perspectivas

Sábado, 22 Junho 2013

Quando chove e quando faz sol

“Será possível saber que está a chover quando não está a chover? A resposta razoável é que não. E porquê? Porque a afirmação “Sei que está chover” implica que está a chover. É isto que significa dizer que o conhecimento é factivo.” (respigado aqui).

Em primeiro lugar, a pergunta “será possível saber que está a chover quando não está a chover?” é capciosa, porque só se pode saber que está a chover se estiver (mesmo) a chover. Ou seja, ninguém pode saber que está a chover – o que é diferente de se saber se está a chover – se não estiver realmente a chover.
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Em segundo lugar, um facto é algo que adquiriu uma estrutura na nossa consciência. Mesmo que o facto seja, como é, um dado da experiência, esta não é apenas sinónimo de “experimentação”. Um facto não é sempre um fenómeno. O enunciado de uma lei científica, acerca de um fenómeno, transforma-a em facto que não se confunde com o fenómeno em si mesmo.

Se existir um método científico, baseado numa lei natural ou em cálculos matemáticos, que permita saber se está a chover sem ser necessário ir verificar in loco – empiricamente – o facto de estar a chover, esse método ou esses cálculos matemáticos também são factos.

Em terceiro lugar existe aqui um problema adicional:

Por exemplo, quando uma pedra está ao sol, aquece; ¿será o Sol a causa do calor da pedra? Sabemos, pelo menos desde Kant, que a “causa” é uma ideia que existe apenas na nossa cabeça – não é possível, em bom rigor, ver a causa em qualquer lugar. A causa só existe na nossa cabeça e no nosso pensamento. Ou seja, o facto de a pedra ser aquecida pelo Sol é um produto da percepção sensorial e do esforço interpretativo do cérebro. E voltamos à definição de “facto”: é algo que adquiriu estrutura na nossa cabeça.

Na mesma medida em que a “causa” do aquecimento da pedra pelo Sol é um facto, a chuva que vemos cair também é um facto. O ser humano transporta consigo uma multitude de categorias na cabeça (o Homem tem uma espécie de software no cérebro que interpreta a realidade) de modo a que possa ordenar a realidade caótica das percepções sensoriais.

A ciência meteorológica pode tentar saber se vai chover, mas não pode ter a certeza do prognóstico de chuva (mesmo que o céu esteja carregado de nuvens e com baixas pressões atmosféricas), porque todas as observações científicas foram feitas no passado. Não existem quaisquer garantias de que, no futuro, as observações voltem a surgir da mesma forma apesar de existir uma determinada probabilidade.

Corolário: não é possível afirmar, de maneira nenhuma, que os factos podem ser pressupostos — de forma indiscutível — como pontos de partida da ciência (e, por isso, do conhecimento).

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