perspectivas

Domingo, 21 Julho 2019

A escatologia do Anselmo Borges, ou a revolução antropocêntrica do papa gnóstico

Há, no discurso do Anselmo Borges, algo de “escatológico” — entendido no sentido biológico. É um discurso bio-degradado; mas é também “escatológico” no sentido metafísico: um discurso característico dos fins-dos-tempos.

Se juntarmos a excrescência humana do “dogma antidogmático” 1  — quem silenciosamente repudia os dogmas da Igreja Católica (como é o caso do Chico e dos seus sequazes), tem que escolher entre indiferentismo e hierarquia; e é esta a verdadeira “tensão” dos gnósticos que comandam a actual Igreja Católica, que o Anselmo Borges escamoteia — , por um lado, à crença metafísica da centralidade do Homem no universo 2 (o antropocentrismo do papa Chicozinho) , por outro lado, obtermos a escatologia do Anselmo Borges.

Dizia Aristóteles que quando partimos de princípios errados, toda a nossa teoria está errada. É o caso do Anselmo Borges:

« A Igreja tem dentro dela, inevitavelmente, uma tensão que a conduz a um paradoxo. Esta tensão e este paradoxo foram descritos de modo penetrante, preciso e límpido pelo sociólogo Olivier Robineau, nestes termos: "A Igreja Católica é uma junção paradoxal de dois elementos opostos por natureza: uma convicção – o descentramento segundo o amor – e um chefe supremo dirigindo uma instituição hierárquica e centralizada segundo um direito unificador, o direito canónico. De um lado, a crença no invisível Deus-Amor; do outro, um aparelho político e jurídico à procura de visibilidade. O Deus do descentramento dos corações que caminha ao lado de uma máquina dogmática centralizadora. O discurso que enaltece uma alteridade gratuita coexiste com o controlo social das almas da civilização paroquial – de que a confissão é o arquétipo – colocado sob a autoridade do Papa. Numa palavra, a antropologia católica tenta associar os extremos: a graça abundante e o cálculo estratégico. Isso dá lugar tanto a São Francisco de Assis como a Torquemada." »

1/ Desde logo, está errado o princípio do Anselmo Borges segundo o qual a “tensão existencial ” é um fenómeno exclusivo da Igreja Católica — como fica explícito na escatologia do Anselmo Borges.

O que verificamos naquele trecho do Anselmo Borges é uma tentativa de justificar a separação dos pólos da experiência (existencial) — considerando os pólos da experiência como sendo entidades (objectos) independentes (neste caso, a fé, por um lado, e a Igreja enquanto organização humana, por outro lado) entre si.

A separação dos pólos da experiência (considerando-os como entidades independentes um do outro) significa a destruição da Realidade da existência enquanto tal; é uma forma de libertação revolucionária em relação à Metaxia que tem como consequência grave, entre outras, a mutilação do papel da ética no pensamento (relativismo).

A tentativa gnóstica (ou neognóstica, ou revolucionária; vai dar no mesmo) de libertação do humano em relação à existência metáxica (segundo Platão, a Metaxia é a condição dialéctica da existência do ser humano) tem como resultado a ideia absurda segundo a qual a Ordem do Ser pode ser mudada através de um processo histórico, por um lado, e por outro lado, que a mudança do Ser depende da política — é isto exactamente que está presente no ideário do papa Chicozinho e dos seus sequazes, incluindo o Anselmo Borges.

A “tensão” da Igreja Católica, a que se refere escatologicamente o Anselmo Borges, é característica própria da Realidade da existência — e não apenas uma característica da Igreja Católica. Essa tensão metáxica está presente em todos os seres humanos na relação que têm com qualquer  organização social.

2/ A contraposição que o Anselmo Borges faz entre a consciência (a fé), por um lado, e a história dos acontecimentos mundanos (neste caso, a organização da Igreja), por outro lado, consiste em uma uma falsa dicotomia — porque o encontro da consciência humana (a fé) com a transcendência não ocorre na história dos acontecimentos mundanos (na organização social), mas antes ocorre no processo interno da experiência da consciência humana.

O conceito neognóstico de libertação do ser humano em relação à existência metáxica através da tentativa da eliminação da “tensão” existencial que, alegadamente, conduziria (segundo a teoria gnóstica do Chico e seus sequazes) à “salvação em relação ao mal” (à construção de um paraíso na Terra) através de um processo histórico e político — é uma fraude intelectual e uma aberração ética.

papa-açorda


Notas

1. O dogma da bondade natural do Homem (Rousseau) formula, em termos éticos, a experiência central do papa gnóstico: o Homem é naturalmente bom porque é naturalmente deus (imanência e monismo).


2. A
experimentação não refuta nem confirma axiomas matemáticos ou dogmas religiosos. Racionalizar o dogma católico, abrandar a moral, simplificar o rito, não facilita a aproximação do crente, mas sim facilita a aproximação em relação ao incréu.

Sexta-feira, 11 Maio 2018

A hipocrisia puritana do Júlio Machado Vaz

 

Hoje ouvi na rádio pública (Antena 1, rádio do Estado) o Júlio Machado Vaz insurgir-se contra as touradas e, de uma forma implícita, a defender a proibição das touradas — argumentando, por exemplo, que “a tourada não é uma tradição em Portugal porque, de um total de 308 concelhos, apenas em 40 se realizam espectáculos de tourada” (este argumento é o mais estúpido que alguém poderia conceber: como se uma tradição pudesse ser considerada como tal independentemente da cultura antropológica; como se fosse necessário que a maioria dos concelhos de Portugal tivesse praças-de-touros para que a tourada fosse considerada tradição em Portugal.

julio machado vaz webO Júlio Machado Vaz, que hoje ouvi defender publicamente (implicitamente) a proibição das touradas em nome do alegado “sofrimento do touro”, é o mesmo Júlio Machado Vaz que fez campanha a favor da legalização do aborto gratuito pago pelo Estado (ou seja, abortos pagos por todos os portugueses).

Quando se trata do sofrimento de um ser em que já bate um coração, o Júlio Machado Vaz “chuta para canto”, porque entra em dissonância cognitiva, por um lado; e por outro lado porque ele adopta uma agenda política tenebrosa que pretende substituir uma série de tabus tradicionais e seculares por outros tabus anti-naturais.

Neste caso, o Júlio Machado Vaz (e a Esquerda em geral) pretende substituir um tabu tradicional, que eticamente impede o aborto, por um novo tabu que proíbe a tourada (eliminando o tabu do aborto da cultura antropológica). O Júlio Machado Vaz sabe que uma cultura sem tabus é um círculo quadrado; e por isso sabe que é imprescindível substituir os tabus tradicionais por outros tabus que permitam (ou que facilitem) o assalto totalitário ao Poder.

Este fenómeno político e cultural, de que é exemplo o Júlio Machado Vaz, ganhou um nome nos Estados Unidos : Virtue signalling”. Traduzindo em português: “Sinalização de Virtudes”. No fundo, trata-se de um tipo de puritanismo hipócrita que, na esteira cultural da Reforma protestante, se caracteriza por uma “guerra” contra a tradição.

Os esquerdistas actuais são os herdeiros culturais de Lutero e/ou Calvino. “Nietzsche, o grego; Karl Marx, o cristão protestante” (Albert Camus).

« Os puritanos detestavam os combates de ursos, não porque esses jogos causassem sofrimento aos ursos, mas porque davam prazer aos espectadores. »Thomas B. Macaulay 

Esse puritanismo hipócrita, de Sinalização de Virtudes e anti-tradicionalista que esteve sempre presente na cultura europeia cristã através do gnosticismo anti-cristão, evoluiu para o gnosticismo puritano moderno.

Ernest Sternberg, professor da universidade de Bufallo, Estados Unidos, escreveu um ensaio sobre as novas tendências da Esquerda a nível global que crescem actualmente sobre os escombros do marxismo-leninismo. O ensaio tem o título genérico de “Purifying the World: What the New Radical Ideology Stands For”“Purificando o Mundo: O que pretende a nova ideologia radical”.

Ernest Sternberg chama ao novo tipo de esquerdismo (renascido do marxismo cultural) que desponta e se organiza a nível internacional, de “Purificacionismo” (trata-se de uma religião monista !). O nome dado por Ernest Sternberg (Purificacionismo) está intimamente ligado ao movimento puritano inglês dos princípios da idade moderna, que Eric Voegelin descreve com uma minúcia surpreendente na sua obra “A Nova Ciência da Política”.

Segunda-feira, 18 Dezembro 2017

O Frei Bento Domingues é um doente mental; ou então é um filho-de-puta

Filed under: Frei Bento Domingues,gnosticismo — O. Braga @ 6:22 pm

 

“Estamos na quadra litúrgica do Advento, mas tudo parece encenado e polarizado apenas pela memória do nascimento de Jesus, alimentando um terno imaginário da infância, com alguma e passageira solidariedade, própria da estação, sem, no entanto, tocar nos alicerces da sociedade. É como se nada estivesse para acontecer.”

Frei Bento Domingues


“Tocar nos alicerces da sociedade”, escreve o doente mental. Um doente mental da igualha dos que mataram mais de 100 milhões de pessoas inocentes no século XX: os doentes mentais ou/e psicopatas que quiseram “tocar nos alicerces da sociedade” tentando alterar a Natureza Humana, e acabaram com mais de uma centena de milhões de mortos em nome de uma utopia.

“O meu reino não é deste mundo” — afirmou Jesus Cristo (João 18, 36)

Das duas, uma: ou o Frei Bento Domingues não percebeu patavina do que está escrito nos Evangelhos; ou é um grande filho-de-puta.

A imanentização do éschatos se justifica vindo da parte de um doente mental, ou então de um filho-de-puta psicopata.


« Quando o coração é sensível e o espírito contundente, basta lançar um olhar sobre o mundo para ver a miséria da criatura e pressentir as vias da redenção; se são insensíveis e embotados, serão necessárias perturbações maciças para desencadear sensações fracas.

É assim que um príncipe mimado se apercebeu pela primeira vez de um mendigo, de um doente e de um morto ― e tornou-se assim em Buda; em contrapartida, um escritor contemporâneo vive a experiência de montanhas de cadáveres e do horroroso aniquilamento de milhares de indivíduos nas conturbações do pós-guerra na Rússia ― e conclui que o mundo não está em ordem e tira daí uma série de romances muito comedidos.

Um, vê no sofrimento a essência do ser e procura uma libertação no fundamento do mundo; o outro, vê-a como uma situação de infelicidade à qual se pode, e deve, remediar activamente. Tal alma sentir-se-á mais fortemente interpelada pela imperfeição do mundo, enquanto a outra sê-lo-á pelo esplendor da criação.

Um, só vive o além como verdadeiro se ele se apresentar com brilho e com grande barulho, com a violência e o pavor de um poder superior sob a forma de uma pessoa soberana e de uma organização; para o outro, o rosto e os gestos de cada homem são transparentes e deixam transparecer nele a solidão de Deus. »

→ Eric Voegelin

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Sexta-feira, 30 Junho 2017

Anselmo Borges, um herdeiro de Rousseau

 

1/ Uma das características das elites portuguesas (ou aquilo a que os ingleses chamam de “rulling class”) é a de criticarem sistémica- e sistematicamente o povo. Essa ruling class inclui gente que tem acesso regular aos me®dia, como é o caso do Anselmo Borges. Vemos, pois, gente que pertence à presumível “elite” de um povo, a criticar o próprio povo a que pertence, como se não se não fizesse parte dele.

“Se percorrermos, olhando sem óculos de nenhum grau nem cor, a paisagem que nos apresentam as produções e as improduções do nosso escol — entendo por escol o escol literário e artístico, o escol político e jornalístico, e o escol industrial e comercial — facilmente notaremos que o provincianismo é o seu característico comum e constante.”

→ Fernando Pessoa, “Sobre Métodos”.

O escol, segundo Fernando Pessoa, é (grosso modo, neste contexto) a “ruling class”.

Uma das características do escol (ou da ruling class) portuguesa é a crítica constante em relação ao povo — uma crítica destrutiva, ou uma crítica paternalista que pretende denunciar o provincianismo que a própria ruling class ostenta sem o reconhecer.

Vemos neste texto do Anselmo Borges o que eu pretendo dizer; o Anselmo Borges faz lembrar o Belmiro de Azevedo, que, em uma entrevista a uma rádio inglesa há já uma boa dúzia de anos (eu ouvi a entrevista, sou testemunha directa), afirmou que “o povo português é preguiçoso”, quando de facto, o povo português (em geral) trabalha mais horas por ano do que os povos britânicos. E é o Belmiro e a sua famelga que sustentam o jornal deficitário de Esquerda que é o Jornal Púbico.

Quando os parques de estacionamento não existem, ou quando os seus preços são proibitivos; ou quando não existem transportes públicos abrangentes e dignos — o Anselmo Borges critica os automobilistas da rua dele. Isto é uma característica da actual ruling class portuguesa: atira para cima do povo as responsabilidades que recusa assumir. A culpa é do “horrível cheiro a povo”, quando sabemos que, ao longo da História, os povos (em geral) erraram menos do que as respectivas elites.


2/ Aquilo a que chamamos “esquerda” surgiu do conceito romântico de "Vontade Geral", de Rousseau.

O conceito de "Vontade Geral" é colectivista (coloca o grupo antes do indivíduo) e romântico (utopia), e influenciou a Revolução Francesa e a Europa continental dos séculos XIX e XX.

Todos os totalitarismos do século XX (nazismo, fascismo, comunismo) são vergônteas românticas (utópicas) de Rousseau e da sua Vontade Geral.

Em contraponto, a cultura política inglesa e americana (e australiana) têm origem em John Locke (e não em Rousseau), e dá prioridade ao indivíduo em detrimento do colectivo. Por isso é que os americanos têm a Primeira Emenda da Constituição que garante a liberdade de expressão que é, por definição, ofensiva (a liberdade de expressão que não tem a possibilidade de ser “malcriada” e de não ofender, corre o sério risco de não ser livre).

Por isso é que o Anselmo Borges diz que a liberdade de expressão é malcriada: para ele, a má-criação (que é o vernáculo do povo e da língua portuguesa, por exemplo) deverias ser eliminada juntamente com a liberdade de expressão que só deveria ser garantida à “elite” dos gnósticos modernos que se juntam em redor de um qualquer caudilho e rei-filósofo platónico da moda.

A Esquerda, como boa herdeira do romântico colectivista Rousseau, nunca conviveu bem com a liberdade de expressão. E o Anselmo Borges também não.

Isto é patente, por exemplo, no conceito de “achismo” expresso aqui por Anselmo Borges. A livre expressão, para o “esquerdista de elite”, é “achismo”; um qualquer militante do Bloco de Esquerda diria que qualquer opinião dissonante da cartilha politicamente correcta, é uma manifestação de “ignorância” — o que coincide com o conceito de “achismo” do Anselmo Borges.

Hoje está na moda (esquerdista) dizer que quem não concorda connosco é “ignorante”; ora eu não penso que o Anselmo Borges seja ignorante: ele é simplesmente um romântico rosseauniano e utopista (é uma doença mental), e tem uma agenda política neognóstica para-totalitária encoberta pelos evangelhos do Cristianismo.

Quarta-feira, 29 Março 2017

A maçonaria é uma seita diabólica (Johan Livernette)

Filed under: gnosticismo,José Adelino Maltez,Maçonaria — O. Braga @ 6:16 pm

 

Terça-feira, 24 Fevereiro 2015

Os gnósticos modernos

 

A Gnose foi um movimento religioso da Antiguidade Tardia que teve as suas raízes em uma visão dualista (dualismo ontológico, e não propriamente um dualismo cartesiano) proveniente do Oriente [por exemplo, do Parsismo e do Maniqueísmo], e de acordo com a qual existe uma contradição entre o espírito e a matéria, bem e mal, luz e trevas. Os primeiros textos gnósticos datam do século II d.C.; as suas origens são obscuras; mas, provavelmente, a Gnose desenvolveu-se, no império romano, paralelamente ao Cristianismo e como uma grandeza religiosa independente.

(texto longo, com 1900 palavras)

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Segunda-feira, 7 Outubro 2013

A influência da Cabala cristã no Iluminismo e no idealismo filosófico

 

"When Lucifer by his Rebellion had brought the whole Extent of his Kingdom into such a desolate Condition, that it was, as Moses describes it, without Form and Void, and Darkness was upon the Face of the Deep, that whole Region was justly taken away from under his Dominion, and transformed into such another meaner and temporary Condition, that it could no more be of any use to him.

And when this was fully settled in Six Days Time, according to the Six Active Spirits of the Eternal Nature, so that it needed nothing more but a Prince and Ruler, instead of him who had forsaken his Habitation in the Light, ADAM was created in the Image and Likeness of GOD, an Epitome, or Compendium, of the whole Universe, by the VERBUM FIAT, which was the Eternal Word, in Conjunction with the first Astringent Fountain-Spirit of Eternal Nature."

Jacob Böhme (texto respigado no FaceBook)

As ideias de Jacob Böhme inspiraram os filósofos do Iluminismo em geral, mas principalmente Schelling que, por usa vez, esteve directamente na base das ideias de Hegel. Böhme foi um ilustre representante da “Cabala cristã” — em contraponto à Cabala propriamente dita — que alimentou também as ideias de uma certa maçonaria (não toda!) e os rosa-cruzes (uma maçonaria cristã, e por isso, anti-luciferina, embora imanente e maniqueísta: maçonaria essa que praticamente já não existe).

Vemos aqui como Jacob Böhme vê o ser humano, não como um produto da Queda, mas como um símbolo do Bem e de Deus (imagem prometaica). A Queda do ser humano é implícita e sub-repticiamente negada. Em vez disso, o ser humano foi criado em uma situação de contraste com a Queda de Lúcifer — sendo que a Lúcifer lhe foi retirado o seu reino em função da sua Queda. Segundo esta perspectiva, a Queda é a de Lúcifer, e não do ser humano.

Esta visão é anticatólica e mesmo anticristã, embora travestida de Cristianismo. É uma visão gnóstica, que está na origem da mente revolucionária.

Segunda-feira, 22 Abril 2013

A principal diferença entre Bento XVI e João Paulo II, por um lado, e Francisco I, por outro lado

Se quisermos saber a origem da mente revolucionária, teremos que estudar a história dos Fraticelli da Idade Média.

Desde a Idade Média que existem duas mundividências distintas, a que correspondem duas correntes doutrinais diferentes, por assim dizer, dentro da Igreja Católica. Estas duas correntes são, quer queiramos quer não, irreconciliáveis. A primeira é a chamada corrente “intencionalista”, que foi iniciada no século XI por Abelardo, e adoptada em surdina pelos franciscanos e Fraticelli (e por Joaquim de Fiore), e que mais tarde, no século XVI, esteve na origem da Reforma protestante.
À segunda corrente podemos chamar de “tomista” (de S. Tomás de Aquino) embora as suas origens sejam anteriores, por exemplo em João de Salisbúria ou em Hugo de S. Victor.

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Domingo, 14 Abril 2013

Hegel e Averróis

Filed under: filosofia,gnosticismo,Quântica,Ut Edita — O. Braga @ 6:12 pm
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S e olharmos para a essência do pensamento metafísico de Averróis (o “intelecto, agente separado”) verificamos que coincide com a essência do pensamento metafísico de Hegel (o “Espírito do Mundo em marcha”). O “intelecto, agente separado” de Averróis, e o “Espírito do Mundo em marcha” de Hegel, para além de terem uma essência idêntica, anulam a individualidade humana que fica reduzida à estrutura (Eidos) da História. Não admira que a metafísica de Hegel resultasse no marxismo. As mesmas razões que serviram para refutar Averróis, servem para refutar Hegel.

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Sábado, 13 Abril 2013

Um exemplo do actual enviesamento ideológico dito católico

«El primer momento del diálogo político ha de ocuparse de la igualdad de derechos entre todos los ciudadanos. Sería el ámbito constitucional. Como afirma J. Rawls, “cada persona posee una inviolabilidad fundada en la justicia que incluso el bienestar de la sociedad como un todo no puede atropellar (…). Los derechos asegurados por la justicia no están sujetos a regateos políticos ni al cálculo de intereses sociales”. Como puede verse, afirmaciones todas anti-utilitaristas.»


Quando vejo católicos citar John Rawls, fico com os cabelos em pé. O argumento utilizado é sempre o do anti-utilitarismo, como se esse valesse por si só. Os marxistas também são, pelo menos em tese e tal como John Rawls, anti-utilitaristas. E infelizmente também vejo sapientes “católicos”, alguns cardeais e até Papas, a dar loas em surdina ao alegado anti-utilitarismo do marxismo.

A Igreja Católica não tem necessariamente que se submeter ao Estado.

John Rawls já foi bastamente refutado devido às suas próprias contradições. O conceito de “véu de ignorância” de Rawls já foi desconstruído e racionalmente refutado de uma forma até impiedosa, e num dos próximos verbetes irei abordar expressamente John Rawls. Considero mesmo uma vergonha que uma pessoa dita “católica” mencione John Rawls de forma apologética. E só um católico ignorante, ou um católico malévolo, invoca benevolentemente Rousseau para justificar as suas teses alegadamente “católicas”.

Ser anti-utilitarista, em teoria, não chega. É preciso que a teoria anti-utilitarista se verifique na prática. E a teoria de John Rawls, para além de ser utópica e até delirante (como demonstrarei, mais tarde), traduz-se, na prática política, na mais feroz forma de utilitarismo: o laicismo radical (que é diferente do secularismo saudável). John Rawls defende claramente a privatização da religião, ou seja, o banimento de quaisquer símbolos religiosos da praça pública; John Rawls defende que a religião deve ser restringida à casa (ao lar) do crente, e que inclusivamente deve ser proibido o proselitismo religioso. O texto publicado no blogue Logos é extenso, e refutá-lo daria um outro texto muito extenso. Mas não é por ser extenso que deixa de ser propositadamente incoerente, confuso, gongórico, e até vergonhoso.

Quarta-feira, 10 Abril 2013

Rousseau, a atomização da sociedade e os totalitarismos gnósticos do século XX

O

problema começou antes de Rousseau. O problema começou no seio da própria Igreja Católica com a absurda “querela dos universais”, que meteu os franciscanos ao barulho a favor do conceito absurdo de nominalismo. Antes disso, os franciscanos Fraticelli andaram de candeias às avessas com o poder temporal quando defenderam o Poder absoluto do Papa. Os franciscanos estiveram metidos no pior da Igreja Católica (ainda pior do que os Jesuítas).

A Reforma protestante minou profundamente a autoridade. É irónico que um protestante do século XIX venha queixar-se da ausência de autoridade na cultura coeva, porque a Reforma foi o primeiro grito de revolta contra a autoridade.

Os ideólogos da Razão de Estado de finais do século XVI e século XVII opuseram o poder absoluto do rei ao poder absoluto do Papa defendido pelos franciscanos dois séculos antes. Dos ideólogos da Razão de Estado surgiu Hobbes — o primeiro hipóstata teórico do absolutismo de Estado. Locke, na segunda metade da sua vida filosófica, não esteve muito longe de Rousseau. Rousseau não foi original em nada excepto na criação abstrusa e absurda do conceito de “vontade geral” que não tem qualquer origem na realidade política e sociológica. A “vontade geral” é uma forma de permitir a discricionariedade e o absolutismo, até sob a capa da democracia.

…as ideias têm consequências

A origem simbólica do Bom Selvagem, de Rousseau, está no Génesis bíblico e no conceito de Éden (o paraíso na terra). Por aqui podemos fazer uma ideia da complexidade do problema. O que Rousseau fez foi utilizar um símbolo judaico-cristão e fazer dele uma leitura literal, e tão literal como era aconselhado pela própria Igreja Católica daquele tempo. Rousseau não fez uma exegese a partir dos símbolos de Adão e Eva: limitou-se a transcrever literalmente a noção de paraíso na terra que o próprio Génesis encerra em si.

A diferença é que o Mal — a simbologia da Serpente —, segundo Rousseau, passou a ser a sociedade entendida como comunidade (“O inferno são os outros” — Jean-Paul Sartre), enquanto que o Mal bíblico foi invertido e passou a ser o Bem, que segundo Rosseau, é o conhecimento no sentido prometaico.

Esta inversão da significação de um mesmo símbolo levou a que o Bem passasse oficialmente a ser o conhecimento prometaico que absolutiza o indivíduo (Rousseau seguiu o princípio da autonomia de Kant, mas em vez de dotar o indivíduo de responsabilidade, criou o conceito de “vontade geral” para anular politicamente a própria responsabilidade individual, anulando a componente kantiana do “cidadão-legislador”), por um lado, e por outro lado a comunidade passou a ser o Mal que necessita da liderança “sábia” e firme — através do conceito abstracto de “vontade geral” — de uma elite (gnóstica) que transformasse o voto popular em discricionariedade “sapiente” na acção política.

“Pode dizer-se não que há tantos pareceres como homens, mas tantos como associações. (…) É portanto essencial, se a vontade geral pode exprimir-se, que não haja sociedades parciais dentro do Estado, e cada cidadão pense apenas por si; tal é o sublime e único sistema estabelecido pelo grande Licurgo”. (“Contrato Social” de Rousseau)

Como podemos verificar, Rousseau defende, através do conceito de “vontade geral”, a atomização da sociedade e a instituição dos totalitarismos do século XX. Há quem diga que ele não teve culpa — como há quem diga que Nietzsche não teve culpa do surgimento do nazismo — mas, para mim, isso é treta. As ideias têm consequências.

Sábado, 6 Abril 2013

O Laicismo, a metafísica de Estado

Um tribunal superior da Holanda validou a existência legal de uma associação que defende a pedofilia, ou seja, defende os putativos “direitos” dos pedófilos a ter relações sexuais “consentidas” com crianças. Parte-se assim do princípio segundo o qual uma criança de seis ou sete anos pode “consentir” ter relações sexuais com um adulto — princípio esse que o tribunal holandês sancionou.

En un controvertido fallo, un tribunal de apelaciones en Holanda validó la existencia de una asociación de pedófilos, que en primera instancia había sido disuelta el año pasado, por considerar que no constituye “una amenaza a la desintegración de la sociedad”.

via Un tribunal holandés avala la existencia de una asociación de pedófilos – ReL.


Uma extensão indefinida dos “direitos do homem” tornou-se a religião de Estado, uma religião oficial que se impõe, hoje, repressiva e coercivamente a toda a sociedade civil com uma amplitude inédita. O integrismo laico e o salafismo gay são instrumentos de uma ambição demiúrgica da Esquerda — apoiada incondicionalmente pela maçonaria —, a que se junta o aborto e a pedofilia considerados como “direitos humanos”.

Mais do que “politicamente correcto”, devemos hoje falar em “religiosamente correcto”, porque o Estado funciona já como uma igreja dogmática (e gnóstica) apostada em restringir a liberdade de pensamento.

Assim, o Estado colocado ao serviço de uma crença religiosa laicista, não respeita a separação do político e do religioso, uma vez que o político e o religioso coexistem sobrepostos no Estado.

O laicismo liquida a laicidade que era, até há pouco tempo, a distinção entre o profano e o sagrado; a laicidade que era uma característica cristã da mundividência dos dois reinos, o temporal e o espiritual. Hoje, o novo gnosticismo de Estado transformou o laicismo em um dogma religioso onde não existe separação entre o temporal e o espiritual.

Resulta deste fenómeno de dogmatismo religioso, uma metafísica de Estado, uma religião da Humanidade construída sobre o reino da imanência, que faz dos “direitos humanos” uma política em si mesma. Resulta desse deísmo humano um direito penal religioso e uma sacerdotisa judicial que sanciona a desobediência em relação a qualquer tabu ético ou moral herdado do passado.

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