perspectivas

O estado da ética

Temos ouvido sistematicamente gente inteligente ― como o professor Adriano Moreira ― falar insistentemente na necessidade dos “valores”. O que são os “valores”?

Com a actual crise financeira, tem-se falado muito de necessidade de ética.

A crise do capitalismo está estritamente ligada à perda de normas vinculativas que faz regredir os seres humanos cada vez mais ao princípio do egoísmo através de um círculo vicioso: a perda de valores causa o recrudescimento da mentalidade individualista que causa mais perda de valores, rumo à irracionalidade e à decadência. Perante este fenómeno, alguns (a esquerda) defendem uma maior intervenção do Estado na sociedade, o que daria azo a que os cidadãos deixassem de ser controlados pela sua consciência e passassem a ser sujeitos a uma repressão através da acção policial estendida não só ao comportamento individual como em relação ao seu próprio pensamento. Uma maior intervenção do Estado na sociedade, no seguimento desta crise de valores, significaria o reconhecimento da impossibilidade de ver o ser humano senão como um animal irracional. Portanto, a solução para o problema está antes numa cultura moral razoável e segura e de responsabilização dos cidadãos.

valoresAs estruturas tradicionais da sociedade civil entraram em colapso, e entre elas a mais importante: a família. A religião começa a ser perseguida pelo Estado, nuns países mais do que noutros: a nossa sociedade ultrapassou já o limiar da pobreza em termos religiosos e ideológicos. Pela primeira vez desde que a História é escrita ― e mesmo na pré-história ― os jovens são educados e socializados sem uma cosmovisão.

Temos ouvido sistematicamente gente inteligente ― como o professor Adriano Moreira ― falar insistentemente na necessidade dos “valores”. O que são os “valores”? Eles referem-se à ética ― que é a disciplina filosófica que fundamenta as normas. Porém, se os valores não estão enraizados na tradição de uma sociedade, terão que ser fundamentados. E aqui começa o problema.

Desde logo, os valores morais devem ter uma validade universal, o que parece ser impossível numa sociedade pluralista, em que cada um reclama para si próprio o direito à “sua ética”. Para que os valores tenham uma validade universal ― numa sociedade pluralista ― terão que ser fundamentados racionalmente, na medida em que os valores morais não podem ser rejeitados por qualquer pessoa, porque se assim fosse não seriam universais. Para que não seja possível relativizar os valores morais, eles têm que possuir uma validade intemporal, o que significa que eles seriam comparáveis às leis da natureza. As leis da natureza existem independentemente do ser humano, são sempre válidas e quem as desrespeitar causa a si próprio um problema grave, mesmo que não seja controlado por alguém.

Em resumo: os valores morais devem ser universais, fundamentados racionalmente, ter uma validade intemporal e serem identificáveis nas suas características principais.

A tentativa da auto-organização ética

Desde o tempo dos sofistas que se defende o relativismo dos valores baseado no facto de cada cultura ter os seus próprios valores. Protágoras teve a famosa frase segundo a qual “o Homem é a medida de todas as coisas”, no sentido em que os valores morais são subjectivos (os valores do bem, do justo e do belo). Hípias negava que a proibição do incesto fosse lei natural dado que era transgredida por alguns povos vizinhos. Todos eles defendiam o total relativismo dos valores morais.
A verdade é que a etnologia comparada e a História verificaram muitos comportamentos que não são compatíveis com a nossa moral ― por exemplo, o canibalismo foi uma realidade até há poucos séculos atrás; a excisão feminina (amputação do clitóris) ainda é prática em algumas culturas. Baseando-se nesta “diversidade” e heterogeneidade cultural, muitas pessoas (principalmente de esquerda) tiram daí a conclusão de que os valores morais são relativos e dependem de circunstâncias locais (o multiculturalismo é um exemplo desta postura), ou seja, dizem que não existem normas morais vinculativas para todos. Em função deste relativismo moral, reclama-se a “tolerância”.

A tolerância ― segundo o relativismo moral ― há-de ser válida para todos e sempre, não devendo ser anulada, mesmo que fosse por motivos úteis. Porém, existe aqui uma contradição que consiste no facto de precisarmos, pelo menos, de um valor absoluto que é a tolerância. Portanto, o relativismo moral escora-se num valor absoluto; e o pior é que é só um e único.

Com a Revolução Burguesa de 1789, o Utilitarismo cresceu a Ocidente culminando na sociedade de consumo do pós-modernismo. Aquilo que é útil para o indivíduo e para a sociedade deve ser designado como bom. O Utilitarismo (de J. Bentham e a ética de Bertrand Russell) tem um problema: quem define o que é útil? E para quem há-de ser útil? Segundo J. Bentham, o critério deve ser o do “maior bem para o maior número”. E o que acontece àqueles que não fazem parte do “maior número”?

Segundo Blaise Pascal, a filosofia conhece “280 bens supremos” de modo que cada filósofo teria a sua própria moral. Naturalmente que Pascal ridicularizava o utilitarismo epicurista. A verdade é que os valores devem possuir uma validade universal e ser categóricos. Se cada um tem uma ideia diferente do que é “viver bem” e daquilo que “é útil”, não podem existir valores universais.
O Utilitarismo tem um ponto extremamente vulnerável na sua defesa: se os valores morais são estabelecidos de acordo com os critérios da utilidade individual ou social, uma pessoa pode sempre abandonar esta moral por motivos egoístas. O princípio do interesse próprio ― que é uma característica essencial do Utilitarismo ― também pode ser muito útil. Por que carga-de-água deve a utilidade para o maior número possível de pessoas estar acima da “utilidade para mim”?

O utilitarista Peter Singer é de opinião de que os seres humanos com deficiências graves não têm direito à vida. Ele justifica a sua opinião com a situação real de um deficiente grave ― diz ele que “é uma vida que não vale a pena”. Por outro lado, diz ele que é útil para a sociedade não ter encargos com essas pessoas deficientes.
Num primeiro momento, Peter Singer incorre num “sofisma naturalista”, visto que não se pode tirar conclusões morais de um facto, e num segundo momento ele pressupõe um consenso acerca do valor e custos convenientes de uma vida humana ― consenso esse que não existe.

Os filósofos marxistas culturais J. Habermas e K O Apel apresentaram uma proposta de solução para o problema da fundamentação das normas: o “Modelo Discursivo”. Este consiste na ideia de um discurso infinito, se possível de todos os seres humanos, no âmbito de uma comunidade ideal de comunicação que permita a “fundamentação colectiva” das normas. Se as normas devem ser fundamentadas, todos aqueles a quem estas dizem respeito devem ter a possibilidade de participar na discussão sobre elas. Se alguém afirma que o car-jacking é moralmente condenável em todas as circunstâncias, tem que afirmar o seguinte perante todas as pessoas: “Afirmo perante todos que o “car-jacking” representa uma acção moralmente proibida, declarando-me disposto a defender a minha afirmação perante qualquer pessoa”. Surge então a procura de um consenso, através de um discurso no qual podem participar em pé-de-igualdade todos aqueles que são de qualquer modo afectados. No fundo, o Modelo Discursivo é uma segunda edição da ética de Russell: se conseguirmos convencer a sociedade de que o “car-jacking” é moralmente condenável, então a sociedade convencida passa a adoptar essa norma.

Existem aqui dois problemas: o primeiro é saber se Adolfo Hitler não conseguiu convencer a maioria dos alemães que os judeus eram seres inferiores (Untermenschen) ; o segundo é saber em que é que ― no caso concreto do exemplo do “car-jacking” ― a conclusão decidida acerca da norma per se detém o indivíduo que pratica o “car-jacking”.

Por outro lado, para as pessoas que não participam na discussão ― porque não puderam fazê-lo por motivos práticos ou porque são crianças, doentes, ou porque ainda não nasceram ― não existe consenso possível. Por exemplo, se no caso do “casamento” gay ou no aborto livre existissem normas conseguidas através do Modelo Discursivo, existiria muita gente que não participou na discussão e entre elas as crianças que ainda não nasceram. Em vez de ter uma validade intemporal, a moral passa a ser uma “negociação provisória permanente” e sujeita à maior capacidade de retórica — a cada momento histórico — de quem propõe as suas normas: essa negociação nunca pode ser concluída e exclui as pessoas não nascidas. A verdade é que eu não devo ― nem ninguém deve ― subordinar os meus interesses a uma “moral de negociação provisória”.

Ademais, terá sempre que existir uma decisão moral prévia a qualquer discurso, isto é, não será nunca o consenso por si só que vai obrigar o prevaricador a agir no sentido do consenso, porque o cálculo só bate certo se todos os envolvidos abandonarem previamente o princípio do interesse próprio. Por último, não está assegurado que um discurso, por muito inteligente que seja, garanta uma certeza ― nem mesmo nas ciências da natureza.

As únicas qualidades objectivas do Modelo Discursivo são as de que este parte do pressuposto de igualdade e dignidade da pessoa humana; existem, portanto, dois valores intemporais e categóricos. Porém, em tudo o resto as objecções são evidentes.

Em resumo: as tentativas de fundamentação dos valores e normas para o comportamento moral, sendo estes construídos, desejados ou inventados pelo ser humano, devem ser classificadas como deficitárias. Não são capazes de indicar ao indivíduo nenhuma razão cuja plausibilidade seja concludente em todas as situações possíveis para que o princípio do interesse próprio não deva ser tão considerado como as normas ― ou considerado como sendo superior a elas.

A descoberta dos valores

Cada cultura procede de uma selecção entre os valores que lhe são conhecidos. Se os valores existem predeterminados objectivamente, então reúnem-se as condições da ética: os valores possuem uma validade universal, são intemporais e são identificáveis nas suas características principais.

Assim como o artista e o cientista, o filósofo não inventa nem cria nada; apenas descobre a realidade. A teoria da relatividade já existia na natureza antes de Einstein a ter descoberto; todas as obras de arte de todos os artistas, existiam como possibilidades dentro da “constante cosmológica da natureza” ― 10120 ― de que falei aqui. Dentro desta constante cosmológica ― e mesmo para além dela ―, muitíssimas mais teorias científicas e filosóficas há para descobrir, e muitas obras de arte possíveis se mantêm no anonimato à espera dos artistas que nelas se inspirem. Os poemas têm a sua potencialidade no número 1 seguido de 120 zeros, o que significa que a produção poética desde o princípio da humanidade é irrisória. De igual modo, os valores morais existem objectivamente e o ser humano apenas os vai descobrindo à medida que vai evoluindo. Assim como existe uma verdade objectiva no domínio da natureza que o Homem vai descobrindo, também existem valores morais objectivos no domínio do espírito que o ser humano vai constatando. Por vezes, dá-nos a sensação de que o Homem involui em vez de evoluir; é difícil dizer quando uma crise significa uma decadência civilizacional porque o futuro é difícil de prever e uma crise pode ser sinal de desenvolvimento. Se “o futuro do Homem é o Homem” ― como escreveu o prof. Joel Serrão ― , está nas mãos do ser humano traçar esse futuro que não existe previamente definido, embora os valores para o construir já existam determinados.

descoberta-dos-valoresO filósofo do realismo fenomenológico Nicolau Hartmann descobriu uma teoria segundo a qual “os valores possuem uma existência em si”, o que significa “a independência do facto de o sujeito os considerar como tal ― nada mais e nada menos” (in “Ética”). Tal como existe o axioma segundo o qual o círculo tem um centro, assim também existe sempre e é sempre verdadeiro, numa dimensão espiritual ― independentemente de o ser humano o reconhecer ou não ―, o valor da honestidade ou da fidelidade (por exemplo); estes valores existem igualmente numa dimensão do “ideal”, independentemente do seu conhecimento ou da sua aplicação moral. Isto significa que o ser humano não tem necessidade de deduzir estes valores morais de uma utilidade qualquer; eles valem independentemente do seu conhecimento ou da sua aplicação moral. Amor e ódio apenas descobrem o valor; mas descobrem-no antes que ele tenha sido intuído ou preferido, e por isso constituem um movimento em cujo processo se irradiam e iluminam valores até então desconhecidos, até ao limite da constante cosmológica da natureza (10120) e possivelmente para além dela.

Assim, por exemplo, o valor da justiça vale por si, e este valor pode ser compreendido pelo ser humano. Se deduzíssemos o significado do valor da justiça a partir da sua utilidade ou oportunidade política, não existiria justiça propriamente dita. Portanto, a justiça não pode depender de algo que não esteja já incluído no seu significado. Segundo Hartmann, “aquilo que é belo, é belo por si, aquilo que é cómico, é cómico por si; aquilo que é nobre ou digno do amor, é nobre ou digno de amor por si”. Para Hartmann, nem todos os valores são iguais, ou seja, existe uma hierarquia de valores. Por exemplo, o valor do altruísmo está acima do interesse próprio. O valor do amor ao próximo está acima do valor da credibilidade. Diz Hartmann: “o bem é a orientação para o valor superior; o mau, no entanto, é a orientação para um valor inferior”. Portanto, o mal e o bem não são definíveis em si mesmos: antes dependem da situação e da orientação concreta da decisão. Não são os valores que são relativos; são as situações em miríade que são diferentes.

“Cada moral vigente reconhece apenas alguns valores ou um único, que salienta, para tornar o ponto de referência para tudo o resto. Por conseguinte, cada moral vigente, por muito unilateral que seja, possui uma verdade.” ― Nicolau Hartmann

Cada cultura procede de uma selecção entre os valores que lhe são conhecidos. Se os valores existem predeterminados objectivamente, então reúnem-se as condições da ética: os valores possuem uma validade universal, são intemporais e são identificáveis nas suas características principais. O problema que se coloca a partir daqui é saber qual é a posição hierárquica de cada um dos valores entre si. Neste ponto, Nicolau Hartmann não nos pode ajudar porque o seu (dele) realismo não o permite. Para podermos estabelecer uma hierarquia clara, teríamos que ser capazes de a deduzir de “alguma coisa”, o que significa que a filosofia teria que ser capaz de conhecer a metafísica de uma forma segura. Em relação a esta hierarquia, escreve Hartmann: “Com isso, não se nega, de maneira alguma, que esta hierarquia possa orientar-se por um princípio superior, mas sim que seja possível reconhecer um tal princípio”.

Avançamos já no nosso raciocínio e já chegamos à conclusão de que apenas nos falta saber e definir essa hierarquia de valores para que a ética possa ser utilizável e vinculativa.

A ideia do “sentimento” como chave da fundamentação da ética

O movimento feminista ― por exemplo na voz de Germaine Greer ou da filósofa Herlinde Pauer-Studer ― defendem a posição segundo a qual a fundamentação da ética tem sido, ao longo da História, demasiado racional. Segundo essas feministas desconstrutivistas (ver), a ética tem sido unilateralmente analisada, e essa unilateralidade teria surgido devido à exclusão da experiência feminina. Elas defendem a ideia da inclusão das virtudes características da mulher na análise da ética, como a intuição, a compaixão, do cuidado ou do sentimental.

Schopenhauer foi da mesma opinião das feministas: ele via na compaixão a raíz da moral ― e talvez por isso é que esse filósofo será um dos preferidos da mulher em geral.
O filósofo judeu francês Emmanuel Levinas, que passou anos da sua vida num campo de concentração nazi, vê o mistério do absoluto no rosto de outro ser humano; afirma ser impossível matar outro ser humano se se olhar para ele nos olhos. “A partir do momento em que o outro olha para mim, torno-me responsável”, escreveu Levinas (in “O Mundo na Cabeça”). O filósofo francês criticou o debate sobre a ética apodando-o de “egologia” absoluta. Em oposição a este debate, Levinas propõe a ética do altruísmo absoluto através de uma existência incondicional para os outros.

Em suma, as feministas desconstrutivistas, Schopenhauer e Levinas (entre outros) renunciam a uma fundamentação racional da ética. Para elas e eles, os valores surgem espontaneamente da profundidade dos sentimentos e da empatia funcional.
O problema que se põe nesta concepção “sentimental” da ética é que ela é permeável à total arbitrariedade porque os seres humanos não têm todos os mesmos sentimentos. Existem criaturas humanas que nem sequer são capazes de sentimentos empáticos, e contudo, a ética terá que existir para eles também. Portanto, o problema da hierarquia de valores éticos permanece intacto.

A Ordem do Universo

“Se Deus não existe, tudo é permitido” ― Dostoievski

10-mandamentosSe não existe nenhuma possibilidade de enraizar a ética no absoluto, todas as reflexões são inúteis e a lógica não existe.

Mesmo admitindo a existência de valores intemporais que fazem parte da ordem do mundo e do seu aparecimento através do Big Bang ― para não utilizar aqui a palavra “criação” não obstante faça todo o sentido ― como são os axiomas da lógica ou os factos e o formalismo matemático, em nada nos serve este reconhecimento da intemporalidade dos valores se não soubermos reconhecer uma hierarquia desses valores. Sem esta hierarquia, qualquer pessoa poderia dizer que considera um determinado valor mais importante do que o resto do mundo o considera.

O filósofo norte-americano e ateu, J.L. Mackie, demonstrou que a saída mais inteligente para este problema seria a hipótese de uma ordem divina universal, em que Deus se revelasse aos homens através de uma quantidade de proibições e mandamentos, colocando assim uma pedra fundamental para uma moral com uma validade universal para toda a sociedade. Partindo do princípio de que Deus dispõe do conhecimento sobre a hierarquia dos valores que falta ao ser humano, e conhece as máximas mais úteis necessárias a um modo adequado ao Homem. Segundo Mackie, Deus não seria, necessariamente, um tirano que exigisse um comportamento absurdo por parte do ser humano, dando ainda assim a este a hipótese do livre-arbítrio, ou seja, o ser humano não seria obrigado a seguir a hierarquia de valores ― pagando, contudo a factura moral pelos seus actos. O ser humano deixaria de ter quaisquer motivos para dar prioridade ao princípio do interesse próprio e para o opor como igual aos mandamentos morais. O problema de Mackie é que sendo ateu, não podia seguir a sua própria fórmula.

Os valores obtidos através dos mandamentos segundo Mackie teriam o perfil desejado: seriam passíveis de uma fundamentação racional, teriam uma validade universal, seriam intemporais e identificáveis.

A fundamentação religiosa da moral é ideal para as sociedades em que a fé em Deus constitui parte da sua cultura. Naturalmente que as pessoas que não têm fé e que são desprovidas de experiências existenciais, constituem-se como obstáculos naturais a uma moral fundamentada em reflexões filosófico-teológicas. Contudo, não podemos fugir, de modo nenhum, ao facto de não ser possível pensar sem obstáculos uma moral que ignora Deus.

Para os cépticos, a formulação de uma ética parte de uma condição necessária de abandono do seu cepticismo; não é possível a um céptico tentar fundamentar uma ética sem deixar de ser céptico. Desde logo, ele tem que se decidir a não acreditar em Deus e a ser céptico; tem de se decidir a considerar-se livre e responsável; tem de se decidir a considerar a existência como algo que tem sentido ― e a não lhe pôr termo através do suicídio ―, e finalmente, tem que se decidir a moldar conscientemente a sua vida. Pode-se constatar aqui a trabalheira que um céptico tem para tentar fundamentar uma ética da sua lavra.

O estado da ética

O estado da ética

O cristão assume uma posição muito mais económica em relação à vida. Para ele, é suficiente uma única decisão fundamental: acredita em Deus, e tudo o resto é uma consequência lógica dessa fé. O comportamento do cristão é semelhante ao do cientista que prefere uma teoria com uma única hipótese possível, a uma teoria com várias hipóteses.

Os Dez Mandamentos constituíam no Ocidente cristão as instruções fundamentais, dadas por Deus, para a acção. Quem os desrespeitava tornava-se culpado, antes de mais perante si próprio e depois perante o próprio Deus, porque desrespeitava um tabu cultural.

Chegados aqui convém mencionar a teoria marxista cultural “anti-tabu” e “anti-culpa”, directamente ligada à Utopia Negativa de Adorno, Marcuse e Wilhelm Reich, entre outros. Neste sentido, convém mencionar a opinião do filósofo Leszek Kolakowski ― que se “converteu” do marxismo para a religião ― acerca da “culpa” e do “tabu” na cultura religiosa:

“Não se trata do medo da vingança, mas sim de um sentimento de receio respeitoso perante a própria acção que perturbou a harmonia do mundo, um receio que não resulta de um desrespeito de uma lei, mas sim um tabu. O tabu é tanto o pilar inalterável de qualquer sistema moral viável como também uma parte integrante da vida religiosa; por isso, o tabu constitui uma ligação necessária entre a veneração da realidade eterna e o conhecimento do bem e do mal… A cultura consiste num cânone de tabus ou, dito de outra maneira, uma cultura sem tabus é um círculo quadrado.”

A moral cristã não significa que o ser humano ― ou a sociedade ― seja degradado à condição de “receptor de ordens”, porque os valores predeterminados são apenas os valores do respeito perante a vida, de honestidade, de fidelidade, do amor ao próximo. A discussão que se segue na sociedade ou na consciência individual tem que se orientar por estes valores fundamentais quando estão em causa outros valores não incluídos nesta lista de fundamentos éticos. Quando uma sociedade se afasta da religião, cria um problema para si própria: sendo Deus “arrumado”, é substituído pela sociedade, e esta deve fundamentar a moral. E se, como vimos anteriormente, a sociedade não é capaz de o fazer, a culpa é da sociedade e ela sofrerá com isso.

Texto publicado em 01 de Julho de 2009

20 Comentários »

  1. No geral, concordo com tudo o que é afirmado neste ensaio. Contudo, não concordo com a afirmação de que a existência da teoria da relatividade no mundo antecede a sua formulação por Einstein. Isto é acreditar num realismo puro e simples. Nem Kant afirmaria tal coisa. Para Kant, a teoria da relatividade resulta de uma síntese mental, de um juízo de experiência que «constrói» o fenómeno. Além de que, embora até este momento a teoria da relatividade se tenha mostrado correcta e tenha sido corroborada pela maioria das experiências, não é certo que esta não venha a revelar-se incompleta, ou mesmo falsa, à semelhança do que se passou com a física newtoniana. Não podemos desta forma afirmar simplesmente que ela está na realidade, à partida.

    Comentário por R Azevedo — Quinta-feira, 16 Julho 2009 @ 6:09 pm | Responder

  2. O problema que se coloca é saber se a teoria da relatividade, tal qual foi descoberta por Einstein, existia antes de ser descoberta ou, em alternativa, Einstein criou a teoria da relatividade, isto é, a teoria da relatividade não existia antes de ser criada por Einstein.

    Foi isto que eu percebi da objecção do R. Azevedo.

    A teoria da relatividade faz parte de uma realidade. O facto de Einstein a ter descoberto não significa que a realidade existisse amputada de todas ou de algumas das suas características, antes da descoberta da teoria da relatividade por parte de Einstein. A realidade existe e o Homem vai descobrindo essa realidade. Einstein não criou nada: constatou factos a partir de uma realidade pré-existente. Einstein não adicionou à realidade existente nenhum facto adicional que esta não tivesse ou não incluísse em si mesma. Considerar que a teoria da relatividade não existia antes de Einstein a ter descoberto é de um antropocentrismo que roça a irracionalidade ― é considerar o Homem como o centro e a única função do universo.

    Não se trata de realismo; trata-se de lógica matemática. Não podemos dizer que antes de Einstein ter descoberto a teoria da relatividade, a velocidade da luz não era de 300.000 Km/s, ou que o espaço-tempo não existia.

    Que “a teoria da relatividade resulta de uma síntese mental”, não está aqui em causa no artigo. O que está em causa ― e parece que é isso que o R Azevedo quer dizer ― é o facto de Einstein ter criado literalmente a teoria da relatividade a partir de uma realidade que a não incluía previamente; Einstein, qual semi-deus, adicionou a sua teoria ao rol das teorias possíveis no universo, teoria essa que não existia formalmente (forma) anteriormente à criação einsteiniana.

    A “síntese mental” faz parte do processo de descoberta de uma realidade pré-existente, e não de um processo de criação a partir do nada.

    O facto de uma teoria se revelar [mais tarde, e com o desenvolvimento de novas teorias] incompleta não significa que ela não se aproxime da realidade, isto é, da verdade. A lógica matemática tem a faculdade que se lhe reconhece de testar uma teoria de forma a permitir que ela não esteja em total contradição com a realidade.

    Uma coisa é uma eventual contradição parcial que se venha descobrir [mais tarde] numa teoria; outra coisa é a exigência da sua total adequação à realidade, que nenhuma teoria possui. A teoria de Newton foi colocada em causa por Einstein, e nem por isso alguns dos princípios de Newton deixam de ser válidos ainda hoje ― por exemplo, nos princípios que se aplicam ao movimento. Uma das características daquilo que é verdadeiro é a intemporalidade (por exemplo, os axiomas).

    Segundo o Princípio da Falsicabilidade de Karl Popper e a Lógica matemática, a teoria da relatividade nunca poderia ser totalmente falsa e ainda assim manter-se válida. O que pode existir é a imperfeição de uma teoria científica, o que não significa que ela seja totalmente falsa.

    Comentário por O. Braga — Quinta-feira, 16 Julho 2009 @ 8:14 pm | Responder

  3. Quanto à “construção do fenómeno”, citado a Kant:

    A construção do fenómeno é uma interpretação da realidade, ou seja, da verdade. Herbert Spencer chegou à conclusão de que o conhecimento humano está condenado à relatividade na aproximação à realidade e à verdade. O facto de Kant ser citado no seu comentário, não tira razão a Kant, por um lado, nem lhe dá razão a si, por outro, porque a citação é desadequada às circunstâncias.

    A construção do fenómeno segundo Kant é empírica, enquanto que a lógica matemática é formal. O formalismo matemático chegou a um ponto em que já não pode ser traduzido por palavras ― existe uma linguagem matemática própria e uma lógica que se afasta cada vez mais da lógica clássica ou do senso-comum.

    A construção do fenómeno é subjectiva, embora essa subjectividade possa ser partilhada através da intersubjectividade fenomenológica. Uma teoria científica escora-se na lógica matemática, que tem muito pouco de subjectivo.

    A construção do fenómeno refere-se à aparência da “coisa em si”, e não à “coisa em si” mesma (númeno). O formalismo matemático que se revela por exemplo na mecânica quântica já não se refere à aparência da “coisa em si”, mas sobretudo busca a forma da “coisa em si” mesma.

    Comentário por O. Braga — Quinta-feira, 16 Julho 2009 @ 9:09 pm | Responder

  4. Exactamente por aí. Pelo que vejo é um realista. Para si a realidade existe independentemente do que ser que conhece. Ela está aí, uma cadeira é uma cadeira mesma que não esteja lá um ser humano para a observar; uma mesa é uma mesma mesmo que o ser que lhe dá significado e intencionalidade não exista. Acreditar que a teoria da relatividade já existe na realidade, é crer, em primeiro lugar, que ela está absolutamente correcta e é intemporal, o que é desde logo errado, porque a ciência, e falou muito bem de Popper e da falsificabilidade, não é feita de paradigmas axiomáticos, mas de teorias que se substituem constantemente, ainda que, e como disse muito bem, a velocidade da luz seja igual, mas a velocidade da luz não é a teoria, mas apenas um dado, uma variável dessa mesma teoria (já para não dizer que há certas evidências cientificas que provam que afinal a velocidade da luz não é constante). Aliás, o que existe na realidade são fenómenos. Somos nós que lhes atribuimos a causalidade e tudo o que dela advém. Não é ser antropocêntrico, é ser coerente, pois é óbvio que em última análise é o ser que conhece que trama as teorias e lhes dá forma. Há uns construtivismo inerente, uma estruturação simbólica e semiótica da qual fazemos parte, como criadores e criaturas. Lentamente a realidade vai desmentindo as estruturas que formamos acerca dela, e é disto que é feito o progresso científico, de constante adaptação estrutural, de abondono de estruturas antigas por estruturas novas. Leia Saussure. A palavra «realidade» em filosofia é mais ambígua de todas, porque quer dizer tudo e nada ao mesmo tempo. O que é a realidade é a pergunta das perguntas, é preciso não esquecer. Dizer que algo está na realidade é perigoso e implica uma fundamentação acerca do que significa essa mesma realidade.

    Comentário por R Azevedo — Sexta-feira, 17 Julho 2009 @ 2:02 pm | Responder

  5. R Azevedo:

    http://espectivas.wordpress.com/2009/07/08/o-gato-de-schrodinger/

    Veja este link e verificará se sou realista.

    Neste momento estou com pressa e responderei mais tarde. Não se guie somente pelos compêndios; pense por si.

    Comentário por O. Braga — Sexta-feira, 17 Julho 2009 @ 6:16 pm | Responder

  6. Agora, com mais calma:

    O R Azevedo (RA, para facilitar a coisa), partiu do princípio de que eu seguia o “realismo”, isto é, colou-me uma etiqueta. Eu bem sei que o conhecimento necessita das categorias, ou seja, das etiquetas. Porém, o meu postal cujo link está no meu comentário anterior não pode ser atribuído a alguém que siga o “realismo”. E antes que o RA diga que eu sigo o evolucionismo espiritualista que nega o dualismo matéria / consciência e perfilha um monismo da “substância psicofísica” , ou que sigo o dualismo do espiritualismo do século 19 que contrapõe ou antagoniza a consciência (espírito) com a matéria ― desde já digo ao RA que também não me incluo em qualquer dessas duas categorias. Porém, isto não quer dizer que não concorde, aqui e ali, com detalhes e pormenores de muitas teorias. Por exemplo, do espiritualismo do século 19, gosto de Lotze, embora não concorde com muita coisa que ele defendeu.

    O problema que se coloca ― e que o RA evidencia ― é, desde logo, saber se o nosso universo que sabemos que existe, é o único universo que existe. Não podemos afirmar com toda a certeza que este nosso universo é o único, e a Física através da “teoria de cordas” avança mesmo com a ideia do Multiverso. Mas partamos antes daquilo que nós temos a certeza: de que o nosso universo existe (mesmo que o universo seja uma aparência, é uma aparência que existe). Partindo deste pressuposto, a questão que se coloca é a existência da vida no universo, e em função desta, a existência da consciência. E depois, a questão seguinte é a da definição de “consciência”.

    A posição de que parte o RA ― implicitamente ― é a seguinte:

    “Num universo com cerca de 20 mil milhões de anos-luz, com uma constante cosmológica potencial calculada em 10^120 (1 seguido de 120 zeros), com um número de átomos calculado em 10^80 (1 seguido de 80 zeros), neste universo, o único sítio onde existe vida ― e em nenhum outro sítio pode existir! ―, e portanto, pode existir consciência e autoconsciência, é no minúsculo planeta Terra.”

    Foi exactamente a isto que eu chamei de “antropocentrismo exacerbado”. Mesmo quando as missões espaciais ou análise de meteoros nos dizem que existem vestígios de microrganismos e H2O no espaço exterior, o RA diz-nos: “isso é treta; a ciência está errada. A consciência só pode ser concebida através do conceito de consciência humana. E tudo o mais é ‘realismo’”

    Portanto, a partir do momento em que a definição de “consciência” deixa de ser restrita à consciência humana, deixo de seguir o “realismo”. Só sou realista porque o RA decidiu que a consciência só existe nos termos por ele definidos, isto é, sou realista por uma questão de definição do valor de um factor de uma equação. Mude-se o valor do factor e a equação assume um significado totalmente diferente.

    Comentário por O. Braga — Sexta-feira, 17 Julho 2009 @ 8:00 pm | Responder

  7. Ponto por ponto:


    Para si a realidade existe independentemente do que ser que conhece.

    Já vimos que não é assim. Portanto, o RA parte de um princípio errado, e desta forma compromete todo o raciocínio subsequente. Mesmo assim, continuemos, ponto por ponto:

    uma cadeira é uma cadeira mesma que não esteja lá um ser humano para a observar

    O que eu digo é que é necessário que exista uma consciência que observe a cadeira. O que o RA diz é que a única consciência possível existente em todo o universo é a do ser humano que observa a cadeira.

    Acreditar que a teoria da relatividade já existe na realidade, é crer, em primeiro lugar, que ela está absolutamente correcta e é intemporal,

    Vou fazer um desenho:

    Uma peça de um puzzle existe, independentemente de essa peça não representar o puzzle inteiramente montado. Não podemos dizer que a peça é falsa só porque não representa o puzzle inteiro. Assim uma teoria testada pela lógica matemática nunca pode estar 100% correcta; sabemos todos de antemão que ela é uma peça de um puzzle.

    O raciocínio do RA é absurdo quando pressupõe aquilo que eu não escrevi. Se começamos a dizer que se quis dizer aquilo que não se disse, a conversa não tem sentido.

    Mesmo que a teoria da relatividade venha a ser contestada parcialmente no futuro, existirão sempre partes da teoria que ficarão como sendo “adequadas à realidade”, isto é, não perderão validade científica. Aconteceu o mesmo com a Física de Newton.

    a velocidade da luz seja igual, mas a velocidade da luz não é a teoria, mas apenas um dado, uma variável dessa mesma teoria

    Uma teoria sem dados e sem variáveis é um absurdo. A velocidade da luz não é constante em determinadas situações, mas é constante na maior parte delas. Não podemos dizer que a velocidade da luz não é constante porque em determinadas situações excepcionais não é. Seria o mesmo que disséssemos que a velocidade média do Alfa Pendular não é de 100 KM/ H porque pára em Coimbra. A aproximação da luz de buracos negros ou outros corpos de enorme massa e capacidade de atracção gravitacional causa a deflecção da luz e altera o comportamento desta; porém,este facto não inibe a correcção de Einstein quando definiu a velocidade da luz em vácuo.

    Aliás, o que existe na realidade são fenómenos. Somos nós que lhes atribuimos a causalidade e tudo o que dela advém.

    Causalidade?! Aconselho a leitura de um filósofo que sendo materialista, pode ser uma ajuda para si: Roland Omnès.

    em última análise é o ser que conhece que trama as teorias e lhes dá forma

    Eu não disse o contrário. Podemos fazer um bolo qualquer a partir da farinha. O que não podemos fazer é o bolo sem farinha.

    Há uns construtivismo inerente, uma estruturação simbólica e semiótica da qual fazemos parte, como criadores e criaturas.

    Continuo a estar de acordo, mas o facto de estar de acordo não significa que a farinha não exista antes da “estruturação simbólica” que permite ao humano fazer o bolo.

    A palavra «realidade» em filosofia é mais ambígua de todas, porque quer dizer tudo e nada ao mesmo tempo.

    Não sei se tem formação em matemática. Se quiser, posso dar-lhe dicas sobre o melhor que se publicou recentemente sobre mecânica quântica, que se serve do formalismo matemático. Naturalmente que a filosofia quântica especula sobre a realidade que a mecânica quântica constata.

    Comentário por O. Braga — Sexta-feira, 17 Julho 2009 @ 8:36 pm | Responder

  8. Raciocício aburdo, autores.. Repare, eu também sou formado em filosofia, mas não preciso de recorrer constantemente a autores para fazer valer os meus pontos de vista. Quando disse para eu me deter menos nos «compêndios» e pensar mais por mim, é certo que o faço, porque não me viu a fazer referências a autores. Eu penso por mim, não tenha dúvidas disso. Aquilo que eu disse logo de início não é absurdo, e é filosofia simples. Em segundo lugar, em que momento é que eu disse que o homem era a única consciência? Deve estar enganado. Eu só falei em consciência! Não tenho dúvidas que possam haver milhares de consciências em todo o Universo. É certo que para a minha consciência, uma cadeira não será vista da mesma forma por uma consciência natural de um outro planeta. Você é que me está a colocar palavras na boca. Não preciso de um Omnès. Basta-me um Hume, um Kant, e a minha cabeça. Além disso, acha que a teoria da relatividade é igual para uma mente de um outro planeta? Acha que foi formulada da mesma forma, com os mesmos instrumentos? Dizem que a matemática é linguagem universal, até acredito que sim. De qualquer forma, não passa disso mesmo: uma teoria. As teorias não são a realidade, diga-se o que se disser. São uma formulação acerca da realidade. São formulações cuja sentido depende em grande medida da coerência. A coerência não é, como sabe, garantia de correspondência com a realidade. Contudo, não nego que a farinha esteja lá, mas há que convir que tomar a farinha pelo bolo é capaz de ser perigoso.

    Não se esqueça que a discussão filosófica deve ser saudável. Não devemos considerar uma crítica como uma ofensa. Estamos acima disso, não estamos?

    Comentário por R Azevedo — Sexta-feira, 24 Julho 2009 @ 1:13 pm | Responder

  9. @RA:

    Com todo o respeito, acho que Vc recorreu a Kant para dizer que eu seguia o realismo no meu raciocínio:

    http://espectivas.wordpress.com/o-estado-da-etica/#comment-9604

    “Nem Kant afirmaria tal coisa. Para Kant, a teoria da relatividade resulta de uma síntese mental, de um juízo de experiência que «constrói» o fenómeno. Além de que, embora até este momento a teoria da relatividade se tenha mostrado correcta e tenha sido corroborada pela maioria das experiências, não é certo que esta não venha a revelar-se incompleta, ou mesmo falsa, à semelhança do que se passou com a física newtoniana.”

    Foi por isso que eu falei nos “autores”. Adiante…

    Repare que eu não considerei a sua intervenção como uma ofensa. Acontece que eu comecei o ensaio por uma negação sistemática ― e escorada em factos ― da ética utilitarista. Quando cheguei ao momento de mudar o argumentário e passar a construir os pressupostos de uma ética universal, intemporal, racional e identificável, foi quando o RA ― e nesse preciso momento ― desencantou o meu “realismo”. No mínimo, pareceu-me suspeito. Por vezes, quando as pessoas não suportam os factos porque não os podem negar, recusam inconscientemente quaisquer alternativas.

    É certo que para a minha consciência, uma cadeira não será vista da mesma forma por uma consciência natural de um outro planeta.

    Quando o RA fala em “ver a cadeira”, refere-se a “ver no macrocosmos”. Eu escrevi num ensaio extenso (que ainda não está acabado) a definição de “observação”:

    «Na Física clássica, as quantidades básicas são as coordenadas da posição e do momento (espaço e tempo). Nesse sentido, uma quantidade física é uma função dessas coordenadas, e a observação tem lugar com a identificação da exacta posição e do exacto momento de uma quantidade física (que pode ser energia). Quando nos referimos à relação entre sujeito e objecto, referimo-nos à observação como definição das coordenadas “posição” e “momento.”»

    Quando observamos alguma coisa, aquilo que é observado existe em função das coordenadas do espaço-tempo (posição e momento), e isto tem validade tanto para o macrocosmos como para o microcosmos. Por isso, a observação macroscópica (ou empírica) deixa de ter a importância exclusivista que lhe foi atribuída desde que a filosofia é escrita, e este facto veio alterar significativamente a tradicional relação entre sujeito e objecto. Esta relação continua a existir ― nem podia deixar de ser ― mas agora segundo pressupostos diferentes.

    Além disso, acha que a teoria da relatividade é igual para uma mente de um outro planeta?

    Newton e Leibniz chegaram praticamente às mesmas conclusões no que diz respeito ao cálculo infinitesimal (CI), mas as teorias de ambos diferiam em muitos detalhes. O CI de Leibniz não era exactamente igual ao CI de Newton, nem podemos dizer que as duas teorias, entendidas globalmente, são idênticas. Contudo, a essência de ambas teorias, essa é idêntica. Não precisamos de recorrer a um membro de um outro planeta para verificarmos que a mesma essência de uma realidade parcial (parte da verdade) pode ser descoberta (e de forma independente) de maneiras diferentes por sujeitos diferentes. À verdade da essência do CI, cada um dos pensadores acrescentou os enfeites da sua subjectividade, mas mesmo esses enfeites fazem parte da verdade, isto é, da realidade.

    Dizem que a matemática é linguagem universal, até acredito que sim. De qualquer forma, não passa disso mesmo: uma teoria. As teorias não são a realidade, diga-se o que se disser. São uma formulação acerca da realidade.

    Sobre a “realidade”, escrevi no mesmo ensaio:

    «Em suma, a realidade é composta por aquilo que é e por aquilo que não é, porque aquilo que não é faz parte daquilo que existe como possibilidade. Aquilo que é, é tudo aquilo que existe em concreto e abstracto. Aquilo que não é, é a simples possibilidade de existência em função da liberdade da consciência ― e essa possibilidade de existência também faz parte da realidade.»

    Portanto, “existência” é diferente de “realidade”. A própria existência (em termos da função ondulatória quântica) é uma parte da realidade.

    Por detrás do princípio da contradição existe uma falácia, que consiste em confundir-se a definição com o objecto: a contradição só pode existir entre uma definição atribuível a um objecto e uma outra definição, e não entre um objecto e outro objecto.

    Quando o RA coloca a hipótese de uma definição da matemática como linguagem universal, utiliza uma definição parcial atribuível a um objecto (a matemática), para logo a seguir proceder a comparações entre objectos (as várias teorias).

    A matemática não é uma linguagem universal senão como manifestação da consciência, e esta sim determina a linguagem universal. Contudo, o formalismo da matemática já penetrou em domínios nos quais a lógica clássica e a visão empírica se tornam insuficientes; podemos dizer que o formalismo matemático penetrou na imanência.

    Em suma: a farinha existia quando Leibniz e Newton, cada um à sua maneira, resolveram fazer um bolo. A diferença dos dois bolos está no sabor, mas o teor alimentício é sensivelmente o mesmo.

    Comentário por O. Braga — Sexta-feira, 24 Julho 2009 @ 3:57 pm | Responder

  10. [...] A autoridade não é sinónimo da sua imposição pela violência, nem é a sua imposição através da persuasão. A imposição da autoridade pela violência é tirania; a sua imposição pela persuasão redunda na paridade que é a antítese da autoridade. Sobre as causas desta disfunção da autoridade na sociedade moderna falarei eventualmente noutra ocasião, mas as razões éticas estão bem explicadas neste postal (O estado da ética). [...]

    Pingback por O problema da liberdade e da autoridade « perspectivas — Segunda-feira, 5 Outubro 2009 @ 4:29 pm | Responder

  11. [...] de definição da universalidade da moral proposto pelo marxista cultural Habermas e de que falei aqui. O “método discursivo” é falacioso porque não existe necessariamente uma intenção a priori [...]

    Pingback por A Igreja Católica não pode continuar amordaçada « perspectivas — Sábado, 7 Novembro 2009 @ 4:13 am | Responder

  12. [...] A partir do momento em que o “Bem” deixa de ser de origem transcendental, ele passa a ser definido arbitrariamente pela nova elite iluminada esquerdista composta pelos novos legisladores-filósofos. Na prática, o resultado é idêntico porque tanto no caso da república de Platão como no novo totalitarismo platónico, os valores morais não são racionalmente fundamentados e são dogmatizados — e nem poderiam ser de outra forma, porque a partir do momento em que os valores morais fossem racionalmente fundamentados, estaria em causa a autoridade de direito do legislador-filósofo (sob a fundamentação racional dos valores morais, ver “o estado da ética”). [...]

    Pingback por A nova elite de Licurgo e a evolução do marxismo ortodoxo para uma nova utopia platónica « perspectivas — Quarta-feira, 14 Abril 2010 @ 2:30 pm | Responder

  13. [...] O estado da ética [...]

    Pingback por Sobre a ilusão ateísta « perspectivas — Quinta-feira, 27 Maio 2010 @ 2:02 pm | Responder

  14. Ações afirmativas são medidas especiais e temporárias, tomadas ou determinadas pelo estado, espontânea ou compulsoriamente, com o objetivo de eliminar desigualdades historicamente acumuladas, garantindo a igualdade de oportunidades e tratamento, bem como de compensar perdas provocadas pela discriminação e marginalização, decorrentes de motivos raciais, étnicos, religiosos, de gênero e outros. Portanto, as ações afirmativas visam combater os efeitos acumulados em virtude das discriminações ocorridas no passado. (GTI, 1997;Santos,1999;Santos,2002).
    Esse foi um dos primeiros conceitos surgidos no Brasil dentro do GTI – Grupo de Trabalho Interdisciplinar criado no governo de Fernando Henrique Cardoso no ano de 1995, hoje já extinto.

    Comentário por edson — Segunda-feira, 4 Outubro 2010 @ 8:27 pm | Responder

  15. A discriminação positiva introduz na norma o tratamento desigual dos formalmente iguais, citando-se como exemplo a reserva de vagas de cargos públicos para deficientes físicos determinada pela Constituição Brasileira de 1988, ou ainda a reserva de uma determinada quantidade de vagas nas universidades públicas para alunos afro-descendentes ou da rede pública.
    Alguns doutrinadores do Direito consideram que tais medidas nada mais são do que a implementação da igualdade material.
    Quanto a sua origem, as ações afirmativas nasceram na década de 1960, nos Estados Unidos da América, com o Presidente John F. Kennedy, como forma de promover a igualdade entre os negros e brancos norte-americanos.
    Hoje em dia em contra-partida justa de um estado que promove a Isonomia, garante também a liberdade para os movimentos brancos e de outras raças.

    Comentário por edson — Segunda-feira, 4 Outubro 2010 @ 8:29 pm | Responder

    • @ Edson:

      O problema é que, ao se pretende eliminar as ditas “desigualdades historicamente acumuladas” através de engenharias sociais compulsivas, criam-se-se outras desigualdades. A visão da História como sendo a de um processo de progresso linear, é marxista e determinista. Você, mesmo que não tenha consciência disso, é influenciado pelo marxismo cultural.

      Parte-se do princípio de que as desigualdades sociais são exclusivamente produto da História, por um lado, e que podem ser eliminadas de fora para dentro do ser humano, por outro lado, o que é a negação da própria essência e da natureza humanas. Pretende-se transformar o ser humano num robô.

      Por último, uma sociedade que coloca em uma mesma situação estatutária, um negro saudável e um paralítico, é uma sociedade que faz da cura de uma doença ainda pior do que a doença estava fazendo.

      Comentário por O. Braga — Segunda-feira, 4 Outubro 2010 @ 8:56 pm | Responder

  16. [...] Porém, pergunto eu: o que acontece às pessoas que, por características e/ou idiossincrasias próprias, não se incluem no grupo do “maior número de pessoas possível”? Eliminam-se essas pessoas? Quanto vale uma vida humana? Parece que [ainda] não existe um consenso acerca do valor de uma vida humana [depois do parto] … Ler este meu mini-ensaio sobre o “estado da ética”. [...]

    Pingback por Sobre a fusão sinistra entre a religião política hayekiana e o Estado « perspectivas — Terça-feira, 31 Maio 2011 @ 2:56 am | Responder

  17. [...] Sabemos que uma ética abrangente, universal e intemporal, é impossível se for da responsabilidade… A lei divina assume uma forma metapolítica que supõe uma dissemetria entre o legislador (Deus) e o objecto da acção ética (o ser humano) e, em função dessa dissemetria, a regra ética universal não pode ser considerada, pelos membros da comunidade em geral, como sendo abstracta. [...]

    Pingback por Não é possível uma ética universal sem Deus (1) « perspectivas — Quinta-feira, 28 Julho 2011 @ 6:52 am | Responder

  18. [...] e como escrevi aqui: “A moral cristã não significa que o ser humano ― ou a sociedade ― seja degradado à [...]

    Pingback por Peter Singer: “em termos éticos, o homem é comparável a um rato” « perspectivas — Sábado, 4 Fevereiro 2012 @ 2:44 pm | Responder

  19. […] Trata-se, no fundo, de uma crítica pertinente e racional à ética do “método discursivo”, do marxista cultural Habermas. Como escrevi aqui: […]

    Pingback por Excelente texto | perspectivas — Terça-feira, 1 Julho 2014 @ 4:19 pm | Responder


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