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Sexta-feira, 27 Julho 2012

A filosofia está bem viva

Filed under: Ciência,filosofia,Ut Edita — orlando braga @ 11:55 pm
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1. Kant tinha uma extraordinária visão da investigação científica, e portanto da ciência, mediante o conceito de Intenção da Natureza. Kant insistiu [“Crítica do Juízo”, 1790] que embora não pudéssemos provar que a natureza esteja intencionalmente organizada, devemos sistematizar o nosso conhecimento empírico vendo a natureza como se fosse organizada. Isto significa a ideia de uma ordem pré-estabelecida; e a sistematização do nosso conhecimento é apenas possível se agirmos com base no pressuposto de que uma “compreensão”, ou uma “inteligência”, para além da nossa, nos forneceu leis empíricas organizadas de modo a que nos seja possível uma experiência unificada.

O Princípio da Intenção da Natureza — ou Princípio da Intencionalidade — diz-nos que se queremos construir uma subordinação sistemática das leis empíricas, devemos agir de acordo com a crença de que tal pretensão é possível.

2. Muita da ciência contemporânea, e sobretudo as ciências biológicas, afastaram-se radicalmente do Princípio da Intencionalidade que, mesmo durante o século XIX e a primeira parte do século XX, esteve fortemente presente na ciência e na investigação científica e apesar do Positivismo: uma coisa era o método científico; e outra coisa era o cientista comum e a sua mundividência. A partir do século XX, primeiro com o Círculo de Viena e depois com o neodarwinismo, essa ligação tradicional e inconsciente da comunidade científica, em geral, com o Princípio kantiano da Intencionalidade da Natureza, foi quebrado.

3. O “divórcio” da ciência com o Princípio da Intencionalidade de Kant significou também a quebra das relações — sempre precárias — entre a ciência e a filosofia. O Positivismo encarado não só como método, mas também como a mundividência do cientista, decretou a morte da filosofia. Este problema subsiste até hoje. A única “filosofia” aceite pela ciência parece ser aquela que corrobora uma certa visão exclusivamente naturalista coeva que evoluiu do Positivismo. Desde logo, uma filosofia sem espírito crítico não é filosofia; e depois, uma filosofia acrítica em relação à ciência pode ser mesmo prejudicial a esta última.

4. No dia em que o trabalho científico tiver perdido totalmente o contacto com as suas raízes especulativas e filosóficas, ficará completamente esgotado e cortado da tradição que o levou ao seu nível contemporâneo. E este risco existe. O pensamento técnico/tecnicista invade o pensamento científico, e isso pode ser o fim do espírito científico.

5. A ciência não vai nunca até ao fim das questões que levanta, e levar as questões até ao fim é o papel da filosofia. O campo da ciência já não é autónomo. Hoje, a fecundidade intelectual e o pensamento vivo consistem no diálogo entre a ciência e a filosofia [propriamente dita].

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2 Comentários »

  1. Pois existem contudo fenómenos na Física que pressupõem uma intenção. Por exemplo a intenção de economizar tempo. Ocorre-me por exemplo a refracção da luz em que esta segue o caminho que demora menos tempo ao atravessar dois meios onde se propaga com velocidades diferentes.

    Comentário por Henrique Sousa — Sábado, 28 Julho 2012 @ 12:32 am | Responder

    • A refracção da luz segue o princípio da acção mínima, representada pela constante de Planck [ 6. 622,10^-34 Joules/segundo] que é a mais pequena acção que pode existir no universo.

      Comentário por O. Braga — Sábado, 28 Julho 2012 @ 1:14 pm | Responder


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