perspectivas

Terça-feira, 26 Janeiro 2016

Emotivismo Moral

Filed under: Esta gente vota — O. Braga @ 11:35 am
Tags: , , ,

 

“Outra teoria meta-ética importante é conhecida como emotivismo ou não cognitivismo. Os emotivistas, como A. J. Ayer (1910-1988), no capítulo 6 de Linguagem, Verdade e Lógica, defendem que nenhuma afirmação ética tem literalmente sentido. Não exprimem quaisquer factos; o que exprimem é a emoção do locutor.

Os juízos morais não têm nenhum significado literal: são apenas expressões de emoção, como resmungos, bocejos ou gargalhadas.

Logo, quando alguém diz «a tortura está errada» ou «devemos dizer a verdade», está a fazer pouco mais do que mostrar o que sente em relação à tortura e à honestidade”.

Emotivismo Moral

Deveríamos perguntar ao A. J. Ayer se a sua (dele) proposição ética exprime quaisquer factos, ou se apenas exprime a emoção dele.

E o Rolando Almeida e o Desidério Murcho deveriam colocar esta pergunta aos seus (deles) alunos.

Anúncios

Sexta-feira, 2 Maio 2014

Epistemologia da religião

Filed under: filosofia — O. Braga @ 7:57 pm
Tags: , , ,

 

O Desidério Murcho fala aqui da diferença entre “epistemologia da religião”, por um lado, e da “metafísica da religião”, por outro  lado. Desde logo devemos saber o significa “epistemologia”, porque este termo tem hoje dois significados ligeiramente diferentes.
Na Europa continental — sobretudo em França —, “epistemologia” significa a análise do “espírito científico”: estudo dos métodos, das crises, da História das Ciências Modernas, ou o estudo de uma ciência em particular: por exemplo, epistemologia da matemática, epistemologia da História, etc..
No mundo anglo-saxónico, “epistemologia” mantém ainda um significado semelhante ao de “gnoseologia”, isto é, a análise ou estudo dos processos evolutivos gerais do conhecimento. Desidério Murcho escreve o seguinte:

“O tema central da epistemologia da religião é a adequação da crença em divindades.”

Devemos, dentro do possível, simplificar a nossa linguagem, por forma a evitarmos ambiguidades e/ou anfibolias. “Adequação” significa, neste caso, “correspondência racional”.

Desidério Murcho poderia ter escrito o seguinte: “o tema central da epistemologia da religião é a correspondência racional das crenças religiosas em relação às respectivas divindades”, o que significa que, neste sentido, a “epistemologia da religião” aborda, não o processo evolutivo geral das religiões ao longo do tempo (pré-história e história), mas antes dedica-se à análise lógica e racional da relação entre as diversas religiões (independentemente da sua posição no continuum temporal), por um lado, e as respectivas divindades ou divindade, por outro  lado.

Portanto, estamos em presença do conceito de “epistemologia” como estudo de um método segundo o qual a religião faz corresponder logicamente a sua filosofia, por um lado, com as suas divindades, por outro  lado. Ou seja, aplica-se aqui a noção francesa de “epistemologia”.  E por isso é que ele escreve:

“Do simples facto de existir uma divindade não se segue que seja epistemicamente adequado acreditar na sua existência, e do simples facto de ser epistemicamente adequado acreditar na existência de uma divindade não se segue que essa divindade existe.”

Quando o facto de se acreditar na existência (“existência” no sentido de “realidade”, e não necessariamente como “objecto”) de uma divindade depende de uma análise lógica (“epistemicamente adequado”), estamos então perante o conceito científico (francês) de “epistemologia”, por um lado, e por outro  lado, o facto de não ser epistemicamente (no sentido francês) adequado acreditar na existência de uma divindade, isso não significa que essa adequação não possa vir a surgir no futuro (em função de novas diferenciações culturais e mesmo com o contributo de descobertas da ciência), ou seja, que no futuro uma determinada inadequação lógica e racional entre uma determinada crença religiosa e as suas actuais divindades, não se possa transformar em uma adequação, e em função de novas diferenciações culturais, e de novos dados acerca da realidade que podem provir de novos fenómenos metafísicos ou mesmo da evolução da ciência.

Em suma, e em última análise, é a noção anglo-saxónica de “epistemologia” que se aplica ao estudo das religiões (o racionalismo e a lógica aplicáveis ao estudo das religiões estão sempre colocados entre parêntesis).

Terça-feira, 18 Junho 2013

Alguém que ofereça ao Desidério Murcho um dicionário!

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 4:52 pm
Tags: ,

Consultando o dicionário – coisa que parece não existir para Desidério Murcho – constatamos o seguinte:

  • Missão: acto de enviar; incumbência; comissão diplomática; obrigação; encargo.
  • Missionário: aquele que missiona ( ver definição de “missão” supracitada).

Haja, por favor, alguma alma caridosa que ofereça um dicionário ao Desidério Murcho, para que ele perceba que “espírito de missão” não significa “trabalhar de borla”.

Sábado, 15 Junho 2013

Desidério Murcho e o economês

O Desidério Murcho revela aqui, pelo menos, um desconhecimento parcial acerca da realidade concreta (no “terreno”) da economia portuguesa, tanto nos aspectos intrínsecos como extrínsecos; e dentro desse desconhecimento parcial, separa os dois aspectos, como se tratassem de duas realidades distintas.

A primeira falácia de Desidério Murcho consiste em afirmar que o Estado português é mais intrusivo na economia do que, por exemplo, o Estado alemão – o que não é verdade. A virtude do Estado alemão em relação ao Estado português é que o primeiro é muito menos burocrático do que o segundo. Se retirarmos a burocracia da equação, o grau de intrusão dos dois Estados nas respectivas economias é equivalente. Por exemplo, o rácio percentual – em relação ao PIB – que existe entre a despesa do Estado alemão e a do Estado português é semelhante.

O que Desidério Murcho defende parece ser o seguinte:

  • a Alemanha tem uma percentagem do PIB de 45% afectada à despesa do Estado. Logo, conclui Desidério Murcho, Portugal deveria ter uma percentagem do PIB afectada na metade ou menos – por exemplo, 10% do PIB. E o ideal, segundo Desidério Murcho, seria que a despesa do Estado português fosse de 0% do PIB. Seríamos, então, todos alemães!

Em segundo lugar, o Desidério Murcho padece de uma fé metastática que decorre de uma interpretação delirante da realidade.

Dou um exemplo: o facto de as empresas portuguesas privadas (sublinho: privadas) venderem mais caro do que as suas congéneres alemãs, nada tem a ver com a vontade dos empresários, mas antes com a economia de escala e com a diferença de dimensão dos respectivos mercados internos. O conceito de “mercado único europeu” é maior embuste político depois da queda do muro de Berlim, porque o mercado é “único” apenas e só para quem tem, à partida, um mercado interno com uma dimensão tal que permita dissolver a concorrência das empresas dos mercados mais pequenos.

Dentro do Euro, não temos futuro como nação, e senão como colónia. E o que Desidério Murcho defende é o Portugal-colónia em nome do liberalismo económico.

Segunda-feira, 22 Abril 2013

A tolerância do sofista Desidério Murcho

Filed under: ética,filosofia — O. Braga @ 8:59 pm
Tags: , ,

Desidério Murcho mistura aqui “relativismo” e “tolerância”, como se existisse um nexo causal directo entre os dois conceitos. Há relativistas que são intolerantes (por exemplo, os marxistas culturais; a tolerância do Bloco de Esquerda é aparente).

Por vezes penso em como é possível que Desidério Murcho cometa erros deste calibre — porque ter opinião — e mesmo que seja doxa —, significa sempre tentar impor essa opinião aos outros. Por exemplo, se eu digo uma coisa tão simples como “a cor do céu é verde”, seja verdadeira ou não esta minha proposição, ela é uma imposição da minha opinião aos outros, e cabe a outrem refutar essa opinião mediante factos e argumentos.

(more…)

Domingo, 10 Março 2013

O cinismo do naturalismo

“Quem somos? De onde viemos? Estas duas perguntas são geralmente o primeiro passo da hipocrisia comum que tem duas partes. Primeiro, a pessoa finge ter um interesse genuíno pelas perguntas, quando na verdade só lhe interessa exibir o que considera a sua superioridade cultural. Segundo, a pessoa não tem em mente uma investigação séria que vise responder às perguntas, mas antes um discurso heróico e reconfortante que nos diga que os seres humanos são superiores.

Contudo, para quem se interessa genuinamente por estas perguntas, o livro Last Ape Standing é uma excelente leitura. O autor, Chip Walter, não é cientista; mas informou-se sobre os últimos desenvolvimentos científicos quanto à nossa origem e apresenta-nos esses dados e especulações numa prosa simples e divertida.”

via De Rerum Natura: A família humana.

Na citação supra, verificamos a arrogância do naturalismo, escondida sob a capa rota e depauperada de Antístenes, o cínico, que, seminu e envolto na sua capa rota, dizia que Platão era um vaidoso e que “se comportava como um cavalo que se pavoneia”. E Sócrates, vendo que Antístenes exibia ostensivamente a parte mais degradada da sua capa, dizia-lhe: “ Vejo, pelo teu manto, ó Antístenes, que procuras a glória” [citação de Diógenes Laércio].

A Desidério Murcho só lhe falta o bastão tradicional do cínico grego para distribuir bordoadas por tudo quanto é gente. Por detrás da complacência em relação à Natureza, vive um cínico grego actualizado que procura a glória mediante a exibição pública da sua paupérrima capa. A capa rota do cínico moderno é o politicamente correcto que inclui uma mundividência falaciosa acerca do ser humano. A superioridade do cínico moderno — tal qual acontecia com Antístenes — reside na negação sistemática, no ser humano, de qualquer superioridade.

A lógica do niilismo cínico é esta: se se afirma que “ninguém é culturalmente superior”, então, “é culturalmente superior quem constata que ninguém é culturalmente superior”. E a superioridade última do cínico moderno, em relação ao comum dos mortais, consiste nomeadamente em constatar e afirmar que o ser humano não é superior ao símio.

Ao cínico não lhe interessa a ciência: antes, segue um dogma. O cínico é a antítese do céptico grego (cepticismo científico); e transformou-se no céptico moderno que não questiona o seu dogmatismo céptico. Para o cínico moderno, o cepticismo é um dogma (por exemplo, Bertrand Russell).

E mesmo não fazendo a mínima ideia de como, por exemplo, uma baleia “surgiu” de uma bactéria ou de um organismo unicelular, o cínico moderno exibe a sua capa rota, procurando a glória, e afirmando que “uma baleia é uma bactéria que é um cão que é um lobo que é um símio que é um ser humano”. E nivelando tudo e todos pela mesma bitola, o cínico afirma, glorioso, a sua superioridade.

Segunda-feira, 4 Março 2013

Para o homem moderno, o Universo é a rede da Internet

Filed under: cultura,filosofia,Religare,Ut Edita — O. Braga @ 12:37 pm
Tags: , ,

Faz falta neste texto citado, de Desidério Murcho, um detalhe que é muito importante. Recorrendo a particularidades que diferenciam as religiões em geral, a citação do texto pretende afirmar que “não existe um mecanismo confiável na formação da fé religiosa”. Ou seja, ad liminem, pretende-se dizer que a fé religiosa não é inerente à condição humana entendida em si mesma.

tumba web

O detalhe que falta mencionar na citação Desidério Murcho é o seguinte: a relação lógica entre a morte (a ausência do ser) e o universo (a afirmação do ser). (more…)

Segunda-feira, 25 Fevereiro 2013

E eles a darem-lhe!

Filed under: acordo ortográfico — O. Braga @ 6:31 pm
Tags: , ,

Outro que diz que a ortografia de uma língua é “convenção”! Como se o latim nunca tivesse existido, como se as línguas arianas não tivessem raízes comuns — do latim, ao grego, à língua dos vedas indianos —, como se Ferdinand de Saussurre não tivesse sido já colocado em causa, e como se o português não tivesse tido a sua origem culta e simbólica no latim.

Já que se trata de uma pessoa que estudou filosofia, faço a pergunta: o estudo filosófico da ortografia e oralidade de uma língua — a linguagem, escrita e falada — ¿ é objecto da hermenêutica ou da semiótica? Os pragmatistas americanos dizem que é objecto da semiótica; e (também) por isso é que os maiores pensadores do século XX — desde Ortega y Gasset a Karl Jaspers, por exemplo — desprezaram profundamente os pragmatistas.

É que, pelo contrário, se a língua for objecto da hermenêutica, estamos a falar de símbolos, e não de sinais. Os sinais são convencionados, mas os símbolos não são. A linguagem é simbólica, e por isso não é convencionada: o símbolo tem uma representação, e se mudarem o símbolo, a respectiva representação também muda, ou extingue-se mesmo. Em contraponto, se se mudar um sinal, o seu significado mantém-se igual ao do sinal anterior.

Os “engenheiros sociais” politicamente correctos, responsáveis pelo empobrecimento da língua portuguesa (que se encontram maioritariamente no Brasil, mas também por cá), sabem muito bem que a linguagem é simbólica, e por isso não é convencionada no sentido de ser um conjunto de sinais. E sabem bem que mudando os símbolos se mudam os conteúdos representados. E é essa a razão principal por que sendo o Brasil um pais com mais de 200 milhões de habitantes e falantes da língua, nunca teve um Nobel da literatura; e, a julgar pelo andamento das sucessivas reformas ortográficas brasileiras (rumo ao Tupiniquim), não terá tão cedo.

Domingo, 24 Fevereiro 2013

A destruição da autoridade, os totalitarismos, e o movimento revolucionário

“Deve o cidadão desistir da sua consciência, ainda que por um instante ou em último caso, e dobrar-se ao legislador? Por que razão estará então cada homem dotado de uma consciência? Na minha opinião devemos ser em primeiro lugar homens, e só depois súbditos.”

via De Rerum Natura: Henry Thoreau.


“Ninguém se revolta contra a autoridade, mas antes contra aqueles que a usurpam.” — Nicolás Gómez Dávila

«O ateísmo é sempre o produto de uma má colocação do problema de Deus. Como em Filosofia não há questões insolúveis, mas apenas mal colocadas, o ateísmo moderno parece uma questão insolúvel porque é mal colocada.» — Mário Ferreira dos Santos


Hannah Arendt reflectiu sobre a autoridade e chegou à conclusão de que ela já não existe vincada na mente do homem moderno:

“Para evitar mal-entendidos, talvez fosse mais sensato intitular este ensaio: o que foi, e não o que é, a autoridade; pois sou da opinião de que aquilo que nos permite e nos incita a formular esta pergunta é o facto de a autoridade, no mundo moderno, ter desaparecido. Não podendo nós apoiar-nos já em experiências verdadeiras e indubitáveis, comuns a todos, o significado do próprio termo acabou por se perder em controvérsia e confusões.

'Angelus', de Jean-François Millet

‘Angelus’, de Jean-François Millet

Não há muita coisa na natureza da autoridade que seja auto-evidente, ou sequer passível de ser compreendida por todos; pese embora o facto de o cientista político ser ainda capaz de recordar que este conceito foi, em tempos, fundamental para a teoria política, e que a maioria das pessoas estará de acordo em que em que uma crise de autoridade, constante e cada vez mais ampla e profunda, tem acompanhado o desenvolvimento do mundo moderno no nosso século.

A crise, patente desde o início do século, tem uma natureza e uma origem políticas. A ascensão de movimentos políticos apostados em substituir o sistema de partidos, e o desenvolvimento de uma nova forma de governo, o totalitarismo, ocorreram contra um pano de fundo de declínio mais ou menos geral, mais ou menos dramático, de todas as autoridades tradicionais. Em parte nenhuma este declínio resultou da intervenção directa dos regimes ou dos próprios movimentos políticos: tudo se passou, antes, como se o totalitarismo, sob a forma de movimentos ou de regimes, se mostrasse particularmente apto para tirar partido de uma atmosfera política e social em que o sistema de partidos havia perdido o seu prestígio e a autoridade do governo deixara de ser reconhecida.” — Hannah Arendt, “Entre o Passado e o Futuro”, 2006, páginas 105-106

Hannah Arendt reconhece o óbvio: os totalitarismos do século XX são produtos da destruição da autoridade.

O que Hannah Arendt não consegue ver é a relação entre a destruição da autoridade, por um lado, e a acção do movimento revolucionário ao longo de toda a História da Europa, desde a antiguidade tardia e do período da decadência de Roma imperial, por outro lado. Ou melhor: se calhar, ela viu essa relação, mas não lhe terá agradado falar nisso; esse silêncio faz parte da “traição dos intelectuais” do século XX, de que nos falou Julien Benda; Hannah Arendt não fugiu à regra.

“Quando começamos a contar, começamos a errar.” — Santo Agostinho

Desde a Reforma e da “república dos eleitos”, de Calvino, que se acelerou o processo de degradação da autoridade. Foi nessa altura que surgiram os primeiros ensaios dos totalitarismos do século XX. Mais tarde, já no século XVII, Cromwell interpretou o espírito do movimento revolucionário que consolidaria o modelo dos totalitarismos futuros. Hobbes fez o “trabalho de casa” e tentou fundamentar o absolutismo gnóstico que já vinha da antiguidade tardia; e, mais tarde, Rousseau seguiu-lhe o exemplo.

«Ter apenas uma “mente aberta” é nada. O objectivo de abrir a mente, como o de abrir a boca, é o de tornar a fechá-la face a algo sólido.» — G. K. Chesterton

Por debaixo dos conceitos de igualdade (formal), fraternidade (sem Pai e, por isso, sem a Unidade do Ser ou Deus), e liberdade (negativa), a modernidade, conduzida por uma nova versão, actualizada, do gnosticismo antigo, não tinha outra alternativa senão descambar nos totalitarismos do século XX: e foi isso que Hannah Arendt não viu ou não quis ver.


« (…) a lógica do liberalismo político leva-o a tolerar ideias ou movimentos que têm como finalidade destruí-lo. A partir daí, perante a ameaça, o liberalismo está condenado, quer a tornar-se autoritário, isto é, a negar-se ― provisória ou duradouramente ― a si mesmo, quer a ceder o lugar à força totalitária colocada no poder por meio de eleições legais (Alemanha, 1933) » — Edgar Morin

Não há volta a dar. Dêem as voltas que quiserem dar; metam todos a cabeça na areia; façam de conta que as coisas não são o que são; entrem em delírio interpretativo, em utopias delirantes; recusem a realidade. Mas nem por isso passarão a ter razão. Edgar Morin viu aquilo que a esmagadora maioria dos “intelectuais” recusa ver: o liberalismo político é apenas uma fase transitória em direcção a um qualquer totalitarismo.

“Não sei se existe um destino, ou se tudo acontece ao sabor da brisa. Talvez sejam as duas coisas ao mesmo tempo.” — Forrest Gump

Domingo, 3 Fevereiro 2013

A Lógica; e a mulher na Idade Média.

Filed under: filosofia,Ut Edita — O. Braga @ 7:28 pm
Tags: ,

“Muitos cientistas pensam erradamente que é o contacto com a experiência que caracteriza a atitude científica. Isto é evidentemente falso, pois sem matemática não há ciência empírica, a matemática não é empírica e continuaria a ser perfeitamente científica mesmo que não tivesse qualquer contacto com a experiência (como, de facto, grande parte da matemática não tem).”

via De Rerum Natura: Matemática, empirismo e Gödel.

Estou de acordo com o que Desidério Murcho escreveu na ligação acima em relação à ciência, ou seja, não há dúvida que o empirismo só nos traz soluções empíricas. Porém, gostaria de tornar precisa uma certa ideia de ciência, que pode transparecer do início do texto, e segundo a qual “o contacto com a experiência não caracteriza a atitude científica”.

Existem ciências ditas “empíricas”, que se baseiam, grosso modo, no princípio científico de Aristóteles segundo o qual se parte sistematicamente da experiência para a teoria (através da indução, inferência e dedução) mediante uma abstracção em relação a casos particulares e a universalização em leis, e depois o retorno da teoria para a experiência. Por exemplo, a biologia é uma destas ciências ditas empíricas, e o mesmo já não se passa, exactamente de idêntico modo, com a física.

E uma situação parecida passa-se, até certo ponto, com a própria matemática: por exemplo, os números naturais são “invenção” humana, embora o mesmo já não se passe com os números primos ou com os números racionais, que existem independentemente de o Homem os descobrir. Portanto, o próprio desenvolvimento da matemática, a partir dos axiomas da lógica, tem uma base empírica (os números naturais).


'Angelus', de Jean-François Millet

‘Angelus’, de Jean-François Millet

Por outro lado, a ideia que Desidério Murcho faz do papel social da mulher na Idade Média, por exemplo, é errada, e revela desconhecimento ou desconstrução da História. É uma ideia politicamente correcta defendida pela ideologia, que “é um modo que a modernidade concebeu para dar opinião a quem não sabe pensar” (Nicolás Gómez Dávila).

É uma evidência que a mulher (entendida em juízo universal) não tem hoje mais poder na sociedade do que tinha na Idade Média (em termos relativos à condição humana da época, em geral): apenas mudaram alguns pressupostos culturais; e falta saber se esses pressupostos culturais mudaram para melhor ou para pior, a condição feminina.

Por exemplo, na cultura intelectual, e em termos relativos, a mulher da Idade Média era mais influente na sociedade do que é hoje. O que aconteceu foi que essa cultura intelectual feminina transpareceu pouco quando a história foi enviesadamente contada e desconstruída pelo Iluminismo (ver o que Habermas nos contou acerca da sociedade burguesa iluminista, e do conceito de “Publicidade”) — o que não significa que essa cultura intelectual feminina não tenha existido.


Sobre o logicismo e as suas origens, convém distinguir “lógica”, por um lado, e por outro lado, e “axiomas lógicos” — porque existe uma certa confusão entre os axiomas decorrentes da lógica, por um lado, e os axiomas que determinam a lógica, por outro lado. Os primeiros são a posteriori, e os segundos a priori. Por exemplo, o modus ponens é um axioma a posteriori, ao passo que a primeira lei de Leibniz é um axioma a priori. A esse conjunto de axiomas a posteriori convencionou-se chamar de “axiomática” e, neste sentido, considerou-se que “toda a axiomática é convencionada”. Mais uma vez, fomos traídos pela linguagem humana corrente.

Esta “confusão de axiomas” (ou de narizes) acentuou-se no século XIX com a descoberta da geometria pura e da geometria física (Lobachevsky, Bolyai, Riemann) que colocou em causa a “exclusividade da verdade axiomática” da geometria euclidiana. Se “a geometria pode ser aquilo que a gente quiser” — pensaram, em geral, os cientistas do século XIX — então “todos os axiomas (a posteriori e a priori) da lógica também são convencionados”. E a lógica passou a sofrer um tratamento idêntico dado à geometria — até que surgiu Gödel.

Em Gödel, quando se diz que “as verdades matemáticas não são lógicas”, estas verdades matemáticas não deixam de ser axiomáticas (no sentido a priori). Quando se diz que “as verdades matemáticas não são lógicas”, o termo “lógicas” diz respeito à “axiomática”; e, em vez disso, deve querer-se dizer que “não é possível demonstrar a não-contradição dos axiomas de um sistema lógico, pelos próprios meios desse sistema lógico” (ver teorema de Gödel) — o que é muito diferente.

Quarta-feira, 30 Janeiro 2013

Peter Singer, Cristina Beckert e Desidério Murcho na doutrinação mórbida das nossas crianças

De uma professora do ensino secundário, e relativamente a este meu verbete acerca de Peter Singer, recebi o seguinte email:

“Os professores de Biologia no Ensino Básico (7º,8º e 9º) já defendem Darwin e Peter Singer. Quando os meninos chegam ao 10º Ano já vêm com ideias feitas. Por outro lado, a maior parte dos manuais de filosofia também são elaborados por gente que promove: Singer, S. Mill, J. Bentham.”

O 10º Ano é equivalente ao antigo 6º Ano dos Liceus.

O ensino das ideias de Stuart Mill (de que farei um pequeno apontamento noutro verbete) faz todo o sentido, até porque ele foi um “utilitarista não-utilitarista”. Falar de Bentham aos alunos é incontornável, porque ele foi o precursor do utilitarismo. Mas já Peter Singer não traz nada de racional ao utilitarismo: pelo contrário, Peter Singer irracionaliza o utilitarismo. E Desidério Murcho está na primeira linha da propaganda das ideias de Peter Singer nas escolas.

Terça-feira, 29 Janeiro 2013

Desidério Murcho e “o engano de Karl Popper”

Filed under: Ciência,filosofia — O. Braga @ 11:50 am
Tags: , ,

“Mesmo com este exemplo deveria ser óbvio que Popper se enganou, pondo a ênfase nas teorias, em vez de a pôr nos investigadores, nas pessoas.”

via De Rerum Natura: Teoria e realidade.

Ao contrário do que está escrito no verbete acima, Karl Popper estabeleceu o princípio da falsicabilidade para “combater” o Convencionalismo que, por sua vez, e a ser aplicável, sustentaria a homeopatia, por exemplo, como sendo ciência. Para falarmos no Convencionalismo, falemos, por exemplo, em Pierre Duhem (ou mesmo em Poincaré, entre outros).

karl popper crayon webTal como acontece na homeopatia, em que um falhanço numa previsão é sempre justificável através de um outro caso qualquer que se diz que “não falha” — Pierre Duhem defendeu a ideia segundo a qual o fracasso na previsão de um fenómeno (em observação) falsifica apenas uma determinada conjunção de hipóteses. E, neste contexto, segundo Duhem, o cientista tem a liberdade de alterar qualquer das hipóteses das premissas de que partiu para construir a teoria. Assim, a esta nova hipótese já alterada, em particular, é atribuída o estatuto de “convenção”, e a questão da falsidade ou da veracidade não se levanta.

Ou seja, o Convencionalismo de Pierre Duhem faz com que uma hipótese possa ser convertida numa “convenção” impossível de ser falsificada. Ora, foi contra o Convencionalismo que Karl Popper propôs o princípio da falsicabilidade. Portanto, ao contrário do que Desidério Murcho escreveu, não foi Karl Popper que se enganou: o Convencionalismo é que estava errado.

Quando Desidério Murcho diz que “Popper pensava que a irrefutabilidade se devia às próprias teorias pseudo-científicas, que eram feitas de maneira a nunca serem refutadas pela experiência”, não se trata aqui de “Karl Popper pensar, ou deixar de pensar”: o Convencionalismo defendia o estatuto de “convenção” de uma hipótese como sendo imune à questão da veracidade ou da falsidade. E Karl Popper veio instituir o método empírico adequado para expor continuadamente uma teoria à possibilidade de ser falsificada.

Em suma, não foi Karl Popper que “pôs a ênfase nas teorias” (como Desidério Murcho escreveu): pelo contrário, Karl Popper pôs a ênfase na experiência em função e ao contrário daquilo que era defendido pelo Convencionalismo.

O “imperativo categórico” de Karl Popper para as ciências empíricas é o seguinte:

“Todas as regras do método empírico têm de ser concebidas de tal forma que não protejam qualquer afirmação em ciência contra a falsificação.”

Quanto à questão de adicionar hipóteses a uma teoria — como a homeopatia faz, quando diz que “se não é do cu, é das calças, e se não é das calças é do soutien, etc.” — Karl Popper sugeriu que fossem admitidas apenas as hipóteses que aumentem o grau de falsicabilidade da teoria, por forma a fortalecer a relação entre a teoria e a experimentação.

Em conclusão, a tentativa de Desidério Murcho em identificar, de algum modo, Karl Popper com as “teorias da homeopatia”, não faz nenhum sentido lógico.

[ ficheiro PDF ]

Página seguinte »

Site no WordPress.com.