perspectivas

Sábado, 14 Fevereiro 2015

Quem não caminhar cinco quilómetros por dia não terá direito ao Serviço Nacional de Saúde

Filed under: Política,politicamente correcto — O. Braga @ 12:41 pm
Tags: ,

 

Imagine o leitor a seguinte notícia:

“David Cameron, o primeiro-ministro do Reino Unido, afirmou que o cidadão que não caminhar cinco quilómetros por dia não terá direito a acesso aos serviços de saúde do Estado.

Mais defendeu que só aqueles cidadãos que fazem jogging diário terão direito a eventuais cirurgias gratuitas.

E afirmou também que as profissões que exijam que uma pessoa permaneça sentada grande parte do dia — por exemplo, os informáticos, ou os pilotos de avião — tenham que pagar taxas acrescidas quando se dirijam a qualquer instituição do Serviço Nacional de Saúde”.

Agora, vamos à  notícia real: David Cameron defende que as pessoas obesas que recusem tratamento deixam de ter direito a benefícios do Estado (Serviço Nacional de Saúde, subsidio de desemprego, etc.)

O princípio mórbido não são os obesos mas a opinião de David Cameron; e esse princípio utilitarista já está na notícia: a seguir, esse princípio poderá ser aplicado a qualquer cidadão, a qualquer pretexto. Isto é o “liberalismo” actual — também de Passos Coelho —  que se confunde com o politicamente correcto ou marxismo cultural.

Quinta-feira, 29 Janeiro 2015

Os valores (da ética) não podem ser deduzidos de qualquer utilidade

Filed under: ética — O. Braga @ 9:17 pm
Tags:

 

Os valores (da ética) existem por si mesmos, e não podem ser deduzidos de qualquer utilidade.

Assim, por exemplo, o valor da justiça vale por si, o que pode ser compreendido por cada ser humano. Se fizéssemos depender o valor da justiça de algo que não estivesse — de um modo ou de outro — já incluído no seu significado; se deduzimos o valor da justiça da utilidade ou de uma oportunidade política, o valor da justiça estaria em uma situação muito precária.

Se uma coisa é boa porque é útil, ou é boa porque alegadamente beneficia o indivíduo e/ou a sociedade — então, em relação a um dos familiares que adoeceu na própria casa com uma infecção mortal: ¿é mais correcto abandonar a casa, de modo a não transmitir a infecção, ou cuidar do doente, mesmo que já não exista qualquer esperança?

Para a sociedade, seria mais útil (e a maioria das pessoas certamente que beneficiaria) se, por exemplo, doentes infectados com o vírus Ébola fossem abandonados ao seu destino, para que a causa da doença permanecesse isolada. Recentemente, em África, também seria mais útil para as enfermeiras católicas (as freiras) se se tivessem mantido afastadas, em vez de terem morrido por cuidarem dos doentes.

Quinta-feira, 17 Julho 2014

O pânico está instalado na Europa em torno da islamização da cultura

 

Islamic-England-1-webO medo instalado nas elites políticas inglesas em relação às famílias numerosas, na sua maioria de imigrantes de países islâmicos, está a conduzir a Inglaterra a uma versão estatal não-oficial de uma política de filho único. Por um lado trata-se de uma política de sinificação que é já comum a alguns países da Europa, mas por outro lado trata-se claramente de uma política de desincentivação de nascimentos entre as famílias islâmicas.

O governo “conservador” de David Cameron prepara uma lei que retira qualquer apoio social às famílias a partir do quarto filho. Toda a gente sabe que, em Inglaterra, a esmagadora maioria das famílias com mais de quatro filhos são famílias islâmicas.

Muslims-in-the-UK-webA nova lei do “conservador” David Cameron é dialéctica (joga em dois carrinhos): por um lado, é uma lei neoliberal porque pretende separar a sociedade e o Estado, e também no sentido em que segue as premissas ideológicas neoliberais de exigência de diminuição da população a nível global (ver, por exemplo, as posições políticas de gente como Bill Gates ou George Soros) — e aqui, os neoliberais estão em consonância com a novas religiões políticas “ecologistas” que culpam o ser humano por um aquecimento global em relação ao qual não existem provas científicas propriamente ditas.

E, por outro lado, a nova lei do governo do “conservador” David Cameron pretende travar a taxa de natalidade da população islâmica imigrante em Inglaterra.

Mas os “conservadores” ingleses parecem não querer ficar por aqui: já pensam em cortar qualquer apoio às famílias a partir do segundo filho, e já se fala mesmo em cortar os apoios às famílias a partir do primeiro filho — o que tornaria real, embora por vias menos totalitárias, uma política de filho único em Inglaterra.

Quinta-feira, 10 Julho 2014

Resposta a um comentário do professor de filosofia Rolando Almeida

 

No seguimento deste meu verbete, o professor de filosofia Rolando Almeida escreveu um comentário que pode ser lido aqui, ou aqui em PDF depois de corrigido para português correcto. Segue-se a minha resposta ao comentário de Rolando Almeida.

1/ O facto de a Direcção da Escola atribuir as turmas a um professor, não significa que os critérios de ensino sejam de tal forma subjectivos que o professor possa afirmar literalmente que “os alunos são meus”.

2/ Em relação a Peter Singer: ou o Rolando Almeida desconhece os escritos do professor australiano que ensina na Universidade de Princeton (quando não deveria ensinar), ou está de má-fé. Sendo o Rolando Almeida um professor de filosofia reconhecido pelo sistema de ensino, tenho que concluir que, neste caso, ele age de má-fé.

Para que o leitor possa ter uma ideia daquilo que Peter Singer pensa e ensina, pode consultar até a Wikipédia em inglês — porque a Wikipédia brazuca nem vale a pena ler!

3/ Escreve o Rolando Almeida:

“Mas vamos supor que Singer até defendia, como alguns filósofos o fazem, que não existe qualquer problema moral no infanticídio em determinadas circunstâncias? Segue-se daí que não devam ser abordados tais argumentos quando se pensa filosoficamente sobre o assunto, mesmo em aulas do secundário? Com que seriedade se eliminam uns autores e se aceitam outros? Foi capaz de pensar nisto antes de escrever a parvoíce que escreveu?”

Para o Rolando Almeida, e por exemplo, o livro “Mein Kampf” de Adolfo Hitler poderia ser disponibilizado para leitura dos seus (dele) alunos sem uma interpretação em contexto. Eu penso que o “Mein Kampf” de Hitler não deveria ser sequer matéria de discussão em uma aula de filosofia; mas seguindo o critério do Rolando Almeida — segundo o qual “não é sério eliminar uns autores e aceitar outros” — não seria lógico que dissociássemos o autor Adolfo Hitler, por um lado, da sua obra filosófica, por outro lado (porque o “Mein Kampf” contém, em si mesmo, uma determinada mundividência e, por isso, uma filosofia).

O que me surpreende é que o “parvo” seja eu. O recurso ao ataque ad Hominem é uma falácia lógica que qualquer professor de filosofia deveria evitar.

Se se quiser ensinar Peter Singer em aulas de filosofia para adolescentes, as ideias do autor australiano não devem ser parcialmente “branqueadas” — ou seja, não se deve esconder o facto, por exemplo, de Peter Singer comparar um feto humano com um peixe.

4/ Eu não tenho nada pessoalmente contra o Rolando Almeida — que eu nem sequer conheço. O meu ataque e ideológico, e não é ad Hominem.

5/ Em filosofia, a mundividência do autor deve ser o ponto de referência do ensino da sua obra. Por exemplo, não é aconselhável ensinar Hegel senão a partir da sua (dele) mundividência que consiste na unidade dialéctica e a identidade do finito e do infinito. Só a partir deste ponto cardeal da sua (dele) mundividência se desenvolvem as teorias e o sistema hegeliano. Por isso, não é admissível que um professor de filosofia diga aos seus alunos que Peter Singer é um “altruísta” — mesmo que ele defenda um altruísmo utilitarista — quando o australiano defende (por exemplo) a ideia segundo a qual o feto humano tem o estatuto ontológico de um peixe.

6/ Os tempos estão a mudar. O relativismo do Rolando Almeida em relação à vida humana (por exemplo, explicitamente em relação ao aborto), em um tempo de depressão demográfica, coloca a mundividência do Rolando Almeida fora de moda. E é talvez isso que o preocupa e deve preocupar.


Resposta ao verbete de Rolando Almeida com o título “Contestar não é o mesmo que criticar – Resposta aos posts do Orlando”, pode ser lida aqui.

Sábado, 31 Maio 2014

O neoliberalismo diz que “matar uma pessoa é melhor do que matar três pessoas”

Filed under: ética — O. Braga @ 12:11 pm
Tags: , ,

 

No Brasil, devido à grande influência do partido marxista de Dilma Roussef, está na moda defender a ideia segundo a qual “a ética marginalista é melhor do que a ética marxista”. É falacioso que se utilize as ideias de Karl Marx para justificar as ideias de Carl Menger ou de Hayek — como se faz aqui.

Seria como se eu dissesse que “matar uma pessoa é melhor do que matar três pessoas”: o foco do argumento desloca-se para a quantidade de pessoas assassinadas e, assim, desvia-se do acto assassino. Trata-se de uma falácia da mediocridade (para além de ser uma falácia de double blind): nivela-se por baixo (com a bitola do marxismo) para se justificar a ética marginalista na economia.

Não é possível separar a ética, por um lado, da economia, por outro lado. Aliás, não é possível separar a ética de qualquer actividade humana, incluindo a política. E por isso não é possível separar a ética do marginalismo, por um lado, da economia e da política, por outro lado.

O “paradoxo do valor”, defendido pelo marginalismo, é evidentemente um paradoxo. Em lógica, um paradoxo é um raciocínio que conduz a consequências contraditórias ou impossíveis, mesmo quando não lhe conseguimos encontrar o defeito.

A utilidade do paradoxo é muitas vezes articulada a uma concepção negativa da opinião (por exemplo, nos diálogos de Platão), concebida como obstáculo à busca da verdade: ou seja, o paradoxo pode transformar-se em um instrumento de dogmatização de uma ideia ou de um conceito. O paradoxo do valor é utilizado como forma de dogmatizar a ética marginalista.

Existe uma ligação directa e íntima entre a ética de David Hume (relativismo moral), a ética do marginalismo (Carl Menger e Walras e Stanley Jevons), a ética utilitarista (de John Stuart Mill, Ayn Rand), e o neoliberalismo  (de Hayek, escola de Chicago).

É evidente que a concepção anti-utilitarista de Karl Marx (como a de Nietzsche) não faz sentido, porque as coisas têm uma utilidade objectiva. Mas o que o marginalismo fez foi perverter e adulterar a noção de “utilidade” — e essa perversão não pode ser justificação para a crítica a Karl Marx. Matar uma pessoa não é melhor do que matar três.

Quinta-feira, 13 Fevereiro 2014

O abismo moral da Europa e o Totalitarismo Jurídico

 

A ética de John Locke pode ser resumida em três pontos essenciais:

1/ O Criador do universo, na sua condição de criador, exerce um poder e um direito de propriedade sobre tudo o que Ele cria.

2/ Os direitos humanos não são mais do que a contrapartida daquilo que a Lei Natural — que decorre dos direitos de propriedade do Criador — impõe ou impede que se faça aos outros.

3/ O útil não é o fundamento da lei jurídica nem a razão pela qual esta obriga, mas antes é a consequência da observância da lei.

No primeiro ponto, qualquer teoria que reclame o “direito à propriedade do meu corpo” é recusada; o corpo não é meu. O aborto e suicídio são faltas, não só à luz da Lei Natural como à luz do Direito Positivo.

No segundo ponto é recusada a ideia segundo a qual os direitos humanos são aquilo que a política de cada espírito do tempo quiser que sejam, e ao sabor das modas.

O terceiro ponto defende a ideia segundo a qual a utilidade decorre do cumprimento da lei e tendo em conta os dois pontos anteriores — e não é a utilidade que fundamenta ou condiciona a feitura das leis: o que é útil é a consequência da existência de leis, mas não é aquilo que é útil que deve ser o critério fundamental de construção do Direito Positivo.


Naturalmente que haverá sempre alguém que pode dizer que “não há prova de que exista um Criador do universo”. Porém, a ausência de prova é apenas uma prova de ausência, e nada mais do que isto; este argumento não é logicamente válido. E, por outro lado, só um estúpido ou um “cientista” actual não concordará que o universo deve ter uma causa; e a essa causa convencionou-se chamar de Criador ou Deus.

Eu, que vivo no século XXI, considero que essas três premissas da ética de John Locke continuam válidas — não porque simpatize necessariamente com elas, mas porque a razão e a lógica me compelem a aceitá-las como válidas. E mesmo que haja por aí alguém que não simpatize com essas três premissas, tratar-se-á de puro gosto pessoal, mas dificilmente poderá argumentar racionalmente contra elas.

Uma coisa é aquilo que eu gosto; e outra coisa, diferente, é aquilo que o raciocínio me obriga a aceitar, mesmo que não gostemos de aceitar essa coisa. Segundo John Locke, e com razão, uma coisa é o direito como regra de acção obrigatória e que é criadora do laço do direito; mas outra coisa diferente é o direito como puro poder de uso ou usufruto. O meu corpo não é meu: apenas tenho o direito de uso ou usufruto do meu corpo.

“Pelo vínculo do direito deve entender-se o vínculo da lei natural segundo o qual todos são obrigados a pagar uma dívida natural, ou seja, a cumprir o dever natural que lhe incumbe em razão da sua natureza própria ou de sofrer a pena em caso de delito.” — John Locke, Essays on the law of nature, VI, 181, Oxford University Press, 1986

eutanasia-webO que me espanta, até à incredulidade, é que estas três premissas de John Locke, que fundamentaram o Direito Positivo ocidental até há pouco tempo, estejam a ser colocadas em causa pelo Direito europeu. Desde logo, o Direito Positivo europeu actual coloca o útil como pressuposto da feitura das leis — por exemplo, a recolha de órgãos humanos está na base da lei da eutanásia a “pedido do cliente” da Bélgica e na Holanda. Depois, o Direito Positivo europeu defendido pelo Tribunal Europeu dos “Direitos Humanos” assenta exclusivamente em um critério de liberdade negativa do indivíduo, fazendo de conta que a liberdade positiva não existe — por exemplo, “casamento” gay, adopção de crianças por pares de invertidos, “barriga de aluguer”, procriação medicamente assistida para toda a gente, e outros “direitos” a torto e a direito.

Podemos afirmar, de uma forma objectiva e baseada em factos insofismáveis, que a Europa está em decadência acelerada. Não se trata aqui de pessimismo da minha parte. Não há um fundamento racional para o que se está a passar na Europa em matéria de Direito Positivo. Já não existe uma base lógica e racional para as leis que se fazem na Europa senão um critério de pura utilidade que torna as leis arbitrárias e dependendo apenas e só da moda de cada época.

É perfeitamente racional que possamos supôr que toda e qualquer irracionalidade traduzida em lei passa agora a ser possível na Europa: e essa irracionalidade e arbitrariedade jurídica traduz-se em um Totalitarismo Jurídico — uma nova forma de totalitarismo ou de fascismo.

Domingo, 2 Fevereiro 2014

O Iluminismo Negativo (parte 3)

 

O Iluminismo Negativo é uma teoria política contraditória porque tenta conciliar as aspirações do libertarismo económico, por um lado, com a implementação de um ideário de repressão política na sociedade, por outro lado. Por um lado, o Iluminismo Negativo defende a transformação do Estado em uma empresa privada, com accionistas e com um conselho de administração; mas, por outro lado, defende a repressão da expressão política em nome de uma sociedade de bem-estar material.

A democracia pode e deve ser sujeita a crítica, principalmente quando ela se desvia dos interesses da esmagadora maioria da população (como acontece, por exemplo, em Portugal e na União Europeia).
Mas não é aceitável que se utilizem exemplos de uma democracia prostituída e destituída dos seus fundamentos elementares, para se defender uma qualquer forma de fascismo.

O lema do Iluminismo Negativo é o seguinte: “ou o cidadão aceita que não tem voz política, ou sai do país” (no voice or exit). Os exemplos de “bons estados” apontados pelo Iluminismo Negativo são Hong Kong, Singapura e o Dubai. Ou seja, estamos perante uma nova forma de fascismo, com a diferença que esta nova forma de fascismo transformou a soberania de um país em um negócio de privados que são os accionistas do Estado, e que são os únicos cidadãos (os accionistas) que têm voz política dentro do território administrado por esse Estado privado.

Quando leio, por exemplo, que o governo de Passos Coelho autorizou publicidade de empresas privadas nos uniformes dos funcionários dos museus do Estado, não podemos deixar de constatar um indício de uma linha política de privatização do Estado (que a Helena Damião, e bem, critica aqui). Por um lado, esta tendência ideológica é libertária de direita (economia), mas por outro lado tende a transformar o Estado em um negócio privado o que vai contradizer o libertarismo inicial subjacente ao seu ideário, porque um Estado privatizado é sempre anti-político.

Ou seja, para o Iluminismo Negativo, “liberdade” e “libertarismo” são sinónimos de “repressão política” — o que é uma contradição em termos. Não é possível reduzir a liberdade (propriamente dita) ao bem-estar material. Esta noção behaviourista de “liberdade” do Iluminismo Negativo decorre de uma visão positivista do ser humano, por um lado, e por outro lado de um utilitarismo elevado ao seu expoente máximo — e por isso é que esta forma de fascismo é nova, porque as formas anteriores de fascismo ou eram não-utilitaristas, ou mesmo anti-utilitaristas.

A esta privatização do Estado, o Iluminismo Negativo chama de “neo-camaralismo”, porque, segundo esta teoria, é baseada no Camaralismo germânico representado pelo austríaco Heinrich Gottlob von Justi (1720 – 1771), que Kant e Humboldt criticaram em nome da implementação do Estado de Direito. Ou seja, o Iluminismo Negativo representa a negação do Estado de Direito. Ora, a designação de “neo-camaralismo” para essa teoria dita “libertária” é também em si mesma contraditória, porque o Camaralismo foi tudo menos libertário.

Verificamos como uma teoria dita “libertária” pode ser uma nova forma de fascismo, em que o Estado passa a ser propriedade privada, e em que os cidadãos que não forem accionistas do Estado não têm outros direitos e liberdades senão comer, dormir e trabalhar (e fornicar) — ou abandonar o território administrado por esse Estado privado.

A democracia pode e deve ser sujeita a crítica, principalmente quando ela se desvia dos interesses da esmagadora maioria da população (como acontece, por exemplo, em Portugal e na União Europeia). Mas não é aceitável que se utilizem exemplos de uma democracia prostituída e destituída dos seus fundamentos elementares, para depois se defender uma qualquer forma de fascismo.

Quarta-feira, 4 Dezembro 2013

Combater a irracionalidade do utilitarismo abortista com argumentos utilitaristas racionais

Filed under: A vida custa,aborto,Esta gente vota — O. Braga @ 10:33 am
Tags: , ,

 

Eu penso que o aborto deve ser punido no Código Penal: a pena de prisão deve ser reintroduzida na lei. Não sendo isto (ainda) possível (lá chegaremos, quando a taxa de natalidade for negativa, e já não estamos longe disso), pelo menos deveria desde já ser proibida a propaganda do aborto ou a menção favorável em relação ao aborto nos me®dia — como fez a Rússia!

“Há que aprender a manejar as armas do adversário, mas com o devido asco” — Nicolás Gómez Dávila


O utilitarismo que presidiu à legalização do aborto deve ser combatido com argumentos utilitaristas, embora com o “devido asco”. Isto porque o utilitarismo é, em si mesmo, contraditório e devemos aproveitar essa sua fraqueza: o utilitarismo encontra-se condicionado por duas proposições antitéticas ou contraditórias entre si: por um lado, uma proposição positiva, que diz que os homens devem ser considerados como indivíduos egoístas, calculadores e racionais, e que tudo deve ser pensado e elaborado a partir do seu ponto de vista; e, por outro lado, uma proposição normativa, que afirma que os interesses dos indivíduos, a começar pelo meu próprio, devem ser subordinados e mesmo sacrificados à felicidade geral ou do “maior número”.

Ou ainda: todo o utilitarismo mistura, em proporções infinitamente variáveis e dependente apenas da discricionariedade política das elites da sociedade, uma axiomática do interesse e uma axiomática sacrificialista, que é contraditória e simultaneamente um encantamento pelo egoísmo e uma apologia do altruísmo, e uma tentativa de reconciliar um ponto de vista ferozmente individualista e uma vertente globalizada, universalista e holista.

O utilitarismo é, por excelência, o instrumento político de dissonância cognitiva e da estimulação contraditória transversal a toda a sociedade.


(more…)

Quarta-feira, 20 Novembro 2013

O professor Rolando Almeida deveria ser proibido de ensinar filosofia

 

Transcrevo, na íntegra, um verbete do professor de filosofia Rolando Almeida destinado aos seus alunos (os sublinhados são meus):

“Nas aulas falamos que uma das teorias que procuram explicar a motivação para a acção é o egoísmo psicológico. Duas objecções principais foram apontadas ao egoísmo, a primeira que refere que o prazer que obtemos de praticar determinadas acções é apenas o efeito e não a causa de uma acção. Outra das objecções são as acções que parecem ser verdadeiramente altruístas e não egoístas. Uma das boas formas de compreender o altruísmo é assistir a este pequena palestra do filósofo altruísta Peter Singer. Vale bem a pena.”

E depois o professor Rolando Almeida publicou o seguinte vídeo:

Em primeiro lugar é absolutamente extraordinário que o professor Rolando Almeida se refira (em relação aos seus alunos, porque em casa dele pode referir-se ao que ele quiser) a Peter Singer neste contexto, porque é sabido que Peter Singer defende, por exemplo, o infanticídio, ou seja, o “direito” da mulher a matar os seus próprios filhos em um determinado período após o nascimento (o chamado “aborto pós-nascimento”). O que o professor Rolando Almeida está a fazer não é ensinar filosofia: antes, está a doutrinar os seus alunos em uma aberração ética — por exemplo, quando se refere a Peter Singer como “filósofo altruísta”, como se existisse algum altruísmo na defesa do infanticídio.

O altruísmo — ao contrário do que o professor Rolando Almeida e Peter Singer pensam — não tem origem em um cálculo racional, mas antes tem origem na sensibilidade ética adquirida pela educação (mas não o tipo de educação que o professor Rolando Almeida dá aos seus alunos).

John McDowell e David Wiggins demonstraram que a compreensão, por parte de um agente moral, de que um determinado estado de coisas — por exemplo, a situação da menina atropelada a precisar de ajuda — é uma razão para agir moralmente, não resulta de uma deliberação racional (cálculo utilitário), mas é sim da ordem da percepção imediata desse estado de coisas (neste caso, da situação da menina atropelada). Quem não agiu em consequência da situação da menina em causa, não é, por isso, destituído de capacidade de raciocínio: em vez disso, não possui a sensibilidade moral necessária que só a educação lhes teria podido fornecer; aquelas pessoas que passam ao lado da menina são absolutamente incapazes de ver o que a situação exige delas: não se trata de “egoísmo” no sentido vulgar do termo, ou no sentido de “amor de si”: antes, é falta absoluta de sensibilidade moral.

Uma pessoa que não tenha desenvolvido sensibilidade moral olha para a cena da menina estendida no chão de uma maneira neutra, ou mesmo com curiosidade, mas não entende a cena como solicitando ou exigindo a sua intervenção. Não podemos dizer que aquelas pessoas que passam pela menina estendida no chão percebem a aflição da situação e a urgência de intervir, e nem podemos dizer que aquelas pessoas não tenham desejado intervir: na realidade, essas pessoas não viram a aflição da situação da menina e a sua urgência. Muito simplesmente não perceberam a situação como a perceberia uma outra pessoa dotada de sensibilidade moral adequada. E o facto de este caso se passar na China revela o mal que um determinado regime político pode fazer à ética.

É isto que o professor Rolando Almeida deveria explicar aos seus alunos, em vez de se referir aos argumentos de “cálculo utilitarista racional” de Peter Singer. Dizer aos alunos que Peter Singer é um “filósofo altruísta” deveria dar direito a despedimento por justa causa.


Resposta ao verbete de Rolando Almeida com o título “Contestar não é o mesmo que criticar – Resposta aos posts do Orlando”, pode ser lida aqui.

Segunda-feira, 11 Novembro 2013

A tentativa de destruição da ética por via do "dilema ético"

 

Uma das entropias culturais da nossa época é a recusa dos factos objectivos, e a tal ponto que a própria psiquiatria tende a abolir as doenças mentais — o que é um absurdo!: se não existirem doenças mentais, ¿para que serve a psiquiatria?!

A recusa ou negação dos factos objectivos é uma doença mental colectiva da nossa época, uma "psicose colectiva", por assim dizer. Estamos a viver uma época anti-científica que invoca a “ciência” para negar os fundamentos da própria ciência.

Essa psicose colectiva é induzida pelas ideologias políticas — a que Eric Voegelin chamou de “religiões políticas” — que, para além da negação dos factos objectivos, tende a relativizar a ética através de “dilemas” éticos, como por exemplo o “dilema do trólei” de Philipa Foot. É também o caso do “dilema do soldado nazi”, a que o blogue Famílias Portuguesas faz referência aqui:

“Tu és o homem ou a mulher que tem uma arma apontada à cabeça da mulher ou criança judia. Temes que, se não disparares, serás executado. O que é que esperas que seria a tua decisão?”

O dilema ético do “soldado nazi” e o dilema ético do “trólei” de Philipa Foot baseiam-se na validade de um mesmo princípio: o utilitarismo. Portanto, à partida, esse tipo de "análise ética" está enviesado: esses “dilemas éticos” partem de um possível e putativo caso excepcional, para depois generalizar esse eventual e putativo caso imaginado (falácia da generalização e negação do juízo universal), tentando assim colocar em causa qualquer ética que não seja a utilitarista. Imagina-se um caso extremo para depois se tentar extrapolar esse putativo caso no sentido de afirmar a validade exclusiva do utilitarismo.

A intenção destes “dilemas éticos” inventados é o de eliminar qualquer pressão psicológica contra a ética utilitarista. Por outras palavras, estes dilemas éticos servem apenas como “gadgets” retóricos para dissuadir as pessoas de defender determinados princípios éticos que não sejam apenas e só os utilitaristas. Ademais, temos o caso do Padre católico Maximiliano Kolbe que nos deu o exemplo da recusa da ética utilitarista.

Finalmente, a negação do holocausto nazi faz parte dessa psicose colectiva, na medida em que é a recusa de factos objectivos e historicamente documentados (longe de mim pensar que o blogue Famílias Portuguesas participa dessa doença mental!). Se foram assassinados 6 milhões de judeus ou 5 milhões, ou 1 judeu apenas, é tergiversação e delírio interpretativo. É conversa fiada.

Quarta-feira, 24 Julho 2013

As elites também se decapitam

No FaceBook encontrei o seguinte trecho:

« O que eu vou dizer poderia dar pano para muitas mangas, mas estou um pouco cansado de falar e de escrever. A principal razão que me levou ao cansaço de escrever é uma espécie de inevitabilidade do mal.

Parece que toda a gente sabe que as coisas estão mal em muitos aspectos da nossa vida, eu por exemplo sei o que vai mal no ensino. Mas fazer alguma coisa contra o sistema parece mal, parece que somos nós os inadaptados, os doentes mentais a quem custa obedecer seja ao que for.

E vamos calando e aceitando com receio que sejamos vistos como anormais, quiçá mesmo esquizofrénicos ou algo que o valha. Sabemos que está mal, que vai ser cada vez pior e vai acabar muito mal, mas sentimo-nos impotentes para evitar o desastre. »

Dois enormes intelectuais do início do século XX, Max Weber e Alexis de Tocqueville (para não falar em outras personalidades mais radicais, como Fernando Pessoa, René Guénon ou Julius Evola, que se opuseram à modernidade), tiveram perspectivas da realidade semelhantes às exaradas no texto supracitado (ler aqui o texto completo em PDF).

Perante a imposição cultural e quase absoluta da mentalidade utilitarista, tanto Weber como Tocqueville estavam convencidos de que a cultura utilitarista produz um tipo de homem decadente – “homem” entendido principalmente como “indivíduo”, e só depois como colectivo -, por um lado, mas por outro lado estavam ambos convencidos que seria totalmente inútil opor-se a uma dinâmica histórica que, segundo os dois, se reveste de um carácter de fatalidade. Ambos se dedicaram a procurar as origens propriamente religiosas desta doutrina utilitarista que nega o valor à religião e à ética axiológica universal. Weber entra num “desencanto em relação ao mundo”, e Tocqueville aceita, mas apenas e só enquanto cristão, este homem moderno.

Este conceito de “homem moderno” a que se refere Weber e Tocqueville obedece a um preconceito evolucionista que foi traduzido, nomeadamente, por Herbert Spencer com que ele explicava as sociedades industriais, e de acordo com o qual todos os fenómenos da natureza – incluindo o ser humano – passam fatalmente de uma “homogeneidade indefinida, incoerente, para uma heterogeneidade definida, coerente” (Spencer, “Primeiros Princípios”, 1862). Ou seja, para Spencer e para os liberais, quanto mais atomizada é uma sociedade, mais evoluída, desenvolvida e moderna ela é; mas quando a atomização das sociedades europeias levou aos totalitarismos do século XX, nunca os liberais colocaram em causa esta teoria, ou sequer admitiram uma qualquer ligação lógica entre a visão liberal spenceriana da evolução da sociedade, por um lado, e os totalitarismos do século XX, por outro lado.

Herbert Spencer (e os liberais, em geral) invertem a finalidade da sociedade. A existência do individuo para a sociedade, que existia antes da imposição cultural utilitarista do modernismo, passou a ser a existência da sociedade para o indivíduo. De um extremo, caiu-se noutro extremo; do oito passou-se ao oitenta.

Parece que existe uma “dinâmica histórica” contra a qual, segundo Weber e Tocqueville, é impossível qualquer oposição. Parece que só nos resta baixar os braços e deixar fluir a “dinâmica histórica” do nosso tempo. Parece que não há nada a fazer contra a “dinâmica histórica”.

Durkheim – que não era, de todo, um conservador, na sua época – contesta esta visão da fatalidade do mundo e de dinâmica histórica fatal. Segundo Durkheim, Spencer engana-se quando subordina o conceito de “organização da sociedade” ao princípio económico de “utilidade”. Da atomização da sociedade não pode surgir nenhum poder regulador, mas antes prevalece apenas o conflito de forças antagónicas e contraditórias, que estabelecem, na sociedade, relações efémeras e instáveis.

Segundo Durkheim, o primado da liberdade negativa na modernidade – que funda a cooperação entre indivíduos ao mesmo tempo que erradica a solidariedade – não é fundamento de unidade social: a luta de interesses particulares passa a ser um fenómeno sem fim e em constante renovação. A cooperação liberal não pode fundar a solidariedade social, porque defender esta tese é tomar o efeito pela causa: o ser humano é, em primeiro lugar, solidário, e só depois, e em função da solidariedade, ele coopera, celebra contratos, troca bens e serviços, etc.. Antes da cooperação entre seres humanos, está a solidariedade orgânica que insere o indivíduo num Todo que o ultrapassa e o transcende.

Portanto, verificamos que a “fatalidade da dinâmica histórica” pode ser explicada por uma imposição das elites – a ruling class – que comanda o Poder político. Ou pode ser explicada por uma determinada mundividência ideológica sintética e sincrética, imposta na cultura antropológica, pelas elites. Mas uma coisa é certa: as elites também se decapitam, como a História bastamente nos tem demonstrado.

Quarta-feira, 17 Julho 2013

Desejo e moral

David Hume dizia que não seria irracional que alguém preferisse a destruição do mundo a sofrer uma esfoladela num seu dedo. Vamos chamar a este princípio de Hume a “absolutização do interesse próprio”. Desde logo, Hume joga com a palavra “racional”, e podemos perguntar: ¿será racional que alguém prefira que o mundo inteiro seja destruído – incluindo a própria pessoa que deseja salvaguardar o seu dedo de qualquer mazela – para evitar uma esfoladela num seu dedo?

(more…)

« Página anteriorPágina seguinte »

%d bloggers like this: