perspectivas

Sábado, 2 Abril 2016

A prova de que o politicamente correcto se expandiu a partir dos Estados Unidos

Filed under: Esta gente vota — O. Braga @ 12:26 pm
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“As jogadoras norte-americanas sentem-se injustiçadas com as diferenças salariais existentes entre o futebol feminino e o masculino. Por isso, cinco atletas – Carli Lloyd, Blecky Sauerbrunn, Alex Morgan, Megan Rapinoe e Hope Solo – apresentaram esta quarta-feira uma queixa na Comissão para a Igualdade de Oportunidades Laborais (EEOC, na versão inglesa) em que acusam a federação de futebol dos EUA de discriminação salarial”.

Futebol feminino norte-americano exige igualdade nos salários (via)

O politicamente correcto surgiu depois da II Guerra Mundial com a emigração de membros da Escola de Frankfurt (Herbert Marcuse, Adorno, etc.) da Alemanha para os Estados Unidos; e foi a partir dos “intelectuais” americanos que se expandiu para todo o mundo ocidental. Alexis de Tocqueville tinha razão em relação à democracia americana.

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Segunda-feira, 18 Janeiro 2016

O problema do Estado

 

Da palestra de Paul Gottfried podemos retirar as seguintes e principais conclusões:

  • O domínio da Esquerda no ocidente só vai parar quando as populações imigrantes (muçulmanas, na maioria) assumirem um papel preponderante nos países ocidentais.

A partir do momento em que a população islâmica na Europa, por exemplo, atingir uma determinada percentagem — a singularidade islâmica  —, todas as “vitórias” sociais e culturais da Esquerda serão revertidas e abolidas.

  • A única forma de derrotar a Esquerda (sem a contribuição islâmica) consiste no combate contra o Estado.

A Esquerda serve-se do Estado para prosseguir uma política de engenharias sociais e culturais; os partidos políticos legalizados existentes são extensões do Estado, sem excepção; a cultura antropológica é modelada pelo Estado e pela Administração Pública centralizada. O multiculturalismo, a burocracia e a Administração Pública centralizada são instrumentos políticos da Esquerda.

Neste contexto, por exemplo, a União Europeia é um instrumento político de Esquerda. Os partidos ditos de Direita que existem na maioria dos países da União Europeia são apenas instrumentos do maniqueísmo político da Esquerda, que se serve deles (dos partidos da dita Direita) para implementar uma política de “progresso da opinião pública”, em que a dita Direita é demonizada por forma a justificar a radicalização crescente do aprofundamento da intervenção do Estado na sociedade, e o aumento do Poder burocrático sem rosto.

É neste sentido que eu digo que Paulo Portas (com a ajuda de Adolfo Mesquita Nunes) “fechou a Esquerda à direita”. E Assunção Cristas vai continuar a mesma política de Paulo Portas de fechamento da Esquerda à direita (o CDS/PP transformado em um partido tampão que tenta impedir a formação de partidos políticos paleo-conservadores fora deste sistema político controlado pela Esquerda). Neste sentido podemos dizer que o CDS/PP é um partido político de Esquerda.

  • O combate contra o Estado consiste na redução drástica do seu Poder.

sociedade-civil
A receita foi dada por Tocqueville em finais do século XIX: o Estado tem que ser apenas mais uma instituição da sociedade civil. Não se trata apenas de uma descentralização do Poder do Estado: é também a transformação do Estado em um mero parceiro da sociedade civil, dando liberdade às comunidades locais e instituições da sociedade civil de se organizarem autonomamente.

Dado o Poder actual e crescente concentrado no Estado que serve a Esquerda, esta mudança não se fará sem violência — porque é todo o sistema político actual que está em causa. A actual “democracia” não é democrática: serve apenas uma elite de iluminados esquerdistas.

Domingo, 8 Fevereiro 2015

Theodore Dalrymple, Tocqueville e o Islão na Europa

 

Theodore Dalrymple ( aliás, Anthony Daniels) é um agnóstico que merece ser lido — coisa rara. Vale a pena ler este artigo dele acerca do romance “Submissão” de Michel Houellebecq.

A referência de Theodore Dalrymple à  Igreja Católica do “papa Francisco” é notória:

“but Catholicism having lost its faith and becoming, under Pope Francis, little more than transcendental social work to the hosannas of the right-thinking, there is no living faith in France except Islam for him to convert to. It is Islam, faute de mieux.”

Bingo!

O texto de Theodore Dalrymple faz lembrar um trecho do livro “Democracia na América” de Tocqueville, mas desta vez aplicado à  Europa e em um cenário incomparavelmente mais negro. Como escreveu Mark Steyn: “Europe is doomed!”.

Tocqueville constatou os perigos da democracia: por um lado a mentalidade individualista que paradoxalmente encoraja um conformismo generalizado; por outro  lado, a democracia apela à  centralização e reforço do Estado. Contra factos não há argumentos.

A democracia conduz à  atomização da sociedade se não existirem “contrapesos” no liberalismo político: a liberdade de associação, a imprensa livre, e a religião cristã. Sem estes três contrapesos, a democracia tem os seus dias contados. Tocqueville foi profeta.

Theodore Dalrymple segue a linha de pensamento de Tocqueville mas aplicando-a à  Europa actual: o vazio da existência humana em uma sociedade de consumo sem fé religiosa, sem projecto político (o centrão político acomodado que se alterna no Poder sem se diferenciar), e sem uma ténue garantia de continuidade cultural (invasão muçulmana), sociedade essa em que — graças à  abundância material e ao Estado Social — não existe uma razão real para lutar por um sentido de vida.

Paradoxalmente, o jornal Charlie Hebdo alegadamente representa (também) a liberdade de imprensa — um dos “contrapesos” de Tocqueville — mas representa também a crítica radical a qualquer religião incluindo a religião cristã — sendo que a religião cristã é um dos contrapesos do liberalismo político, segundo Tocqueville. Ou seja, os alicerces da democracia na Europa estão já em conflito uns com os outros.

Theodore Dalrymple escreve que o Iluminismo está na raiz do falhanço europeu actual. Tendo afastado da vida humana o mito e a magia, acabou por esmagar a fé — não só a fé  e a esperança religiosas, mas também a fé e a esperança na própria sociedade. A bravura e o entusiasmo, características da fé, deram lugar ao conforto e à conveniência (utilitarismo), e a degeneração e decadência da Europa são os resultados inevitáveis.

Theodore Dalrymple conclui que a Europa está doente, mas o Islão não cura a doença: pelo contrário, piora o estado de saúde da Europa.

Eu acrescento que a Front Nationale de Marine Le Pen em França não é solução porque o seu laicismo trata o Islão e a cristandade da mesma maneira; nem o UKIP (United Kingdom Independent Party) é solução para o Reino Unido pelas mesmas razões.

Ou seja, a Europa está doente mas nega o diagnóstico: está em estado de negação. Não aceita as razões objectivas para mudar de vida e curar-se. E a Igreja Católica do “papa Francisco” faz o papel do Pai de Santo do Umbanda que receita umas mezinhas para tratar uma metástase. 

Quarta-feira, 24 Julho 2013

As elites também se decapitam

No FaceBook encontrei o seguinte trecho:

« O que eu vou dizer poderia dar pano para muitas mangas, mas estou um pouco cansado de falar e de escrever. A principal razão que me levou ao cansaço de escrever é uma espécie de inevitabilidade do mal.

Parece que toda a gente sabe que as coisas estão mal em muitos aspectos da nossa vida, eu por exemplo sei o que vai mal no ensino. Mas fazer alguma coisa contra o sistema parece mal, parece que somos nós os inadaptados, os doentes mentais a quem custa obedecer seja ao que for.

E vamos calando e aceitando com receio que sejamos vistos como anormais, quiçá mesmo esquizofrénicos ou algo que o valha. Sabemos que está mal, que vai ser cada vez pior e vai acabar muito mal, mas sentimo-nos impotentes para evitar o desastre. »

Dois enormes intelectuais do início do século XX, Max Weber e Alexis de Tocqueville (para não falar em outras personalidades mais radicais, como Fernando Pessoa, René Guénon ou Julius Evola, que se opuseram à modernidade), tiveram perspectivas da realidade semelhantes às exaradas no texto supracitado (ler aqui o texto completo em PDF).

Perante a imposição cultural e quase absoluta da mentalidade utilitarista, tanto Weber como Tocqueville estavam convencidos de que a cultura utilitarista produz um tipo de homem decadente – “homem” entendido principalmente como “indivíduo”, e só depois como colectivo -, por um lado, mas por outro lado estavam ambos convencidos que seria totalmente inútil opor-se a uma dinâmica histórica que, segundo os dois, se reveste de um carácter de fatalidade. Ambos se dedicaram a procurar as origens propriamente religiosas desta doutrina utilitarista que nega o valor à religião e à ética axiológica universal. Weber entra num “desencanto em relação ao mundo”, e Tocqueville aceita, mas apenas e só enquanto cristão, este homem moderno.

Este conceito de “homem moderno” a que se refere Weber e Tocqueville obedece a um preconceito evolucionista que foi traduzido, nomeadamente, por Herbert Spencer com que ele explicava as sociedades industriais, e de acordo com o qual todos os fenómenos da natureza – incluindo o ser humano – passam fatalmente de uma “homogeneidade indefinida, incoerente, para uma heterogeneidade definida, coerente” (Spencer, “Primeiros Princípios”, 1862). Ou seja, para Spencer e para os liberais, quanto mais atomizada é uma sociedade, mais evoluída, desenvolvida e moderna ela é; mas quando a atomização das sociedades europeias levou aos totalitarismos do século XX, nunca os liberais colocaram em causa esta teoria, ou sequer admitiram uma qualquer ligação lógica entre a visão liberal spenceriana da evolução da sociedade, por um lado, e os totalitarismos do século XX, por outro lado.

Herbert Spencer (e os liberais, em geral) invertem a finalidade da sociedade. A existência do individuo para a sociedade, que existia antes da imposição cultural utilitarista do modernismo, passou a ser a existência da sociedade para o indivíduo. De um extremo, caiu-se noutro extremo; do oito passou-se ao oitenta.

Parece que existe uma “dinâmica histórica” contra a qual, segundo Weber e Tocqueville, é impossível qualquer oposição. Parece que só nos resta baixar os braços e deixar fluir a “dinâmica histórica” do nosso tempo. Parece que não há nada a fazer contra a “dinâmica histórica”.

Durkheim – que não era, de todo, um conservador, na sua época – contesta esta visão da fatalidade do mundo e de dinâmica histórica fatal. Segundo Durkheim, Spencer engana-se quando subordina o conceito de “organização da sociedade” ao princípio económico de “utilidade”. Da atomização da sociedade não pode surgir nenhum poder regulador, mas antes prevalece apenas o conflito de forças antagónicas e contraditórias, que estabelecem, na sociedade, relações efémeras e instáveis.

Segundo Durkheim, o primado da liberdade negativa na modernidade – que funda a cooperação entre indivíduos ao mesmo tempo que erradica a solidariedade – não é fundamento de unidade social: a luta de interesses particulares passa a ser um fenómeno sem fim e em constante renovação. A cooperação liberal não pode fundar a solidariedade social, porque defender esta tese é tomar o efeito pela causa: o ser humano é, em primeiro lugar, solidário, e só depois, e em função da solidariedade, ele coopera, celebra contratos, troca bens e serviços, etc.. Antes da cooperação entre seres humanos, está a solidariedade orgânica que insere o indivíduo num Todo que o ultrapassa e o transcende.

Portanto, verificamos que a “fatalidade da dinâmica histórica” pode ser explicada por uma imposição das elites – a ruling class – que comanda o Poder político. Ou pode ser explicada por uma determinada mundividência ideológica sintética e sincrética, imposta na cultura antropológica, pelas elites. Mas uma coisa é certa: as elites também se decapitam, como a História bastamente nos tem demonstrado.

Segunda-feira, 17 Junho 2013

Nem sábios, nem Esquerda, nem esta Direita

«Um sábio, que não seja bacharel, recebe esse grau de uma universidade, e os de licenciado e doutor, para poder entrar nessa universidade, que é hábil e competente para o fazer, por ter capacidade de saber, e por ser devido apenas a circunstâncias especiais que o sábio não possuía nenhum diploma científico oficial. Mas, sem dúvida, pareceria muito paradoxal, e até muito ridículo, que um grupo de indivíduos sem diplomas universitários conferissem a alguém, por exemplo, o grau de doutor em matemática. A competência por colação dos incompetentes não tem certamente senso comum.»A competência por colação

Um grau de uma universidade não produz necessariamente mais competência. Por isso é que Marinho Pinto (e muito bem!) exige um exame da Ordem dos Advogados para os novos licenciados em Direito. Um grau de uma universidade pode conceder a alguém um estatuto social que possibilite exactamente essa competência por colação de que nos fala a citação supra, por um lado, e por outro lado, o grau de uma universidade pode produzir alvarás de inteligência. Acontece que a concessão de um alvará de inteligência a um cidadão, por uma universidade, não tem senso-comum, porque a inteligência não é coisa que se compre, se venda, ou que se concessione à exploração comercial por alguns anos.

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Sexta-feira, 14 Junho 2013

Frase do dia

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 1:18 pm
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“Estou a cada dia mais convencido de que a burrice é uma força física.
Há pessoas cuja burrice é tão densa que você quase a pode
tocar.
E o pior: burrice assim gera campo gravitacional.”

O especialista em nada

Tocqueville, a democracia e o individualismo

«Sabedores os trezentos, ou quem os dirige, que a civilização europeia, pelos seus fundamentos gregos, é radicalmente individualista; que a civilização moderna é, de per si individualista também, pois que avançou para além da fase corporativista que é característica do início de todas as civilizações e do seu estado semi-bárbaro, viram bem que, convertendo em anti-individualista e corporativista o novo monarquismo, conseguiam um triplo resultado, de três modos servidor dos seus fins: nulificar a acção futura profunda desse monarquismo desadaptando-o do individualismo fundamental da nossa civilização; pô-lo em conflito com o individualismo moderno, nascido do progresso das nações e da multiplicação de entre-relações e culturas; atirar com ele contra os princípios helénicos e clássicos.»

Fernando Pessoa, o grupo dos 300 e a sua influência cultural na Europa

Quem ler atentamente este blogue verificará nele uma forte influência ideológica de Tocqueville. Eu sou um “tocquevilliano”, entre outras razões porque Tocqueville é hoje muito actual face ao “despotismo democrático” em que vivemos.

Um outro elemento que contraria o “despotismo democrático”, para além das associações, é o Rei. O Rei e as associações de cidadãos livres podem, até certo ponto, sarar as feridas da liberdade, abertas pela erradicação democrática da aristocracia.

O texto de Fernando Pessoa supracitado reflecte o problema central da política, que é a relação entre o indivíduo e a sociedade. Em algumas religiões políticas prevalece o interesse do indivíduo sobre a sociedade e noutras a sociedade sobre o indivíduo. E depois, há nuances entre estes dois extremos, mais ou menos legítimas, mais ou menos falaciosas.

Alguns liberais contemporâneos dizem que Tocqueville era liberal. Nada mais errado. Tocqueville dizia de si mesmo que era “um liberal de uma nova espécie”, e era “demasiado nobre no coração e demasiadamente democrata na razão para poder ser burguês” (1). Ora, um liberal só pode ser burguês, individualista por natureza e essência, que Tocqueville criticou. A crítica de Tocqueville à democracia, ou melhor, a sua crítica à “apatia democrática” e à “patologia da democracia” (para usar expressões de Tocqueville) é dupla: por um lado, é uma crítica à república tal qual existe hoje, por exemplo, em Portugal: uma república que aprisiona a sociedade civil por intermédio do Estado. E, por outro lado, é uma crítica da apatia individualista característica do burguês liberal, e do abandono das virtudes públicas. Por outras palavras, se Tocqueville fosse vivo criticaria as actuais esquerda (estatista) e direita (burguesa e individualista) portuguesas.

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Alexis de Tocqueville

Portugal é hoje um país onde “já não se escreve tragédia e poesia” (seguem-se, entre aspas e/ou em itálico, citações de Tocqueville), onde as pessoas já não se preocupam nem com a metafísica e com a filosofia em geral, nem com a teologia, que transformam a arte em puros actos de subjectivismo egoísta e narcísico, em que a língua empobrece através de um Acordo Ortográfico imposto pelo Brasil a fim de se colocar a língua ao serviço da indústria e do comércio, em que o espírito do cidadão já não se preocupa senão com o utilitarismo e com o finito. Esta sociedade portuguesa encontra-se à beira de se aniquilar em uma “imobilidade chinesa” e perder a “coragem moral” e “o orgulho ligado à independência”.

A partir do momento em que a modernidade (neste caso, a portuguesa) perseguiu a nobreza aristocrática que fundou Portugal, “fez-se à liberdade uma ferida que nunca sarará”. A sociedade regride quando “a ambição de enriquecer a todo o custo, o gosto pelos negócios, o amor do ganho, a busca do bem-estar e dos gozos materiais” se tornam em paixões dominantes que degradam a nação inteira. O diagnóstico de Tocqueville está hoje à vista de quem quiser ver, com a degradação ética, moral e cultural das nações ocidentais.

Perante a dicotomia do estatismo republicano, por um lado, e da apatia democrática protagonizada por uma burguesia acéfala que implanta na sociedade uma anomia patológica, por outro lado, Tocqueville propõe a introdução e valoração, no sistema democrático, de uma espécie de componente não-democrática: a associação da sociedade civil. A associação proposta por Tocqueville não é uma corporação à moda do corporativismo medieval ou do corporativismo fascista: antes, é uma nova componente anti-sistema democrático burguês e/ou estatista. As associações naturais são, em si mesmas, um princípio não-democrático.

“Creio firmemente que não será possível fundar novamente, no mundo, uma aristocracia; mas penso que os simples cidadãos, associando-se, podem constituir-se como seres muito opulentos, muito influentes, muito fortes, numa palavra, pessoas aristocráticas” — (Da Democracia na América, volume II).

As associações, segundo Tocqueville, são elementos aristocráticos, e por isso, não-democráticos, que escapam ao controlo do Estado democrático e da acefalia burguesa. A nova aristocracia, da modernidade, são as associações de cidadãos livres, em grande parte independentes do Poder do Estado e do Poder da plutocracia. As associações criam vínculos entre os homens que impedem a absorção da sociedade pelo Estado e a instalação do “despotismo democrático”. As associações propiciam a aparição daquilo a que Tocqueville chama de “liberdade superior” que era característica da aristocracia anterior às revoluções burguesas – uma liberdade para fazer grandes coisas e que repudie qualquer tipo de servidão.

Um outro elemento que contraria o “despotismo democrático”, para além das associações, é o Rei. O Rei e as associações de cidadãos livres podem, até certo ponto, sarar as feridas da liberdade, abertas pela erradicação democrática da aristocracia.

(1) “Tocqueville et les deux démocraties”, Lamberti, 1983

Quarta-feira, 21 Setembro 2011

A “revolução” conservadora que urge

«Necessário, útil, agradável e supérfluo, tudo isto, para nós [economistas], é apenas mais ou menos útil. Não há também que ter aqui em conta a moralidade ou a imoralidade da necessidade à qual responde a coisa útil que permite satisfazer.

Que uma substância seja procurada por um médico para curar um doente, ou por um assassino para envenenar a sua família, é uma questão muito importante para outros pontos de vista, mas de todo indiferente para a economia. A substância é útil, para nós [economistas], nos dois casos, e pode sê-lo mais no segundo do que no primeiro.»

Léon Walras

Se Aristóteles lesse isto ficaria certamente deprimido durante algum tempo, e S. Tomás de Aquino cairia, duro, para trás. Porém, um verdadeiro liberal — como, por exemplo, alguns dos escribas do Blasfémias — terá que necessariamente concordar com Walras, ou então não é verdadeiro liberal.
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Sábado, 9 Julho 2011

A ditadura da economia e a morte da política

A actual situação gerada pela crise económica e financeira mundial, globalizada, obriga-nos a pensar a história das ideias que nos levaram até aqui. Como nos metemos nesta “alhada” de um mundo em que parece que “vale tudo excepto arrancar olhos”? A continuarmos por este caminho, onde iremos parar?
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Domingo, 13 Dezembro 2009

Até quando teremos uma Direita na Europa?

« At least eight Russo-German families in Salzkotten, Germany, have suffered heavy fines and now their fathers have been sentenced to prison, because they have refused to send their elementary school-age children to mandatory sexual education classes. »

Germany Jails Eight Christian Fathers for Removing Children from Sex-Ed Class

Para o governo alemão de Angela Merkel, que se diz de “direita”, as crianças são propriedade do Estado ― e agora imaginem o que não faria a esquerda alemã contemporânea cada vez mais radical. A “direita” de Angela Merkel parece-me “muito à esquerda” para meu gosto: ou a direita alemã e europeia evoluiu para a esquerda, ou eu sempre fui um radical de direita e nunca me tinha dado conta disso. Parece-me que foi a direita europeia que se esclerosou e perdeu as suas referências da democracia cristã do pós-guerra, e de tal forma que a diferença entre a esquerda e a direita consiste ― ou pode ser resumida ― em uma mera questão da colectivização (ou não) da economia.

A pergunta que eu faço é a seguinte: é possível a uma direita sustentar por muito tempo uma política económica específica [a que evoluiu do liberalismo clássico do século XIX] sem uma filosofia que sirva de suporte a essa política económica?
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Sábado, 21 Novembro 2009

Alexis de Tocqueville e a democracia representativa

Tocqueville

O aristocrata e conservador francês Alexis de Tocqueville (1805–1859) considerou ― no seu livro “Democracia na América” ― que o maior perigo do sistema democrático moderno é o surgimento do despotismo democrático, que ele considerou como sendo uma forma de controlo social por parte de um Estado burocrático e centralizado, em que o cidadão se encontra cada vez mais isolado e fragilizado. Incapaz de obter, em tempos difíceis, o apoio solidário dos seus amigos e conhecidos, o cidadão da democracia volta-se para o imenso poder tutelar que é o Estado que se encarrega de assegurar as suas necessidades e providencia o seu destino. A ordem de um tal Estado é suave e não-tirana; ao invés, esconde, compromete, enerva, extingue, obnubila, e, finalmente, reduz a nação a uma situação em que os cidadãos se transformam em uma manada de animais tímidos e industriosos de que o governo é o pastor.

Tocqueville temeu que o preço da igualdade significasse a procura voluntária da perda da liberdade.

Por isso, aconselhou os cidadãos a associarem-se em comunidades da sociedade civil e a resistirem à atomização da sociedade que o individualismo característico de uma certa visão de democracia transporta consigo. Por outro lado, Tocqueville defendeu a ideia de que a democracia tem necessidade de firmes compromissos religiosos ― por parte da sociedade em geral ― que atenuem os piores excessos do individualismo, e na medida em que a religião convida os cidadãos à dignidade e à humildade.

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