perspectivas

Terça-feira, 1 Junho 2010

O movimento pendular da História

« As leis inúteis enfraquecem as leis necessárias » — Montesquieu

O movimento oscilatório do pêndulo tende sempre para o equilíbrio. E quanto maior é o ângulo total de oscilação do pêndulo, maior e mais vigoroso é o movimento de retorno do pêndulo à posição oposta, sempre procurando, assim, o equilíbrio. Se aplicarmos o conceito da lei do pêndulo às sociedade humanas, o ponto de equilíbrio é o “justo-meio” de Aristóteles. Quanto mais uma sociedade se afasta do justo meio, através de posições políticas radicais conduzidas por uma elite de iluminados gnósticos, maior será, no futuro, a reacção que obriga o movimento pendular da História a retornar ao equilíbrio do justo-meio.

O problema é que o movimento pendular histórico de retorno, tendente ao equilíbrio, vai ter que contrariar o radicalismo ideológico da fase histórica anterior, causando feridas profundas na sociedade. Era isto que deveríamos todos evitar (esquerda incluída), se tivéssemos a mínima consciência do que andamos aqui a fazer — já nos esquecemos dos loucos anos 20 da apoteose cultural gay e do deboche institucionalizado na Alemanha, e da consequente exterminação dos efeminados nos campos de concentração? Os excessos do movimento pendular da História causam sempre excessos de sinal contrário. Tal como nos loucos anos 20, o raciocínio actual do movimento político gayzista é presentista: “enquanto pau vai e vem, folgam as costas”.

« Não conheço melhor método para fazer anular as más leis do que pô-las rigorosamente em execução »
— Ulysses S. Grant

A grande virtude deste texto do João César das Neves foi ter despertado manifestações de cinismo por parte da esquerda radical. As manifestações de cinismo por parte dos radicais gnósticos revelam o valor do texto. Pior seria se não existisse reacção.

Quando João César das Neves fala nas possibilidades de futuro, não o faz através de um exercício de profetismo — como é, aliás, usual na esquerda gnóstica radical, que vê no futuro utópico uma certeza absoluta. Fá-lo antes em função de evidências que se baseiam no puro exercício da razão, e no cálculo de probabilidades decorrente da própria natureza fundamental da realidade.

A liberdade existe essencialmente a nível do indivíduo, e a liberdade em circulação na sociedade resulta da soma das liberdades individuais (não confundir “liberdade” com “libertinagem”); o comportamento das sociedades, entendidas colectivamente, estão mais sujeitas ao determinismo das leis da natureza — ou seja, estão mais sujeitas à lei do pêndulo.

“Um direito digno desse nome não poderá ser um direito que caduca quando a força [do Estado] acaba”
— (Rousseau).

Só a fé dos gnósticos radicais de esquerda não vê a lógica da frase de Rousseau (com quem, de resto, eu não simpatizo particularmente) . Existe a ideia, na esquerda radical, de que basta a força bruta do Estado para alterar o ser humano no mais essencial que o caracteriza. Não compreendem que, ao longo da História, os processos de diferenciação das sociedades sempre foram feitos através de consensos sociais, e que a imposição ideológica através do exercício da força bruta, ou da coerção por via de leis arbitrárias, sempre conduziu a um movimento contrário de oscilação do “pêndulo político”. Basta olhar para o recente exemplo do desabamento da União Soviética.

É óbvio que não chegamos fim da História; e é óbvio que virá por aí o reverso da medalha. É uma questão de mais ou menos tempo. O raciocínio de João César das Neves chega mesmo a ser elementar.

10 comentários »

  1. […] O movimento pendular da História « perspectivas […]

    Gostar

    Pingback por Leituras para hoje, June 1, 2010 – hora absurda 7 — Terça-feira, 1 Junho 2010 @ 3:38 pm | Responder

  2. Caro Braga
    Este seu postal revela algum historicismo pouco compatível com as suas posições anteriores. Acresce que a alegoria do pêndulo é perigosa; o pêndulo segue as leis da física e a história não segue qualqur lei.

    Gostar

    Comentar por Salvador Rebelo de Andrade — Terça-feira, 1 Junho 2010 @ 6:52 pm | Responder

    • @ Salvador:

      A História deve seguir uma lei qualquer (assim como a ordem do cosmos segue um código de leis de que nós apenas nos apercebemos de algumas); o que não podemos é saber — nós, humanos — que lei é essa, pela simples razão por que o conteúdo não pode compreender o continente.

      O historicismo consiste em afirmar um Eidos da história — uma intencionalidade da história que é bem definida. Coisa diferente é olhar para a história (para o passado) e verificar que existe um padrão de recorrências; falei no caso da Alemanha dos anos 20, mas poderia falar de muitas outras circunstâncias que confirmam um determinado padrão de recorrências.

      Por outro lado, o Todo é sempre mais do que a simples soma das partes (holismo quântico); por isso é que a sociedade, como o Todo das liberdades individuais, está para além do controlo dos indivíduos.

      Portanto, não vejo nenhuma contradição com aquilo que tenho defendido aqui. Se quiser ser mais claro, agradeço (são muitos anos a pensar: não é fácil apanhar-me em contradição, mas se o conseguir, agradeço que me informe).

      Gostar

      Comentar por O. Braga — Terça-feira, 1 Junho 2010 @ 7:58 pm | Responder

  3. Caro Braga
    Não pretendo demonstrar contradições, mas sim perceber aquilo que diz, neste caso, de assimilar a sua teoria da história. O conceito de que a “história deve seguir uma lei qualquer” em função das recorrências é de dificil compreensão e pode prestar-se a injustas colagens historicistas. No fundo, o que foi há de voltar a ser, porque a recorrência assim o demonstra.

    Gostar

    Comentar por Salvador Rebelo de Andrade — Terça-feira, 1 Junho 2010 @ 9:25 pm | Responder

  4. Dou o exemplo da diferença que existe entre um economista e um profeta. O economista parte de padrões de recorrência (sejam estatísticas ou outras) baseados no passado e na experiência humana, para fazer previsões; o profeta parte da sua subjectividade, de uma ideologia, doutrina ou dogma, ou seja, de uma teoria de intencionalidade histórica, para fazer coisa semelhante.

    A diferença é óbvia. O economista é um cientista; o profeta é um metafísico. O historicismo é a teoria metafísica da História.

    Gostar

    Comentar por O. Braga — Terça-feira, 1 Junho 2010 @ 9:46 pm | Responder

  5. A ideia de que a “História deve seguir uma lei qualquer”, é uma constatação auto-evidente, axiomática até. Ora isto não significa que possamos saber qual e como é essa lei. Não vejo como seja de difícil compreensão este conceito. De modo idêntico, dizemos que os ângulos internos de um triângulo somam 180 graus e não sabemos a causa do fenómeno nem a lei que o determinou: trata-se de uma auto-evidência.

    Uma coisa é dizer: “ a História deve seguir uma lei qualquer”. Outra coisa é dizer: “A História segue esta lei perfeitamente definida”. São coisas diferentes.

    O facto de dizermos que “ a História deve seguir uma lei qualquer”, não significa que o passado histórico e a experiência humana sejam obnubilados ou condenados à não-existência. Eles existem.

    Por outro lado, esse mesmo facto — o de dizermos que “ a História deve seguir uma lei qualquer” — não significa que possamos prever o futuro com uma precisão determinada por uma intencionalidade histórica (historicismo), mas permite perfeitamente prever tendências de evolução histórica em função dessa experiência e desse passado. Não sei se estou a ser claro naquilo que quero dizer.

    Gostar

    Comentar por O. Braga — Terça-feira, 1 Junho 2010 @ 10:07 pm | Responder

  6. Foi claro. Obrigado

    Gostar

    Comentar por Salvador Rebelo de Andrade — Quarta-feira, 2 Junho 2010 @ 9:23 am | Responder

  7. […] não-localidade, Quântica, Spengler, Toynbee, Tröltsch No seguimento dos comentários neste postal, convém-me dar uma perspectiva sobre o Historicismo para esclarecer algumas dúvidas acerca da […]

    Gostar

    Pingback por Algumas ideias sobre o Historicismo e o holismo quântico « perspectivas — Quarta-feira, 2 Junho 2010 @ 10:18 am | Responder

  8. Apenas uma analogia incomum

    Sistemas de governo são a própria rede.

    O pêndulo é a antiga roda “fortuna”

    Democracia é o protocolo antigo e aceito da tradição ocidental.

    Há uma semelhança enorme entre a democracia direta e sistemas em rede Mesh, como também os primeiros surgidos na computação baseados em um grande mainframe central e servidores burros e sistemas totalitários.

    Como existe a analogia entre a representativa e a rede baseada em servidores. Existe a possibilidade do controle do servidor de cima para baixo (controla a rede pelo domínio do fluxo de informações – tende a falhas e instabilidade).

    Em prática política ambos já foram experimentados em todos os níveis (tendem a falha, anomia, e reinício pela luta de seus opostos), exceto uma rede global em estilo Mesh (quebra-se a roda).

    Quais os protocolos de comunicação da rede?

    Os antigos e aceitos gregos?

    Fortuna Imperatriz do Mundo

    Ó Fortuna
    és como a Lua
    mutável,
    sempre aumentas
    e diminuis;
    a detestável vida
    ore escurece
    e ora clareia
    por brincadeira a mente;
    miséria,
    poder,
    ela os funde como gelo.

    Sorte monstruosa
    e vazia,
    tu – roda volúvel –
    és má,
    vã é a felicidade
    sempre dissolúvel,
    nebulosa
    e velada
    também a min contagias;
    agora por brincadeira
    o dorso nu
    entrego à tua perversidade.

    A sorte na saúde
    e virtude
    agora me é contrária.

    e tira
    mantendo sempre escravizado.
    nesta hora
    sem demora
    tange a corda vibrante;
    porque a sorte
    abate o forte,
    chorais todos comigo!

    Aumente o som e aprecie.

    O Fortuna

    O Fortuna
    velut luna
    statu variabilis,
    semper crescis
    aut decrescis.
    vita detestabilis,
    nunc obdurat
    et tunc curat;
    ludo mentis aciem,
    egestatem,
    potestatem
    dissolvit ut glaciem.

    Sors immanis
    et inanis,
    rota tu volubilis,
    status malus,
    vana salus
    semper dissolubilis,
    obumbrata
    et velata
    michi quoque niteris;
    nunc per ludum
    dorsum nudum
    fero tui sceleris.

    Sors salutis
    et virtutis
    michi nunc contraria,
    est affectus
    et defectus
    semper in angaria.
    Hac in hora
    sine mora
    corde pulsum tangite;
    quod per sortem
    sternit fortem,
    mecum omnes plangite!

    F.BonSin

    Gostar

    Comentar por Fernando Sinzato — Quarta-feira, 2 Junho 2010 @ 6:32 pm | Responder

    • @ Fernando:

      Segundo o teorema de Goedel, é impossível a um sistema demonstrar a sua não contradição pelos seus próprios meios.

      Por exemplo, se tivermos um computador programado para simular a actividade cerebral, com um software que o submeta a um rigoroso determinismo no respeitante ao seu funcionamento e à interactividade com o exterior, o computador não conseguiria calcular num tempo T o que ele próprio seria num tempo T+1.

      O nosso computador só poderia fazer esse cálculo se estivesse ligado a um outro computador de ordem superior, mas este último computador também não se determinaria a si mesmo sem a ajuda de um computador de ordem superior. E assim consecutivamente.

      O teorema de Goedel demonstra não só que a ciência não se deve fechar em sistemas que não permitem a sua actualização, mas também o facto de um aparente determinismo poder ser posto em causa por uma visão de ordem superior da realidade.

      Gostar

      Comentar por O. Braga — Quinta-feira, 3 Junho 2010 @ 12:36 am | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Create a free website or blog at WordPress.com.

%d bloggers like this: