perspectivas

Quinta-feira, 17 Junho 2010

A evolução do gnosticismo até à sua expressão moderna (7)

— A diástase História / Natureza, a tensão existencial e a Metaxia.

Do gnosticismo antigo e medieval, evoluiu-se na modernidade para duas formas diferentes mas complementares de gnosticismo moderno: um que se baseia no determinismo da natureza que reduz o ser humano a um ser meramente material e sem alma (através do cientismo), e outro que se baseia no determinismo da História (através das religiões políticas). Por vezes, estas duas visões gnósticas modernas da realidade misturam-se. Em ambos os casos, o império do determinismo em relação ao ser humano e a eliminação da sua liberdade intrínseca, é uma característica gnóstica.

Uma outra característica do gnosticismo de todos os tempos, é a tentativa da compreensão das divisões constitutivas da existência através da supremacia absoluta da razão sobre a realidade, ou aquilo a que Eric Voegelin chamou de eliminação da “tensão existencial”, ou da erradicação da Metaxia (que é, segundo Eric Voegelin, a experiência do encontro da consciência humana com a realidade transcendente, e o lugar simbólico onde os humanos participam da dimensão divina na realidade das suas consciências).

Quando o gnosticismo medieval separou absolutamente a realidade transcendental e divina, da realidade material e do ser humano (Deus, para os gnósticos, era inatingível pelo ser humano em geral, excepto para pequena elite de iluminados pela gnose, e pelos pré-eleitos), procurou eliminar a referida “tensão existencial” entre natureza e História, e erradicar a Metaxia como fenómeno eminentemente humano e geral, e comum a todos os seres humanos.

Só podemos dizer que uma pessoa é minimamente racional quando compreende a existência dos limites da razão humana e os assimila racionalmente — porque a razão não pode, por si só, produzir o significado e o sentido da vida.

Uma característica do gnosticismo de todos os tempos é que ele não aceita, de modo nenhum, os limites da razão humana, e tenta sempre explicar aquilo que está para além da razão através de um delírio de interpretação da realidade. Este fenómeno de interpretação delirante da realidade existiu no gnosticismo medieval e transmigrou-se para a moderna recusa gnóstica da diástase História / Natureza. Nessa recusa, uma corrente gnóstica assumiu a plenitude do determinismo naturalista (por exemplo, a neurobiologia moderna que pretende reduzir a mente humana ao cérebro), e outra corrente gnóstica assumiu a inexorabilidade de um determinismo histórico (a utopia gnóstica de esquerda de um futuro absolutamente certo).

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