perspectivas

Terça-feira, 31 Maio 2011

Sobre a fusão sinistra da religião política hayekiana e o Estado

« Quando o episteme (conhecimento científico) está arruinado, os homens não param de falar sobre a política; mas agora expressam-se em modo de doxa (opinião) »

― Eric Voegelin, “Nova Ciência da Política”


Convém dizer ao Samuel que uma pessoa não passa automaticamente a ter razão ao escrever um texto longo e com algum empastelamento ideológico. Aborrece-me que eu fale de uma situação em concreto e me respondam com o conteúdo inteiro de uma enciclopédia; e aborrece-me porque o empastelamento ideológico torna quase impossível o debate de ideias. Enfim, vou tentar abordar aqui as linhas fundamentais do seu postal.

    1. Quando nós não subscrevemos uma ideia, devemos basear a nossa opção na racionalidade, a não ser que não vejamos qualquer diferença entre a mera opinião (doxa) e a opinião racionalmente fundamentada (episteme). Eu não aceito como válido o argumento segundo o qual “não subscrevo essa ideia porque… não subscrevo!”.

    Se Hayek escreveu sobre as razões pelas quais ele não se considerava um conservador — “Why I am not a conservative” —, verificamos que o próprio Hayek me deu razão; ou melhor: Hayek deu razão a Olavo de Carvalho! Existem, de facto, diferenças entre um conservador e um neoliberal, se bem que não sejam exactamente aquelas que Hayek defende (porque não estamos aqui a falar do liberalismo de Adam Smith; estamos a falar do neoliberalismo / objectivismo de Hayek e de Ayn Rand; e do “Fim da História”, segundo o “hayekiano” Francis Fukuyama).

    2. Aquilo que alguém possa dizer sobre “o que Hayek tinha em mente”, quando escreveu aquilo que escreveu, é especulação. A verdade é que ele escreveu aquilo que escreveu. As diversas interpretações sobre aquilo que Hayek escreveu, não passam disso mesmo: interpretações. O que me interessa saber é aquilo que Hayek escreveu (objectivamente).

    3. Parece que existe uma “linguagem hayekiana” — quando o Samuel escreve que “o Orlando carece da operacionalização do conceito de coerção que, obviamente, deve aqui ser entendido em termos hayekianos” —, o que me lembra a existência da “linguagem marxista”. É, de facto, digno de nota esta semelhança metodológica na fabricação de uma novilíngua, tanto da parte dos seguidores de Karl Marx, como da parte dos seguidores de Hayek.

    4. A definição que o Samuel dá de “coerção”, segundo a novilíngua hayekiana, não difere substancialmente da definição de “coerção” que podemos encontrar em um bom dicionário. Portanto, parece-me que neste particular existe uma coincidência entre a novilíngua hayekiana e o senso-comum. A coerção sobre alguém tem sempre como fim o serviço de interesses alheios; e a alternativa à aceitação da coerção, é a violência. A questão consiste em saber se a coerção é legítima ou ilegítima.

    5. Verifico, contudo, que aquilo que foi objecto do meu reparo no postal anterior1) a pretensa e putativa neutralidade do Estado em relação à ética e à moralidade; 2) e a defesa insofismável de uma ética utilitarista por parte de Hayek — não foi rebatido. O Samuel apenas se limitou a reconhecer implicitamente que aquilo que eu disse é verdade, e que aquilo que eu disse, sendo verdade, é bom e positivo — e não é negativo, tal como eu tinha sugerido.

    Em vez de contestar, de uma forma específica, aquilo que eu tinha escrito, o Samuel parte para uma exibição de uma autoridade de direito através de uma “ensaboadela” sobre a ideologia de Hayek. O que se passa é o seguinte: quer Hayek queira, quer não queira, o Estado nunca é neutral em termos de formatação da moral na sociedade. Isto é um facto insofismável. E perante este facto, o Samuel passa tergiversar acerca do acto livre, segundo Hayek.

    6. As pequenas diferenças entre o utilitarismo inglês do século XIX, por um lado, e o utilitarismo neoliberal e/ou objectivista, por outro lado, não são assim tão importantes que permitam negar o utilitarismo ético de Hayek.

    Hayek é a favor de uma ética utilitarista, segundo a qual “se deve estender o maior bem pelo maior número de pessoas possível”. Se este “maior número” é a priori ou a posteriori, não tem relevância para esta discussão; o que é importante é que essa noção de “maior número” existe na ética de Hayek.

    Porém, pergunto eu: o que acontece às pessoas que, por características e/ou idiossincrasias próprias, não se incluem no grupo do “maior número de pessoas possível”? Eliminam-se essas pessoas? Quanto vale uma vida humana? Parece que [ainda] não existe um consenso acerca do valor de uma vida humana [depois do parto] … Ler este meu mini-ensaio sobre o “estado da ética”.

    7. O Samuel continua a insistir na pretensa possibilidade de substituição da função da ética, pelo Direito positivo, quando escreve que “importa, contudo, limitar o poder do Estado a este respeito apenas às circunstâncias onde é necessária uma delimitação das esferas privadas, criando as condições sob as quais um indivíduo pode determinar os seus fins e acções tendo em consideração as regras gerais prescritas pelo estado. Esta confusão permanente entre o Direito, por um lado, e a ética, por outro lado, é uma característica da obra de Hayek, que nunca conseguiu fazer uma distinção clara entre os dois conceitos.

    8. Quando o Samuel escreve — e referindo-se aos conservadores, como é o meu caso — que “pretendem utilizar o aparelho estatal para impôr a sua própria moral a todos os outros seja o facto de Hayek repudiar o nacionalismo”, está a lavrar num preconceito negativo.

    É caso para parafrasear Nicolás Gomez Dávila: “quando as ideias são parcas, tornam-se tiranas”. E, já agora, uma outra frase de Nicolás Gomez Dávila: “O totalitarismo é a fusão sinistra da religião e do Estado”. Como sabemos, Dávila era um conservador…

    Portanto, uma coisa é a fusão sinistra da religião e do Estado, e outra coisa bem diferente é o reconhecimento de que o Estado não pode ser neutral em matéria de moralidade. São coisas distintas. O Samuel que me faça um favor: não confundir “as obras do mestre Picasso”, com “as picas de aço do mestre de obras”

    Se eu — como conservador — não defendo a fusão sinistra da religião e do Estado, parece-me que o Samuel defende uma fusão sinistra entre a religião política hayekiana e o Estado. Ou seja, o Samuel pretende criticar em mim precisamente aquilo que ele defende: a fusão sinistra da religião [política hayekiana], e o Estado, o que acaba por ser uma forma de totalitarismo.

    9. Sobre o nacionalismo, teríamos que saber o que se entende por ele. Portugal foi sempre uma terra de nacionalistas, e desde 1143, e não consta que a revolução francesa tivesse tido lugar no século XII.

    10. Hayek considerou a moralidade como um mero resultado dos costumes, tal como o homossexual Hume considerou a moral como resultado do seu (dele) conceito de habitus. Ora, esta linha de pensamento é exactamente a mesma dos sofistas no tempo de Sócrates, Platão e Aristóteles. Existe, neste conceito hayekiano de moralidade, uma contradição entre a liberdade que ele apregoa (Kant), por um lado, e o determinismo sociobiológico manifesto decorrente da relativização da moral (Hume), por outro lado — limitando a moralidade a um mero produto da sociobiologia e dos costumes (assim como as formigas têm os seus “costumes”, etc.).

E para finalizar: os textos devem ser sucintos, claros, e devemos evitar a linguagem gongórica — seja ela hayekiana, marxista, ou outra.

Adenda: o título deste postal foi ligeiramente alterado.

A ler sobre esta discussão:

  1. A economia não está a montante da cultura e da ética: é exactamente o contrário disso
  2. Sobre a fusão sinistra da religião política hayekiana e o Estado
  3. Afinal, o Estado não é neutral

2 comentários »

  1. […] Adenda: resposta a este texto do Samuel ? — Aqui ! […]

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    Pingback por A economia não está a montante da cultura e da ética: é exactamente o contrário disso « perspectivas — Terça-feira, 31 Maio 2011 @ 3:21 am | Responder

  2. […] É neste sentido de ciência (episteme) que Eric Voegelin se referiu na citação aqui. […]

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    Pingback por Ainda sobre a ética de Hayek « perspectivas — Quarta-feira, 1 Junho 2011 @ 10:51 am | Responder


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