perspectivas

Sábado, 2 Agosto 2008

É preciso racionalizar as questões


Preservativo do século 16

O que é a contracepção? O uso do preservativo é contracepção? Claro que é. Tudo o que evite a gravidez da mulher é contracepção. Visto deste prisma, até a abstenção sexual é uma forma de evitar a gravidez, e portanto, uma forma passiva de contracepção.

E o onanismo (masturbação) é contracepção? Pela mesma bitola de valores, é. E um sonho erótico que cause uma ejaculação, é contracepção? Pela mesma bitola, alguém que tenha um sonho erótico que cause uma ejaculação incorre em pecado contra a vida humana.

Hoje estou em maré de contraditório. Gosto de ler o FIAT LUX, mas quando a ICAR coloca no mesmo saco o preservativo e o aborto, o que faz é ― nada mais e nada menos ― do que validar eticamente o aborto, porquanto desvaloriza as diferenças entre as duas situações. Em vez de convencer racionalmente as pessoas acerca da inviolabilidade da vida humana, quando radicaliza posições, a ICAR descredibiliza ― aos olhos do povo ― a importância da vida, na medida em que compara coisas incomparáveis. Em resultado isso, o aborto passou a ser um método de contracepção, porque um dos lados da contenda se descredibiliza quando coloca no mesmo nível o onanismo e o aborto.

Sob o ponto de vista ético, é absolutamente irracional que alguém defenda a ideia de que o uso do preservativo é mais grave do que o incesto. Custa-me imenso que a Igreja Católica assuma posições destas.

Muitas das “guerras” culturais perdidas nos últimos 30 anos se devem a uma posição monolítica da Igreja Católica em assuntos de “lana caprina”. Eu sou insuspeito para falar nisto, porque sou e assumo-me publicamente como cristão.

Em relação a Elisabeth Anscombe: comparar o onanismo ― ou o uso do preservativo ― à sodomia e a outros desvios sexuais é classificar, à partida, o ser humano como um animal irracional. A ICAR deveria dar o exemplo na racionalização do ser humano numa altura em que este é cada vez mais tratado (pela política correcta) como um animal controlado pelo instinto. Partindo do princípio de que o ser humano é um ser irracional, Elisabeth Anscombe defende a ideia de que ao se condescender com o uso do preservativo, a besta humana cairá automaticamente na sodomia, isto é, uma coisa leva inexoravelmente à outra, como se a sodomia não existisse quando ainda não tinha sido inventado o preservativo. Este raciocínio só joga a favor de quem defende a degradação ética e moral da Humanidade, e os resultados estão à vista.

Toda a ética tem uma escala de valores racionalmente construída; misturar tudo no mesmo saco só lembra ao diabo.

5 comentários »

  1. Parabéns pela avaliação. Continua valendo a pena ler o que você escreve e o que recomenda!

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    Comentar por Delfina — Sábado, 2 Agosto 2008 @ 6:36 pm | Responder

  2. Realmente…

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    Comentar por Henrique — Domingo, 3 Agosto 2008 @ 12:18 pm | Responder

  3. Caro Orlando:

    Permita-me por favor alguns esclarecimentos ao seu texto:

    1º – O raciocínio expresso nos 1º e 2º parágrafos do seu texto parecem-me demasiado básicos para o nível dos seus posts, acho que não pensou bem sobre o que disse e o que está a fazer com isso é, de certeza que sem intenção, ridicularizar a ICAR, se se der ao trabalho de ler o catecismo com respeito a esses pontos irá entender claramente o que defende a Igreja.

    2º – Não sei como pode extrair do texto que refere que a ICAR equipara o Aborto à Contracepção, eu não consegui, independentemente da intenção do autor e das interpretações, também não é o que defende a ICAR.

    3º – A ICAR não defende que o incesto é menos grave que a contracepção, o que no referido texto do Fiat Lux se diz é que um padre com opiniões protestantes e usualmente discordante da ICAR se contradisse ao distaciar-se de Lutero, que disse num comentário ao Génesis que a contracepção era pior que o adultério ou incesto. Não foi a ICAR que o disse nem tal está no catecismo.

    4º – O que a filósofa faz não é equiparar a contracepção às práticas ani-natura, o que diz é que ao dissociar o acto sexual do todo da relação e reduzi-lo ao mero prazer físico, que a contracepção iria promover (não que acontecesse com todas as pessoas), deixa de ser moralmente condenável a prática de certos actos dado que a sexualidade poderia ser utilizada unicamente como forma de obter prazer e por isso algumas práticas deixam de ser “ilícitas”

    Estou de acordo com a sua ideia de que a contracepção não induz necessáriamente a práticas anti-natura, apenas quis esclarecer o que me pareceu um seu erro de interpretação.

    Sou católico e emito as minhas opiniões sob esse prisma. Custa-me ver que uma pessoa como o Orlando que se chama Cristã emita comentários infundados sobre a ICAR, obviamente que pode discordar mas por favor não induza em erro os seus leitores.

    Cumprimentos.

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    Comentar por Bruno Silva — Domingo, 3 Agosto 2008 @ 8:24 pm | Responder

  4. 1.Uma crítica não significa ridicularizar alguém ou uma instituição. O problema é saber se a crítica é pertinente ou não. Para o leitor anónimo, agradeço que cite as partes do catecismo a que fez referência.
    2.O texto em causa não distingue “aborto” de “onanismo”; fala em “contracepção” em termos gerais, generalizando; pode não ter sido feito de propósito, mas é essa conclusão a que se chega. Foi por isso que comecei o texto: “O que é a contracepção?”, tentando situar a questão.
    Até a citação de Elisabeth Anscombe corrobora a minha impressão, quando se refere ao onanismo (preservativo). O que está no texto não pode ser desconstruído por forma a parecer outra coisa; não acredito que um católico adopte os métodos desconstrutivistas característicos de um Derrida.
    3.O padre em questão (Anselmo), que eu saiba, é católico. Quando se invoca o Lutero da Reforma para criticar um padre católico da actualidade, assume-se a mesma opinião de Lutero. É uma questão de interpretação lógica. Note-se que eu não concordo com muita coisa que o P. Anselmo escreveu, mas não se justifica a crítica a um erro com outro erro.
    4.Acho que a ICAR se deveria concentrar na elucidação do povo sobre a monstruosidade do aborto, em vez de perder tempo com questões de menor importância. É o aborto, que mata seres humanos que deve ser focalizado pelos cristãos em geral, e não perderem energias a preocuparem-se obsessivamente com o onanismo. Num mundo em que o aborto já se transformou num método de contracepção, trata-se de uma questão prática na definição de prioridades. Não peçam a perfeição a uma sociedade que aborta; combatam o aborto para que essa sociedade se aproxime mais da perfeição.
    5.Temos que olhar o futuro, e não invocar sistematicamente o passado. É necessário anunciar o Messias, e não olhar para o que os doutores da Igreja (de qualquer Igreja) ditaram no passado.

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    Comentar por O. Braga — Domingo, 3 Agosto 2008 @ 8:59 pm | Responder

  5. Estava a pesquisar no google alguma palavra chave, e caí neste blog. Confesso que já estava desacostumado com este tipo de discussão. Parece que realmente a religião tem um mecanismo que bloqueia o livre desenvolvimento da razão. Caracas!
    Tiago

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    Comentar por Tiago — Terça-feira, 17 Março 2009 @ 6:36 pm | Responder


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