perspectivas

Terça-feira, 25 Setembro 2012

O ser humano, a Ordem e o Caos

Filed under: ética,Ciência,cultura,filosofia,Ut Edita — orlando braga @ 10:35 am

Nas sociedades primordiais, o ser humano viu-se confrontado, naturalmente, com aquilo a que Karl Jaspers chamou de “situação-limite” e, por isso, com a necessidade da procura da Ordem em detrimento do que era considerado o Caos (a Incerteza). Existia, portanto, uma dicotomia existencial entre Ordem e Caos, e a situação-limite era a referência ou o paradigma da procura da Ordem.

1/ O mundo era então visto sob uma perspectiva determinista; e esse determinismo era imposto pelos deuses pagãos. Os deuses pagãos tinham determinado não só o mundo e a Ordem, mas também a forma como o ser humano poderia eliminar o Caos e instalar a Ordem no seu território onde anteriormente prevalecia o Caos. A cosmogonia era vista como a emergência da Ordem a partir do Caos (Ápeiron), e quase todos os actos humanos eram realizados em função dessa cosmogonia ordenadora.

O sagrado era exactamente a repetição alegórica e ritual, no tempo e no espaço existenciais, do acto da cosmogonia realizada pelos deuses. O determinismo subjacente à instalação da Ordem cosmogónica, no mundo existencial humano, era de tal forma marcante que o livre-arbítrio (humano) estava fortemente condicionado pelos ritos. O Homem considerava, então, que ele próprio não era livre.

‘Angelus’, de Jean-François Millet

2/ Com o Cristianismo, em termos gerais (existiram excepções à regra de alguns movimentos gnósticos de retrocesso cultural), operou-se uma revolução conceptual do mundo na cultura antropológica. O Caos passou a fazer parte integrante da própria Ordem — “o mal não existe como tal, mas é apenas a ausência do bem”. Deixou de existir a dicotomia entre Ordem e Caos: o Caos passou a não existir ontologicamente como tal, mas passou a ser apenas uma maior ou menor ausência da Ordem. O Ser era a Ordem que tolerava a liberdade da sua negação ontológica.

E na medida em que o Caos foi, com o Cristianismo, considerado como uma característica integrante da Ordem Cosmogónica, o Homem passou a ser livre, ou seja, passou a ser detentor de livre-arbítrio (S. Tomás de Aquino). O Homem passou a poder fazer uma escolha gradativa entre a Ordem e a sua ausência ou negação, e dessa escolha gradativa nasce a hierarquização dos valores que compõem a ética cristã.

O sagrado cristão integrou nele próprio essa ausência de contradição intrínseca e maniqueísta entre Ordem e Caos. Passou apenas a existir uma tensão interna dentro da própria Ordem (o bem e a sua ausência), e em função dessa tensão interna, o Homem passou a poder escolher livremente (livre-arbítrio).

3/ Com o Iluminismo, a Ordem e o Caos separaram-se novamente, assumiram a sua dicotomia primordial das sociedades pré-cristãs. É neste sentido que o Iluminismo traduz e representa um regresso cultural à sociedade pré-cristã: sob outras vestes, voltou o determinismo cosmogónico dos deuses pagãos, desta feita através do império da física e da ciência. O Homem (o sujeito) passou a procurar novamente a Ordem fora de si, no objecto — tal como tinha acontecido nas sociedades primitivas. E aquilo que não fazia parte da Ordem científica, era parte do Caos.

A procura exterior da Ordem (no objecto) levou à erradicação do sujeito na cultura intelectual (dualismo de Descartes). O sujeito “foi enviado às malvas” e para o Caos da metafísica; o sujeito deixou de fazer parte da Ordem. E para que o sujeito passasse a fazer parte da Ordem, a sociedade iluminista criou as ciências sociais e humanas que assumiram a função de retirar o sujeito do Caos.

Este envio iluminista do sujeito para o Caos traduz talvez a maior contradição do Iluminismo: à partida, o Iluminismo assentou sobre o princípio da autonomia do indivíduo (por exemplo, Montaigne, David Hume, e Kant); mas as consequências sociais e culturais do movimento iluminista traduziram-se, em termos práticos, na anulação do sujeito e na retirada do sujeito da Ordem.

Na medida em que o sujeito iluminista foi enviado para o Caos e retirado da Ordem, e na medida em que as ciências sociais e humanas não conseguiram transformar o sujeito em objecto passível de revelar uma verdade objectiva e determinista, face à impossibilidade de integrar totalmente o sujeito na Ordem objectiva e exterior — as consequências culturais desse novo determinismo conceptual iluminista, que desvalorizou o sujeito, justificam o morticínio em massa de centenas de milhões de inocentes no século XX.

4/ Formalmente, o Iluminismo acabou com o Princípio da Incerteza de Heisenberg. Contudo, na História, as mudanças culturais de paradigma podem demorar séculos. Por exemplo, o Iluminismo que “arrancou” substancialmente em fins do século XVII, teve o seu fundamento formal no Renascimento italiano do século XV.

Porém, as elites intelectuais iluministas actuais já sabem do seu fim ontológico; já tomaram consciência de que a Ordem iluminista não está assegurada e é precária. A religião científica, que estabeleceu o novo determinismo cosmogónico da verdade objectiva da ciência, e que separou a Ordem do Caos, e que procurou transformar o Caos em Ordem tal como os povos primitivos o fizeram — essa religião científica foi colocada em causa pela própria evolução da ciência.

5/ Hoje, voltamos ao conceito tomista segundo o qual “a verdade é adequação do intelecto à realidade”. E a realidade — tal como os filósofos quase sempre disseram — não é apenas o objecto.

A quântica contemporânea remete-nos para princípio cristão segundo o qual o Caos (a Incerteza) é parte integrante da Ordem.

E é esta a verdadeira guerra cultural que se trava hoje entre as elites intelectuais — longe do dia-a-dia do Homem comum:

Existem actualmente, por um lado, os herdeiros intelectuais do Iluminismo determinista e defunto que não querem reconhecer que fazem já parte do passado histórico, e que são, conceptualmente, mortos-vivos; e, por outro lado, os intérpretes de uma espécie de Neo-cristianismo defensor do livre-arbítrio que, face às demonstrações da microfísica, chegaram à conclusão de que o Caos (a Incerteza) não existe senão como parte da Ordem cosmogónica.

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