perspectivas

Quinta-feira, 28 Julho 2011

Não é possível uma ética universal sem Deus (1)

Filed under: ética,filosofia,Política,Religare — O. Braga @ 6:51 am
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Os Dez Mandamentos (ou o Decálogo, como lhe chamou, pela primeira vez, Clemente de Alexandria), tiveram o condão de universalizar a ética, e portanto, condicionar a política. Dentro dos limites de uma ética universal, a acção política parte sempre de um consenso muito alargado acerca dos valores; uma lei divina significa, até certo ponto, a negação de um modelo de poder político. Esta será talvez uma das razões por que a política recusa uma ética abrangente; de certa forma, a política vê numa ética universal os limites da sua acção.

Sabemos que uma ética abrangente, universal e intemporal, é impossível se for da responsabilidade e da autoria do ser humano. A lei divina assume uma forma metapolítica que supõe uma dissemetria entre o legislador (Deus) e o objecto da acção ética (o ser humano) e, em função dessa dissemetria, a regra ética universal não pode ser considerada, pelos membros da comunidade em geral, como sendo abstracta.

Mesmo que consideremos que o Decálogo tem o seu equivalente nos “princípios naturais” da moral, esta dissemetria entre o Legislador e o actor ético é decisiva para a assimilação do tabu, sem o qual nenhuma ética, parcial ou universal, é possível: o Decálogo é um conjunto de oito interditos (tabus: Eu sou Javé, teu Deus (Deus pessoal); não matarás; não cometerás adultério; não roubarás; não levantarás falsos testemunhos; não cobiçarás o alheio; não adorarás outro Deus; não pronunciarás o Meu nome em vão) e dois mandamentos (honrarás pai e mãe; guardarás um dia de descanso).

O tabu ou interdito não é uma lei moral positiva (como é o caso do mandamento: “honrarás pai e mãe” é uma norma positiva), mas é antes a condição de uma vida feliz. Enquanto que o mandamento impõe um determinado comportamento, o tabu implica apenas a abstenção de praticar os actos que lhe são contrários e, por isso, é o tabu que verdadeiramente liberta o Homem.

Nicolas Gomez Dávila escreveu que “Humanidad es el rango a que asciende el animal que acata prohibiciones”; o filósofo Leszek Kolakowski escreveu que “a cultura consiste num cânone de tabus ou, dito de outra maneira, uma cultura sem tabus é um círculo quadrado.”

Na medida em que o Amor da comunidade dos seres humanos a Deus passa a ser indissociável da dimensão ética da existência, esta ética de origem divina e universalizada liberta o Homem — como escreveu Levinas: “a lei [divina] abre a liberdade a todo o povo”.

Podemos concluir que é o tipo de política moderna que impede a existência de uma ética universal — que só pode advir dessa dissemetria entre o Legislador transcendente e a criatura humana. Por dedução lógica, podemos afirmar que o tipo de democracia que junta no seu seio ideologias que se pretendem destruir entre si (como é o caso português), é um sistema político intrinsecamente anético.

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