perspectivas

Sexta-feira, 18 Junho 2010

A evolução do gnosticismo até à sua expressão moderna (8)

Filed under: cultura,gnosticismo — O. Braga @ 7:18 am
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No postal 4 desta série, descreveu-se a crença em Marduk e a forma como este deus babilónico “matou” os seus “pais” para formar o cosmos. Esta concepção religiosa deriva directamente das concepções religiosas do neolítico e veneração das forças impessoais da natureza, porque a) inclui o sentimento de culpa do Homem em relação à existência de que falei no referido postal, e b) uma explicação física e objectiva para o problema da criação do universo.

De um modo diferente desta concepção da criação, o Judaísmo atribui ao Deus primordial e único a criação do universo através do Verbo: segundo o Génesis, “Deus disse: haja luz!”. Enquanto que a concepção da religião superior babilónica deu origem, mais tarde, ao dualismo religioso (de que falei no postal 7), a concepção judaica deu origem ao monoteísmo de que deriva o Cristianismo. No Judaísmo, a culpa do Homem não deriva do processo de criação do mundo mas da responsabilidade do próprio Homem, através do mito de Adão e Eva. Nas religiões dualistas, a culpa não é do Homem mas do processo de criação do mundo e da acção do demiurgo (Marduk) que atentou contra o Deus primordial; ou seja, o Homem foi apenas vítima da acção criminosa do demiurgo, e por isso, aquele deve-se revoltar contra este no sentido de se unir ao Deus gnóstico verdadeiro ou Pleroma.

Uma das características do gnosticismo dos primeiros séculos da nossa Era foi crítica sistemática e constante aos monoteísmos (Cristianismo e Judaísmo). O Deus da Bíblia e de Jesus Cristo eram considerados pelos gnósticos como sendo o demiurgo (o sucedâneo cultural de Marduk) que tinha traído o verdadeiro Deus — que era o Deus dos gnósticos ou o “Pleroma”. Em suma, os gnósticos diziam que o Deus cristão e judaico, que é um Deus quase-pessoal no Judaísmo ou mesmo pessoal no Cristianismo, era um falsário e um impostor, e que o verdadeiro Deus primordial era um Deus inatingível pelo comum dos seres humanos, e absolutamente separado da realidade material.

Enquanto que o Deus da Bíblia tinha, ele próprio, criado o universo através do Verbo (Logos), para os gnósticos a matéria nada tinha a ver com o verdadeiro Deus (Pleroma) e tinha sido criada pelo demiurgo (o Deus da Bíblia). Enquanto que, para o Cristianismo, Deus era pessoal e acessível a qualquer ser humano que se predispusesse a comunicar com Ele, para os gnósticos o acesso ao Deus primordial (Pleroma) era um privilégio dos eleitos ou iluminados só possível através do conhecimento esotérico (gnose). Enquanto que, para o Cristianismo, Deus ajudava os seres humanos através da bênção da Graça, para os gnósticos, Deus primordial (Pleroma) nunca entrava em contacto com este mundo imundo e com os seres humanos inferiores. Para o gnosticismo, Deus era absolutamente transmundano, e nada tinha a ver com os homens, nem os tinha criado.

Os gnósticos criaram uma clivagem absoluta e total entre Deus e o mundo — um ateu moderno não teria feito melhor trabalho. É neste sentido que dizemos que o gnosticismo é anticósmico porque atribui ao cosmos uma conotação muito negativa, coisa que a Bíblia não faz. Esta característica anticósmica foi herdada das religiosidade do neolítico e da veneração das forças impessoais da natureza e do culto da Mãe-Terra. E por outro lado, os gnósticos limitaram a possibilidade da salvação humana ao conhecimento — coisa que os ateus modernos também fazem, apenas mudando o conhecimento do Pleroma para o conhecimento científico positivista. Portanto, o gnosticismo adaptou-se às diferentes épocas da História, mantendo constantes e permanentes algumas características que são a sua marca-de-água.

Sendo que, para o gnosticismo medieval, o mundo era uma realidade muito negativa, era imperioso escapar-lhe. Para que o gnóstico pudesse escapar do mundo, teria que optar pelo conhecimento esotérico (gnose) sobre a realidade do Pleroma, conhecimento esse só acessível a uma plêiade de iluminados, e só esta plêiade teria direito à salvação. O gnosticismo medieval era elitista por natureza — assim como o são os gnósticos modernos.

O processo de escape do gnóstico em relação ao “mundo imundo” e material passava pela revolta contra o status quo cultural e religioso, ou seja, contra o Cristianismo e Judaísmo. Os gnósticos associaram intimamente três das suas características: a revolta (que deriva da inveja e/ou do ressentimento) contra a realidade cultural e religiosa, e a tentativa de fuga à realidade material, através da auto-eleição como elite — revolta ressentida, tentativa de fuga à realidade objectiva e elitismo, são também características do gnóstico moderno.

Muitos dos elementos gnósticos entraram, por assim dizer, “disfarçados” no Cristianismo, e permaneceram praticamente indetectáveis senão pelos teólogos cristãos. Por exemplo, o livro das Revelações é eminentemente gnóstico; a influência do gnosticismo no livro do Apocalipse é evidente. Portanto, não podemos dizer que algumas correntes teológicas do Cristianismo estejam livres de influências gnósticas. Na Baixa Idade Média, a escola de Chartres desenvolveu um pensamento gnóstico enquanto integrado no pensamento cristão da época; desse tempo fazem parte as profecias determinísticas de Joaquim de Fiore em relação à criação de um paraíso na terra através da alteração da natureza fundamental da realidade e da natureza essencial humana. No princípio da Era cristã, o bispo gnóstico Valentino (que fundou o movimento gnóstico conhecido pelos “Valentinianos”) esteve muito perto de ser eleito bispo de Roma,e portanto, Papa. Ainda hoje, esses resquícios gnósticos existem e permanecem entre cristãos que se assumem fidelíssimos, e que acusam outros cristãos de não serem tão fieis quanto eles (mais uma vez a auto-eleição e o elitismo). A tentativa de escape à realidade objectiva é também característica dos gnósticos cristãos da modernidade, por exemplo, através de um puritanismo excessivo e radical (quase ascético), da não valorização das relações humanas, e da divisão determinística dos homens entre eleitos candidatos à salvação e os condenados, através de uma visão exclusivista da religião e do mundo.

No próximo postal irei falar das influências gnósticas no Hinduísmo e no Budismo. E depois, passarei aos reflexos do gnosticismo medieval na génese do Iluminismo que marcou o gnosticismo moderno.

1 Comentário »

  1. Orlando, parabéns pelo seu site! O texto acima é maravilhoso!

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    Comentar por Gusthavo Corrêa (@GusthavoCorrea) — Quinta-feira, 23 Agosto 2018 @ 5:21 pm | Responder


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