perspectivas

Segunda-feira, 17 Agosto 2015

Os libertários seguem Nietzsche

 

A Helena Damião chama aqui à atenção para a “coimbrização” 1 da classe académica em geral: hoje é preciso ter muito cuidado com os professores universitários, tanto em Portugal como no Brasil. Hoje, professor que se preze é “coimbrinha”. A inteligência académica atingiu o grau zero — embora ainda longe do zero absoluto.

Temos aqui um texto de um professor de Direito do Brasil. Vou citar uma amostra:

“O direito ao próprio corpo ainda está longe de ser conquistado e reconhecido como um direito fundamental da pessoa humana”.

pessoa-humana
Gostaria que um professor de Direito (coimbrinha) me explicasse o que é uma “pessoa não humana” — porque se existem “pessoas humanas” (e “círculos redondos”, também), também devem existir pessoas que não sejam humanas. Quando uma “pessoa humana” — como parece ser o meu caso — verifica que um professor de Direito constata a existência (do ponto de vista ontológico) de “pessoas não humanas”, começa a desconfiar da merda do Direito Positivo. Talvez o distinto professor de Direito estivesse a pensar no pai dele.

Temos ali um professor de Direito que recusa a normalização do Direito. Ou seja, defende a lei da selva. Ou melhor: o Direito é visto como negação da sociedade.2 Kant explica por que razão o professor é coimbrinha.

1/ Os homens são “insociavelmente sociáveis” (Kant); querem viver em sociedade, pois sabem que isso é necessário (sociabilidade), mas nenhum está disposto a impôr a si próprio as exigências provenientes dessa existência colectiva (insociabilidade). Se entregues a si mesmas, as relações humanas seriam passionais e gerariam conflitos e insegurança, acabando numa situação contrária ao objectivo da associação. É necessário, por isso, compreender em que condições um direito é verdadeiramente um direito — garantindo realmente a cada um a faculdade de usar os seus direitos (direitos subjectivos), mas impondo-lhe também deveres legítimos.

2/ Se a função do Direito Positivo é o de rectificar, seria contraditório que fosse buscar os seus fundamentos àquilo que existe (na sociedade e na Natureza). Por exemplo, não é porque existem (na Natureza e/ou na sociedade) homens mais fortes do que outros que o Direito tem que necessariamente defender os mais fortes; ou não é porque existem gays que se torna necessário legalizar o “casamento” gay como um direito; ou não é porque existem pessoas viciadas em heroína que o seu consumo deve ser necessariamente legalizado como sendo um direito.

Os factos não justificam o direito e não fundam o Direito. Um professor de Direito deveria saber disto.

A redução da norma ao facto, que caracteriza o Direito Positivo actual, deve-se ao problema de saber o que funda o direito: trata-se de um problema metafísico que os coimbrinhas fazem de conta que não existe.

3/

“Cada qual se considera livre exactamente onde o seu sentimento de existir é mais forte.”

— Nietzsche

Toda a actual infra-estrutura ideológica politicamente correcta do Direito e da política é baseada nas ideias de Nietzsche (que depois tiveram os seus sucessores ideológicos, desde Heidegger, Ayn Rand, a Foucault e a Derrida, por exemplo), — e, na economia liberal, nos marginalistas do século XIX que descambou na actual concepção de uma total subjectivização do capitalismo (neoliberalismo). Ou seja, a infra-estrutura ideológica vigente é baseada no sentimento, no subjectivo absolutizado, e na emoção; mas não na Razão.

Se o acto de meter uma bala nos miolos traduz o meu “sentimento mais forte de existir”, então segue-se que a minha felicidade de existir e de viver é reduzida à minha própria morte. O acto niilista do suicídio passa a traduzir uma felicidade de viver — o que é uma contradição em termos.

Segundo Nietzsche, por exemplo, o sentido da vida escolhido por Hitler é ontológica- e eticamente equivalente ao sentido de vida escolhido por Albert Schweitzer — porque, para ambos, alegadamente o que conta é que as suas (deles) liberdades foram apenas condicionadas pela força dos seus (deles) sentimentos (emoções) de existir.

A esta infra-estrutura ideológica niilista e nietzscheana, o politicamente correcto acrescentou uma super-estrutura ideológica baseada na absolutização (metafísica, ética, política e jurídica) da liberdade negativa a que chama “autonomia”.

À semelhança de Kant, o americano Isaiah Berlin3 opõe a liberdade negativa (por exemplo, a liberdade de se exprimir sem censura) à liberdade positiva que é o poder de tomar parte nas decisões públicas e de exercer a autoridade em geral.

Estes dois aspectos da liberdade deveriam sempre coincidir: aquele que exerce o Poder não pode (racionalmente) querer anular-se a si próprio.

Mesmo que coloquemos reservas a Kant e a Berlin, e seguíssemos o ponto de vista de Raymond Aron segundo o qual a liberdade negativa é a liberdade por excelência, então teríamos que aceitar todo o “pacote” ideológico de Aron que afirma que todas as outras liberdades — para além da liberdade negativa — não passam de “direitos-capacidades” ou de “direitos-crenças”: por exemplo, o direito a um emprego; ou o direito à educação; ou o direito ao reconhecimento legal de que um gay foi sexualmente violado durante a confusão de uma orgia gay; ou o direito ao “casamento” gay: tudo isto são “direitos-capacidades” ou de “direitos-crenças” (segundo Aron) que podemos exigir do Estado, mas que o Estado (ou seja, a sociedade organizada) não tem qualquer obrigação de conceder.

Porém, o que o professor coimbrinha brasileiro defende é liberdade negativa de Aron, e ao mesmo tempo a obrigação da sociedade em conceder “direitos-capacidades” ou de “direitos-crenças” em função da subjectivização absoluta do Direito e da ética, ou seja, negando qualquer critério à liberdade positiva: pretende conciliar Berlin e Kant, por um lado, e Aron, por outro lado, o que é uma impossibilidade objectiva.


Notas
1. A “coimbrização” é o equivalente português do Imbecil Colectivo, segundo Olavo de Carvalho: “O ‘imbecil colectivo’ é uma comunidade de pessoas de inteligência normal ou superior que se reúnem com o propósito de imbecilizar-se umas às outras”.

2. A sociedade é um reagrupamento de individualidades, estruturado por ligações de dependência recíproca, e evoluindo segundo esquemas regulamentados e regidas por instituições — sendo que “instituição” é uma forma de organização de vida social que a sociedade concede a si mesma para assegurar a sua perenidade.

3. “Duas Concepções da Liberdade”.

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Segunda-feira, 22 Junho 2015

Pequeno diálogo entre Sócrates e Nietzsche

Filed under: filosofia — O. Braga @ 3:10 am
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Sócrates – Nietzsche, você que é um literato, e diz que estudou a retórica e a linguagem, diga-me: ¿o que é a “verdade”?

Nietzsche – A verdade é um exército móvel de metáforas, metonímias e antropomorfismos, em suma, um conjunto de relações humanas que foram poética- e retoricamente consagradas, transpostas e ornadas, e que, no termo de um longo uso, parecem firmes a um povo, canónicas e obrigatórias. As verdades são ilusões que esquecemos que o são, metáforas que perderam a sua força sensível, moedas que perderam o seu cunho e passam a ser consideradas, não moedas, mas metal.1

Sócrates – ¿E será que a sua definição de “verdade” é verdadeira?

Nietzsche – Sem dúvida alguma! A “verdade”, para o comum dos mortais, é conforme a acabei de definir.

Sócrates — Mas os critérios dessa definição de “verdade”, ¿também não se aplicam à sua “verdade”?

Nietzsche – Claro que não! Eu não sou um mortal comum: sou um super-homem.


Nota
1. Definição retirada do ensaio de Nietzsche “Da Verdade e da Mentira na acepção extra-moral”.

Sábado, 20 Junho 2015

Fé e Saber

Filed under: Ciência,filosofia — O. Braga @ 8:52 am
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Vamos analisar a proposição de Nietzsche : “crença é um desejo de não saber”; e depois a frase de Olavo de Carvalho : “fé não é crença: é confiança”.

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Domingo, 16 Novembro 2014

Afinal, havia outro Karl Marx

 

É conhecida a teoria segundo a qual Nietzsche não teve culpa do nazismo; mas a verdade é que as ideias têm consequências. De modo semelhante, é recorrente dizer-se que Karl Marx não teve culpa do estalinismo. A Raquel Varela, tentando branquear Karl Marx, escreve o seguinte:

“Cada empresa é rigorosamente controlada e protegida pelo seu Estado, se necessário, com exércitos na frente.”

O que se pode entender desta frase no contexto— porque a Raquel Varela tem um discurso “dispersivo”, em que as ligações entre conceitos são “aligeiradas” —, é que Karl Marx nunca dissociou o Estado, por um lado, das corporações (por exemplo, as empresas), por outro lado; e que Karl Marx “nunca quis dizer que o poder dos Estados se tinha diluído num qualquer poder multinacional”.


Na sua “Crítica da Filosofia Hegeliana do Direito Público” (1843), Karl Marx concebe o Estado como uma figura de uma abstracção necessária cuja função é sancionar, do ponto de vista do interesse universal, os resultados das lutas de interesses particulares que definem o mecanismo de funcionamento da sociedade civil. As corporações (por exemplo, as empresas), são consideradas por Karl Marx como “compromissos equívocos” (sic). O Estado é separado — por Karl Marx — das condições da sua existência real e concebido como um sujeito imaginário (Hayek não diria melhor!).

Em um artigo escrito em 1842 no jornal Reinische Zeitung, Karl Marx chegou mesmo a defender o sufrágio universal da democracia liberal. Este era um Karl Marx que poderia perfeitamente fazer parte do Partido Social Democrata de Passos Coelho. E, com um pouco de paciência, ainda vamos ver a Raquel Varela como ministra de um governo de António Costa.

Sexta-feira, 27 Setembro 2013

O Valor (5)

Filed under: ética — O. Braga @ 6:52 am
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«A mudança dos valores — é a mudança daquele que cria. Aquele que cria destrói sempre.

Os criadores foram primeiro os povos, e só mais tarde os indivíduos; em verdade, o indivíduo é ainda ele mesmo a mais jovem das criações.

Os povos suspenderam sobre si uma tábua do bem e do mal. Mas houve noutros tempos, um outro Mal e um outro Bem.

Pois todas as coisas são baptizadas nas fontes da eternidade e para além do bem e do mal; mas o bem e o mal mesmos não são senão sombras passageiras, húmidas tristezas e nuvens fugidias. Existe uma velha quimera que se chama “bem e mal”.

(…)

Conquistar o direito a criar novos valores é a mais terrível empresa para um espírito paciente e respeitoso. Em verdade, ele vê nisto uma rapina e coisa própria de uma animal rapace.

Outrora, ele amava o “Tu deves” como o seu bem mais sagrado e é neste mesmo bem que deve agora descobrir loucura e arbitrariedade, além de conquistar a sua liberdade à custa do seu amor: para semelhante rapina ele tem necessidade do leão.

(…)

Sacudi esta sonolência ensinando: O que é o bem e o que é o mal? — ninguém o sabe ainda, — a não ser aquele que cria.

É aquele que cria um fim para os homens e dá a terra o seu sentido e o seu futuro: só esse faz que uma coisa seja bem e outra mal.»

— Nietzsche, “Assim falava Zaratustra”

Aquilo que está escrito a vermelho é manifesta e logicamente falso; e aquilo que não está, é pura retórica de um literato: é pura opinião (doxa). A ideia segundo a qual os indivíduos só surgiram com a modernidade é absolutamente falsa: o que surgiu, de forma marcada, com o modernismo foi o “individualismo” que é coisa diferente de “indivíduo”.

É falsa também a ideia de que o homem tem de “conquistar o direito a criar novos valores” — porque o homem tem já o direito de descobrir novos valores, caso estes existam. É provável que hajam valores que o homem ainda desconhece; mas o homem terá que os descobrir, e não criá-los, porque os novos valores a descobrir, a existirem, existem desde sempre.

É um absurdo que se diga que “o cientista cria as leis da natureza”: o cientista apenas descobre as leis da natureza. De modo semelhante, o homem descobre os valores — e não os cria, como Nietzsche defende.

A ética de Nietzsche é absurda, e só comparável à de Peter Singer. É uma ética psicótica e que induz a psicose em quem a segue. É uma ética cujos fundamentos são indubitavelmente falsos.

Quinta-feira, 26 Setembro 2013

Nietzsche foi um positivista

Filed under: ética,cultura — O. Braga @ 6:34 am
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Normalmente as pessoas lêem Nietzsche como se lessem um romance ou um manifesto político; e quando alguém faz uma análise crítica e racional dos textos de Nietzsche, os seus apaniguados fanáticos reagem como se estivessem perante uma heresia. Portanto, este texto não foge à regra: vai certamente ser objecto de negação de factos e até de insultos.

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Sexta-feira, 7 Setembro 2012

A demitificação e desmistificação de Heidegger

Heidegger foi tudo menos original.
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Segunda-feira, 16 Julho 2012

O Relativismo Activo do “Livro do Desassossego”

«O meu hábito vital de descrença em tudo, especialmente no instintivo, e a minha atitude natural de insinceridade, são a negação de obstáculos em que eu faço isto constantemente.

No fundo, o que acontece é que eu faço dos outros o meu sonho, dobrando-me às opiniões deles para, expandindo-as pelo meu raciocínio e a minha intuição, as tornar minhas e (eu, não tendo opinião, posso ter a deles, como quaisquer outras) para as dobrar a meu gosto e fazer das suas personalidades coisas aparentadas com os meus sonhos.

De tal modo anteponho o sonho à vida que consigo, no trato verbal (outro não tenho), continuar sonhando, e persistir, através das opiniões alheias e dos sentimentos dos outros, na linha fluída da vida individualmente amorfa.

Cada outro é um canal ou uma calha por onde a água do mar só corre a gosto deles, marcado, com as cintilações da água ao sol, o curso turvo da sua orientação mais realmente do que a secura deles o poderia fazer.

Parecendo, às vezes, à minha análise rápida parasitar os outros, na realidade o que acontece é que os obrigo a ser parasitas da minha posterior emoção. Hábito de viver as cascas das suas individualidades. Decalco as suas passadas em argila do meu espírito e assim mais do que eles, tomando-as para dentro da minha consciência, eu tenho dado os seus passos e andando no seu caminho».

— “Livro do Desassossego”, de Bernardo Soares [aka, Fernando Pessoa]

Quando lemos o “Livro do Desassossego” devemos fazê-lo analiticamente, de outra forma correndo o risco de entrarmos em depressão psíquica. Das duas uma: ou não compreendemos minimamente o que está lá escrito — o que é óptimo para uma mente sadia —, ou compreendendo alguma coisa teremos sempre que manter um espírito crítico e impessoal, semelhante ao do médico que analisa cientificamente uma metástase.
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Terça-feira, 19 Junho 2012

A religião sacrificial pós-moderna, René Girard [e Fernando Pessoa]

“The contemporary West resembles nothing so much as an archaic society in the full panic of social breakdown, searching desperately for the scapegoats whose immolation will induce the gods to intervene. Whether it is the black-clad “Antifas” in Northern Europe who violently stifle free speech or the “hoody”-wearing vigilantes who have consigned a hapless Florida man to the hell of liberal non-process – the defining agents of the age resemble the implacable crowds of archaic narrative.”

via The Apocalypse of Modernity | The Brussels Journal.

As ideias de Nietzsche reflectem, em todos os seus aspectos, o pós-modernismo — incluindo a loucura em que se afundou, tanto Nietzsche como o homem pós-moderno.

Se o pós-modernismo pudesse ser personificado em uma hipostasia, seria certamente em Nietzsche. Nietzsche está para o pós-moderno — com mais ou menos consciência da sua realidade individual —, como Jesus Cristo estava para os primeiros cristãos, o que nos dá uma síntese da actual religião que transmite a aparência ilusória de que é uma ausência da religião. A [ilusão aparente da] ausência de religião é, em si mesma, uma forma de religião, mas desta vez é uma religião das massas atomizadas, e sem critério racional, que não seja a lei do mais forte que nos trouxe Charles Darwin.

O século XIX foi tenebroso. E no século XX, pessoas inteligentes, como por exemplo Fernando Pessoa, cometeram erros crassos de raciocínio porque se fiaram nas verdades ditadas pelas ideias do século XIX. Fernando Pessoa certamente que leu Nietzsche e Darwin, embora nunca os tivesse referido nos seus escritos. E conhecendo minimamente Fernando Pessoa, exactamente porque não os ter referido é sinal de que os tinha em alta consideração. Embora Fernando Pessoa tenha tido alguns raciocínios brilhantes, grande parte das conclusões a que chegou estão erradas — como nos prova, agora, a constatação irrefutável e empírica do que é o pós-modernismo.

O texto em epígrafe diz respeito a uma curta análise das ideias de René Girard acerca da pós-modernidade e, portanto, acerca das ideias de Nietzsche. Vale a pena ler.

A nova religião, que Nietzsche anunciou, é a da substituição de Cristo por Baco [ou Dionísio], o deus pagão greco-romano [que também foi parcialmente defendido, a espaços e conforme os dias, por Fernando Pessoa, quando se referia à “pureza do paganismo”], e reflecte uma inversão do conceito de aristocracia. Para o cristão, o aristocrata é aquele que se coloca ao lado da vítima injustamente condenada à morte; para Nietzsche e para as massas modernas e pós-modernas, o aristocrata é aquele que mata a vítima, afirmando a sua superioridade decorrente da lei do mais forte segundo Darwin. Satanás não é uma personagem: antes é um símbolo desse espírito das massas adequado à selecção natural — Satanás é aquilo a que as Escrituras chamam de “Legião”.

Por exemplo, o fenómeno da liberalização do aborto e a sua aceitação pelas massas, é corroborante, consciente ou inconsciente, desta nova religião pagã e sacrificial, que se orienta pela linha doutrinal de Darwin a Nietzsche, segundo a qual a vítima tem que, ou deve ser morta porque é fraca. E o novo aristocrata é aquele que não só apoia a morte da vítima, como cria as condições para que a vítima seja morta pelas massas ou Legião.

Para que se tenha uma ideia da influência de Darwin, Herbert Spencer e Nietzsche em Fernando Pessoa, transcrevo um breve trecho deste último:

“Todo o organismo é superior na proporção em que a sua unidade essencial é interpretada e realizada por funções diferenciadas. [até aqui, tudo bem]

Quanto mais elevado é um organismo na escala dos seres vivos, mais diferenciados são os órgãos que o compõem, e maior a interdependência das suas funções.” [errado!]

Aqui, Fernando Pessoa valoriza a superioridade do organismo, não qualitativamente [uma qualidade intrínseca ao ser do organismo], mas quantitativamente — à laia de Darwin, Nietzsche e Spencer. Ou melhor: a qualidade do organismo, segundo Fernando Pessoa, advém necessariamente da quantidade da putativa diferenciação dos órgãos que compõem o tal organismo superior. Ora, uma análise da ciência actual à complexidade extrema da célula eucariótica — e mesmo uma complexidade quase absoluta, como no caso do flagelo ou do cílio — por exemplo, mostra que Fernando Pessoa está errado, assim como estão errados Darwin e Spencer e, por inerência, o próprio Nietzsche. Defender, hoje, esta ideia é assumir uma posição, pelo menos, a-científica.

O utilitarismo, que caracteriza a modernidade e principalmente a pós-modernidade, não é a preocupação com o bem-estar da maioria: antes, é a procura do bode-expiatório inconsciente da Legião ou das massas.

E esse bode-expiatório é a vítima inocente, seleccionada arbitrariamente pela Legião. A escolha arbitrária da vítima corresponde à necessidade inconsciente de tentar resolver o problema da polarização dos contrários [da Metaxia, segundo Eric Voegelin] que caracteriza e delimita a existência humana (por exemplo, o bem e o mal); é uma tentativa de fuga à realidade, através do desejo de pacificação, mediante um ritual sacrificial, das forças contrárias que o ser humano se apercebe estarem presentes na sua realidade. O niilismo é mesmo isto: a tentativa [ilusória e delirante] de anulação das diferenças entre o bem e o mal.

A Revelação Bíblica denuncia esse mecanismo de bode-expiatório sacrificial e inconsciente, explicando-o. A Paixão de Jesus Cristo é exactamente a denúncia e a neutralização desse bode-expiatório, na medida em que o próprio Cristo se oferece à morte como vítima arbitrária e inocente.

Domingo, 22 Janeiro 2012

A crítica neoliberal ao Distributismo

Nesta crítica neoliberal ao Distributismo, vemos duas citações, uma de Hayek e outra de Von Mises, que raiam o cinismo: em suma, a lógica das citações é a seguinte: “se a minha avó não tivesse existido, eu não existiria”.
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Domingo, 27 Novembro 2011

O utilitarismo de Nietzsche

Filed under: ética,filosofia — O. Braga @ 10:00 am
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“A compreensão aparece quando algo se move da minha cabeça para o meu coração.”

Esta frase foi respigada no FaceBook e faz parte da tendência contemporânea para condensar a filosofia em slogans práticos — em princípio, não vejo mal nisso. À primeira vista, esta frase parece ser anti-utilitarista; quando nós “compreendemos com o coração” em vez de “compreendermos com a cabeça”, alegadamente abdicamos do “útil para nós” e passamos a compreender o “útil para o outro”.

Podemos até pensar que esta frase se baseia no tradicional anti-utilitarismo da filosofia cristã. Porém, e na medida em que se baseia no império da subjectividade sobre os valores, esta frase revela um utilitarismo exacerbado. Um anti-utilitarismo tem que ser objectivo, e não, subjectivo. E por isso é que Nietzsche é utilitarista (embora se diga por aí “que não”).

A nossa cultura contemporânea é marcada pela influência simultânea – e complementares entre si — de dois tipos de utilitarismo: o “utilitarismo marginal” de Carl Menger e Walras, por um lado, e o seu “irmão gémeo”: o utilitarismo de Nietzsche, por outro lado. Ambos os tipos de utilitarismo baseiam-se na hiper-subjectividade dos valores; neste sentido, são “gémeos”, embora difiram do utilitarismo clássico de Bentham.

É neste contexto da aliança entre Nietzsche e Menger que vivemos hoje, e que surgem as frases-mestras do tipo citado em epígrafe. Essa frase não é de origem genuinamente cristã. O verdadeiro anti-utilitarismo, embora reconheça e valorize a subjectividade, trabalha sobre valores objectivos, universais e concretos, e não valorizando exclusivamente aquilo que “eu, na minha subjectividade, penso com o coração” (emoção).

A extensão exclusivista da hiper-subjectividade aos valores e à ética, é a máxima expressão possível do utilitarismo — é um super-utilitarismo. Por isso é que tanto Carl Menger como Nietzsche são “irmãos gémeos” utilitaristas.

Terça-feira, 20 Setembro 2011

O culto de Nietzsche

Filed under: A vida custa,filosofia — O. Braga @ 7:33 pm
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Nietzsche foi um literato, com um altíssimo poder de retórica, e não um filósofo. Nietzsche foi um materialista (embora negasse a pés juntos), um naturalista (darwinista assumido), um utilitarista (embora negasse a pés juntos), um positivista (e portanto, um determinista na medida em que recusa o livre-arbítrio), e o precursor do actual presentismo (negação e desconstrução da História).
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