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Quarta-feira, 10 Dezembro 2014

¿A lógica é uma batata?

Filed under: filosofia,Quântica — O. Braga @ 9:34 am
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A lógica formal trata das formas dos raciocínios, independentemente do seu conteúdo ou dos objectos aos quais se referem. Por exemplo, a seguinte proposição ou silogismo:

1/ Todos os tubarões são pássaros;
2/ o meu peixe vermelho é um tubarão;
3/ então, segue-se o meu peixe vermelho é um pássaro.

Nenhuma das duas premissas é verdadeira “materialmente”, ou seja, nenhuma delas corresponde à realidade. Mas o encadeamento que as une umas às outras é válido na sua forma: a conclusão do silogismo é a consequência formal necessária das duas premissas. Por isso é que se diz que “a lógica é uma batata”.

É assim que o Domingos Faria coloca o problema da possibilidade lógica dos zômbis contra o materialismo. Se a premissa 1 é, de facto, verdadeira, a premissa 2 é verdadeira se considerarmos que existe consciência humana em todo o universo com milhões de galáxias. E aqui colocam-se quatro hipóteses:

a/ não é possível que exista outra consciência que não a humana em todo o universo;
b/ é possível que exista outra consciência que não a humana em todo o universo;
c/ é verosímil que exista outra consciência que não a humana em todo o universo;
d/ é provável que exista outra consciência que não a humana em todo o universo.

Eu diria que é, pelo menos, verosímil que exista outra consciência que não a humana em todo o universo. Mas podemos acreditar naquilo que quisermos.

Naturalmente que podemos dizer que “não há provas de que exista consciência no universo que não seja a humana”, mas também podemos dizer que “não há provas de que existam zômbis”. Podemos afirmar com certeza que uma coisa existe, mas já não podemos ter a certeza de que uma coisa não existe. Porém, podemos ter uma certeza: os axiomas da lógica não são físicos.

Porém, se o David Chalmers se interessasse pela ciência, e para além da Lógica, poderia ter em consideração a Interpretação de Copenhaga da Teoria Quântica: a observação da função de onda quântica (“não-matéria”, porque não tem massa) causa o seu colapso e transforma-a em partícula elementar (matéria, porque tem massa).

O físico francês Bernard D’Espagnat chegou mesmo a escrever:

«A doutrina segundo a qual o mundo é formado por objectos cuja existência é independente da Consciência revela estar em desacordo com a mecânica quântica e com os factos estabelecidos através da experiência.»

Mesmo que a observação da função de onda quântica — que provoca o seu colapso — seja feita através de um dispositivo construído pelo Homem, esse dispositivo foi construído por um ser com consciência (o Homem). Por isso, não podemos separar o colapso da função de onda quântica, por um lado, da consciência que observa, por outro  lado. Poderíamos ir mais longe neste raciocínio, e colocar na equação a consciência de Deus.

A Física moderna e teoria quântica destruíram brutalmente o materialismo.

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2 comentários »

  1. Estimado Braga, estou aproveitando esta postagem para apresentar, um rascunho da tese de Wolfgang Smith de que com advento da mecânica quântica, os físicos propuseram uma variedade de visões de mundo e que cada uma delas sofre de um certo “cartesianismo residual”.

    Qualquer erro demonstrado na tese, a princípio, assumo como oriundo da minha imaturidade filosófica por não dominar todas as categorias de pensamento que o “Enigma Quântico” exige para entende-lo do ponto de vista ontológico.

    Livro: O Enigma Quântico. Desvendando a Chave Oculta.

    Autor: Wolfgang Smith; Tradutor (do inglês para o português ): Raphael D. M. de Paola

    Editora: Vide Editorial

    2ª Edição 2011

    Rascunho

    É de fato legítimo supor que o resultado de uma medição seja na realidade o efeito de um processo temporal, seja ele determinístico ou não, isto é, já esteja estabelecido antes mesmo de realizar a medida? Esse mecanicismo falha na descrição quântica, justamente por exigir que o movimento seja efeito desse processo temporal.

    Movimento é o ato de uma potência enquanto ainda é potência, porque se já fosse ato, teria acabado o movimento. Porém, movimento, como entendido na mecânica clássica, é a soma de infinitos atos intermediários entre o ato inicial e final, o que é um deslocamento da realidade.

    O colapso de vetor de onda associado à determinação de X, se apresenta como um evento instantâneo, isto é, uma descontinuidade. Diferente da descontinuidade do domínio da mecânica clássica que resulta de uma continuidade subjacente, ou seja, por meio de uma aproximação, dando provas de ser um princípio irredutível a qualquer processo temporal contínuo. O famoso, “o todo é a soma das partes”.

    Mas no regime quântico, vê-se obrigado admitir que “o todo é maior que a soma das partes”, ou que “não se tira mais de menos”. O formato é atualizado instantaneamente através da combinação de dois tipos de delimitações: as “desde de baixo” que consiste nos pesos probabilísticos do vetor de estado; as “desde de cima” que são os valores medidos do observável em questão, tal como revelados no estado final do instrumento corpóreo.

    Quando, a priori, assumimos como real, que eventos corpóreos respeite alguma lei matemática, exige-se da natura naturada que ela esteja submetida a tal mecanicismo, instaura-se a “causa” acaso. Deste modo é garantido que o movimento é devido somente a forças naturais, assim, o importante é que a força exista, não importando a necessidade de que algo deva realiza-la. Em outras palavras, nega-se a causalidade vertical.

    Afinal de contas, porque somos obrigados a supor que tal mecanismo seja real? O honesto responderá: para manter a “causa” acaso! O cínico insistirá e buscará o desdobramento, falso é claro, de que não se trata do acaso, mas sim da impossibilidade de controlar todas as condições iniciais do evento.

    A metafísica escolástica descreve as coisas “desde de baixo” (ontológicas: pesos probabilísticos do vetor de onda) com as coisas “desde de cima” (ônticas: valores medidos do observável em questão).

    Wolfgang Smith, mostra que as limitações “desde de baixo” e “desde de cima”, pertencem a planos ontológicos diferentes e por isso, essa diferenciação esclarece que não se trata de acaso, refere-se a uma insistência por parte dos pensadores modernos que, por mais capenga que fique a descrição da natura naturada por negar a natura naturans e consequentemente a causalidade vertical, chave para o enigma quântico, escolhendo assim o enigma e abandonando a verdade.

    É precisamente dentro de uma dada lei ou de cânone determinado que a genuína liberdade de expressão artística pode ser alcançada […]. Wolfgang Smith;

    Aproveita para citar Goethe “É na delimitação que o artista se mostra”.

    A causalidade vertical ilustrada através da relação entre a arte e o artista faz parte do polo (natura naturans) explicativo que faltava, é a chave, enquanto que o enigma é a insistência já citada. No prefácio escrito por Olavo de Carvalho temos o formato dessa ilustração

    […] quando a intervenção de um observador por meio do microscópico eletrônico altera o comportamento das partículas, levando alguns físicos as mais arriscadas especulações filosóficas […], isso não acontece […], por nenhuma resistência diabólica do real à nossa busca pelo conhecimento. Olavo de Carvalho.

    Os escolásticos – nomeadamente Sto. Tomás de Aquino – admitiam que por baixo do universo sensível jazia a mera potência de existir, indefinida, sem qualidades, à qual denominavam matéria prima (hoje dificilmente a chamaríamos de matéria). Um grau acima da matéria prima estava ao domínio[…], ainda não dotada de qualidades sensíveis mas já distinto da matéria prima por apresentar-se em quantidades definidas. […] não se tratava da pura potencialidade indistinta, mas de um conjunto de probabilidades objetivas, teoricamente cognoscível, […]. Tal é domínio da pura probabilidade quantificável, o domínio quântico por excelência. Olavo de Carvalho.

    Não é o propósito aqui, mas o poder de diferenciação encontrado na escolástica e perdido na modernidade, indica a baixa cultura que podemos estar vivendo. A incapacidade de não conciliar necessidade e liberdade expressa na frase de Smith, essa compactação na descrição da realidade, modo operandi da filosofia moderna.

    Conciliando o prefácio escrito por Olavo e o quarto capítulo do livro de Smith, é possível observar novamente a elevação de entendimento da escolástica, pois quando se diferencia matéria sensível (objeto corpóreo; microscópio) de matéria secunda (domínio quântico por excelência), não se faz confusão entre forma e formato.

    Logra-se, a saber, que a mecânica quântica vai além das puras probabilidades matemáticas, devido à natureza da matéria secunda, pois abaixo das probabilidades está “a estrutura hierárquica” da natura naturada, cuja transição se dá através da manifestação em ato (instantânea) da natura naturans, a causalidade vertical.

    Agora sim. Porque Smith e Olavo devem ser chamados de professores, pois Olavo através da conclusão de Smith, diz resumidamente, porém sem a pobreza de pensamento compactado da modernidade, que

    “Há planos ou faixas de realidades que obedecem leis coexistentes, mas não comensuráveis: o mundo quântico não é este sensível, é a estrutura de probabilidades que o torna matematicamente viável. Eis aí a solução do enigma quântico.”

    Digo pobreza, pois a insistência em apenas causalidade temporal parece ser motivada pela negação da causalidade vertical e, admitindo a onipresença da verticalidade, a maneira moderna de pensar aponta que a causalidade temporal não terá validade.

    Digo elevação de entendimento, porque Smith mostra como se combina as duas causalidades e que a causalidade vertical não suprime a temporal, apenas que as duas, assim como a matéria prima e secunda estão em planos ontológicos diferentes. Segundo Smith

    “A ação primária não suprime os modos temporais; ao contrário os traz á existência e lhes confere eficácia. […] a causação temporal é limitada em seu alcance; podemos dizer que ela é capaz de efetuar mudanças, […], mas não pode dar origem a algo novo: o ‘produzir’ autêntico, como já vimos, é prerrogativa da causalidade vertical.”

    “[…] – devemos agora reparar que os dois tipos de causação coexistem sem nenhuma confusão de efeitos: assim como a causação horizontal não é capaz de produzir efeitos da causalidade vertical, também podemos dizer que a causalidade vertical não é capaz de produzir efeitos que sejam próprios da causalidade horizontal.
    Meu argumento é que a causação vertical efetua mudanças ontológicas, as quais podem, por sua vez, afetar o curso temporal dos eventos sem afetar a operação da causalidade temporal: quando algo é alterado interiormente, seu comportamento exterior mudará de acordo.”

    De fato, há realidades que obedecem leis coexistentes, mas não comensuráveis. Como diz Joel, um amigo: Sim George, o ôntico e ontológico. Caso, por prudência, alguns por cinismo, ainda não admitirem que nessa descrição da realidade com toda essa diferenciação não seja a chave para o enigma quântico, no mínimo é um escudo que protege as nossas mentes da flecha mortal chamada modernidade.

    Aliás, pode ser imprudente para um moleque de trinta e quatro anos, mas o mito, o paradigma por assim dizer da modernidade é insistir que metafísica morreu!

    Como físico, escuto muito isso de colegas, principalmente marxista.

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    Comentar por George Valadares — Sexta-feira, 10 Abril 2015 @ 8:54 pm | Responder

    • Eu concordo, em grande parte, com o que está escrito, mas o autor Wolfgang Smith utiliza uma linguagem que a pessoa comum (e mesmo alguns cientistas naturais, tipo biólogos) não entende. É esse o grande problema dos “intelectuais” modernos.

      O conceito de “o todo é maior do que a soma das partes” é aquilo a que se chama “holismo”. Mas holismo não é a mesma coisa que panenteísmo. Para explicar esta diferença teria que escrever muito, mas direi apenas que o holismo é um “sistema”, e o panenteísmo é uma putativa mas dúbia causa desse sistema.

      Quando ele fala nos “dois tipos de delimitação” — “as de baixo” e “as de cima” —, ele quer dizer que a a-causalidade quântica (“a de baixo”) é objectiva (o não-determinismo do fluxo quântico não se deve a ignorância humana acerca do que se passa na realidade quântica, mas antes é um não-determinismo endógeno, objectivo e característico dessa realidade) e que o processo de medição (“a de cima”) não só influi no comportamento das partículas elementares, mas também provoca o colapso da função de onda quântica (a passagem de onda, que não é matéria, para partícula, que é matéria).

      Porém, convém dizer que o não-determinismo quântico não significa necessariamente “causa acaso”. Embora a a-causalidade quântica seja objectiva, nós não sabemos — a ciência não sabe — se existe uma “força causal” (Deus) a priori que, de certa forma, determine essa a-causalidade.

      Do ponto de vista científico, não é possível provar, através da verificação, a existência dessa “força causal”; mas é possível deduzir, através da inferência, a existência dessa “força causal”, e aqui estamos na área da filosofia e da metafísica.

      Parece-me que Wolfgang Smith acaba por defender uma outra forma de determinismo com que eu não concordo.

      As leis da matemática, a que ele se refere, não existem por si mesmas: há uma causa para que as leis sejam leis: não existem leis sem um Legislador. Mas o Legislador pode, e muitas vez faz, criar excepções à regra; e essas excepções à regra são aquilo a que chamamos “milagres”. Portanto, há um “sistema” montado que tem a interferência do Legislador (Deus), mas isso não significa que Deus interfira na Realidade de uma forma determinista e a cada momento cósmico.

      Ou seja: Deus dá liberdade ao “sistema” mas reserva para si o direito de actuar na Realidade sempre que Ele acha necessário.

      Aquilo a que Wolfgang Smith chama de “causalidade vertical” é a relação entre as duas grandes forças da Natureza: a força quântica e a força entrópica da gravidade. Há entre estas duas forças um nexo causal, sendo que na força quântica a a-causalidade é objectiva, e na força entrópica da gravidade, a causalidade é também objectiva mas não é aplicável a 100% (a causalidade no mundo macroscópico não é garantida a 100%).

      O que me parece (posso estar enganado, porque a amostra do texto é pequena) é que Wolfgang Smith nega que a a-causalidade objectiva da realidade quântica, por um lado, e a realidade macroscópica, por outro lado — ou aquilo a que chamam de “causalidade vertical”, não seja, toda ela, determinada a priori por Deus.

      Ou seja, confunde o “sistema de leis” criado pelo legislador com o próprio legislador, recusando a ideia de que o legislador seja independente do “sistema” e que tenha dado autonomia e liberdade ao “sistema”, embora possa intervir no “sistema” sempre que queira. Este é o grande problema da concepção panenteísta: difere pouco do panteísmo. A ideia propalada segundo a qual S. Tomás de Aquino, por exemplo, defendeu o panenteísmo, é falsa!

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      Comentar por O. Braga — Sábado, 11 Abril 2015 @ 9:13 am | Responder


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