perspectivas

Terça-feira, 20 Maio 2008

O estoicismo

Arquivado em: Religare — O. Braga @ 6:44 pm
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O período da filosofia grega de Sócrates a Aristóteles é marcado pela preocupação do equilíbrio entre a ciência (Razão), a virtude e o prazer. Trata-se de um período em que a filosofia se preocupou com questões morais. Esse equilíbrio entre a ciência e a virtude foi quebrado pelos “cínicos” (literalmente, “os que viviam como cães”) que favoreciam a virtude em detrimento da ciência, e a partir daí toda uma série de teorias se radicalizaram para cada um dos lados. Enquanto Sócrates dizia que “a virtude é ciência”, os estóicos passaram a dizer que “a ciência é virtude”.

O estoicismo terá sido uma das correntes filosóficas que mais marcou a história da filosofia, para o melhor e para o pior. Por exemplo, o conceito de “necessidade” determinística da ordem cósmica que mais tarde influenciou Espinosa foi desenvolvido pelos estóicos. A “ética do dever”, de Kant, foi nitidamente influenciada pelo estoicismo. A noção de “proposição” que marcou posteriormente a teoria da linguagem neopositivista, a noção da Lógica como uma dialéctica, a teoria do “ciclo cósmico” e do “eterno retorno” que Nietzsche plagiou, tudo isso foi desenvolvido pelos estóicos.

O estoicismo nasceu com um discípulo de Aristóteles, Zenão de Citrum, no século IV a.C., e o nome da escola baseou-se no local onde funcionou em Atenas (Stoà poikíle), isto é, a escola do “Pórtico Pintado”.

Os estóicos terão sido os primeiros a tentar racionalizar a ética, isto é, tentaram desligar a ética da metafísica, matéria com que se debate ainda o materialismo filosófico da actualidade (sem solução à vista). Para isso, os estóicos dividiram as virtudes em três categorias: a “natural”, a “moral” e a “racional”, sendo que à virtude “natural” correspondia a Física, à virtude “moral” correspondia a Ética, e à virtude “racional” correspondia a Lógica.

A Lógica e a Física

A Lógica dos estóicos assumia duas categorias: a Retórica, que era a ciência do discurso contínuo e sem contraditório, e a Dialéctica, que era ciência do discurso exercido através do contraditório. A Dialéctica estóica prevê um esboço da teoria da linguagem (de Carnap e Wittgenstein) quando define a Gramática como a ciência das palavras e a Lógica Gramatical como a ciência que se ocupa do significado das palavras. Foi aqui que começou o desconstrucionismo ideológico moderno.

O estoicismo esteve também na origem do existencialismo materialista de Heidegger e Sartre, através dos conceitos de “representação cataléptica”, ou “conceptual”, que aborda a temática das relações entre o intelecto humano e os objectos que o rodeiam e a acção dos objectos sobre o intelecto. Os estóicos chegam à conclusão de que a “representação cataléptica” é dotada de “uma evidência não contraditada”, com a qual a liberdade humana, na sua aceitação, não seja posta em causa pela lógica. Temos aqui o princípio do racionalismo científico moderno, que parte da premissa “lógica” que uma “evidência não contraditada” é sempre verdadeira até que apareça uma outra “evidência não contraditada” que a contradiga.

O conceito de “Epoché” que Husserl utilizou na sua Fenomenologia é de origem estóica e, no fundo, todas estas tendências filosóficas modernas desenvolveram conceitos abordados pelo estoicismo.

O Empirismo racionalista inglês foi buscar muita coisa à teoria do conhecimento dos estóicos, quando estes defendiam que o conhecimento humano deriva exclusivamente da experiência e que o ser humano era como que uma “tábua rasa” quando nascia, tábua essa onde eram depois “inscritas” as experiências da vida.
A célebre teoria da “tábua rasa” vem dos estóicos: as experiências resultantes das relações entre o intelecto e os objectos externos são impressas na alma (no sentido psíquico) de uma forma passiva, e os estados da alma resultam exclusivamente do relacionamento com os objectos externos. Assim para os estóicos, não existe nenhuma diferença entre a experiência externa e a experiência interna.
Contudo, segundo os estóicos, os conceitos que os seres humanos têm dos objectos, e do mundo em geral, não têm nenhuma realidade objectiva: o real é sempre individual (subjectivo) e o universal só existe enquanto é uma simples previsão do futuro. A previsão do futuro é uma consequência da experiência e é a única noção natural do universal., e neste sentido, o estoicismo é um “nominalismo”, na medida em que nega a realidade universal e considera a realidade limitada à súmula das realidades individuais subjectivas. Nasceu aqui o “relativismo” dos valores.

Ao admitirem a noção do ser humano como uma “tábua rasa” aquando do nascimento, os estóicos cortaram toda e qualquer ligação com as filosofias orientais que sempre influenciaram a filosofia grega até Aristóteles, e assistimos ao nascimento do naturalismo materialista puro e duro. Como podemos constatar, os estóicos estiveram na base do relativismo ético-moral que mais tarde foi desenvolvido pelos descontrucionistas da linguagem (Carnap, Derrida, entre outros), pelos marxistas-culturais (Lukacs, Marcuse, Adorno) e pelos existencialistas materialistas (Sartre, Heidegger, etc.).

A própria “teoria da falsibilidade” de Karl Popper escorou-se na Lógica da Linguagem dos estóicos: um significado completo só existe numa proposição em que se pode constatar possibilidade da existência do falso, assumindo-se então essa proposição como verdadeira.
Por exemplo, a frase: “se é dia, há luz; mas é dia, logo existe luz.”. Esta proposição é verdadeira se é dia, mas é falsa se é noite. Por outro lado, podemos dizer que “se é dia, há luz; mas não há luz, logo não é dia”, e por aí afora, sendo que cada esquema de raciocínio é verdadeiro quando parte de premissas verdadeiras (quando corresponde à situação de facto depois de eliminada a possibilidade de falsidade da proposição).
Naturalmente que Karl Popper deu a esta incipiente teoria uma outra dimensão.

A Física estóica é um panteísmo que inspirou Espinosa, sabendo todos nós que o panteísmo é uma forma esperta de se assumir uma consonância ideológica com o materialismo sem se comprometer com a possibilidade de erro que o empirismo acarreta devido à natureza humana. Se o ser humano erra e não existe um Deus criador, então a solução para o problema está no panteísmo. Em relação à possibilidade de Deus, o panteísmo não é um “não”, nem um “sim”: é um “NIM”. Um panteísta é alguém que gosta de “sol na eira e chuva no nabal”, alguém que acredita que não acredita mas gostava de acreditar para deixar de ter dúvidas e para que os outros saibam que acredita.

A Ética

A ética dos estóicos é uma teoria do uso prático da Razão. O ser humano deve viver de acordo com a natureza, segundo os estóicos. Contudo, a maioria dos líderes estóicos – desde Zenão a Séneca – suicidaram-se, o que prova a inconsistência da ética estóica, porque se vivessem de acordo coma a natureza deixariam os seus dias transcorrer até ao fim. Se por um lado os estóicos diziam que o ser humano deveria viver segundo a natureza, por outro lado o seu racionalismo era tão exacerbado, fanático e exagerado que a noção de dever ético racional (kathékon) estava acima da própria natureza.

«Os estóicos chama de “dever” àquilo cuja escolha pode ser racionalmente justificada…das acções realizadas pelo instinto, algumas são próprias do dever, outras nem próprias do dever nem contrárias ao dever. Próprias do dever são aquelas que a Razão aconselha efectuar, como honrar os pais, os irmãos, a pátria e viver em harmonia com os amigos. Contra o dever são aquelas que a Razão aconselha a não fazer…Nem próprias do dever nem contrárias ao dever são aquelas que a razão nem aconselha nem condena, como levantar uma palha, pegar numa pena, etc.»
– Diógenes Laércio

A teoria ética dos estóicos levou à justificação “racional” do suicídio, a coberto da noção de “dever” que pode contradizer a Natureza. O “dever” não é o “bem”; o “bem” só existe como “dever” quando a experiência prova que uma acção ou atitude é racionalmente provada como sendo positiva. Assim, aquilo que à partida poderíamos considerar como sendo “mal”, como o suicídio, pode ser um “bem” se for inspirado pelo “dever” racionalmente entendido.

Para os estóicos, entre o homem virtuoso e o sacana, não existe meio-termo: um homem ou é virtuoso ou é sacana – “preto e branco”, não há cá “meias-tintas”. Naturalmente que os estóicos se consideravam todos virtuosos, e os outros eram todos sacanas. O sábio estóico faz sempre tudo bem e virtuosamente, porque utilizando a Razão, é um Deus na Terra.

Para o estóico, a emoção (pathos) não tem absolutamente qualquer valor. Segundo os estóicos, a emoção – como por exemplo, a que decorre do riso de uma criança – não tem qualquer função na economia geral do cosmos que providenciou, de modo perfeito, a conservação e o bem dos seres vivos, porque a natureza deu aos animais o instinto e deu aos homens a Razão.
A emoção denota ignorância, futilidade, estultícia, e não é sinal de racionalidade, e por isso, a emoção dever ser eliminada no sábio estóico.

A emoção é uma doença. Por exemplo, o sábio estóico, nas suas relações sexuais, deve despir-se de qualquer emoção, porque se trata de um acto físico e instintivo assim entendido racionalmente; assim, o sábio estóico fornica a sua mulher como um boi vai à vaca (embora o boi ainda solte algum gemido).

A condição do sábio estóico é a indiferença a toda a emoção, isto é, a apatia.

(Nota: a única vantagem que penso ter ganho ao escrever este texto, foi ter sentido aquela emoção que caracteriza a vingança – com uma certa dose de sadismo – que resulta do facto de aqui ter desancado desalmadamente nos estóicos.)

4 Comentários »

  1. Essa matéria é verdadeira? ou não passa de uma mentira ?

    Comment por Jéssica — Quarta-feira, 29 Abril 2009 @ 6:05 pm

  2. Os factos relatados são verdadeiros. A conclusão que retiro dos factos (opinião) é minha, e portanto, tanto os factos como a opinião são verdadeiros. Eu não tenho que provar que estou certo na minha opinião; quem tiver conhecimentos suficientes sobre o assunto que rebata a minha opinião.

    Comment por O. Braga — Quarta-feira, 29 Abril 2009 @ 8:22 pm

  3. Infelizmente , o homem que se envereda pelo caminho do indiferentismo caiu na armadilha do mecanicismo, do frio, do gélido, praticamente do um buraco sem fim. é bem verdade , quer a paixão , leva o homem , ha muitos desafetos, pórém ,também é verdade que a verdadeira paixão, que nesse caso, podemos chamar de amor, faz o homem entrar numa esfera chamada de altruísmo. Quando ele procura amar incondicionalmente é justamente nesse ponto que de fato ele atinge o ápice da vaedadeira essencia da vida. Logo, os nossos amigos estoicistas , respeitando o jeito de ser e de viver . Contudo , percebe-se que são ´pessoas frusatradas.

    Comment por barto — Quarta-feira, 2 Setembro 2009 @ 5:45 pm

  4. Eu li o que o O.Braga escreveu e tenho conhecimento deste assunto pude perceber que as informações contidas no texto são, em sua maioria, verdadeiras.

    Comment por bruna matos — Quarta-feira, 11 Novembro 2009 @ 10:10 pm


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