perspectivas

Quarta-feira, 2 Junho 2010

Algumas ideias sobre o Historicismo e o holismo quântico

No seguimento dos comentários neste postal, convém-me dar uma perspectiva sobre o Historicismo para esclarecer algumas dúvidas acerca da minha posição.

  1. A corrente de pensamento historicista é das mais heterogéneas: nomes como Dilthey, Simmel, Spengler, Tröltsch, Meinecke, Weber e mesmo Toynbee, são integrados no Historicismo. Por exemplo, entre Dilthey e Spengler existem diferenças substanciais e de fundo, como a relação entre a natureza e a História: enquanto que para o primeiro o processo histórico é independente da natureza, para o segundo existe uma interligação entre os dois campos de análise. Portanto, quando falamos em Historicismo temos que saber sempre qual é o pensador historicista de que estamos a falar.
  2. Dilthey, que foi considerado o fundador do Historicismo, apresenta algumas ideias-base sujeitas a crítica, e dou um exemplo em 4.
  3. Entre um ser humano do princípio da História (pelo menos) e um ser humano contemporâneo, existem características fundamentais comuns, ou seja, características que não mudam a não ser que surja eventualmente uma mutação genética do género humano : existe um elemento comum da natureza humana independentemente do espaço-tempo. Quando o homem moderno, por exemplo, se encontra numa situação em que acontece um tremor de terra, naqueles segundos de pânico em que dura o terramoto, prevalece nele a atitude e a reacção idênticas ao do homem do neolítico quando em presença de forças da natureza que ele não pode controlar.
  4. Dilthey não concorda com a a ideia referida em 3. Ele reduz o universal ao particular — reduz a natureza universal do Homem ao indivíduo em cada momento do tempo, e sem um fundamento comum entre os seres humanos ao longo da sucessão do tempo ou devir — , e aqui segue a tendência neo-positivista que adopta o nominalismo (circulo de Viena, Bertrand Russell, etc.), embora ele pretenda separar as ciências da natureza das ciências do espírito (“espírito” aqui entendido como “mente” e não como “alma” ou no sentido metafísico).
  5. Se colocamos em causa (como eu coloco em causa) o positivismo e o neo-positivismo que reduzem o universal ao particular, é inevitável e pelas mesmas razões colocar em causa o Historicismo, porque o Todo é sempre mais do que a soma das partes (holismo quântico). Se o particular representasse o universal, e este fosse redutível àquele, a noção de “holismo quântico” seria absurda.
  6. O conceito de “holismo quântico” baseia-se na noção de “não-localidade quântica”. O limite da velocidade da luz estabelecido por Einstein é hoje obsoleto. Na natureza existem conexões que acontecem mais rápido do que a luz e sem propagação de energia. Pese embora as leis clássicas da física se mantenham válidas no mundo macroscópico, é absolutamente inegável que existe um nível não-físico e “invisível” da realidade — a realidade quântica — e que esta realidade exerce necessariamente influência no mundo sensível ou macroscópico (seria absurdo separar totalmente as duas realidades); o que a ciência não sabe ainda muito bem é como as duas realidades interagem entre si, embora o físico inglês Penrose tenha sugerido a força da gravidade como um “elemento charneira” entre as duas realidades.
  7. Duas partículas quânticas em modo de onda — ou “onda imaterial de probabilidade” (OIP) — podem estar “emparelhadas” e comunicar entre si de forma instantânea mesmo que se encontrem a BB de anos-luz (ou mais) do nosso espaço-tempo. Esta correlação entre duas OIP tem origem fora do espaço-tempo, e portanto todas as limitações físicas e clássicas de espaço e de tempo deixam de existir.
  8. O conceito de não-localidade não implica a noção de “transmissão instantânea” de informação entre duas OIP emparelhadas, mas antes refere-se explicitamente à existência de propriedades globais que não são contidas nas propriedades das sub-partes — ou seja, existem características do Todo que não se encontram nas partes.

    A não-localidade é a propriedade indivisível de um sistema que lhe dá uma identidade que é mais do que a soma das suas partes. A noção segundo a qual o potencial quântico instantâneo tem como princípio fundamental a sua origem fora do espaço-tempo, significa que as noções de espaço e tempo não são “descobertas” científicas, mas antes construções da ciência e do senso-comum.

Dilthey (pelo menos no que respeita aos fundamentos da sua teoria) estava errado.

6 comentários »

  1. […] Algumas ideias sobre o Historicismo e o holismo quântico … […]

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    Pingback por Leituras para hoje, June 2, 2010 – hora absurda 7 — Quarta-feira, 2 Junho 2010 @ 3:31 pm | Responder

  2. livro interessante sobre correntes historicistas que apregoam o “fim do mundo”:

    http://www.editoras.com/record/05052.htm

    historiadores como Henry Adams; Arnold Toynbee, o grande cronista da história mundial; H.G. Wells, inventor da ficção científica; Sigmund Freud, o pai da psicanálise. Estes pessimistas históricos abriram caminho para os pessimistas culturais mais radicais, como Nietzsche e Du Bois, lançando a dúvida sobre a capacidade de a civilização ocidental renovar-se e solucionar os próprios problemas.

    Posteriormente, estas correntes do pensamento decadentista envenenaram o poço da confiança européia, fazendo — como defende Herman — a decadência do Ocidente uma profecia auto-realizável. Intelectuais, artistas e escritores cada vez mais se voltaram ao que T.S. Eliot denominou “estranhos deuses”, que continuam a dominar a imaginação moderna. Bertolt Brecht, Jean-Paul Sartre, Antonin Artaud, Frantz Fanon, Ezra Pound, Martin Heidegger e Norman Mailer, todos celebram a libertação do jugo da opressão sexual, do poder racial, da violência e da crueldade como novas formas de autenticidade humana, a qual eles acreditavam ser o antídoto vital para as forças destrutivas da alma da sociedade capitalista de classe média.

    Ao mesmo tempo, novos movimentos políticos radicais surgiram prometendo uma liberação semelhante dos grilhões de uma civilização fracassada. Fascismo, nazismo, comunismo do Terceiro Mundo, Black Power e ambientalismo radical, todos saíram do mesmo caldo de premissas decadentistas, tornando-se parte perigosa do legado anti-ocidental do século XX.

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    Comentar por shâmtia ayômide — Quarta-feira, 9 Fevereiro 2011 @ 11:07 pm | Responder

  3. Hummmm… Heidegger pertenceu ao partido nazi. Não creio que ele defendesse a libertação do “jugo do poder racial”. Além disso, Freud viveu depois de Nietzsche. Por outro lado, não podemos dizer que Arnold Toynbee era pessimista — pelo contrário !

    Tenho muitas objecções a essa análise, mas não há aqui espaço para desenvolver.

    O problema da Europa começou quando foi colocada em causa a Ordem da sociedade. Essa Ordem era uma espécie de pirâmide em cujo vértice estava o monarca, e acima deste estava Deus.

    Quando esta Ordem social foi colocada em causa, em primeiro lugar pelas duas revoluções inglesas do século 17 que estabeleceram a maçonaria especulativa e a abriram aos judeus europeus, e depois e principalmente pela revolução francesa e pelos Illuminati, foi aqui que começou o problema.

    Todos esses filósofos e cientistas do século XX apenas seguiram um curso de acontecimentos e foram um reflexo de acontecimentos anteriores. Oswald Spengler, por exemplo, foi pessimista porque assistiu à primeira guerra mundial e ao nascimento e desenvolvimento do nazismo; quem, nestas condições, não seria pessimista?

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    Comentar por O. Braga — Quinta-feira, 10 Fevereiro 2011 @ 12:27 am | Responder

  4. Entendi.

    Então o caso de Spengler é parecido com o caso de Evola.

    Evola(que presenciou a guerra) na sua análise sobre o existencialismo conclui que “somente o homem que construiu uma vida” e via tudo ser destruído entre bombardeios é que se pode dar ao luxo de “reflexões sobre a existência”.

    Evola concluiu que o existencialista é uma projeção do homem na crise, e não o homem que foi além da crise.

    O termo “crise” para mim é muito vago, Mário Ferreira dos Santos(que também foi contemporâneo da segunda guerra) também se utilizava muito do termo crise, mas o que não entendo é a que tipo de crise que eles se referem? A guerra? A decadência cultural? A crise econômica?

    Me parece que a Segunda Guerra deixou cicatrizes culturais que ainda são pouco percebidas pelos mais jovens como eu, mas foram marcantes para quem viveu na época.

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    Comentar por shâmtia ayômide — Quinta-feira, 10 Fevereiro 2011 @ 2:27 am | Responder

  5. Pode ser que o autor do livro seja adepto das teorias de “transformação” como Deleuze, e por isso coloque quem tentou diagnosticas a decadência no mesmo balaio.

    Para os marxistas culturais é algo normal uma “sociedade se transformar”, em outras palavras, nos debates de que participei é comum ouvir deles dizer que por exemplo é natural uma situação hipotético do Chineses emigrem para o Brasil e em pouco tempo o pais virar uma nova China.

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    Comentar por shâmtia ayômide — Quinta-feira, 10 Fevereiro 2011 @ 2:32 am | Responder

  6. ************

    “Então o caso de Spengler é parecido com o caso de Evola.”

    Existe uma certa semelhança entre os dois. A diferença essencial é que para Spengler, a História e a Natureza estão intrinsecamente ligadas, a Natureza assume-se como uma força viva que molda a História.

    http://goo.gl/VMS77

    Em Evola, este determinismo histórico existe através da metafísica, enquanto que em Spengler o determinismo histórico era basicamente materialista.

    “O termo “crise” para mim é muito vago”

    A palavra “crise” vem do grego Kraisis, que significa “decisão”, e do verbo grego Krinein, que significa “decidir”.

    O substantivo Kraisis também era usado, em linguagem corrente na Antiga Grécia, com as seguintes conotações: julgamento de uma disputa entre duas ou várias pessoas (a verdade é atribuída a uma das partes); fase decisiva de uma doença (aquela situação da doença em que ou a pessoa morre ou se salva); faculdade de discernimento (faculdade de decidir com sabedoria).

    Do ponto de vista da filosofia propriamente dita, a noção de “crise”, conforme referida acima, não se aplica de uma forma literal. Na maioria dos casos, os filósofos utilizam a noção de “crise” em um contexto científico (por exemplo, quando as noções em que assentam uma determinada disciplina se tornam extemporâneas e obsoletas), ou num contexto psicológico e moral (por exemplo, quando o sujeito descobre que existe um risco de as motivações da sua conduta e comportamento deixarem de ser suficientes e passar a existir uma contradição entre essas motivações e a realidade).

    No caso de Mário Ferreira dos Santos, talvez ele aplicasse a noção de “crise” a um contexto psicológico e moral, não de um sujeito, mas de uma época e de uma sociedade inteiras. Decorrente da crise psicológica e moral, surge naturalmente a crise cultural.

    As duas guerras mundiais deixaram marcas culturais profundas na Europa, e as sequelas da segunda guerra ainda hoje existem por aqui, porque se transmitiram de uma geração para outra. A única razão plausível, na minha opinião, que justifique a União Europeia é o papel positivo que pode desempenhar como lenitivo dessas profundas feridas históricas.

    Portanto, a crise é uma encruzilhada decisiva da História de uma sociedade, em que grandes decisões têm que ser tomadas pela sociedade em questão.

    “Pode ser que o autor do livro seja adepto das teorias de “transformação” como Deleuze,”

    Por aquilo que eu consegui intuir do texto (porque, sinceramente, não li o link, apenas li o excerto), ele próprio foi escrito por um historicista, ou por alguém que seguiu o Historicismo clássico. Não me parece ser um texto de influência marxista cultural, mas antes de uma certa direita integralista (por exemplo, o Integralismo português de António Sardinha; também existe o integralismo brasileiro). Trata-se de um texto pessimista que faz a crítica do pessimismo.

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    Comentar por O. Braga — Quinta-feira, 10 Fevereiro 2011 @ 5:29 am | Responder


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