perspectivas

Quarta-feira, 3 Março 2010

Ler a Hannah Arendt mexe com os meus nervos

Hannah Arendt e John Keynes eram ambos de esquerda, embora a primeira libertária nos costumes e na cultura, e o segundo intervencionista na economia.

« As ideias dos economistas e filósofos políticos (…) são mais poderosas do que comummente se pensa. Realmente, o mundo é governado por pouco mais do que elas. (…) Mais cedo ou mais tarde, são as ideias ― e não os interesses ― que se tornam um perigo, para o bem e para o mal. »

― John Maynard Keynes


« Atribuir aos pensadores da época moderna, em especial aos que no século XIX se revoltaram contra a tradição, a responsabilidade pela estrutura e pelas condições do século XX, é injusto e, mais do que isso, perigoso. »

― Hannah Arendt (referindo-se a Hegel, Karl Marx, Engels e Nietzsche)

Hannah Arendt

Parece-me que Keynes está mais próximo da verdade. E Hayek era da mesma opinião de Keynes quanto ao potencial das ideias na definição das tendências do futuro.

Pode parecer estranho que uma mulher com a bagagem intelectual de Arendt não se tenha apercebido de um fenómeno tão elementar que até o zoólogo Richard Dawkins se apercebeu e a que chamou de “memes”. De facto, ela ter-se-á apercebido, mas recusou reconhecer publicamente a sua percepção; não pode haver outra justificação.

As razões pelas quais ela terá ocultado a sua percepção não serão totalmente conhecidas, mas parte delas certamente se prendem com a sua relação pouco normal com Heidegger, sendo ela judia e ele nazi. As mulheres são incapazes de revelar a verdade que percepcionam devido a razões puramente emocionais ― e isso irrita-me; e acabo por entrar eu próprio na área emocional e fico duplamente irritado.

Uma coisa é certa: nunca houve, não há, e muito provavelmente nunca haverá uma mulher proeminente na área de filosofia e da filosofia política. Apontem-me uma só! O que não significa que Arendt não nos tenha revelado o seu imenso conhecimento da História da Política (o que é outra coisa).

4 comentários »

  1. Eu li alguns trechos do livro “A Violência” dela e achei alguns pontos de vistas interessantes, principalmente a denúncia/critica que ela faz sobre os estudantes esquerdistas revoltosos e a afinidade que eles tem com a criminalidade e outros tipos de imoralidade e é claro o uso da violência.

    Um apontamento parecido, embora bem mais resumido surgiu de Mário Ferreira dos Santos sobre o estudantes esquerdistas brasileiros.

    O problema é que a historiografia brasileira, fortemente impregnada da visão marxista da história os coloca como “pobres coitados” que lutaram contra a ditadura.

    Aliás a caricaturização de personagens históricos ja virou regra no Brasil, vide o que se escreve sobre D. João VI nos livros escolares daqui. Alias eu gostaria de um dia ouvir um diagnóstico lusitano sobre este assunto.

    Gostar

    Comentar por shâmtia ayômide — Quarta-feira, 10 Março 2010 @ 4:46 pm | Responder

  2. @ shâmtia ayômide :

    Existe um livro muitíssimo bom com o título “Império à Deriva”, da autoria do inglês Patrick Wilcken que retrata a corte de D. João VI no Brasil e a personalidade do rei. Trata-se de um livro que se baseou numa pesquisa exaustiva sobre fontes históricas primárias e que quem o ler fica com uma imagem muito fidedigna não só dos factos históricos, como da personalidade e carácter de D. João VI.

    Gostar

    Comentar por O. Braga — Quarta-feira, 10 Março 2010 @ 6:16 pm | Responder

  3. Quando tiver tempo faço uma resenha do retrato de D. João VI conforme Patrick Wilcken o descreve no livro.

    Gostar

    Comentar por O. Braga — Quarta-feira, 10 Março 2010 @ 6:17 pm | Responder

  4. Sobre Hannah Arendt em concreto:

    Confesso que ela me cativa ao mesmo tempo que discordo dela em muitíssimas coisas. Cativa-me pelo espírito prosaico e deliberadamente pouco sofisticado, o que considero uma qualidade ― a simplicidade não-simplificadora.

    Discordo dela porque ela tem um preconceito contra as religiões quando confunde, nos seus efeitos na sociedade, as religiões políticas (nazismo, comunismo, etc.) com as religiões universais e transcendentes , e não consegue ver que a intromissão do cristianismo na política medieval foi acidental devido ao vazio criado pela queda do império romano, enquanto que as religiões políticas são intencionalmente políticas. Por outro lado, ela resume praticamente toda a realidade à política, o que é um contra-senso. E depois mete a emoção no meio da razão, o que eu acho péssimo.

    Gostar

    Comentar por O. Braga — Quarta-feira, 10 Março 2010 @ 6:33 pm | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: