construção (como lhe chama) mereceria um capítulo à parte.

    Na tradição, distinguem-se várias espécies de amor. A libido é o amor pelo prazer e o sexo. O Eros é o amor pelo belo, o deixar-se comover pela sedução do sedutor. A filia é o amor entre corações dos seres humanos que não podem viver um sem o outro. O ágape é o amor pelo próximo, nascido da misericórdia, da compaixão e do amor a Deus.

    Naturalmente que nenhuma destas formas de amor é negativa em si mesma, mas não podemos esquecer que (por exemplo) alegadamente em nome do amor pelo próximo se cometeram (e cometem) barbaridades. Aqui há tempos atrás, um militante do Bloco de Esquerda disse-me que “o aborto é um acto de amor”. Portanto, a questão do “amor” foi retirada propositadamente do discurso desta apostila. Eu não me esqueci; fiz-me de esquecido.

    Não podemos falar de “amor” sem falar em graus de consciência. Para um ser com um grau de consciência básico, o amor pode limitar-se à libido e pouco mais. Existem formas obsessivas de “amor” que se confundem com a filia. O que determina o grau de consciência? Se existe vida a vários níveis ― desde o micro-organismo mais ínfimo, passando pelas plantas, animais diversos, etc. ―, então porque razão nem tudo é igualmente consciente?

    Independentemente de podermos discutir, como algumas teorias o fazem, de que “tudo no universo está vivo”, para mim é claro que a consciência é algo de diferente da função ondulatória quântica vulgar, porque a consciência tem origem directa em Deus e faz parte Dele; a consciência, para além de existir no Além-espaço-tempo, existe no Aquém-espaço-tempo naquilo que vive, e que é definido pela ciência como tudo aquilo que “processa energia, guarda informação e reproduz-se”. Portanto, também existe um grau de consciência adequado à ameba; as plantas têm o seu grau de consciência.

    Uma das respostas aos diversos graus de consciência é a “complexidade”. O ser humano é simplesmente mais complexo do que uma paramécia, isto é, somos capazes de criar um número maior de “conexões quânticas” entre acontecimentos. Um ser com o grau de consciência do Logos tem uma capacidade de criar “conexões quânticas” em quantidades astronómicas, para não dizer, infinitas.

    O físico quântico Everett (não me lembro agora do primeiro nome dele) demonstrou que a “complexidade” pode ser computada em termos de teoria da informação, tendo chamado de “correlação” a esta “complexidade”. Uma “correlação” entre duas coisas é uma relação cooperativa. Isso indica que o conhecimento de uma dessas coisas nos indica algo sobre a outra. Everett demonstrou de que quanto maior for o número de “correlações”, tanto mais informações será possível obter, isto é, tanto maior será a “complexidade”.

    Portanto, o grau de consciência adquire-se pela evolução. A evolução implica vontade. A única coisa de que a vontade tem necessidade é de liberdade, sendo que esta é a ausência de necessidade.

    Outro conceito de Everett é o do “refinamento”, que produz maior “complexidade”. A evolução produz “refinamento”. A título de exemplo, consideremos uma sala cheia de pessoas:

    As luzes encontram-se todas apagadas e a ninguém é permitido falar ou tocar nos outros. A única coisa que podemos dizer desta sala, e nestas condições, é que se encontra cheia de gente. Agora, com as luzes ainda apagadas, se sem fazer barulho, deixemos as pessoas tocarem-se num “abraço colectivo”. Podemos dizer agora que as interacções entre as pessoas criaram indiscutivelmente mais informação ― sabemos agora, por exemplo, que existem pessoas do sexo masculino e do sexo feminino, naquela sala às escuras e em silêncio.

    Ao fim de algum tempo, naquela sala em silêncio e às escuras, a distribuição de pessoas ter-se-á alterado no sentido de reflectir as atracções e repulsões mútuas sentidas pelas pessoas presentes (tudo isto em silêncio e às escuras!). O acto de sentir é um “refinamento” na distribuição.

    Se acendermos a luz, a visão produz um “refinamento” ainda maior, já que permite a ocorrência de um novo tipo de interacção ― aquele que é próprio da luz. Se as pessoas começarem a conversar entre si, a sala poderá agora ser dividida em zonas de pessoas afins ― das que partilham as mesmas opiniões, das que se sentem bem juntas umas das outras, etc.

    Algumas religiões chamam a isto “A Lei Universal da Afinidade” e consideram o processo de “refinamento” como evolução em “planos cósmicos” (astral, mental, Akasha ou causal, celestial, etc.).

    O grau de “refinamento” determina o grau de consciência. O processo de “refinamento” é a própria evolução da consciência em dois mundos co-imanentes, sendo que o nosso mundo é composto pela multitude da função ondulatória quântica na forma de ondas ou partículas elementares longevas (PEL) . É neste contexto que se pode considerar, determinar e classificar as formas de “amor” referidas acima. De outra forma, caímos na perversão do conceito da palavra “amor”.

    Comentar por O. Braga — Sábado, 11 Julho 2009 @ 8:40 am | Responder

  10. Diz o meu amigo:

    “Na tradição, distinguem-se várias espécies de amor. A libido é o amor pelo prazer e o sexo. O Eros é o amor pelo belo, o deixar-se comover pela sedução do sedutor. A filia é o amor entre corações dos seres humanos que não podem viver um sem o outro. O ágape é o amor pelo próximo, nascido da misericórdia, da compaixão e do amor a Deus.”

    É uma afirmação dos “Livros”, isto é, correcta: quem vive o Ágape pode também viver as outras formas de “amor”. Mas quem vive apenas as outras formas de “amor” não atingiu, ainda, o Ágape. Mas este último é que pode ser chamado de Amor (parece-me).

    Se os seres humanos vivem em diversos graus de consciência e “afinidade” individualmente, uns em relação aos outros e se o mais elevado grau de “refinamento” (digo eu) leva a uma consciência evolutiva superior, poder-se-á afirmar que o “ódio” é um “processo” estagnado, senão mesmo, não evolutivo da consciência, mas “involutivo”?

    Qual a explicação para isso? (É que parece contrariar o processo “evolutivo” ‘natural’)

    Depois, porque é que a evolução da consciência leva à “afinidade” progressiva dos seres humanos até ao Ágape? Reformulando: o que motiva as “antipatias” naturais entre dois seres humanos mesmo quando o seu grau de consciência é elevado? Ou, de outro modo: se eu tenho “antipatia” natural por um determinado ser humano (por nos encontrarmos em graus diferentes de evolução da consciência e, portanto, sem “afinidades”) como posso viver a Ágape incluindo nele tal indivíduo se o “ódio” ou “repulsa” dele por mim desencadeia (ou pode desencadear) uma “afinidade” negativa? É aqui que entra, para si, a Misericórdia, Benevolência ou Caridade? Será assim a nível de “consciência”, mas eventualmente não a nível de “sentimento” humano? O que é, então, o sentimento humano?

    Será possível atingir o Ágape Puro por um só ser humano enquanto houver nos outros (num único que seja) um estado de apenas “filia”?

    Em conclusão: é Verdadeira a afirmação de Cristo (e não só) de que “devemos amar o próximo como a nós mesmos e Deus acima de todas as coisas”? Porquê? Tal “dever moral” não significa “forçar” a evolução natural da consciência?

    Por enquanto, fico-me por aqui.

    Obrigado pelo “diálogo” (quase “monólogo” seu).

    Cumprimentos.

    Comentar por vickbest123 — Sábado, 11 Julho 2009 @ 12:00 pm | Responder

  11. Sinceramente não li com particular atenção o “Livros” e não sabia que estava a citar ou afirmar algo a partir daí. Os bons eticistas (filosofia) referiram-se a essas formas de “amor”, entre eles Nicolau Hartmann e Karl Jaspers (por exemplo). O facto desta ideia vir no “Livros” só revela que não inventamos nada, mas limitamo-nos a descobrir as coisas segundo o conceito de “douta ignorância” de Nicolau de Cusa.

    O físico quântico David Bohm escreveu mais ou menos isto: “o amor de Deus é a força que garante que o electrão” (que, recordemos, é uma partícula elementar longeva que deixou de ser onda quântica porque foi observada pela consciência) “se ligue ao núcleo do átomo, a força da gravitação que liga as estrelas entre si no Aquém-espaço-tempo, e que no fim dos tempos volta a juntá-las”. Porém, e à escala humana, o ágape foi também a atitude do padre polaco Maximiliano Kolbe num campo de concentração nazi, que se ofereceu para morrer na câmara de gás em lugar de um judeu que era pai de muitos filhos. Outra questão interessante é saber o que é o altruísmo e como é que este se liga ― se é que existe ligação ― à lógica do “gene egoísta” de Richard Dawkins e ao evolucionismo materialista de Darwin.

    Todos os quatro conceitos de “amor” (libido, eros, filia e ágape) devem ser ― na minha opinião ― enquadradas numa forma holística pelo ser humano como “consciência” que é e existe Aquém e Além espaço-tempo. Santo Agostinho diz que todas as formas de amor merecem respeito porque estão relacionadas com uma estrutura cósmica que as sustenta (a tal “Ordem Universal” de que nos fala Eric Voegelin).

    Não se pede ao Homem que seja Deus: pede-se-lhe que entenda Deus, e esse entendimento (conteúdo de Deus) não lhe chega através da lógica-matemática (que só perscruta a forma de Deus) mas através da intuição ou fé (que é também um modo de inteligência) que lhe dá a sua autoconsciência; pede-se-lhe que ganhe a consciência suficiente para não considerar, por si só e independentes umas das outras, as quatro formas de amor. Naturalmente que existem naturezas humanas excepcionais que permitem viver o ágape sem muita atenção à libido ou ao eros, mas até as almas mais nobres não prescindem da filia, incluindo o próprio Jesus Cristo.
    Por vezes, a excepcionalidade supra-humana é apenas aparente, pode ser até contraproducente e conduzir a uma qualquer forma de niilismo (transformando a filia na parafilia), que é exactamente o contrário daquilo que era expectável. É erro enorme que perpasse pela cabeça de um ser humano que possa ser uma espécie de deus na terra: até Cristo disse: “Ninguém é bom senão Deus”.

    Portanto, o “Amor de Deus” não é apenas um sentimento Dele em relação a nós: ele quer dizer algo maior, é um “amor cósmico” ou um “amor quântico”.

    Na questão do “ódio”, temos que abandonar parcialmente a filosofia quântica que pouco diz sobre esse aspecto. Para a quântica, a própria contemplação da consciência que permite a transformação da onda quântica em partículas elementares primevas, essa contemplação é o acto de amor ― o que corrobora a opinião de Orígenes que dizia que “o Logos existe porque contempla o Pai”. Se alguém contempla algo, preocupa-se; se se preocupa, ama. Porém, segundo a filosofia quântica, a não contemplação não significa necessariamente o ódio, mas antes a liberdade de não contemplar. Embora sendo racional esta concepção, só pode ser justificada através da lógica matemática.

    Vimos que através da “espuma quântica” de John Wheeler, e através dos mini-buracos-negros, que entre o Aquém espaço-tempo e Além espaço-tempo existe um contínuo fluxo de ondas quânticas em ambas as direcções. A partir desse fluxo ondulatório bidireccional, o Deus eterno assume, em parte e por emanação, a forma de um Deus do devir. Por isso é que alguns filósofos conotam o Tempo com Deus. Ele torna-se “temporal” ― não por necessidade ou obrigação, mas num acto de liberdade ― na realização do processo do mundo, para festejar o ser (consciência) e o amor ― como amor quântico ― no espaço e no tempo.

    Portanto, podemos dizer que o devir do Aquém espaço-tempo emana de Deus, embora não fosse correcto dizer que o devir faz parte de Deus, assim como as ondas quânticas (ao contrário da consciência) não são parte mas emanações de Deus. Mas o devir, sendo uma emanação de Deus, significa também a destruição em prol de algo novo. Em Cristo, o Deus eterno encarnou no mundo do devir. Portanto, a partir de uma perspectiva humana, podemos dizer que Deus permite o mal ― e o ódio. De facto é verdade, porque existe a liberdade que garante a evolução ou “refinamento” através dos graus de consciência.

    Na opinião do filósofo Hans Jonas, Deus sofreu já a partir do momento da criação, ao submeter-se voluntariamente às leis do mundo do devir. O cristão japonês Kazoh Kitamori escreve: “só a dor de Deus oferece o seu significado e o seu valor à dor humana” (“A Teologia das Dores de Deus”). Isaías 53,4: “De facto, eram as nossas enfermidades que ele levava sobre si, as nossas dores que ele carregava”.

    Na ética, é possível desejar o bem unicamente por causa do bem, mas não é possível desejar o mal unicamente por causa do mal. É possível fazer o bem sem se ter consciência disso e sem que isso cause felicidade àquele que o faz, simplesmente porque o bem é correcto. Mas ninguém nunca cometeu uma atrocidade simplesmente porque a atrocidade é má, mas só porque ela proporciona algo suposta, subjectiva e alegadamente bom, ou seja, o prazer, ou porque traz alguma vantagem pessoal. Isto significa que o mal nem sequer consegue ser mal da mesma maneira que o bem é bom. O mal é apenas o bem corrompido. E para existir o mal ― segundo os princípios da lógica ― tem que existir primeiro algo que é bom para que possa ser corrompido.

    Esta alusão à ética escora-se em princípios da lógica que são axiomas e que existem, por isso, independentes de alguma outra coisa. Por exemplo, o princípio da identidade e da contradição. O princípio da identidade (A=A) diz que todos os seres são idênticos a si mesmos e distintos dos outros. Este axioma garante a inequivocidade do mundo e dos juízos. Este axioma diz também que o Ser que é imutavelmente idêntico a si mesmo e positivo, é o fundamento de tudo e também da mudança e da negação, porque para que seja possível mudar ou negar algo, o Ser tem de possuir primeiro uma identidade positiva ― tem que existir. A negação (niilismo) é sempre algo secundário. As leis fundamentais da lógica partem sempre e formalmente da prioridade do ser em relação à sua negação.

    Podemos dizer que um pai que dá umas palmadas num filho, porque este fez uma valente asneira, tem ódio ao filho? Em princípio, não podemos afirmar tal coisa. O que podemos dizer é que existem pais que têm métodos de educação dos filhos diferentes de outros pais; e mesmo aqueles pais mais benevolentes se vêem, aqui e a li, incentivados pelas suas consciências a adoptar medidas mais drásticas na educação dos filhos. E mesmo assim, um pai só pode dar, eventualmente, a direcção à vida do filho, porque o sentido da sua vida só ao filho cabe escolher dentro do seu livre-arbítrio.

    O que está em causa na “antipatia natural” é a afirmação do princípio de identidade. A=A, ==> ╪ B. O próprio Cristo falou dos fariseus, utilizando a razão, da forma que sabemos ― o mesmo Cristo que dizia que “devemos amar o próximo”. Por isso é que o conceito de “amor” só pode ser entendido dentro do grau de evolução da consciência inserida no seu princípio de identidade. Será que Cristo, por dizer “cobras e lagartos” dos fariseus, não os amava? Será que o pai que dá uma lambada ao filho, em caso extremo, não o ama?

    São Tomás de Aquino dizia que “não devemos respeitar quem não merece respeito”, no sentido em que quem se comporta de forma contrária ao bem natural segundo os princípios da lógica que escoram a ética ― como vimos acima ― não merece respeito. Jesus Cristo não teve pejo nenhum em demonstrar que S. Tomás de Aquino tinha razão.

    Assim como um átomo pode cair no olvido por não ser contemplado pela consciência, assim uma consciência pode ser destruída por si própria se não utilizar voluntariamente a sua faculdade de contemplação. A consciência é livre, até de “marcar passo” na evolução ou até, em extremo, de se destruir a si própria. O que Deus faz constantemente é alertar as nossas consciências para as vantagens objectivas do incremento progressivo do grau de “refinamento”.

    Comentar por O. Braga — Sábado, 11 Julho 2009 @ 4:10 pm | Responder

  12. Caro Orlando:

    Comecemos por desfazer um equívoco: quando afirmei, quanto ao amor, que a sua frase era dos “Livros”, não me referi à obra concreta “Livros” mas antes a que qualquer bom livro de ética e religião afirma o mesmo. Deveria (eu) ter utilizado antes a expressão “é uma afirmação dos Livros”.

    Desfeito este mal-entendido, prossigamos.

    Na minha “construção”, com menos linguagem científica (em que aceito a sua como a ligação do UNO à Sua Criação e dos Seres Humanos), as “dores de Deus” ao Criar o Mundo e os Humanos teve como objectivo um acto de Amor Profundo: partilhar a sua “essência” com individualidades para que estas -plenamente apenas nos fins dos tempos -, partilhassem da Sua Glória, quando Ele for Tudo em Todos.

    Deus quis-se dividir e partilhar a Sua Glória.

    Este Amor Profundo de partilha por parte de Deus traduz-se no Espírito Santo de que fala a Igreja.

    O Pai (Deus), o Filho (os Seres Humanos, resgatados na missão e exemplo de Cristo) e o Espírito Santo (a “intenção” ou “espírto” de Deus na Criação), tudo o que concretiza, ou melhor, concretizará, “nos fins dos tempos”, a Santíssima Trindade.

    Ora, toda a consciência que se “sintonize” com o Espírito Santo (a Consciência Pura) manifestará o Amor de Deus.

    Daí que qualquer místico afirme que “Tudo é Amor”.

    Quanto ao “ódio”, direi apenas que há graus de consciência superiores e inferiores e, embora a consciência seja livre, pode ser “perturbada” por graus inferiores manifestados para a “formação” da Criação.

    Os instintos humanos (bons para defesa da vida e sobrevivência perante as adversidaes e outras espécies humanas ou animais) se não evoluirem com a consciência, levam o ser humano a sentir o “ódio” que tem o seu lugar defensivo quanto a adversários de “morte”. O “ódio” pode, assim, ser visto como defesa da vida. Porém, “odiar” sem mais, leva apenas ao sofrimento do próprio porque fora e contra a evolução da consciência.

    O mal pode ser feito “para si mesmo”, como acto de rebeldia contra a Ordem Divina, designadamente “contra” o Espírito Santo de Deus, que a ICAR denomina de Satanás ou Diabo – uma “consciência” desenvolvida e que se rebelou contra Deus e a Sua Obra e a Sua Intenção, pretendendo ser “Deus” na vida terrena, ser uma consciência apenas no “Aquém-Espaço”, usando a “sua linguagem”.

    O “prazer” do mal não é apenas prazer mundano: é um “prazer Espiritual” de desafio ao próprio Deus, Suas Leis e Sua Ordem, numa palavra, contra o Espírito Santo. É o “prazer” de “ser” ‘Deus’ contra DEUS.

    Comentar por vickbest123 — Sábado, 11 Julho 2009 @ 6:42 pm | Responder

  13. Sobre o “Livros”: existe no Talmude um capítulo com esse nome e na bíblia judaico-cristã também. Assunto esclarecido.

    Comentar por O. Braga — Domingo, 12 Julho 2009 @ 7:41 am | Responder


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