perspectivas

Segunda-feira, 4 Março 2013

Para o homem moderno, o Universo é a rede da Internet

Filed under: cultura,filosofia,Religare,Ut Edita — O. Braga @ 12:37 pm
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Faz falta neste texto citado, de Desidério Murcho, um detalhe que é muito importante. Recorrendo a particularidades que diferenciam as religiões em geral, a citação do texto pretende afirmar que “não existe um mecanismo confiável na formação da fé religiosa”. Ou seja, ad liminem, pretende-se dizer que a fé religiosa não é inerente à condição humana entendida em si mesma.

tumba web

O detalhe que falta mencionar na citação Desidério Murcho é o seguinte: a relação lógica entre a morte (a ausência do ser) e o universo (a afirmação do ser).

Todos os seres humanos que não vivam apenas a trivialidade da vida (ou seja: que pensem um poucochinho), e independentemente das suas religiões particulares ou mundividências, partilham desta aparente contradição. Não se trata aqui apenas de intersubjectividade: antes, trata-se de experiência humana!


1/ a lógica diz-nos que o universo tem uma causa qualquer. Dizer que o universo não tem uma causa qualquer é recusar a lógica, e por isso, recusar a razão.

2/ apenas para sublinhar um erro comum (que parece que Plantinga cometeu também), não se pode dizer literalmente que “Deus existe” no sentido da existência no espaço-tempo, porque Deus não é um objecto que faça parte da dimensão sujeito/objecto (Karl Jaspers, recomenda-se!). A imagem vulgar da velhice do Padre Eterno, com as suas barbas brancas, é uma metáfora negada por uns e apoiada por outros, todos eles com QI próximo de 80 (incluindo os ateus e agnósticos).

3/ O ser humano é o único ser do nosso planeta que sabe — tem consciência — que vai morrer. Aqueles que procuram suprimir a ideia da morte — os epicuristas de todos os tempos — das suas consciências, nada mais fazem do que reprimir a presença da morte nas suas vidas; e através dessa repressão psicológica da morte, esta continua, ainda assim, presente na vida dessas pessoas.

Resulta, da realidade da morte, o absurdo do não-ser, em contraponto ao ser do universo. E qualquer ser humano minimamente inteligente, que viva hoje ou no tempo de Sócrates, que seja cristão ou pagão, que tenha nascido a ocidente, a oriente ou nos antípodas — consegue detectar esta antinomia entre o ser do universo, por um lado, e o não-ser da morte, por outro lado. E é desta antinomia que surge a noção intuitiva de Totalidade.

4/ tal como na lógica-matemática, o ser humano recorre a símbolos para traduzir uma realidade que é experimentada em função da noção intuitiva da Totalidade. Esses símbolos são os símbolos religiosos, que podem diferir de uma cultura antropológica para outra, e que dependem das diferenciações culturais decorrentes da descoberta dos valores da ética (Mircea Eliade, recomenda-se!).

Em suma: independentemente das diferenças específicas das religiões mencionadas na citação referida acima, existe em comum ao Homem a experiência da intuição da Totalidade; a confrontação com o absurdo do não-ser através da lógica (porque o negativo não existe senão em função do positivo do ser); e a diferenciação cultural que determina os símbolos e a hermenêutica específica de cada cultura. Ou seja, existe um mecanismo confiável e até evidente na formação da fé religiosa.

Nota: o “problema” da religião na modernidade é o de que o universo está hoje limitado ao mundo sub-lunar das órbitas dos satélites artificiais; para o homem moderno, o universo é hoje reduzido a uma espécie de rede de Internet.

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