perspectivas

Segunda-feira, 7 Julho 2008

Evolucionismo versus naturalismo

É interessante o contemporâneo argumento do “evolucionismo contra o naturalismo” (ou ateísmo), defendido pelo filósofo Alvin Plantinga. Digo “ou” porque o naturalismo e ateísmo não são exactamente a mesma coisa. O naturalismo é o ateísmo “mais alguma coisa”; o naturalista acredita numa articulação directa da vida moral com a vida biológica, no apelo ao instinto e à moral sem obrigação nem caução, ao passo que o ateu não acredita na existência de Deus mas acredita que a ética distingue o humano dos outros animais. O naturalista prefere as “ciências naturais” à matemática porque a capacidade dedutiva da matemática contraria, de certa forma, a filosofia básica do naturalismo.

…a conjugação
entre evolucionismo e o naturalismo
é absurda e irracional…

O naturalismo é um monismo religioso, em que o sagrado é a Natureza como única origem da existência. Para o naturalismo, não só não existe o Deus pessoal, como não existe nada parecido com Deus (transcendência). Pode-se ser um ateu sem ser um naturalista, mas não se pode ser um naturalista sem ser ateu.

O argumento do “evolucionismo contra o naturalismo” defende a ideia de que existe um conflito entre o evolucionismo e o naturalismo.
Normalmente tem-se a noção de que o naturalismo e o evolucionismo se apoiam mutuamente, sendo que o evolucionismo constitui uma das bases de argumentação do naturalismo. O argumento do “evolucionismo contra o naturalismo” recusa esta ideia.

Entre os naturalistas mais conhecidos, estão nomes como Carl Sagan e Stephen Jay Gould, os filósofos David Malet Armstrong, Bertrand Russell, Gilles Deleuze, Michel Foucault; Peter Atkinson, o zoólogo Richard Dawkins, Daniel Dennett, etc., e sem dúvida Charles Darwin. Contudo, é importante notar que não existe uma ligação entre a ciência propriamente dita e o naturalismo, apesar dos nomes sonantes que lemos acima ― exactamente porque o naturalismo é um monismo religioso.

Faculdades cognitivas

Um ateu (ou naturalista) acha que as suas capacidades cognitivas lhe revelam a verdade sobre o mundo que o rodeia. Por isso, para o ateu, as faculdades cognitivas do ser humano são credíveis. Por exemplo: perante um determinado acontecimento, todas as testemunhas dele contarão uma história diferente, mas existe uma base comum dos relatos das várias testemunhas que ― baseadas nas faculdades cognitivas ― darão credibilidade ao acontecimento.

Para o teísmo, as faculdades cognitivas permitem que o ser humano ― que se distingue do mundo animal ― possa desenvolver a sua capacidade de crença (fé), para além dos aspectos da sociabilidade racional que só o ser humano possui.
Para o naturalismo e para o ateísmo, as faculdades cognitivas humanas servem para permitir a sobrevivência da espécie pelo menos até à idade de reprodução e para optimizar e maximizar a capacidade de reprodução. A naturalista Patricia Churchland resume a utilidade do sistema nervoso humano aos 4 “efes”: “Feeding, fleeing, fighting and … reproducing”. Este conceito resume a visão naturalista acerca do ser humano.

Os evolucionistas defendem a ideia de que a selecção natural beneficia determinado tipo de comportamentos e penaliza outros tipos de comportamentos; para a selecção natural, o que o ser humano acredita (ou não acredita) não entra na equação evolucionista. O que interessa para a selecção natural é o comportamento adaptativo ao meio-ambiente.

Probabilidade condicional

Tanto Darwin como a naturalista Patricia Churchland parecem concordar com o facto de as faculdades cognitivas do ser humano serem credíveis. Antes de continuarmos a analisar o pensamento dos evolucionistas e dos naturalistas, devemos abordar a noção de “probabilidade condicional”. O conceito de probabilidade condicional pode ser definido ― em termos gerais e compreensíveis ― como resultante do facto perguntarmos qual é a probabilidade de uma proposição em função de uma outra proposição dada, sob condição de que a dada proposição é verdadeira.

Por exemplo, qual é a probabilidade de o senhor X chegar aos 75 anos de idade, dado que tem agora 35 anos, pesa 25 Kg a mais do que devia, nunca se desvia do sofá, come muitas vezes por semana no MacDonald’s, e os seus pais já faleceram? A probabilidade de o senhor X chegar aos 75 não é grande. E qual seria a probabilidade do senhor Y chegar aos 75 anos de idade, dado que tem hoje 65 anos de idade, faz uma dieta rigorosa, corre 2 km todos os dias, e os seus avós ainda estão vivos? Neste caso a probabilidade do senhor Y chegar aos 75 anos é elevada.

Pergunta: qual a probabilidade de as faculdades cognitivas do ser humanos serem credíveis, dado o facto de as faculdades cognitivas terem sido definidas (produzidas) pela “evolução cega” defendida por Richard Dawkins?

Partimos aqui do princípio que a “evolução cega” de Dawkins é verdadeira, para nos questionarmos sobre a credibilidade das faculdades cognitivas do ser humano ― sendo que as faculdades cognitivas do Humano são o resultado de mecanismos cegos de selecção, de variações genéticas e de mutações genéticas aleatórias, que têm como única função a sobrevivência da espécie.

Sendo que “as faculdades cognitivas do Humano são o resultado de mecanismos cegos de selecção”, isto é, partindo do princípio da veracidade da concepção naturalista de evolução, a probabilidade da crença (fé) humana na transcendência ser uma função da evolução é baixa, assim como a probabilidade da credibilidade da função cognitiva humana ser também baixa ― não podemos discriminar subjectivamente umas funções cognitivas do Homem em relação a outras.

Axioma

R = proposição segundo a qual as faculdades cognitivas humanas são credíveis;
N = proposição do naturalismo metafisico (monismo naturalista dos 4 “efes”);
E = proposição segundo a qual as nossas faculdades cognitivas são resultado de uma evolução cega.

Para que possamos fazer uma análise objectiva quanto possível, imaginemos uma espécie humanóide habitando um outro planeta semelhante à Terra, e que evoluiu de acordo com o cânones evolucionistas naturalistas, isto é, o comportamento dos humanóides é evolucionariamente adaptável ao ambiente e de que tudo depende do comportamento do humanóide face ao ambiente em que vive. Qual seriam as probabilidades das faculdades cognitivas desses humanóides serem credíveis ― não em relação a nós, terráqueos, mas em relação a eles, humanóides? Vejamos as seguintes possibilidades:

  1. O epifenomenalismo
  2. O epifenomenalismo é um termo inventado por Thomas Huxley (conhecido pelo epíteto de “Buldogue de Darwin”). Em termos linguísticos e etimológicos, um epifenómeno é algo que resulta da existência de um fenómeno previamente existente.
    A ideia de Huxley da relação entre o comportamento e crença (fé) ― entre vida mental e vida física, entre a vida mental e o corpo físico ― é a de que a vida mental, em geral, e a crença (fé) em particular, não são causa (não determinam) de comportamentos. Segundo Huxley, a máquina a vapor produz (é causa) o apito da locomotiva, mas o apito da locomotiva não causa nada na máquina a vapor; o mesmo se passaria na relação entre a vida mental (o epifenómeno que é o apito da locomotiva) e corpo físico (o fenómeno da locomotiva).

    Sendo verdade o que Huxley e Darwin defendiam, a vida mental humana seria “invisível” no que se refere à evolução, isto é, a vida mental ou a crença (fé) não determinaria um comportamento de adaptação ao meio-ambiente e não determinaria a evolução. Se uma determinada fé ou crença fosse visível pela evolução, uma crença (fé) que determinasse uma má adaptação comportamental ao meio ambiente evolutivo seria eliminada pela selecção natural, e uma crença (fé) que determinasse uma boa adaptação comportamental ao meio ambiente evolutivo seria adoptada pela selecção natural. Sendo a crença (fé) invisível na evolução, a probabilidade de que as faculdades cognitivas serem credíveis são muito baixas.

  3. A sugestão de que embora a crença (fé) possa causar comportamentos, isso acontece somente devido às propriedades neuro-fisiológicas (da estrutura dos neurónios) e não devido ao “conteúdo” da crença ou fé.
  4. Imaginemos que atiramos uma bola contra o vidro de uma janela. A bola é a causa de o vidro se partir, mas a bola causa a quebra do vidro devido às propriedades do vidro e da bola (velocidade da bola, massa da bola, dureza da bola, espessura do vidro, etc.) e não devido a causas alheias ao vidro e à bola. Não será pelo facto de a bola ser castanha ou amarela, que o vidro se parte.

    Imaginemos que uma soprano canta “La Vie en Rose” e os copos de cristal se partem. Embora a canção tenha características e propriedades físicas específicas, também terá um conteúdo lírico, mas não será o conteúdo da letra da canção que fará que a voz do soprano parta os copos de cristal. O conteúdo da canção é irrelevante para a causa do fenómeno.

  5. A terceira possibilidade é a de que os nossos humanóides causam o seu comportamento e são também adaptativos ao meio ambiente evolutivo. Quais serão as probabilidades desta possibilidade tendo em conta a noção de que as suas faculdades cognitivas são credíveis?
  6. Esta probabilidade não é tão grande como parece, porque várias combinações diferentes de crenças e desejos podem levar a um mesmo tipo de comportamento, e algumas das crenças podem ser totalmente falsas ou erradas. Por exemplo:

    Imaginemos que um humanóide pré-histórico do outro planeta adopta um determinado comportamento que se caracteriza por evitar os tigres, por uma questão de exigência da sua própria sobrevivência. Existem muitos comportamentos que são apropriados a esta exigência ― por exemplo, fugir, ou subir a uma árvore grande, ou meter-se num buraco na rocha demasiado estreito para que o tigre entre nele. Acontece que este tipo de comportamento de fuga e evasão pode ter origem não só na necessidade de evitar o tigre para não ser morto, mas também numa miríade de outras crenças possíveis e de combinações de crenças, mesmo que essas crenças sejam falsas e absurdas.

    O que se pretende dizer com isto é que podem existir várias combinações de desejos e crenças que podem culminar no mesmo comportamento adaptativo; mesmo que as crenças fossem falsas, ainda assim seriam adaptativas.

Assim, quais as probabilidades de R, N e E em relação a esta possibilidade? As possibilidades estarão um pouco acima dos 50%, mas não terão maior relevância.

Tentando combinar estas probabilidades ― aplicadas aos humanóides do outro planeta ― de uma maneira correcta, seria razoável supormos que a probabilidade da constante R ser baixa (menos de 50%). Se os princípios evolutivos são o mesmos nesse planeta e na Terra, as probabilidades da constante R ser baixa na Terra seria a mesma, isto é, baixa.

A segunda premissa é a seguinte: Se se acredita que as probabilidade de R, N e E são baixas, e mesmo assim, se acredita na validade de N e E, então teremos uma boa razão para não acreditar em R.

Analogias:

Por exemplo, um crente em Deus ― eu ― chega à conclusão de que a sua crença tem origem numa necessidade de realização de desejos. Suponhamos que eu leio Freud sabendo o que ele defendeu sobre a crença em Deus: que é um produto inconsciente de necessidade de realização dos desejos. Assim, segundo Freud, Deus é uma criação humana inconsciente para tornar a vida suportável.

Assim, se eu pensar que a probabilidade dessa crença em Deus ser verdadeira (tendo em conta a sua necessidade de realização de desejos) é baixa, então a crença em Deus será facilmente derrotável. Esta é uma analogia que demonstra a fraqueza do argumento R, se pensarmos que as probabilidades de R, N e E são baixas, e se acreditarmos em N e E.

Quem acredita nas proposições N e E, e ao mesmo tempo verifica que as probabilidades de N e E são baixas, então reconhece logicamente que a proposição R ― proposição segundo a qual as faculdades cognitivas humanas são credíveis ― estará derrotada na sua validade.

Conclusão: a irracionalidade de se acreditar em N e E — e a racionalidade do teísmo.

A partir do momento em que a proposição R é derrotada na sua validade, então estarão colocadas em causa todas as crenças que pensemos serem produzidas pelas nossas faculdades cognitivas ― isto é , todas as crenças são colocadas em causa na sua credibilidade, incluindo as crenças implícitas nas proposições N e E. Portanto, quem aceita as proposições N e E, aceita a enorme probabilidade de estas estarem erradas. As proposições N e E estão invalidadas (derrotadas) à partida. Portanto, a conjugação entre evolucionismo e o naturalismo está condenada à auto-aniquilação, porque sustem no seu seio um elemento de aniquilamento que não é passível de aniquilamento. Aceitar simultaneamente a evolução e naturalismo, é irracional.

Em contraponto, os teístas tradicionais não têm nenhuma razão para duvidar de que os nossos sistemas cognitivos têm como função produzir crenças verdadeiras, nem acreditam que a probabilidade de uma crença ser verdadeira ― sendo que esta é um produto das nossas propriedades cognitivas ― é baixa. O teísta aceita a evolução como sendo uma evolução guiada por uma inteligência superior (Deus).

3 comentários »

  1. […] (Naturalismo) se opõe, na sua essência, ao “gene egoísta” do darwinista Dawkins. Eu próprio já tinha abordado essa questão numa perspectiva sensivelmente diferente, seguindo o raciocínio do filósofo americano Alvin […]

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    Pingback por Evolucionismo versus naturalismo (2) « perspectivas — Sábado, 16 Agosto 2008 @ 6:51 pm | Responder

  2. Mais uma das muitas contradições da visão que exclui à partida Deus.

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    Comentar por Mats — Sexta-feira, 7 Agosto 2009 @ 12:16 pm | Responder

  3. […] de Plantinga cerca da incompatibilidade entre o naturalismo e o evolucionismo. Eu já tinha escrito um outro verbete em 2008 acerca do mesmo […]

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    Pingback por As objecções ao argumento de Plantinga, pelo Domingos Faria | perspectivas — Terça-feira, 16 Fevereiro 2016 @ 3:34 pm | Responder


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