perspectivas

Sábado, 22 Outubro 2011

Aristóteles e o “fim último”

Filed under: ética,filosofia,Religare — O. Braga @ 7:29 am
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O Corta-Fitas passou a adoptar o “Aborto Ortográfico” e provavelmente vou deixar de o ler, porque as palavras mal escritas cravam-se em nós como punhais! Mas antes disso, vou comentar este postal (aqui também em PDF).

O texto traduz a confusão em que vive o nosso tempo. Por exemplo, a questão do sentido da vida: mesmo que alguém recuse a ideia de sentido da vida, já optou por um sentido da vida. Ou melhor: alguém que vive de acordo com a máxima segundo a qual a vida não obedece a nenhum valor superior, ou que a vida não tem qualquer sentido — essa pessoa também já fez uma interpretação da existência. Mas neste caso trata-se de uma opção de vida em função de “fins próximos”, e não de um “fim último”.

Isto significa que a cosmovisão de uma pessoa [a interpretação da existência e aquilo que lhe dá o sentido da vida] não é resultado de reflexões racionais, mas é sempre resultado de uma interpretação pré-racional das experiências feitas no mundo, embora essas experiências — de que resulta a cosmovisão — não sejam nunca passíveis de comprovação em termos experimentais ou científicos. Ou seja, a filosofia e a ciência podem ajudar a consolidar uma determinada e pré-existente cosmovisão, mas não a definem.


O problema do sentido da vida e da felicidade, reside essencialmente naquilo que Aristóteles chamou de “fim último” e “fins próximos”, por um lado, e nos conceitos aristotélicos de eupraxia (boas práticas) e de paideïa (educação), por outro lado.

Aristóteles define o “fim último” : “se há nas nossas actividades, algum fim que desejemos por si mesmo, e outros só por causa dele, e não escolhemos indefinidamente uma coisa em vista de uma outra, é claro que tal fim não poderá ser senão o Bem, o Soberano Bem” (Ética a Nicómaco, I, 1, 1094 / 20 ). Em contraponto, o “fim próximo” é aquele que não desejamos por si mesmo, mas por causa de outros fins próximos, e que escolhemos indefinidamente em função de um outro fim próximo qualquer.

Conclui Aristóteles — tal como muitos outros, entre os quais Kant — que a felicidade só é possível em função da existência de um “fim último” que dê corpo à eupraxia (a boa acção que define a “vida boa”): segundo Aristóteles, o homem não age para ser feliz: ele é feliz agindo bem e porque age bem! — o que nos dá uma ideia precisa dos limites da felicidade humana, que Kant também estabeleceu. E a eupraxia decorre do “fim último” que é pré-racional e de que depende, em grande parte, da paideïa (a educação) e da consequente sensibilidade moral que a educação nos pode conceder.

O problema da morte coloca-se também em função desse “fim último” — o tal fim que não depende de nenhum outro fim. E daí urgência e a necessidade da religião que nos dá acesso — através das nossas experiências subjectivas que a ciência nunca jamais comprovará em laboratório — à Totalidade ou ao Englobante, ou seja, Ao que os cristãos chamam de Deus.

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