perspectivas

Quinta-feira, 20 Dezembro 2012

A tergiversação “técnica” sobre as armas dos libertários que se dizem conservadores

Filed under: Armas nos Estados Unidos,ética — O. Braga @ 10:34 am
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¿É possível a um indivíduo — que tenha (muito) dinheiro disponível — comprar um tanque de guerra, por exemplo de tipo T 72 russo, nos Estados Unidos?

Tanque T 72 para venda

Tanque T 72 para venda

Basta fazer uma pesquisa no Google para encontrarmos a resposta a esta pergunta. Por exemplo, podemos ler no conhecido sítio do EHOW:

“Buying a tank is not as difficult as you might think. Whether it is an English collector of military memorabilia, or a Czech with a connection to the Russian Ministry of Defense, someone out there has the tank you want. However, transporting it internationally can be challenging.”

O sítio do EHOW até dá as instruções necessárias ao cidadão americano endinheirado que queira comprar um tanque de guerra acerca dos formalismos necessários para a sua importação e a sua legalização nos Estados Unidos. Existem mesmo sítios na Internet que informam onde comprar tanques russos de tipo T 72.

No entanto, alguém que “deu uma olhada” no que eu escrevi acerca da necessidade de restringir os excessos libertários nos Estados Unidos, vem dizer que essa coisa da “compra dos tanques” só existe nas imaginações mais imaginativas. Primeiro erro!


O segundo erro consiste em dizer que “todas as pistolas são semi-automáticas”; basta “dar uma olhada” na Wikipédia para lermos isto:

“A revolver, which uses multiple chambers and a single barrel, and a derringer, which uses multiple chambers and multiple barrels, also fire one round for trigger pull, but achieve this in different ways and as such are NOT classified as being semi-automatic.”

Ele há um tipo de gente faz parte de uma geração de indivíduos que viveu a sua juventude dos seus 20 anos num tempo em que o serviço militar não era obrigatório — como não é obrigatório hoje em Portugal. Mas, no entanto, consideram-se autênticos especialistas em armas de fogo. Nunca estiveram numa situação de fogo real, com “elas” a assobiar acima da cabeça, mas pretendem dar lições de armamento a torto e a direito.

Se uma arma é semi-automática, ou não é semi-automática, tem uma importância relativa: o que faz falta saber, é o seguinte: 1/ alcance do tiro (distância a partir do atirador); 2/ tipo de munição (calibre e material da bala); 3/ força de impacto da munição. Por absurdo, poderíamos fazer a seguinte experiência:

1/ pegamos num Rifle de assalto .223 Bushmaster, que foi uma três armas utilizadas pelo assassino de Newton, e atiramos a 50 metros sobre o peito de uma pessoa.

2/ pegamos num revólver Colt 38 — que tecnicamente não é uma pistola semi-automática — e atiramos a 50 metros sobre o peito de uma pessoa.

A diferença é a seguinte:

a) o tiro do Colt 38 neutraliza a acção da pessoa atingida pela bala. Porém, se essa pessoa for transportada ao hospital, existe uma razoável possibilidade de ela sobreviver.

b) o tiro da Bushmaster, a essa distância, entra pelo peito e sai pelas costas da pessoa atingida. Provavelmente, dependendo do tipo de munição (por exemplo, se a munição for de aço), ao sair pelas costas a bala causa um buraco enorme nas costas. Ou seja, a possibilidade dessa pessoa sobreviver é praticamente ZERO!

Conclui-se disto que um Colt 38 ou arma similar serve para defesa pessoal, ao passo que o propósito de uma Bushmaster é exclusivamente matar gente. Afirmar que uma bala de um Colt 38 e a sua força de impacto, por exemplo, é a mesma coisa que uma bala de uma Bushmaster e o seu impacto, é profundamente desconcertante quando vem de alguém que se diz “entendido” em armas de fogo.


O terceiro erro é querer reduzir o assunto dos sucessivos massacres nos Estados Unidos a um problema “técnico” sobre tipos de armas, em vez de concentrar o foco da nossa atenção no problema ético e cultural. Trata-se de uma tergiversação, uma tentativa de fugir à essência do problema: o problema ético e da cultura antropológica. Por exemplo, quando se tenta relativizar os massacres, com frases deste tipo:

“Novamente alerto o leitor para os números: 88 pessoas foram abatidas neste ano em massacres deste tipo. Sabe quantas crianças morrem em média todos os anos nos EUA por causa de acidentes com bicicleta? 250! E ninguém está histérico por causa das bicicletas, e nem deveria estar.”

Naturalmente que esta comparação — e mesmo que seja uma analogia! — é absurda porque, em principio, ninguém anda de automóvel com o propósito expresso de matar crianças. Quem escreve isto ou é ignorante, ou usa de má-fé, porque ignora a intencionalidade na acção.

Uma acção acidental não é, por definição, intencional.

Uma coisa é matar uma criança, atropelando-a, porque não prestei atenção à minha condução; outra coisa é eu pegar numa arma e intencionalmente matar uma criança. Comparar as duas situações é irracional. Por aqui vemos o calibre de argumentos contra a minha posição expressa numa série de verbetes.

Quem defende a posse de todo o tipo de armas de fogo é um libertário, e não um conservador. Leiam e vejam qual é a posição da Igreja Católica sobre este assunto: ¿direito à auto-defesa? Sim! Mas sempre dentro de determinados princípios instrumentais (os fins não justificam qualquer meio) que caracterizam o catolicismo e a ética ontológica cristã.

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