perspectivas

Domingo, 27 Junho 2010

As lobotomias culturais suaves, para bem do povo obediente e chão

Este senhor, que dizem ser professor universitário, pega em Fernando Pessoa, retorce o seu pensamento, substitui “patriotismo” por “nacionalismo”, e passa a uma narrativa presentista que faz a apologia do nacionalismo “sintético” ou “cosmopolita”, segundo Fernando Pessoa.

« O nacionalista tradicionalista vai ao passado para descobrir o presente. O nacionalista integral vai ao presente e ao passado para descobrir o presente. O nacionalista cosmopolita busca o presente apenas no presente. »

— Fernando Pessoa, “O Preconceito Tradicionalista”.


Naturalmente que fazendo a apologia do nacionalismo presentista (sintético ou cosmopolita, na percepção de Fernando Pessoa), transforma o patriotismo em coisa cognitiva. O patriotismo cosmopolita é definido por Pessoa como “atribuir a uma nacionalidade, como princípio de individuação, não uma tradição determinada, nem um psiquismo determinante tal, mas um modo especial de sintetizar as influências do jogo civilizacional. (…) Para ele [para o nacionalista cosmopolita] não há propriamente uma alma nacional; há apenas uma direcção nacional. Uma nação tem apenas, dados os factores inalienáveis de situação geográfica, um determinado papel no conjunto das nações, de que é formada uma civilização.”

Naturalmente que para Pessoa o nacionalismo integral (o de Pascoaes) era a forma suprema de patriotismo. E esse patriotismo integral pouco tem de cognitivo no sentido do conhecimento — como é conotado o termo “cognitivo” pelo professor presentista —, mas no sentido psíquico e, portanto, necessariamente afectivo.

Em suma, o professor universitário não é um patriota, mas um patrioteiro à espera de melhor dias, em que a Pátria deixe de o ser — mesmo que o não possa confessar já.

Andam na moda as lobotomias culturais. O professor entretém-se com as trepanações nos cérebros de adultos; outros dedicam-se laboriosamente à lobotomia de crianças.

(espeta a faca, e passa a anestesia; mete mais fundo, e passa a anestesia; enterra o punhal mais firme na carne da cultura, e passa o anestésico; e quando nos dermos conta, estamos irremediavelmente em coma cultural)

1 Comentário »

  1. Não existe um dicionário para sabermos o que devemos pensar e como? Pois, aquela coisa da polícia do pensamento como é que funciona? É que eu sou educador e posso estar com defeitos graves e qualquer dia vou dentro. Nada de brincadeiras com coisas sérias.

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    Comentar por Henrique — Domingo, 27 Junho 2010 @ 6:11 pm | Responder


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