perspectivas

Sábado, 11 Junho 2016

José Pacheco Pereira: ¿ambivalência ou ambiguidade?

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 2:24 pm
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A “ambivalência” é psicológica, em geral resultante de um recalcamento. Mas não é legítimo falar de “ambivalência de conceitos”, que não traduzem directamente situações concretas, e por isso não podem ser objecto de um juízo de valor: tratando-se de ideias ou de proposições, é preferível falar em “ambiguidade”. Mas no caso do José Pacheco Pereira e no que diz respeito ao comunismo, não sei se o problema dele é a ambivalência ou se é ambiguidade.

O José Pacheco Pereira reclama para os ex-comunistas a autoridade de direito na crítica ao comunismo — o que implicitamente o inclui a ele. Quem não foi comunista — tenha ou não vivido em um país comunista — tem menos autoridade na crítica ao comunismo. Mas o José Pacheco Pereira nunca viveu em um regime comunista. E eu nunca fui comunista.

Memórias de adolescente (a todos os marxistas-leninistas)

O guerrilheiro apontou-me a Kalachnikov. "Senta-te! ", berrou. Sentei-me de imediato na areia húmida do cacimbo que impregnava os meus ossos naquela noite de Agosto. Centenas estavam já de cócoras ou sentados da mesma forma, no meio da noite escura que me confinava o espírito numa angústia que em vão tentava racionalizar.

Os grupos eram organizados metodicamente. No meu grupo, umas largas dezenas. Outro grupo, mais além. E outro, e outro e mais outro até onde a minha vista podia detectar os vultos e a percepção de sombras em movimento, ou a minha audição de silêncios mitigados poderia alcançar.

Não tinha a noção exacta onde estava. Poderia ser uma parada de um quartel qualquer, enorme com certeza, porque não lhe via os limites ou porque a noite cerrada lhe fazia aumentar as fronteiras. Mais ao longe, grita-se: "Diz Viva à Frelimo! "; segue-se um silêncio angustiador. Uma rajada de metralhadora ressoa com estrondo abafando gritos de morte que se prolongam com gemidos moribundos, exânimes. "São Testemunhas de Jeová, os gajos! Só dizem ‘Viva a Deus ‘, e a ninguém mais. Foderam-se!", balbuciou-me o acocorado mais próximo. O absurdo tomou conta de mim, inspirei profundamente o ar da noite e deixei de sentir medo.

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