perspectivas

Segunda-feira, 27 Abril 2015

A crença de que há crenças científicas verdadeiras desligadas da metafísica

Filed under: filosofia — O. Braga @ 9:02 am
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O Aires de Almeida cita aqui um texto sobre as “crenças”, texto esse que se auto-refuta — desde logo porque a Terra não é completamente redonda mas é achatada nos pólos, e depois, mesmo que não fosse achatada nos pólos, a Terra nunca seria idealmente redonda.

O conceito de “redondo” não é totalmente materializável senão eventualmente (“eventualmente” porque não está empiricamente verificado senão por inferência que pode ser falsa) a nível microscópico, e tudo o que é “redondo” no nosso mundo é uma aproximação a uma forma ideal de “redondo” (David Hume, por exemplo, ou Platão). O conceito de л (PI) é “irracional” (no sentido da razão humana), e por isso pertence à metafísica.

Quando dizemos que “a Terra é redonda”, laboramos em uma representação metafísica. Trata-se de uma razão epistémica que se fundamenta na metafísica. Portanto, a afirmação de que “a Terra é redonda” é uma crença verdadeira se, e só se, tiver como modelo ideal e representativo a “redondez” ideal e formal que não existe realmente no mundo macroscópico em que vivemos.

A proposição “a Terra é redonda” é uma proposição metafísica — porque, de contrário, não seria uma proposição verdadeira.

Podemos considerar uma crença como sendo falsa, mas sendo ela verdadeira; e podemos considerar outra crença verdadeira, mas sendo ela falsa. Não há nada que nos garanta que todas as crenças científicas actuais sejam verdadeiras. Portanto, não podemos afirmar que “ciência” é sinónimo de “verdade”: o que podemos dizer, com algum optimismo, é que “a ciência procura a verdade”.

O argumento de Pascal sobre a crença em Deus é lamentável — como quase todos os argumentos da escola de Port-Royal e dos Jansenistas são lamentáveis — porque é um argumento utilitarista no sentido moderno do termo: considera-se a “realidade de Deus” (e não a “existência de Deus”, porque Deus não existe no espaço-tempo da mesma forma que o personagem Aires de Almeida existe) em função de uma qualquer utilidade prática julgada conveniente. Portanto, não se trata de uma razão pragmática, mas antes de uma razão absurda.

Sábado, 22 Junho 2013

Quando chove e quando faz sol

“Será possível saber que está a chover quando não está a chover? A resposta razoável é que não. E porquê? Porque a afirmação “Sei que está chover” implica que está a chover. É isto que significa dizer que o conhecimento é factivo.” (respigado aqui).

Em primeiro lugar, a pergunta “será possível saber que está a chover quando não está a chover?” é capciosa, porque só se pode saber que está a chover se estiver (mesmo) a chover. Ou seja, ninguém pode saber que está a chover – o que é diferente de se saber se está a chover – se não estiver realmente a chover.
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Em segundo lugar, um facto é algo que adquiriu uma estrutura na nossa consciência. Mesmo que o facto seja, como é, um dado da experiência, esta não é apenas sinónimo de “experimentação”. Um facto não é sempre um fenómeno. O enunciado de uma lei científica, acerca de um fenómeno, transforma-a em facto que não se confunde com o fenómeno em si mesmo.

Se existir um método científico, baseado numa lei natural ou em cálculos matemáticos, que permita saber se está a chover sem ser necessário ir verificar in loco – empiricamente – o facto de estar a chover, esse método ou esses cálculos matemáticos também são factos.

Em terceiro lugar existe aqui um problema adicional:

Por exemplo, quando uma pedra está ao sol, aquece; ¿será o Sol a causa do calor da pedra? Sabemos, pelo menos desde Kant, que a “causa” é uma ideia que existe apenas na nossa cabeça – não é possível, em bom rigor, ver a causa em qualquer lugar. A causa só existe na nossa cabeça e no nosso pensamento. Ou seja, o facto de a pedra ser aquecida pelo Sol é um produto da percepção sensorial e do esforço interpretativo do cérebro. E voltamos à definição de “facto”: é algo que adquiriu estrutura na nossa cabeça.

Na mesma medida em que a “causa” do aquecimento da pedra pelo Sol é um facto, a chuva que vemos cair também é um facto. O ser humano transporta consigo uma multitude de categorias na cabeça (o Homem tem uma espécie de software no cérebro que interpreta a realidade) de modo a que possa ordenar a realidade caótica das percepções sensoriais.

A ciência meteorológica pode tentar saber se vai chover, mas não pode ter a certeza do prognóstico de chuva (mesmo que o céu esteja carregado de nuvens e com baixas pressões atmosféricas), porque todas as observações científicas foram feitas no passado. Não existem quaisquer garantias de que, no futuro, as observações voltem a surgir da mesma forma apesar de existir uma determinada probabilidade.

Corolário: não é possível afirmar, de maneira nenhuma, que os factos podem ser pressupostos — de forma indiscutível — como pontos de partida da ciência (e, por isso, do conhecimento).

Quinta-feira, 16 Junho 2011

A dificuldade do conhecimento (2)

Filed under: filosofia — O. Braga @ 8:34 pm
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Para S. Tomás de Aquino, “a verdade é a adequação entre a inteligência humana que concebe, por um lado, e a Realidade, por outro lado”. Esta noção de Verdade, segundo S. Tomás de Aquino, tem sido muito mal interpretada por muita gente ilustre, e muitas vezes por má-fé e no sentido de distorcer a sua verdade.

Vejamos uma proposição de Kant: “O entendimento cria as suas leis (as leis da natureza), não a partir da natureza, mas impõe-lhe-as.” (Crítica da Razão Pura).

E por último, uma proposição de Karl Popper: “As nossas teorias científicas, por melhor comprovadas e fundamentadas que sejam, não passam de conjecturas, de hipóteses bem sucedidas, e estão condenadas a permanecer para sempre conjecturas ou hipóteses”.


A Realidade, segundo S. Tomás de Aquino, é algo que está separado da inteligência humana que concebe. E quanto mais próximo (adequação) estiver o espírito (do Homem) em relação à Realidade, mais próximo estará o espírito em relação à Verdade. Porém, para S. Tomás de Aquino, a Realidade não era apenas o mundo das coisas empíricas e da percepção humana; tão pouco, para ele, a Realidade era apenas o mundo da linguagem humana, como os modernos tentam fazer crer e atribuir a S. Tomás de Aquino. A Realidade, para S. Tomás de Aquino, é a totalidade com fundamento em Deus.

Quando Kant diz que o Homem cria as leis da natureza, tem razão até certo ponto: o Homem tenta adequar a sua inteligência à Realidade, e ao fazê-lo, fá-lo inexoravelmente de uma forma unilateral: impõe as suas leis à natureza, independentemente de essas leis estarem, ou não, totalmente certas ou corresponderem à Verdade. O Homem tenta aproximar-se da Realidade e, portanto, da Verdade.

Porém, por mais que o Homem tente aproximar-se da Realidade por via racional, nunca existirá uma total e perfeita adequação entre o sujeito e o objecto. E por isso é que Karl Popper faz-me o favor de concluir este postal dizendo que viveremos sempre à sombra de conjecturas ou hipóteses.

Quinta-feira, 18 Novembro 2010

O gnosticismo moderno da esquerda jugular e caviar

Eu tenho muita dificuldade em lidar com gente que chama os outros de “ignorantes” mas não explica por quê. Eu penso que chamar alguém de ignorante, ou estúpido, ou seja o que for, é legítimo desde que se explique por quê. Porém, uma característica da esquerda jugular / caviar é a adjectivação panfletária — tipo “slogan” : cola-se um rótulo no adversário e fica o assunto resolvido.

Acho que se deveria dizer: “você é ignorante por isto, aquilo e aqueloutro”. Reparem: é uma chatice a gente ser ignorante e não saber a razão da nossa ignorância…
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Sábado, 17 Abril 2010

A Teoria das Descrições de Bertrand Russell

Quando falamos de ateísmo, não é de Richard Dawkins ou de Christopher Hitchens que devemos tomar nota. Os livros e artigos de ambos, e incluindo Sam Harris e Daniel Dennett, são um conjunto de narrativas com muito pouca lógica. Os argumentos destes quatro apelam mais ao instinto e à emoção primária — na esteira de Nietzsche — do que à racionalidade.
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Quarta-feira, 27 Fevereiro 2008

Exercício sobre a opinião da ministra, à luz de Hume e de Kant

Enunciado

No último programa dos Prós + Contras na TV, a ministra da educação respondeu a uma crítica de uma professora que sustentava a ideia de que a gestão da educação tem sido sistematicamente entregue a ministros que não têm conhecimento directo da área educativa. A ministra ripostou com o argumento que não é necessário que uma pessoa tenha conhecimentos específicos sobre uma determinada área para ser ministeriável. Será verdadeira esta afirmação da ministra?

Observação

Na minha opinião, trata-se de uma inverdade transformada em verdade cultural sagrada pelo tipo de sociedade que temos. Vou recorrer à “Crítica da Razão Pura” de Kant para provar que a ministra não tinha razão na sua afirmação.
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Sábado, 10 Novembro 2007

A especialização “com antolhos” é positiva?

Filed under: Política,Sociedade — O. Braga @ 7:59 pm
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Será possível mudar o actual sistema de ensino tendente a uma especialização exclusiva, para um ensino que dê ao cidadão um conhecimento global, sem se perder a vantagem da especialização? Eu penso que sim, se muitos dos fundamentos do nosso ensino e da organização da sociedade forem modificados.
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