perspectivas

Domingo, 15 Fevereiro 2015

A historiadora francesa Marion Sigaut desconstrói o mito de Voltaire

Filed under: Política — O. Braga @ 9:51 am
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Uma mulher inteligente. Nem tudo está perdido.

Entretanto, Theodore Dalrymple escreve um artigo com o título “Viva Voltaire” para defender as posições de liberdade de expressão do jornal Charlie Hebdo. Há aqui uma contradição “liberal”: por um lado, a França precisou de imigrantes e importou muçulmanos em barda; mas por outro  lado insulta-se a religião dos muçulmanos em nome da “liberdade de expressão”.

Imagine o leitor que eu pedia dinheiro emprestado a um amigo e depois dizia em público que ele era  um avarento e um cínico. Por um lado, precisei dele; mas por outro  lado coloco o nome dele na sarjeta.

Portanto, ao contrário do que defende Theodore Dalrymple, são os franceses que são hipócritas e não os anglo-saxónicos. Quando nós convidamos alguém para nossa casa, é a pessoa inteira que é convidada, e não apenas uma parte da pessoa que nos interessa.

A posição eticamente correcta seria a de não convidar uma pessoa para nossa casa se soubéssemos à partida que a idiossincrasia dessa pessoa seria incompatível com a nossa.

Não tenho nada contra o facto de se criticar o Islão em nome da liberdade de expressão — pelo contrário: eu não tenho feito aqui outra coisa! Mas então não abram as fronteiras à  imigração islâmica.

O que não faz sentido é convidarmos um muçulmano a entrar no nosso país e depois dizermos que a religião dele é uma merda. Esta humilhação gratuita também faz parte do politicamente correcto “liberal”. Mais vale, então, colocar entraves à  imigração islâmica para que possamos criticar o Islão em coerência política, intelectual e ética.

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Terça-feira, 17 Janeiro 2012

Afinal, Rousseau não era Rousseau

A Helena Damião apresenta este texto tentando branquear a vida e a imagem de Rousseau. Muita gente acreditará naquilo que ela transcreveu, mas não é por isso que a Helena Damião passa a impôr o seu ponto-de-vista ao transcrever acriticamente um texto: das duas uma: ou ela ignora e transcreve a opinião de Barzun como sendo a verdade, ou ela conhece minimamente a obra de Rousseau, e então é desonesta.

Vejamos que diz o ateu confesso Bertrand Russell acerca de Rousseau:

« As ideias do primeiro ensaio foram elaboradas em outro, o “Discurso Sobre a Desigualdade”, (1754), que no entanto não teve prémio. Afirmou que “o homem é naturalmente bom e só as instituições o tornam mau” — antítese da doutrina do pecado original e da salvação pela Igreja. »

Continuo a citar Russell:


«A origem da sociedade civil e consequentes desigualdades — segundo Rousseau — está na propriedade privada. “O primeiro homem que vedou um terreno e disse: ‘isto é meu’, e achou pessoas bastantes simples para acreditar nisso, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil”. Vai ao ponto de de deplorar a introdução da metalurgia e da agricultura. O trigo é símbolo da nossa infelicidade. A Europa é um continente infeliz por ter o máximo do trigo e do ferro. Para abandonar o mal, basta abandonar a civilização, porque o homem é naturalmente bom, e o selvagem depois de jantado está em paz com toda a natureza e é amigo de todas as criaturas.

Rousseau mandou este ensaio a Voltaire, que respondeu [1755] : “Recebi o seu novo livro contra a raça humana, e agradeço. Nunca se utilizou tal habilidade no intuito de tornar-nos estúpidos. Lendo este livro, deseja-se andar de gatas; mas eu perdi o hábito há mais de sessenta anos, e sinto-me incapaz de readquiri-lo. Nem posso ir ter com os selvagens do Canadá porque as doenças a que estou condenado tornam-me necessário um médico europeu, e por causa da guerra actual naquelas regiões; e porque o exemplo das nossas acções fez os selvagens tão maus como nós.”


O que me parece é que Barzun diz que Rousseau não escreveu aquilo que Rousseau escreveu. E diz que Voltaire era um diminuído mental quando interpretou mal as palavras de Rousseau — as tais palavras que Rousseau não escreveu. E diz também que Bertrand Russell não sabia interpretar um texto. Bem sei que Barzun é francês, mas o chauvinismo tem limites…

A história da vida de Rousseau é a história de um indivíduo com sérios problemas psicológicos, problemas esses que se traduziram nas suas ideias. O insuspeito ateu e céptico Bertrand Russell conta-nos as mais obscuras e incríveis facetas de Rousseau na sua “História da Filosofia Ocidental”: convido a Helena Damião — e os seus leitores — a ler o que o ateu e naturalista Russell escreveu acerca de Rousseau: poupar-me-ia o trabalho deste postal.

Quarta-feira, 29 Julho 2009

Carta de Voltaire a Rousseau

Filed under: filosofia — O. Braga @ 11:53 pm
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Depois de ter escrito um ensaio com o título “Discurso sobre a Desigualdade” (1754), Jean Jacques Rousseau enviou um exemplar do livro a Voltaire. Nesse ensaio, Rousseau fazia a apologia do “bom selvagem”, segundo a ideia de que “o homem é naturalmente bom e só as instituições o tornam mau”. Para evitar o mal, basta abandonar a civilização porque o homem é naturalmente bom, e o selvagem “depois de jantado” está em paz com toda a natureza e é amigo de todas as criaturas. Perante este ensaio, Voltaire enviou uma carta a Rousseau onde se podia ler:

“Recebi o seu novo livro contra a raça humana, e agradeço. Nunca se usou tal habilidade no intuito de tornar-nos estúpidos. Lendo este livro, deseja-se andar de gatas; mas eu perdi o hábito há mais de sessenta anos, e sinto-me incapaz de readquiri-lo. Nem posso ir ter com os selvagens do Canadá porque as doenças a que estou condenado tornam-me necessário um médico europeu, e por causa da guerra actual naquelas regiões; e porque o exemplo das nossas acções fez os selvagens tão maus como nós”.

Rousseau esteve na base da antropologia moderna (e politicamente correcta). Para se perceber a estupidez de Rousseau e dos antropólogos modernos, ler o livro “Sick Societies” (Sociedades Doentes), de Robert Edgerton, publicado em 1992 ― se fosse hoje, provavelmente Edgerton teria medo de retaliações políticas e não teria publicado o livro.


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