perspectivas

Sábado, 23 Janeiro 2016

O Anselmo Borges e Bertrand Russell

 

Eu gostaria de ter estudado fundamente teologia. Aliás, a teologia faz parte da Física, ou vice-versa; isto significa que, à medida que a Física progride (o único progresso real que existe está na ciência; o resto é “conversa para boi dormir”), a teologia progride com ela. Por isso é que eu já aconselhei o Anselmo Borges a conversar mais vezes com o Carlos Fiolhais, porque me parece que a teologia do Anselmo Borges ainda é newtoniana.

O Anselmo Borges faz referência aqui a um conto de Bertrand Russell segundo o qual o ser humano é reduzido a uma insignificância no contexto do universo julgado (por Bertrand Russell) infinito.

Bertrand Russell é um exemplo daquelas inteligências raras mal-aproveitadas, porque o seu cepticismo era de tal forma agudo que ele suspeitava da existência da sua própria sombra. Existem outros casos, como por exemplo Laplace ou Ernst Haeckel que diziam que a célula viva surgia espontaneamente da lama depois de uma chuvada. Hoje sabemos o suficiente da complexidade da célula para nos rirmos de Haeckel.

De modo semelhante, hoje sabemos um pouco mais acerca do universo e o suficiente para nos rirmos do conto de Bertrand Russell que o Anselmo Borges levou a sério.


1/ Hoje sabemos, por inferência, que o universo é finito (teve um princípio, e por isso é finito, mesmo que não tenha um fim); o Big Bang decorre da observação empírica de dois fenómenos: o primeiro, a descoberta do movimento de expansão das galáxias por intermédio do telescópio Hubble; e o segundo, mediante a constatação empírica da existência da radiação isotrópica que sugere (por inferência) uma espécie de resíduo fóssil proveniente de uma explosão inicial. Portanto, a tese do Big Bang é bastante sólida. O universo é finito, ao contrário do que Bertrand Russell pensava quando escreveu o seu conto.

2/ O biofísico Alfred Gierer chamou à atenção para o facto de a densidade média da matéria no universo ser calculada com base em medições astrofísicas, e aquela é da ordem de uma partícula elementar longeva [protão, neutrão, electrão, etc.] por metro cúbico; considerando a dimensão do universo, resulta daí um número total de cerca de 10^80 (1 seguido de oitenta zeros) de partículas elementares no universo.

Se multiplicarmos este número pela idade do universo: 20 mil milhões de anos-luz = 10^40 (1 seguido de 40 zeros) períodos elementares [período mínimo de estabilidade de partículas elementares], obtém-se o número 10^120 (1 seguido de 120 zeros) que corresponde à constante cosmológica da natureza (que se designa pelo símbolo Λ).

Este número Λ representa o limite superior lógico para o trabalho de cálculo de um computador cuja dimensão e idade seriam iguais a todo o universo, que efectuasse cálculos ininterruptamente desde o início da sua existência, e cujos elementos constitutivos fossem partículas elementares longevas individuais.

Portanto, podemos dizer que Λ é o "máximo excogitável" do universo (Nicolau de Cusa tinha razão!), como é também o máximo da realidade da existência do universo ― nada é possível, em termos do espaço-tempo, acima de Λ.

Assim, a teoria do conhecimento finística de Gierer refere que, do número máximo de operações realizáveis no cosmo (porque o cosmo ou universo, é finito), resulta como consequência para a teoria do conhecimento o facto de o número de passos na análise de problemas também ser, por princípio, limitado — sejam eles passos mentais ou passos de processamento de informações através de um super-computador. Sobretudo é limitado, por princípio, o número das possibilidades que podem ser verificadas sucessivamente, uma a uma, para comprovar ou refutar a validade universal de uma afirmação. Gierer refere-se aqui estritamente ao Homem inserido no universo ou mundo do senso-comum, como é óbvio. Gierer estabelece o limite máximo do conhecimento possível no mundo macroscópico na constante cosmológica do universo: 10^120.

3/ Por puro acidente, dizem, (terá sido?!), descobriu-se na década de 1960 o princípio da não-localidade (que Bertrand Russell desconhecia) que, grosso modo, significa que uma partícula elementar ou mesmo um átomo pode estar aqui neste momento, e no momento cósmico seguinte pode estar a 10 mil milhões de anos-luz de distância — ou seja, a distância do universo já não se mede em termos da Física newtoniana e nem mesmo segundo os paradigmas de Einstein.


Em suma, à luz da física e da teologia actuais — ambas fazem parte da mesma disciplina —, seria impossível que, no Céu do conto de Bertrand Russell, não se soubesse que o ser humano existe.

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Quarta-feira, 15 Junho 2011

A dificuldade do conhecimento (1)

A física quântica demonstrou que S. Tomás de Aquino estava certo e que, consequentemente, Siger de Brabante estava errado. Nesta área do conhecimento, já não se trata de admitir diferenças de opinião entre um e outro: objectivamente, Siger de Brabante estava errado pelas seguintes razões:

  • o nosso universo não é eterno; tudo o que tem um princípio é finito;
  • a doutrina da “dupla verdade” — que existia já muito antes de Siger de Brabante, e que este apenas perfilhou — decorre de uma ilusão da percepção humana em relação à realidade específica do macrocosmos.

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Terça-feira, 4 Maio 2010

A refutação de Aristóteles da Teoria das Ideias de Platão

Este texto faz, de forma parcial, referência à refutação por parte de Aristóteles à teoria das Ideias de Platão (Metafísica de Aristóteles). Diz-se: “a potência para ser real, há-de ser potência de algo existente, portanto, já em acto em respeito ao ser”; e a seguir: “(…) nada impede pensar em um Acto Puro, não limitado por potência alguma…”

Sólidos platónicos

Eu considero a filosofia política de Platão uma anormalidade escabrosa, e portanto sou insuspeito para falar dele. Porém, a teoria das Formas (Ideias) de Platão foi, de certa forma, corroborada pela filosofia quântica que se baseia em conceitos extrapolados de resultados verificados pela ciência física nas ultimas décadas. Em termos de comparação filosófica (e só nestes termos), a quântica substitui a noção platónica e aristotélica de Acto pelo de Evento; este último é mais abrangente porque não diz respeito somente àquilo que existe em acto mas também às possibilidades de ocorrência de eventos ou actos futuros, e aos eventos do passado.

É preciso ter em conta que tanto Aristóteles como Platão movem-se no mundo da imanência. Imanência não é a mesma coisa que transcendência. Os deuses gregos eram intracósmicos — não transcendiam o universo; Zeus era um demiurgo na verdadeira acepção da palavra. Aristarco de Samos foi simbolicamente condenado à morte por ter dito que era a Terra que se movia em torno do Sol e que as estrelas não rodopiavam à volta da Terra, precisamente porque Aristarco colocava assim em causa a existência da morada dos deuses gregos — era suposto a Terra ser o centro do universo, explicando-se assim a existência do Olimpo.

Tanto Aristóteles como Platão não conseguiram demarcar-se totalmente da sua herança cultural cosmológica. Mais tarde, durante a escolástica cristã, as doutrinas gregas — tanto a de Aristóteles como a de Platão através de Plotino — foram “recicladas” através da introdução das mundividências cristã da patrística e do judaísmo; e aqui, sim, as filosofias de Aristóteles e Platão foram reinterpretadas e ganharam também uma dimensão transcendente. É sempre importante, contudo, fazer a distinção entre imanência e transcendência, porque ambas as dimensões pertencem à realidade — conforme demonstrado pela quântica.
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Terça-feira, 20 Abril 2010

A fé e a religião não são incompatíveis com a ciência

Filed under: cultura,filosofia,Religare — O. Braga @ 6:48 pm
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Um dos grandes argumentos do neo-ateísmo naturalista é o de que a ciência é incompatível com a religião. Em resultado deste argumento, muitos eminentes filósofos e teólogos assumem-no como correcto e enquistam-se em posições doutrinárias da Alta Idade Média — ou seja, fazem exactamente o jogo ideológico do monismo naturalista que se diz “científico”.
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