perspectivas

Terça-feira, 13 Novembro 2012

A “alma quântica” de Penrose

“Segundo Hamerroff e Penrose, o cérebro humano funciona como um computador biológico com 100 mil milhões de neurónios que se comportam como redes de informação. E explicam que, numa “experiência de quase-morte”, os microtúbulos perdem seu estado quântico, mas a informação contida no seu interior não é destruída.”

via Investigadores dizem ter provas sobre a existência da alma.

Vivemos, de facto, num mundo perigoso onde as ideias afirmadas sob o consulado de uma autoridade de direito da “ciência” podem ser o esteio da justificação da barbárie.

Talvez a maior dificuldade do ser humano é a de conceber racionalmente a transcendência; mas a imanência sempre esteve presente na cultura antropológica. No entanto, é possível ao ser humano — pelo menos a uma parte dos indivíduos da espécie humana — deduzir a transcendência (através da racionalidade, e não do racionalismo) a partir da imanência e/ou a partir da sua própria experiência subjectiva.

Uma “notícia” do “Ciência Hoje” (via) anuncia que dois cientistas (um deles é o famigerado Roger Penrose) pretendem provar que 1/ a alma é comporta de “energia quântica”, e que 2/ que o cérebro funciona como um computador biológico, o que é o mesmo que dizer que o cérebro humano é uma espécie de computador. “Anything goes”, como defendeu Feyerabend.

A razão desta asneira “científica” reside pura e simplesmente na extrema dificuldade — senão mesmo a impossibilidade — de “provar” empiricamente (através do método da ciência positivista) a transcendência, porque o próprio conceito de “verificação” empírica positivista não é, ele próprio, verificável, e portanto, a verificação é um acto, processo ou método que decorre da (ou se escora na) metafísica.


‘Angelus’, de Jean-François Millet

Quando nós olhamos para a linha do horizonte deduzimos que existe terra para além dela. Um ser humano primordial, nos alvores da sua existência enquanto espécie, deduzia essa existência de terra para além do horizonte como uma evidência: ele não precisava de a provar ou demonstrar. Para o homem selvagem, era uma evidência que a linha do horizonte revelava uma continuidade geográfica.

E tal como os palafitas e os trogloditas da pré-história, o eminente cientista Roger Penrose tem um pensamento análogo: deduz ele que existe “algo” para além do universo macroscópico construído pela força da gravidade: a linha do horizonte de Penrose é o limite conceptual definido pela lógica matemática que entra pela realidade quântica adentro e aponta para a existência de algo “para além” da matéria ; e conclui ele que essa “linha do horizonte” quântica revela uma “outra terra” que é possível abarcar racionalmente (racionalismo). Penrose é um selvagem actual.

A filosofia é, hoje, talvez e mais do que nunca, necessária, porque a “ciência” entra cada vez mais por caminhos do absurdo. De facto, não se trata de ciência propriamente dita, mas de cientismo. A filosofia funciona hoje como uma espécie de travão ao delírio interpretativo do cientismo gnóstico que se traveste de ciência. Vivemos, de facto, num mundo perigoso onde as ideias afirmadas sob o consulado de uma autoridade de direito da “ciência” podem ser o esteio da justificação da barbárie.

A necessidade de ver a alma na “energia quântica” está directamente ligada ao determinismo cientificista (cientismo). Porém, Penrose (e quejandos) entram em contradição: por um lado, são obrigados a aceitar o princípio de Heisenberg que coloca o determinismo cientificista na retrete das ideias; mas, por outro lado, mesmo assim, não conseguem resistir à “doença determinista”, tentando agarrar-se a uma qualquer tábua de salvação que evite que o cientismo se transforme em uma demanda psicótica por um qualquer “santo graal”, ou que revele a toda a gente a essência alquimista de uma certa ciência moderna.


O termo “energia quântica”, utilizado por Penrose, é vago. É um conceito. Ou seja, é tão vago o conceito tradicional de alma como o conceito coevo de “energia quântica”; nos dois casos, não existe uma definição. Não podemos definir “energia quântica”. Podemos definir “força quântica”, da mesma forma que podemos definir “força da gravidade”, entendidas como duas grandes forças estruturantes do universo — mas não podemos definir “energia quântica”, desde logo porque “tudo o que existe” no mundo material e/ou no universo é composto por “energia quântica”.

¿Como é que eu posso definir “tudo o que existe no universo” senão dizendo que é “tudo o que existe no universo”?

Mas, neste caso, entro por um raciocínio circular: “tudo o que existe no universo é tudo o que existe no universo” — diz Penrose implicitamente, em tautologia pura. Penrose parte de um princípio tautológico para desenvolver a sua teoria. Em última análise, Penrose conclui que alma é “tudo o que existe”, o que é uma forma cientificista actual de subscrever o panteísmo tautológico de Espinoza e a teoria do dualismo da alma segundo Averróis.

A “originalidade” da teoria cientificista de Penrose da alma composta por “energia quântica” é a de que, aparentemente, se afasta do epifenomenalismo de Charles Darwin e Thomas Huxley. Segundo Penrose, a alma já não é um produto directo da actividade do cérebro, mas existe como “energia quântica”, independente da química do cérebro.

Porém, na realidade, a essência do problema mantém-se comum à teoria de Penrose e ao epifenomenalismo de Huxley: no primeiro caso, a identidade da alma (princípio de individuação) é destruída com a morte física, e só existe enquanto a alma (aka “energia quântica”) se encontra em contacto com a matéria (cérebro humano). Por isso, o indivíduo, embora exista enquanto tal através da sua “alma quântica”, só existe como tal quando essa “alma quântica”, desprovida de qualquer princípio de individuação, se encontra “coordenada” e “comandada” pela química do cérebro. Tanto Penrose como Huxley chegam à mesma conclusão: é a química do cérebro que produz exclusivamente o indivíduo.

O filósofo Karl Popper chamou à atenção para o facto de se partirmos do princípio de que o nosso pensamento é apenas produto, e portanto efeito, da pura química que se processa nos nossos cérebros, então não seria sequer possível discutir a ideia segundo a qual “o nosso pensamento é apenas produto, e portanto efeito, da pura química que se processa nos nossos cérebros”.

Tanto o epifenomenalismo de Huxley como a teoria da “alma quântica” de Penrose não podem ter qualquer pretensão de verdade, na medida em que ― e entre outras coisas ― as tentativas de demonstração ou defesa de ambas as teorias decorrem igualmente da química pura. Isto significa que se alguém defender uma teoria contrária às de Huxley ou de Penrose, esse alguém também tem razão, dado que a sua química cerebral apenas chegou a um resultado diferente. Karl Popper chama a esta armadilha lógica o “pesadelo do determinismo físico”.

Mesmo aceitando a ideia de que o cérebro seja uma espécie de hardware de um computador — embora com muitas reservas porque estaríamos a simplificar o que é intrinsecamente de uma complexidade do tamanho do universo —, pergunto: ¿de onde vem o software? De onde vem o manancial universal de informação que torna não só possível a vida mas também o mundo das ideias?

Estas perguntas, pelo simples facto de serem colocadas, revelam a evidência da existência de “terra para além do horizonte”. Qualquer ser humano provido de bom-senso sabe, intuitivamente e/ou racionalmente, que existe “terra para além do horizonte”. E o problema da ciência actual é que é desprovida de bom-senso e sem critérios válidos de juízo.

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