perspectivas

Segunda-feira, 10 Dezembro 2007

O Apocalipse de Dawkins

Filed under: Religare — O. Braga @ 11:23 am
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Estive, há dias, a ler um texto de Stephen Hawking em que ele defende a ideia de que o Homem terá que colonizar outros planetas antes do “Apocalipse” causado pelas armas biológicas e nucleares de destruição massiva, que transformarão a Terra num sítio inabitável. Também há alguns dias, comprei “A Desilusão de Deus”, de Richard Dawkins; li a primeira metade, e na segunda passei a uma leitura diagonal, porque não existe nada de novo em relação às teses conhecidas do “cientista” britânico.

A visão da História, segundo Dawkins, é paupérrima; os argumentos morais de Dawkins são obscenos, quando por exemplo culpa a perseguição religiosa aos judeus por parte da Igreja medieval e esquece-se da genética científica contemporânea que transformou a exterminação humana num método cartesiano.
Dawkins inventou um novo mito: os “Memes”, que segundo ele são os “vírus da mente” que se espalham e persistem nas populações humanas, e que a par dos genes, presidem à evolução. O pensamento de Dawkins é perigoso porque estende a genética ao pensamento, à intelectualidade e à cultura – introduzindo uma componente eugénica nestas áreas.

O livro de Dawkins não tem ponta por onde se lhe pegue, e é essencialmente dirigido a uma camada da população que é exclusivamente especializada numa determinada área do Conhecimento (os chamados “Técnicos”), mas que não tem uma cultura global e por isso, são presas fáceis para uma teoria filosófica que utiliza (ilegitimamente) a ciência para se afirmar. A dúvida moral característica no ser humano que impede a destruição massiva passaria – depois da celebração da teoria de Dawkins – da responsabilidade da existência de Deus para coisas tão frugais como o bom emprego e o bem-estar, o que convenhamos é uma base muito frágil para desencorajar um apocalipse. Pior: Dawkins transforma o ateísmo numa religião, e quando o ateísmo passa a ser uma religião, teremos que necessariamente recordar a estória de Lúcifer (o Anticristo), transcrita de escritos tão antigos e oriundos de diversas culturas do mundo.

Enquanto Dawkins culpa exclusivamente as religiões pelos males do mundo, Hawking fala no “apocalipse” que tem por base o progresso da ciência na descoberta de novos métodos de aniquilação total – dois cientistas com duas visões diferentes sobre a ciência – e em que ficamos? Será a religião responsável pela descoberta da bomba atómica e da sua utilização? Podemos assacar ao Papa a responsabilidade do armamento nuclear francês, russo ou americano? Será que a “ciência” de Dawkins, que persegue as religiões, poderá obliterar a possibilidade do “apocalipse”?

Hoje, a maior parte dos vaticínios pessimistas em relação ao mundo provêm de quadrantes essencialmente ateístas. Por exemplo, o mito do “aquecimento global” e do fim ecológico do planeta é assumido e promovido por movimentos políticos anti-religiosos e “científicos”. Hoje, é a “ciência” que incute o medo à Humanidade em vez de a libertar, e são as religiões que continuam a falar de esperança e em confiança no futuro da Humanidade. Hoje, existe um movimento de uma pseudo-ciência que quer virar a ciência contra a religião, satanizando-a. Hoje, para a “ciência”, o grande Satã é a religião. Cientistas que são simultaneamente religiosos são perseguidos pela nomenclatura da ciência oficial; qualquer manifestação de religiosidade por parte de um cientista dita o seu afastamento de uma carreira na investigação. A ciência contemporânea instituiu uma discriminação e um apartheid ideológico sem precedentes na História humana. Gente da escumalha de Dawkins é responsável por este dogmatismo intolerante por parte de uma determinada “ciência”.

O darwinismo aplicado ao universo

Dawkins escreve, defendendo a supremacia da ciência sobre a religião, e utilizando a quântica:

“A matéria flúi de um lugar para outro e momentaneamente junta-se para te formar. O que quer que sejas, não és a matéria de que pensas que és feito.”

Num capítulo anterior, e satanizando a religião, Dawkins escreve:

“O nosso dualismo inato predispõe-nos a acreditar numa “alma” que habita o corpo em vez de fazer parte integral do corpo. Este espírito desencarnado pode facilmente ser imaginado movendo-se para um sítio algures depois da morte”.

Dawkins não se deu conta que nas duas frases, a única coisa que fez foi corroborar algumas religiões orientais ao mesmo tempo que criticava a religião em geral. O problema de Dawkins com a religião é pessoal e subjectivo, e não científico e objectivo; escora-se numa filosofia positivista que se contradiz nas certezas do determinismo científico, que como sabemos já não existe.
O modelo evolucionista para a explicação do universo na sua totalidade foi quase completamente posto de parte nos últimos 70 anos: por um lado, as filosofias neo-empíricas, e em geral aquelas que têm em conta os dados da ciência e o desvio crítico sofrido por esta em virtude da sua probabilística, tendem a relegá-lo para o domínio da “metafísica” de tipo antigo, ou então ignorá-lo praticamente. Por outro lado, as filosofias de inspiração metafísica declarada, como a fenomenologia de certas formas de existencialismo, rejeitam o darwinismo aplicado à formação do universo devido ao seu evidente carácter “naturalista”. No domínio das ciências físicas, o darwinismo foi já completamente abandonado; o único campo em que o darwinismo permanece válido e no qual é constantemente utilizado, é o das ciências biológicas – mas mesmo neste campo, perdeu os traços que caracterizavam a sua formulação oitocentista: a evolução de que falam actualmente os biólogos não é única nem contínua, nem necessária, nem necessariamente progressiva. A evolução não é nem completamente ordenada nem completamente desordenada, não mostra um plano único e uniforme nem um progresso firme e gradual em direcção a um objectivo discernível. “A história da vida é uma estranha mistura do controlado e do casual, do sistemático e do assistemático” (George Gayford Simpson – The Meaning of Evolution).

Contudo, Dawkins parece querer ignorar totalmente a evolução em outras áreas do Conhecimento, e continua atavicamente a considerar o evolucionismo de Darwin na concepção da formação do Universo. Esta teimosia irracional de Dawkins revela um problema pessoal com a religião que só poderá ser eventualmente explicado pela psicanálise, porque a ciência não o pode ajudar a defender a sua tese “científica”.

Dawkins considera que a probabilidade da existência de Deus é nula porque Ele teria que ser mais complexo que o universo que criou, o que, na opinião de Dawkins, é impossível porque se Deus existisse nessas condições “estaria no lado oposto da evolução”:

“Como é que os teístas lidam com o argumento de que um Deus capaz de desenhar um universo (…) deve ser um ser extraordinariamente complexo e uma entidade improvável que necessita de uma explicação ainda mais complexa do que aquela que se intui que ele forneça?”

Para Dawkins o nome “Deus” é inapropriado, porque o que quer esteja na origem do universo, deveria ser ainda mais simples e mais básico do que o próprio universo, e não mais complexo do que o universo – porque assim estaria no “lado correcto da evolução”. Dawkins sente-se extremamente orgulhoso pela originalidade deste seu raciocínio que considera brilhante, e é nesta base que ele refuta a probabilidade da existência de Deus. Portanto, o próprio raciocínio de Dawkins fala por si e dispensaria mais palavras.
Para Dawkins, é impossível a existência do que quer que seja que não se submeta às leis do darwinismo – Deus incluído. Ponto final. Contudo, num livro publicado há uma dúzia de anos, (“Unweaving the Rainbow”) Dawkins admite a teoria de Hawking de que o Tempo começou com o Big Bang, isto é, reconheceu que o Tempo começou num determinado momento, embora, segundo ele, seja difícil compreender o fenómeno do princípio do Tempo Universal (ou Tempo Total) devido à “limitação da mente humana” (sic). Se Dawkins admite que o Tempo começou num determinado momento, fico sem saber onde é que o seu darwinismo aplicado a Deus e à formação do universo entra na equação.

Surpreendo-me sempre que vejo gente que vende a banha-da-cobra sustentado por um estatuto de “cientista”, embora saiba que isso faz parte da nossa realidade constante. Dawkins insulta a minha inteligência, faz de mim um mentecapto; não me preocupa minimamente o seu ateísmo, porque se trata de uma questão pessoal de fé ou da sua ausência, mas não lhe perdoo a desonestidade intelectual. Sobretudo, não lhe tolero a arrogância e a excentricidade assumidas em nome da Razão e da Ciência.

Vivemos num tempo em que as placas tectónicas da cultura ocidental se activam provocando sismos culturais que podem prejudicar, a muito curto prazo, a paz e o progresso das sociedades em liberdade e na diversidade. Quando o ateísmo culpa a religião, no fundo culpa-a pela reacção que a religião assume em relação às agressões ateístas. No ataque ateísta à religião junta-se uma amálgama de interesses culturais ligados à política, que inclui para além dos cripto-ateus como Dawkins, toda uma série de agendas políticas que pretendem acabar com a família natural e com o direito à vida – em nome da ciência.
Se existe uma “má religião”, também existe uma “má ciência” que é aquela que pretende reduzir o ser humano a um objecto desprovido de dignidade. A falta de uma liderança política forte e credível a nível europeu tem possibilitado o reforço destas forças sociais destrutivas que abrem caminho através dos governos frágeis e dos Mídia, e a essência dessas forças reside no relativismo moral.

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1 Comentário »

  1. Excelente. Sem dúvida.

    Victor Roda de Freitas.

    Comentar por Victor Rosa de Freitas — Segunda-feira, 10 Dezembro 2007 @ 5:04 pm | Responder


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