perspectivas

Domingo, 15 Agosto 2010

A morte não pode ser a traição do amor

A morte de António Feio e de Bettencourt Resendes, com apenas dois ou três dias de intervalo, impressionou-me também porque os dois eram homens relativamente novos — o primeiro tinha 55 anos e o segundo 58. E digo “também” devido à proximidade temporal dos dois infaustos eventos, para além de a morte nos parecer um absurdo que transforma a própria vida noutro absurdo.

O Homem moderno segue Brecht nos seus versos : “Como vos pode tocar o medo / Vocês morrerão com todos os animais / E, depois, não há nada.” Esta é uma visão de uma ínfima parte da totalidade, sendo que essa ínfima parte é a própria humanidade e a condição humana. O antropocentrismo moderno, como em outros antropocentrismos do passado, consiste em tomar essa pequena parte pelo Todo. É perfeitamente razoável e racional pressupor que, do ponto de vista da Totalidade, a situação seja diferente.

A visão de Brecht significa a traição ao amor — segundo a concepção de Gabriel Marcel. Brecht trai o amor, porque não é possível a um ser humano que ama outro conceber a sua transformação em Nada, porque o amor encerra em si uma espécie de promessa de eternidade, e amar um ser humano significa dizer: não morrerás! Sendo o Homem experimentado como algo infinitamente valioso, a ideia de que a morte o transforma em Nada é a recusa a posteriori desse amor.

Contudo, é a visão de Brecht que tende a prevalecer hoje, por via da acção das religiões políticas. Uma visão puramente materialista e utilitarista da realidade leva-nos a encarar a vida como uma espécie de absurdo de Sísifo carregando a pedra todos os dias para o cimo da montanha. E assim, passamos todos a trair o amor que tínhamos antes da morte das pessoas que amávamos; transformamo-nos todos em traidores e hipócritas em potência.

Uma visão materialista da realidade não pode ser justificada, defendida e fundamentada racionalmente, senão quando ela faz referência ou retira inferências de uma ética teísta e transcendental. A ética materialista que se mantém hoje é apenas uma corruptela da ética cristã, à espera da traição do amor através da morte.

Terça-feira, 4 Agosto 2009

Que Deus lhes valha!

Filed under: ética,cultura,filosofia,Religare — O. Braga @ 12:08 am
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Os argumentos ateístas são tão frágeis do ponto de vista filosófico que metem dó. Repare-se na seguinte proposição: “a posição ateísta, em si mesma, não é positiva, não possui qualquer conteúdo, pois não representa algo, mas apenas a ausência de algo”.

A partir do momento em que “alguma coisa é”, deixa de ser possível falar-se de “prova de ausência” do que quer que seja. A partir do momento em que qualquer coisa exista, a ciência só pode eventualmente fazer prova de que essa coisa existe, e não pode provar que outra coisa qualquer ― em função da existência da primeira coisa ― não existe. A ciência nunca pode fazer prova da não-existência do que quer que seja.

Por outro lado, o argumento ateísta contra a religião baseia-se no teísmo, em que Deus é tratado como um objecto na divisão relacional sujeito-objecto. Ora o englobante nunca pode ser objecto do englobado. O Cristianismo primitivo ― o da patrística ― e outras religiões, são panenteístas e não teístas. O ateísmo parte de um pressuposto errado na sua análise.

«Ao contrário de outros ismos – como cristianismo, judaísmo, espiritismo, xintoísmo, hinduísmo, islamismo –, o ateísmo não é um estilo de vida nem uma doutrina dotada de um corpo de conhecimentos ou princípios (…)»

Temos aqui uma enunciação de princípios. Quando se diz que “o ateísmo não tem princípios”, estamos a definir os princípios do ateísmo. A própria ideia de “uma classificação acerca do posicionamento ou estado intelectual do indivíduo em relação à ideia de Deus” é ela própria uma tomada de posição de princípio. Isto é tão básico que até um mau aluno do ensino secundário pode entender; porém, o irracionalismo ateísta é levado muito a sério.

Segundo o texto, um dos princípios do ateísmo é a “classificação” segundo a qual “aquilo que os ateus fazem das suas vidas não é levado em consideração absolutamente (de forma absoluta). Isto significa a expressão de um princípio no qual o relativismo moral é absoluto, ou seja, parte-se de um princípio contraditório em si mesmo. Embora contraditório em si mesmo, não deixa de ser um princípio ― trata-se de um princípio absurdo. O absurdo nada mais é que a lógica corrompida.

Quando se diz que o ateísmo “logicamente não incorpora qualquer espécie de valores, princípios morais ou noções de ética”, continuamos no campo dos princípios. Diz-se, por conseguinte, que o ateísmo tem como princípio “a não incorporação de qualquer espécie de valores, princípios morais ou noções de ética”.

Não há como fugir ao facto de ser ― a lógica dá sempre prioridade ao Ser e de tal modo que até a negação do ser é uma forma de ser; o mal é apenas o bem corrompido. A própria negação de uma ordem moral significa o reconhecimento implícito de que essa ordem existe: não podemos negar senão aquilo que existe.

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