perspectivas

Domingo, 8 Setembro 2013

Na educação e na cultura, nem Rousseau, nem Hegel

Filed under: cultura,educação — O. Braga @ 7:29 pm
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Leonardo Coimbra – talvez o maior filósofo português do século XX – conta, em um dos seus livros, a sua experiência traumatizante de infância em um colégio interno católico em Penafiel de finais do século XIX. As regras do colégio eram de tal forma rígidas que adquiriam foros de violência gratuita. Mais tarde, no inicio da década de 1920, Leonardo Coimbra foi Ministro da Educação e tentou alterar educação espartana das instituições religiosas de ensino em Portugal.

O problema do ser humano é que é contraditório por sua própria natureza, e por isso tende quase sempre para o extremismo ou para evitar o “justo meio” de Aristóteles. E na sequência de liberalização do ensino desde o tempo de Leonardo Coimbra, chegamos hoje a uma educação permissiva nas nossas escolas públicas (já que o ensino religioso foi praticamente destruído pela I república).


Este texto no Rerum Natura é escrito no estilo gongórico e academista que pretende dizer tudo sem dizer quase nada de objectivo. Karl Popper criticava, e com razão, o gongorismo academista e presunçoso, que através de uma pretensa linguagem cifrada convida a uma hermenêutica subjectivista: cada um pode interpretar o texto conforme quiser.

Em primeiro lugar, as pessoas têm que se convencer que o ser humano não pode ser concebido como um “tábua rasa” (quando nasce) – este foi um dos grandes erros dos estóicos que influenciou também a Igreja Católica. Portanto, é um erro dizer, como o texto do Rerum Natura diz, que “o indivíduo nasce como um ente biológico e que só pela educação se torna cultural”. Esta ideia é de uma estupidez tão grande que brada aos céus! Quando sabemos (segundo estudos científicos recentes) que o ser humano já memoriza certas palavras ainda no útero materno, percebemos o absurdo do conceito de que “o ser humano só pela educação se torna cultural”.

A mundividência do escriba do Rerum Natura acerca do ser humano é sociobiológica. E nem vou agora aqui entrar na antinomia entre a biologia e a cultura, porque não há espaço suficiente. Se o ser humano fosse uma “tábua rasa”, não seria possível a existência de génios precoces como Mozart, que escreveu a sua primeira sinfonia aos 4 anos de idade. Há algo de fundamental no ser humano que precede a sua existência física.

E um segundo aspecto: depois do pessimismo de Rousseau em relação à civilização, um Hegel optimista concebeu a cultura como um processo histórico imanente no decurso do qual o homem aprende a dominar a realidade: a actividade humana reflecte o “progresso da consciência” em direcção à perfeição humana (paraíso na terra).

Portanto, estamos em presença de duas espécies de loucos que marcaram a mundividência moderna na cultura e na educação: Rousseau e Hegel. Enquanto que para Rousseau a educação é uma deformação – e talvez por isso é que o autor do “Emile” abandonou os seus cinco filhos em um orfanato -, para Hegel a educação não é uma deformação mas antes é uma formação que permite ao indivíduo atingir a perfeição (como se a perfeição fosse possível no ser humano).

A cultura é intrínseca à natureza espiritual humana: é endógena ao homem. A capacidade de abstracção do ser humano não depende apenas da biologia. Se uma criança fosse criada por lobos (segundo a estória de Mogli), a forma como ela veria os lobos não seria idêntica nem semelhante à forma como os lobos a veriam. A mundividência humana é sempre cultural e essa mundividência não depende da biologia; ou melhor dizendo: a biologia não restringe ou limita o carácter cultural do ser humano, o que acontece, em geral, nos outros animais.

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