perspectivas

Segunda-feira, 23 Setembro 2013

A recusa da Teoria é uma sempre uma forma de teoria

Eu prefiro uma teoria deficiente, a nenhuma teoria. Mesmo que uma teoria tenha falhas, é preferível tê-la assim mesmo, do que negar qualquer teoria alegando as falhas que ela possa ter. É preferível uma teoria deficiente que se baseie em uma Causa do universo, do que recusar qualquer teoria sobre a origem do universo.

O cepticismo é a recusa e a negação de qualquer teoria que não se possa medir, esquecendo que a própria medição é uma teoria.

O procedimento científico está sempre imbuído de considerações teóricas, e não há factos irredutíveis isentos de qualquer teoria. O cientista interpreta as descobertas científicas sempre com o auxilio de alguma teoria. O que interessa ao cientista não é apenas o ponteiro do instrumento de medição, mas antes, a medição só tem valor se estiver em conjugação com uma interpretação do seu significado — para além do facto de o instrumento ter um erro finito experimental (que pode ser infinito, do ponto de vista da física quântica).

Não há nenhuma lei experimental exacta. Só as há aproximadas, e estão sujeitas a uma infinidade de traduções simbólicas e, entre estas traduções, o cientista tem que escolher uma delas que lhe dê uma hipótese conveniente e sem que a sua escolha tenha sido guiada de algum modo pela experiência.

O problema surge aqui quando a ciência recusa uma nova teoria que explica melhor uma determinada fracção da realidade, e fá-lo por motivos políticos e ideológicos; ou seja, a ciência agarra-se a um paradigma porque este serve uma determinada mundividência da moda, que está de acordo com uma determinada ideologia política.

Defender a casualidade do universo, do ponto de vista da ciência, é contraditório, porque a ciência baseia-se no princípio da causalidade (causa / efeito). Dizer que “o universo surgiu por acaso” não é compatível com o princípio científico segundo o qual todos os efeitos têm uma causa.

Fazer desaparecer um problema não resolve esse problema. Ignorar o problema da Causa não faz desaparecer o problema da Causa. Reduzir a análise da realidade a uma fracção da realidade pode próprio da ciências especializadas em determinadas áreas, mas não é próprio da filosofia.

Este verbete é uma resposta a este comentário.

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Sábado, 3 Agosto 2013

A porcaria dos livros de filosofia que se vendem por aí

Quando se diz, num livro sobre a Teoria do Conhecimento, que em Descartes existia uma “dúvida céptica”, fico sem saber se quem escreveu o livro não sabe o que escreveu, ou se sabe e tenta alterar conceitos básicos da Teoria do Conhecimento.

1bertrand-russell-300-web.jpg A dúvida de Descartes era uma “dúvida metódica”, e não uma “dúvida céptica”. Qualquer pessoa com um mínimo dos mínimos de conhecimento de filosofia e de Teoria do Conhecimento – como é, por exemplo, o meu caso – tem a obrigação de saber isto.

A “dúvida céptica” é aquela que conclui pela impossibilidade de se decidir entre uma coisa ou outra. Talvez o melhor intérprete da “dúvida céptica” do século XX tenha sido Bertrand Russell (na imagem). A “dúvida metódica” – protagonizada por Descartes – é aquela que consiste em procurar todas as causas possíveis de erro, e é aquela que fundamenta o método científico.

2 Depois, o texto do “filósofo” que escreveu “aquilo” fala em “conhecimento a priori”, por um lado, e, por outro lado, no contexto do “conhecimento a priori”, o texto refere-se a Descartes.

É impróprio falar, em Descartes, de “conhecimento a priori”, porque Descartes parte apenas de conhecimentos geométricos e de hipóteses físicas (o ser humano é visto por Descartes, do ponto de vista físico, como uma espécie de máquina, com tubos e roldanas, etc.). Seria como se disséssemos que em Hobbes também existiu um “conhecimento a priori” acerca do ser humano – o que é absurdo. Só podemos falar propriamente de “conhecimento a priori” em Kant.

Em Kant, encontramos os “juízos analíticos a priori” – por exemplo, uma definição: “o ser humano é um animal bípede, dotado de inteligência e de linguagem”. Temos aqui, segundo Kant, um “juízo analítico a priori”.

Depois, e segundo Kant, temos os “juízos sintéticos a posteriori”, que decorrem exclusivamente da experiência empírica. Ora, como sabemos, do empirismo só resultam soluções empíricas.

E temos também – segundo Kant – os “juízos sintéticos a priori”, que englobam a matemática e a física, e que se formam independentemente de qualquer experiência e mediante uma intuição intelectual obrigatória.

3 O “filósofo” que escreveu “aquilo” especula em torno dos conceitos de “facto”, de “questão de facto”, e de “tautologia”, como segue:

« As verdades da razão pura, as proposições que sabemos serem válidas independentemente de toda a experiência, são-no em virtude da sua falta de conteúdo factual. Dizer que uma proposição é verdadeira a priori é dizer que é uma tautologia. E as tautologias, embora possam servir para nos guiar na nossa demanda empírica do conhecimento, não contêm em si mesmas qualquer informação sobre qualquer questão de facto. »

Um facto é algo que adquiriu uma estrutura na nossa consciência através da experiência. Acontece que essa experiência pode ser, ou subjectiva, ou intersubjectiva. Por uma experiência ser apenas subjectiva (e que pode ser produto da intuição), não deixa de ser um facto!, embora um “facto subjectivo”. Quando falamos em “factos objectivos”, queremos dizer, mais propriamente, “factos intersubjectivos”.

Uma “questão de facto” não significa necessariamente e apenas “conhecimento empírico objectivo”. Ademais, as tautologias são essenciais porque enunciam as leis lógicas – os axiomas da lógica, que não são físicos, são tautológicos: por exemplo, o princípio de identidade, A = A – sem as quais o pensamento e o discurso seriam incoerentes. Ou seja, sem as “tautologias das leis da lógica”, não seria possível saber sequer o que é uma “questão de facto” – e por aqui se vê a estupidez de quem escreveu aquela merda!

Sábado, 22 Junho 2013

Quando chove e quando faz sol

“Será possível saber que está a chover quando não está a chover? A resposta razoável é que não. E porquê? Porque a afirmação “Sei que está chover” implica que está a chover. É isto que significa dizer que o conhecimento é factivo.” (respigado aqui).

Em primeiro lugar, a pergunta “será possível saber que está a chover quando não está a chover?” é capciosa, porque só se pode saber que está a chover se estiver (mesmo) a chover. Ou seja, ninguém pode saber que está a chover – o que é diferente de se saber se está a chover – se não estiver realmente a chover.
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Em segundo lugar, um facto é algo que adquiriu uma estrutura na nossa consciência. Mesmo que o facto seja, como é, um dado da experiência, esta não é apenas sinónimo de “experimentação”. Um facto não é sempre um fenómeno. O enunciado de uma lei científica, acerca de um fenómeno, transforma-a em facto que não se confunde com o fenómeno em si mesmo.

Se existir um método científico, baseado numa lei natural ou em cálculos matemáticos, que permita saber se está a chover sem ser necessário ir verificar in loco – empiricamente – o facto de estar a chover, esse método ou esses cálculos matemáticos também são factos.

Em terceiro lugar existe aqui um problema adicional:

Por exemplo, quando uma pedra está ao sol, aquece; ¿será o Sol a causa do calor da pedra? Sabemos, pelo menos desde Kant, que a “causa” é uma ideia que existe apenas na nossa cabeça – não é possível, em bom rigor, ver a causa em qualquer lugar. A causa só existe na nossa cabeça e no nosso pensamento. Ou seja, o facto de a pedra ser aquecida pelo Sol é um produto da percepção sensorial e do esforço interpretativo do cérebro. E voltamos à definição de “facto”: é algo que adquiriu estrutura na nossa cabeça.

Na mesma medida em que a “causa” do aquecimento da pedra pelo Sol é um facto, a chuva que vemos cair também é um facto. O ser humano transporta consigo uma multitude de categorias na cabeça (o Homem tem uma espécie de software no cérebro que interpreta a realidade) de modo a que possa ordenar a realidade caótica das percepções sensoriais.

A ciência meteorológica pode tentar saber se vai chover, mas não pode ter a certeza do prognóstico de chuva (mesmo que o céu esteja carregado de nuvens e com baixas pressões atmosféricas), porque todas as observações científicas foram feitas no passado. Não existem quaisquer garantias de que, no futuro, as observações voltem a surgir da mesma forma apesar de existir uma determinada probabilidade.

Corolário: não é possível afirmar, de maneira nenhuma, que os factos podem ser pressupostos — de forma indiscutível — como pontos de partida da ciência (e, por isso, do conhecimento).

Segunda-feira, 4 Fevereiro 2013

David Hume e o milagre

“Dado que uma experiência uniforme equivale a uma prova, que é uma prova directa e completa, produzida pela natureza do facto, contra a existência de qualquer milagre, nenhuma semelhante prova pode ser destruída ou o milagre só pode tornar-se credível por meio de uma prova oposta e que seja superior.”
— David Hume, “Investigações sobre o Entendimento Humano”

Não vamos refutar este preconceito negativo de David Hume por intermédio da teologia (o que seria possível por alguém que não eu, porque não sou teólogo), mas antes vamos refutá-lo utilizando a ciência.
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Quarta-feira, 6 Junho 2012

A Teoria do Balde, de Karl Popper

“É revelador da condição humana que todas as provas e factos empíricos são por norma incapazes de mudar as fortes crenças ideológicas dos indivíduos. É por isso que só é possível contrapor uma narrativa (política) com outra mais sedutora.”

Esta proposição foi respigada no FaceBook e é da autoria de um jovem que faz um mestrado universitário, e que colabora num blogue hayekiano. A proposição necessita de ser interpretada para fazer algum sentido, porque inclui nela uma série de conceitos que, sem uma interpretação, valem pouco.

Duas perguntas: 1) o que é um facto? 2) será que depois de definirmos “facto”, podemos saber se os factos conduzem a uma aproximação da verdade que racionalize [ou seja, que as fundamentem logicamente] as crenças ideológicas?
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Sexta-feira, 23 Setembro 2011

Nós, naturalistas, salvamos o mundo !

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A angústia dos naturalistas e dos cientificistas espelha-se em postais como este. O desespero começa a ser incontrolável: afinal, a matemática até tinha razão, ora que porra! E tudo o mais que a matemática prediz e que nós, naturalistas, não conseguimos provar empiricamente? Isto não será apenas a ponta do aicebergue…?! Ah! Como sofre um naturalista…! O mundo é mau e ontologicamente injusto!

Por isso, é absolutamente necessário reduzir a religiosidade transcendental humana ao curandeirismo, porque a única religião válida e racional, é a nossa, a dos naturalistas. Nós fomos sancionados pelos profetas Nietzsche e Darwin, e seguimos o único caminho da salvação.

Terça-feira, 2 Agosto 2011

O universo não cabe num laboratório

Este postal é interessante e vou interligá-lo com estoutro.

1.
Hans Albert colocou o problema desta maneira: “Não é possível garantir absolutamente a verdade de qualquer afirmação, nem sequer a verdade desta afirmação.”

O conceito de “hipótese” (ou “teoria”) só tem sentido racional e lógico se existe uma realidade que comprova a hipótese como sendo correcta ou falsa. Por isso, se nada no mundo é absolutamente certo — ou se não existe uma certeza absoluta acerca do que seja — pelo menos a Totalidade (ou o Englobante), da qual a minha vida e o meu mundo fazem parte, tem que ser real. A realidade da Totalidade garante a realidade da parte [e a Totalidade não é idêntica a uma parte de si própria], por um lado, e a realidade só pode ser deduzida da Totalidade [que não pode ser sujeito nem objecto, mas aquilo que engloba ambos], por outro lado.

Em consequência, a realidade da Totalidade é o pressuposto fundamental de uma visão realista do mundo: temos, pelo menos, uma certeza absoluta (passo a redundância enfatizante): a de que a Totalidade existe e não é só uma hipótese.
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Quarta-feira, 13 Julho 2011

Racionalismo não é racionalidade

O realismo ingénuo consiste, basicamente, na noção comum segundo a qual a realidade está de acordo com as percepções [sensoriais] que temos dela. Embora as coisas não se passem exactamente de acordo com o realismo ingénuo, este é necessário à formatação do senso-comum.

A cadeira em que estou sentado, segundo o realismo ingénuo, é sólida e compacta o suficiente para suportar o meu peso; e quem insistir no contrário disto, estará a precisar de tratamento psiquiátrico. Porém, a verdade é que a cadeira em que me sento é composta mais por vácuo do que por matéria (partículas elementares); mas essa realidade da “cadeira quântica”, é microscópica, e por isso, não pode influenciar sobremaneira o nosso senso-comum que é predominantemente macroscópico.
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Terça-feira, 15 Março 2011

O neo-ateísmo e a quântica (II)

O ateísmo como ideologia — e mais tarde, como religião política — consolidou-se a partir do século XIX com o empirismo de Stuart Mill, completado pelo evolucionismo de Spencer, o que levou os espíritos a não ver no Homem senão um autómato, a reduzir a vida espiritual a uma mecânica, ou a imagens sensíveis regidas por leis de associação — da mesma forma que os átomos supostamente actuavam em concordância com a lei da gravitação. O mundo empírico e utilitarista de Stuart Mill, na esteira ideológica do positivismo, resumia-se num conceito: WYSIWYG (“aquilo que vês é só o que existe”).
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Sexta-feira, 30 Janeiro 2009

A ciência não existe

Filed under: Religare — O. Braga @ 9:29 am
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Basta que exista uma observação empírica de um cisne preto (ou de outra cor) para que a proposição “todos os cisnes são brancos” seja considerada como falsa. Ao ser considerada falsa uma particular proposição referente a uma determinada matéria em análise, essa matéria pode ser considerada como objecto de estudo científico.

Temos, pois, que a categoria “CORES DOS CISNES” merece a atenção da ciência, porque bastou provar que uma só proposição (individual) relacionada com as cores dos cisnes, era falsa, para que essa categoria (universal) pudesse ser integrada na ciência.

É isto o resumo do Princípio da Falsicabilidade de Karl Popper que ele achou ser “um grande avanço” em relação ao método científico tradicional que se baseava exclusivamente na verificação empírica das teorias. Sinceramente, não vejo grande diferença entre o velho método neo-empirista de validação e o princípio da falsificabilidade de Popper.

Em ambos os métodos de análise, não é a verdade ou a falsidade da proposição que é importante, mas somente o facto de a verdade ou a falsidade da proposição poderem serem determinadas através da observação empírica, ou por dedução baseada em critérios empiricamente consolidados (o que vai dar ao mesmo). Portanto, os dois métodos são fundamentalmente a mesma coisa.


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Quarta-feira, 27 Fevereiro 2008

Exercício sobre a opinião da ministra, à luz de Hume e de Kant

Enunciado

No último programa dos Prós + Contras na TV, a ministra da educação respondeu a uma crítica de uma professora que sustentava a ideia de que a gestão da educação tem sido sistematicamente entregue a ministros que não têm conhecimento directo da área educativa. A ministra ripostou com o argumento que não é necessário que uma pessoa tenha conhecimentos específicos sobre uma determinada área para ser ministeriável. Será verdadeira esta afirmação da ministra?

Observação

Na minha opinião, trata-se de uma inverdade transformada em verdade cultural sagrada pelo tipo de sociedade que temos. Vou recorrer à “Crítica da Razão Pura” de Kant para provar que a ministra não tinha razão na sua afirmação.
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Terça-feira, 23 Outubro 2007

As virgens dos zulus

Na África do Sul, o movimento das “virgens zulus” manifesta-se nas ruas das cidades contra uma lei do governo que legaliza o aborto para jovens a partir dos 12 anos, e sem o consentimento dos pais; os progenitores não são tidos nem achados em todo o processo de aborto em meninas de 12 anos.

A Cultura zulu, cujos fins vão para além da Razão (como em todas as Culturas), defende que as raparigas devem ser virgens até ao casamento, que pode ocorrer em qualquer idade depois da puberdade. Segundo a Cultura zulu, uma rapariga de menor idade e desde que atinja a puberdade, pode casar com o consentimento dos pais, mas as mulheres zulus defendem (culturalmente) a virgindade até ao casamento.
É certo que na África do Sul, a incidência de jovens raparigas solteiras grávidas é grande – não nas comunidades rurais de Cultura zulu, mas sobretudo nos grandes espaços urbanos, onde a Cultura ancestral zulu se perde e os valores culturais zulus desaparecem.
O que o governo sul-africano está a tentar fazer, é impor uma “cultura” fabricada pelo racionalismo dogmático, escorada num empirismo científico, tentando preencher por via da Lei um vácuo cultural gerado na heterogeneidade e na perda de referências culturais e morais das grandes metrópoles, tentando criar um novo combustível moral por via da lei, em vez de ser a lei fruto do combustível moral e ético decorrente da Cultura zulu.
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