perspectivas

Sábado, 9 Janeiro 2016

O ser humano conhece através dos opostos

Filed under: filosofia — O. Braga @ 1:11 pm
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O ser humano vai conhecendo a realidade através da dialéctica dos opostos (no sentido de Heraclito, e não de Hegel); mas a premissa do conhecimento, é a consciência de que os opostos são a condição (do conhecimento). Uma coisa é conhecer; outra coisa, diferente, é ter a consciência de que se vai conhecendo — ou seja, ter a consciência do conhecimento, entendido em si mesmo.

Exactamente porque a maioria dos seres humanos não tem a consciência de que vai conhecendo — não só “conhecer” por experiência própria, mas também através da epistemologia —, um dos opostos é alternativamente abraçado como sendo o próprio conhecimento; os opostos são concebidos como objectos (Metaxia).

Por exemplo, é ética- e moralmente repugnante a violência sexual recentemente sobre mulheres na cidade de Colónia, Alemanha. Para além da violência em si mesma, é também eticamente reprovável o obsceno — que é a erosão da fronteira entre o que é público e o que é privado.

Porém, o ser humano tem a tendência para justificar a objectivação de um oposto, com outro oposto transformado em objecto. Vê-se nesta fotografia um exemplo:

oposto

“Respeitem-nos! Nós não somos oferecidas, mesmo quando estamos nuas”.

A “coisificação” da mulher acontece nos dois opostos, porque ambos entram no domínio do obsceno; e quem se viu confrontado com os dois opostos e não os considerou como tal, não ganhou consciência de que não existe diferença real e substantiva entre eles.

Sexta-feira, 16 Outubro 2015

Heidegger e o grau zero da filosofia

Filed under: filosofia — O. Braga @ 8:53 am
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“Qualquer pessoa pode seguir os caminhos da reflexão à sua maneira e dentro dos seus limites. Por quê? Porque o homem é o ser (Wesen) que pensa, ou seja, que medita (sinnende). Não precisamos, portanto, de modo algum, de nos elevarmos às ‘regiões superiores’ quando reflectimos. Basta demorarmo-nos (verweilen) junto do que está perto e meditarmos sobre o que está mais próximo: aquilo que diz respeito a cada um de nós, aqui e agora; neste pedaço de terra natal, agora, na presente hora universal.”

Martin Heidegger

Este texto de Heidegger cria uma dicotomia entre aquilo que “está perto” ou “mais próximo”, por um lado, e por outro lado aquilo que pertence às “regiões superiores” (a religião, ou a metafísica). Embora seja uma tentativa de negação da metafísica, o texto é metafísico — embora se trate de uma metafísica negativa.

A dicotomia é falsa; o facto de meditarmos sobre aquilo que “está perto” ou “mais próximo”, não implica a necessidade de não meditarmos também sobre aquilo que pertence às “regiões superiores”. Para além de falsa, a dicotomia reduz a Realidade inteira ao mundo sub-lunar limitado pelos satélites artificiais — o que é característica do gnosticismo moderno (visão anti-cósmica).

Ademais, o conceito de “regiões superiores” sugere a ideia de “regiões longínquas”, em contraponto à ideia de “regiões mais próximas”.

Ou seja, Heidegger nega o conceito de Metaxia: o encontro da consciência humana com a transcendência (as “regiões superiores”) não ocorre na história dos acontecimentos mundanos, mas antes ocorre no processo interno da experiência da consciência humana. A Metaxia é o lugar onde o ser humano participa, com o divino, na realidade da consciência. E não há nada “mais próximo” do ser humano do que a sua própria consciência.

Quinta-feira, 17 Junho 2010

A evolução do gnosticismo até à sua expressão moderna (7)

— A diástase História / Natureza, a tensão existencial e a Metaxia.

Do gnosticismo antigo e medieval, evoluiu-se na modernidade para duas formas diferentes mas complementares de gnosticismo moderno: um que se baseia no determinismo da natureza que reduz o ser humano a um ser meramente material e sem alma (através do cientismo), e outro que se baseia no determinismo da História (através das religiões políticas). (more…)

Quinta-feira, 3 Dezembro 2009

O ambientalismo das “mudanças climáticas antropogénicas” é uma religião gnóstica (2)

Ponto prévio: Convém que fique claro que uma coisa é o monismo religioso do “aquecimento global antropogénico por via do CO2”, e outra coisa é a poluição dos oceanos, o excesso e desperdício que decorre da predação do mundo animal e a desflorestação.


Para o gnosticismo, a integridade e a honestidade da ciência não têm absolutamente nenhum valor senão como instrumento de eliminação da “ordem do ser” que decorre da condição existencial metáxica do ser humano

Num postal anterior referi o facto de que o cristianismo criou as condições para o desenvolvimento da ciência quando reconhece a transcendentalidade de Deus. Sendo Deus transcendente ao universo material, o cristianismo libertou, assim, o espaço necessário à sociedade europeia para a investigação científica. O objecto da investigação científica ― o mundo ― é dessacralizado pelo cristianismo porque não faz parte da essência divina propriamente dita; o Génesis bíblico estabeleceu o mundo como sendo criado ― separado do Criador ― e portanto susceptível de ser investigado pelo Homem. Isto significa que o mundo, segundo o cristianismo, pertence ao vulgar profano e não pertence, por isso, ao sagrado, e a vulgaridade do mundo criou o espaço cultural necessário e suficiente para que a investigação científica pudesse ocorrer de uma forma descomplexada.

No primeiro postal desta série, falei da “metaxia” segundo Platão como condição da existência humana. Eric Voegelin altera sensivelmente a concepção platónica de metaxia que ele define como sendo “a experiência do encontro da consciência humana com a realidade transcendente”. Assim, a metaxia segundo Voegelin é o espaço da consciência onde o Homem participa da realidade transcendente de Deus.

Portanto, para os cristãos, o mundo físico ― o tal mundo criado por Deus ― é objectivo, mesmo quando partimos do princípio quântico da descontinuidade material: segundo o cristianismo, a realidade do macrocosmos é objectiva, assim com as leis da natureza que se aplicam nesse macrocosmos, e o microcosmos quântico pertence a uma realidade imanente com leis e regras próprias e distintas das que existem na objectividade macroscópica em que vive o ser humano a sua existência metáxica.
De igual modo, a transcendência de Deus é para os cristãos algo de concreto e real que decorre da existência metáxica, entendida tanto do ponto de vista platónico como do de Voegelin.
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Quarta-feira, 2 Dezembro 2009

O ambientalismo das “mudanças climáticas antropogénicas” é uma religião gnóstica (1)

No party da elite jacobina realizado ontem em Belém, onde ― salvas algumas excepções ― se juntou a malfeitoria da pior espécie que existe na Europa, ouvimos [nos discursos] por duas vezes a referência às “alterações climáticas” que nada mais é do que uma versão mais actualizada do “aquecimento global antropogénico” (ou o “aquecimento global por culpa do Homem”).
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