perspectivas

Terça-feira, 14 Junho 2016

John Locke, em vez de Rousseau

Filed under: Política — O. Braga @ 9:18 am
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“Receio ter de recordar que não existe nada de novo na asserção de que são comuns as origens intelectuais do comunismo, do fascismo e, já agora, do nacional-socialismo nazi. Essa era e é a visão clássica sobre os totalitarismos na cultura política dos povos que mais lhes fizeram frente: os povos de língua inglesa”.

Ainda sobre a convergência entre comunismo e fascismo – Observador

É John Locke, em lugar de Rousseau. Os povos de língua inglesa seguiram John Locke; a Europa continental (em geral, incluindo Portugal depois de 1815) seguiram Rousseau. Mas as coisas estão a mudar. A esquerdas dos Estados Unidos, Canadá e do Reino Unido abandonaram já John Locke e adoptaram Rousseau. Ou seja, o “mundo livre” tem os dias contados.

Não é possível perceber a génese dos totalitarismos, por um lado, e da democracia liberal, por outro lado, sem se ler Rousseau e John Locke. E tudo o resto é retórica.

Quinta-feira, 11 Fevereiro 2016

Não concordo com Bagão Félix acerca dos mecanismos referendários na democracia

 

“Populismo é o termo usado pelos democratas quando a democracia os assusta” (Nicolás Gómez Dávila). A pesporrência e a arrogância dos “donos da democracia”, instalados nas cadeiras dos me®dia da capital-do-império-que-já-não-existe, revela um medo em relação à democracia; e por isso inventaram um sistema em que a vontade popular é diferida e interpretada discricionariamente pela classe política e pela rulling class segundo o modelo da "Vontade Geral" de Rousseau.

A limitação (ou negação) dos mecanismos de democracia participativa retira a legitimidade da democracia representativa.

Sexta-feira, 8 Janeiro 2016

O politicamente correcto é (também) um puritanismo romântico

Filed under: Política — O. Braga @ 8:10 pm
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“Political correctness is not merely the imposition of rules of sensitivity on us; it is also the demand that incorrect thoughts expressing the forbidden attitudes must be stigmatized and abolished. For reasons I have given earlier, this seems virtually impossible, but impossibility has never discouraged moral reformers.

And the basic assumption of the politically correct moral reformer is that the moral life is essentially imitative. That is part of the reason why the anti-discrimination movement is so preoccupied with creatures called ‘role models.’

The assumption is that the young (particularly) will imitate those they admire, so the state attempts in the first place to control the people called ‘celebrities’ by imposing the responsibilities of ‘model-hood’ upon them. It relies on the psychology of imitation to control the way people behave.

“One way of understanding this strange project is to say that it is a version of the story of the fall of man, played backwards, so that fallen men return to their pristine condition of moral goodness.”

Kenneth Minogue, The Servile Mind – How Democracy Erodes the Moral Life (Encounter, 2010) extract from pages 107 through to 109.


Trata-se de um puritanismo invertido e romântico, traduzido por Rousseau através do conceito de “bom selvagem”.

Em 1754, Rousseau escreveu um livro com o título “Discurso Sobre a Desigualdade” em que afirmou que “o homem é naturalmente bom e só as instituições [da sociedade] o tornam mau”. Atirar a culpa para a sociedade é uma característica endémica do romantismo.

Segundo Rousseau, o primeiro homem que vedou um terreno e disse: ‘isto é meu’, achou pessoas bastantes simples para acreditar nisso, e foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Ele vai ao ponto de de deplorar a introdução da metalurgia e da agricultura. O trigo é símbolo da nossa infelicidade. A Europa é um continente infeliz por ter o máximo do trigo e do ferro. Para abandonar o mal, basta abandonar a civilização, porque o homem é naturalmente bom, e o selvagem depois de jantado está em paz com toda a natureza e é amigo de todas as criaturas.

Rousseau enviou uma cópia do livro a Voltaire que depois de o ler, escreveu-lhe em 1755 uma carta em que dizia o seguinte:

“Recebi o seu novo livro contra a raça humana, e agradeço. Nunca se utilizou tal habilidade no intuito de tornar-nos estúpidos. Lendo este livro, deseja-se andar de gatas; mas eu perdi o hábito há mais de sessenta anos, e sinto-me incapaz de readquiri-lo. Nem posso ir ter com os selvagens do Canadá porque as doenças a que estou condenado tornam-me necessário um médico europeu, e por causa da guerra actual naquelas regiões; e porque o exemplo das nossas acções fez os selvagens tão maus como nós.”

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Domingo, 24 Maio 2015

O romântico Daniel Oliveira

Filed under: Política — O. Braga @ 10:01 am
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« Outro dos temas que muita discussão gerou foi o terrível crime de Salvaterra de Magos, em que um miúdo de 17 terá morto outro, de 14, de forma selvagem. O Daniel Oliveira pegou nas declarações da mãe do alegado assassino, que disse, entre outras coisas, “Deus me perdoe o que vou dizer, o meu filho morreu, o que fez vai ter de pagar sozinho (devia ser entregue para fazerem justiça pelas próprias mãos)” e partiu para a crónica “Mãe que arrepia”.

Ao ouvir estas frases na televisão senti mais do que um incómodo. Era como se alguém estivesse a raspar as unhas numa ardósia”, afirmou o colunista do Expresso. Este artigo publicado terça-feira foi muito lido e muito comentado. O João Miguel Tavares respondeu-lhe no Público. E o Daniel Oliveira respondeu à resposta e voltou à carga com nova reflexão que merece ser lida. Chama-se “O amor por um mundo vago” e nela o Daniel afirma que “foi ao colocar valores tão nobres como os da justiça ou da igualdade sempre à frente de vidas concretas que se cometeram os mais hediondos crimes”. »

As Nossas Escolhas

Vou usar um discurso romântico que o Daniel Oliveira entende perfeitamente.

FrankensteinO monstro de Frankenstein (de Mary Shelley) não era monstro, mas antes era belo; era um ser dócil, saudoso de afeição humana e que queria ser amado; mas ninguém o amou. E por isso, revoltado, assassinou a família toda e os amigos do dr. Frankenstein. Monstros, esses, eram talvez as pessoas que não o conseguiam amar, que colocaram um qualquer padrão de igualdade sempre à frente da sua (dele) existência concreta. E no fim, depois de ter assassinado o seu criador, disse:

“Quando percorro o temeroso catálogo dos meus pecados, custa-me a crer que sou o mesmo que tinha pensamentos cheios de visões transcendentes de beleza e majestosa bondade. Mas é assim: o anjo caído torna-se demónio maligno. Até o inimigo de Deus e do homem” [referia-se a Satanás] “tem amigos e sócios na desolação. Eu estou só.”

O Daniel Oliveira tem razão: nunca ninguém tentou reformar o monstro de Frankenstein que, no fim, ficou só. O erro humano não é de psicologia, mas antes é de padrão de valores.


Daniel Oliveira, na sua juventude, à semelhança do Rousseau, admirou as paixões fortes independentemente das consequências sociais. Porém, com o avançar da idade, e tal como aconteceu com os românticos protestantes do norte da Europa dos séculos XVIII e XIX, o Daniel Oliveira deixará possivelmente a sua individualidade obscurecer-se na uniformidade da Igreja Católica do “papa Francisco”.

Domingo, 8 Setembro 2013

Na educação e na cultura, nem Rousseau, nem Hegel

Filed under: cultura,educação — O. Braga @ 7:29 pm
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Leonardo Coimbra – talvez o maior filósofo português do século XX – conta, em um dos seus livros, a sua experiência traumatizante de infância em um colégio interno católico em Penafiel de finais do século XIX. As regras do colégio eram de tal forma rígidas que adquiriam foros de violência gratuita. Mais tarde, no inicio da década de 1920, Leonardo Coimbra foi Ministro da Educação e tentou alterar educação espartana das instituições religiosas de ensino em Portugal.

O problema do ser humano é que é contraditório por sua própria natureza, e por isso tende quase sempre para o extremismo ou para evitar o “justo meio” de Aristóteles. E na sequência de liberalização do ensino desde o tempo de Leonardo Coimbra, chegamos hoje a uma educação permissiva nas nossas escolas públicas (já que o ensino religioso foi praticamente destruído pela I república).

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Domingo, 10 Fevereiro 2013

A Vontade Geral

“[Rousseau] é o pai do movimento romântico iniciador do sistema que infere, de emoções humanas, factos não-humanos, e inventor da filosofia política de ditaduras pseudemocráticas como opostas a monarquias absolutas. Desde então, os que se julgavam reformadores ou o seguiam a ele, ou seguiam Locke. Às vezes cooperavam e muitos não viam incompatibilidade, que se tornou pouco a pouco evidente. Hitler é vergôntea de Rousseau; Roosevelt e Churchill, de Locke.

— Bertrand Russell, “História da Filosofia Ocidental”, página 627; Livros Horizonte Lda, Lisboa, 1966

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Sábado, 10 Novembro 2012

O que é liberdade?

A liberdade é muito difícil de definir, se é que pode ter uma definição abrangente.

Normalmente, quando se critica as ditaduras ou os sistemas totalitários, refere-se à “liberdade política” segundo o conceito de Hannah Arendt. Porém, este conceito de liberdade (de Hannah Arendt) é redutor, e por isso vamos ver, em primeiro lugar, qual é a noção de liberdade segundo S. Tomás de Aquino.
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Sexta-feira, 1 Junho 2012

A democracia e o futuro, segundo Thomas Bertonneau e Spengler

« Culture, Spengler asserts, must insist on itself; it must exercise its prescriptions imperiously, or it will die. Once the bearers of Culture succumb to the sentimentality of “understanding,” of “acclamation… and support” for the amorphous, for the alien, the Culture has yielded itself entirely. In Spengler’s view this has been the case in the West since the middle of the Nineteenth Century. Western civilization, he writes, “offers no defence,” none at all, on its own behalf, while at the same time “it takes pleasure in its own vilification and disintegration.” Following Jean-Jacques Rousseau, clever, all-too-clever people celebrate tribal crafts and savage customs, imputing to them a supposed authenticity lacking in the Western heritage. Soon those people celebrate savagery itself. »

(…)

« Nihilists never call themselves that. Candor would give their game away. Nihilists call themselves soldiers of “Liberty” or champions of “Liberation. »

via Oswald Spengler On Democracy, Equality, And “Historylessness” | The Brussels Journal.

Eu tenho imensa dificuldade em aceitar os pressupostos da filosofia de Spengler. Spengler é um historicista pessimista que critica os historicistas optimistas, mas não deixa de ser historicista. E eu tenho um “problema” com os historicistas; mas tenho que aceitar que algumas conclusões de Spengler são verdadeiras — ou seja, que ele chega, aqui e ali, às conclusões certas embora mediante um raciocínio enviesado.
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Segunda-feira, 14 Maio 2012

Sinceramente, a democracia assim não faz nenhum sentido

Hollande pretende reabrir o dossier de adesão da Turquia à União Europeia. A irresponsabilidade da Esquerda é inqualificável. Porém, o que mais incomoda é saber que a democracia deixa de ter sentido quando os políticos não têm em consideração a distribuição dos votos pelas diferentes sensibilidades políticas.

Hollande ganhou as eleições francesas por uma margem mínima e mais por um voto de protesto contra Sarkozy, o que não lhe dá o direito de deitar um consenso nacional francês maioritário em relação à Turquia pela pia abaixo.

Sexta-feira, 27 Abril 2012

A esquizofrenia moral da modernidade

“O primeiro prémio da justiça é sentir que se a pratica.” — Rousseau, in “Emile”

Enquanto Rousseau escrevia esta frase, os seus cinco filhos tinham sido abandonados por ele num orfanato. A modernidade é caracterizada por uma esquizofrenia moral explícita e obscena. A ética e a moral são abstraídas da realidade concreta, como se pertencessem a um universo paralelo, ou a uma realidade ficcionada e ideal.

Os livres-pensadores actuais vão mais longe: em vez de abandonarem os filhos em qualquer orfanato, matam-nos antes de nascerem; e continuam a falar de justiça.

Quarta-feira, 4 Abril 2012

Os fantasmas de Rousseau (3)

Filed under: ética,filosofia,Ut Edita — O. Braga @ 4:45 pm
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O direito subjectivo moderno nasceu com os franciscanos da Idade Média, nomeadamente com Guilherme de Ockham.
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Terça-feira, 3 Abril 2012

Os fantasmas de Rousseau (2)

O conceito de “contrato social” de Rousseau e o de pacto social de Hobbes não foram essencialmente originais: tiveram as suas origens no conceito de “pacto social” dos franciscanos da Idade Média. O conceito abstracto de “vontade geral” de Rousseau baseou-se na ideia de “associação de vontades”, de Jean Pierre Olieu, ou Jean-Pierre Olivi (1248 — 1298). Os franciscanos, puritanos radicais, estiveram involuntariamente na origem das ideias absolutistas que moldaram a Idade Clássica e que descambaram no relativismo ético da modernidade.
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