perspectivas

Quinta-feira, 15 Janeiro 2015

Sinal, e símbolo

Filed under: filosofia — O. Braga @ 7:49 am
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“Tudo o que existe pode ser visto como “signo” de alguma outra coisa. Desse fato certos intelectuais iluminados concluíram que podia existir uma ciência geral dos signos, ou semiologia, quando ele próprio está gritando que não pode.

O campo de uma ciência se define pelos limites do seu objecto, por aquilo que ela deixa de fora. Se tudo são signos, a semiologia como ciência é impossível.

Pode haver uma ciência geral das quantidades justamente porque a quantidade faz abstracção da substância, da qualidade etc. Mas nada pode ser signo independentemente daquilo que ele seja em si mesmo, substantivamente. Uma ciência geral dos signos teria de ser também, e inseparavelmente, uma ciência de todas as substâncias – coisa que nem a metafísica clássica, nos seus momentos de mais louca ambição, jamais pretendeu ser.”

→ Olavo de Carvalho


O projecto de uma semiologia geral foi fundado pelo linguista Ferdinand de Saussurre: se a língua é um sistema de signos arbitrários — pensou Saussurre —, então é possível estudar todos os sistemas de sinais que regem a vida social (gestos, roupas, regras de boa educação, etc.).

O problema é o de que a semiologia mistura dois conceitos diferentes: o “sinal”, por um lado, e o “símbolo”, por outro  lado. Para a semiologia, o “sinal” e o “símbolo” são “signos”. Ou seja, “sinal” e “símbolo” são colocados no mesmo saco — um enorme erro do Estruturalismo e da modernidade, que até  Durkheim criticou.

Um ser humano não tem qualquer acesso à  esfera mais íntima de outro ser humano, porque não é possível exprimir o individual em conceitos universais — o individual seria imediatamente falsificado porque seria generalizado. Por isso é que o Cristianismo diz que “uma pessoa está mais próxima de Deus do que do outro ser humano” — conceito este que o papa Bergoglio recusa, porque para ele a religião é uma espécie de ideologia política.

A psicologia procura investigar a vida interior do indivíduo, mas os conhecimentos da psicologia só se podem aplicar a um determinado indivíduo por aproximação — porque a área em que o ser humano é completamente “ele próprio” não pode ser descrito com exactidão através de conceitos provenientes da investigação de outros seres humanos. A psicologia e a semiologia procuram sinais no ser humano, quando o ser humano é, ele próprio, um símbolo que orienta a sua vida íntima e espiritual por símbolos, e não por sinais.

Vejamos a seguinte equação matemática:

heisenberg

Trata-se do princípio da incerteza de Heisenberg. Aqueles números que subsumem uma equação, ¿são símbolos, ou sinais?

A conclusão/resultado da equação é o “representado/ simbolizado”. A equação tem um conceito representado/simbolizado, que é o resultado da equação. Por isso, os termos da equação adquiriram uma força simbólica que está para além de simples sinais arbitrários.

Os símbolos são claros, são reconhecidos socialmente, têm um poder imanente de convencimento e participam espiritualmente naquilo que simbolizam. Porém, não devemos confundir símbolos com sinais. Os sinais também são claros e reconhecidos: no entanto, falta-lhes a participação no conteúdo do representado/simbolizado, porque, em regra, os sinais são escolhidos arbitrariamente (por exemplo, os sinais de trânsito). Por isso não é possível comparar, por exemplo, um sinal de trânsito com o símbolo de um Deus pessoal, ou mesmo com o símbolo de uma equação matemática.

O símbolo, para além do significado cultural que o sinal também pode ter, tem um significado espiritual (relativo à experiência humana subjectiva que adquire uma experiência  intersubjectiva e universal) que o sinal não tem. Um sinal só passa a ser um símbolo quando passa a ter um conteúdo com relação a um representado, o que lhe retira a arbitrariedade previamente existente. Um símbolo nunca se muda,  porque isso resultaria também na dissolução do seu significado; em contraponto, um sinal pode ser mudado mantendo-se o seu significado anterior.

Sábado, 29 Novembro 2014

Alfred Tarski, linguagem-objecto e metalinguagem

Filed under: curiosidades — O. Braga @ 7:57 am
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O leitor assíduo deste blogue poderá ter-se apercebido de que eu utilizo amiúde as “aspas” na linguagem escrita. Há uma razão para isso: a distinção entre linguagem-objecto, por um lado, e metalinguagem, por outro lado.

Por exemplo, a frase “Sócrates é corrupto” está aqui entre aspas porque, neste caso, pertence à linguagem-objecto, ou seja, pertence à linguagem que se fala comummente: a frase “Sócrates é corrupto”, entre aspas, pode ser considerada como um nome, porque o objecto de que se fala é sempre representado por um nome.

Mas o mesmo conceito — Sócrates é corrupto —, sem estar entre aspas, pertence à metalinguagem, que é a linguagem que utilizamos para falarmos da linguagem-objecto: a frase “Sócrates é corrupto” é verdadeira se e só se Sócrates é corrupto.

A metalinguagem fica mais rica e mais comunicativa se contiver em si mesma a linguagem-objecto.

Domingo, 22 Junho 2014

O problema da semântica politicamente correcta

Filed under: A vida custa,Política,politicamente correcto — O. Braga @ 11:31 am
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O Vasco Lobo Xavier, no blogue Corta-fitas, chama à atenção para um anúncio publicitário que utiliza o verbo “adoptar” em relação aos animais. O mesmo anúncio poderia utilizar o verbo “perfilhar”: “Perfilhe um animal!”. Não o faz, por enquanto… mas lá chegaremos, quando o Registo Civil o permitir. A utilização do verbo “adoptar” em relação aos animais resulta daquilo a que o politicamente correcto (esquerda) chama de “evolução semântica”.

A semântica é a análise da linguagem, tendo por objecto o significado das palavras e a sua relação com o real (com a realidade).

O significado das palavras implica a definição de conceitos que pode ser nominal e/ou real. As definições nominais assentam numa convenção prévia (por exemplo, os sinónimos de um dicionário); as definições reais são as que resultam das características invariavelmente observadas a partir dos dados da experiência (“experiência” esta que pode ser saudável ou doentia e psicótica).

O problema, aqui, não é a definição nominal: é certo que os dicionários dizem que a adopção é feita em relação a crianças (seres humanos). O problema é a definição real que existe independentemente da definição nominal. E é a definição real que determina a mudança das definições nominais dos dicionários.

Por exemplo, a definição nominal de “casamento” (nos dicionários) foi alterada recentemente mediante a redefinição ideológica/política do conceito de “casamento” (“evolução semântica”) que passou a incluir o “casamento” gay; e essa redefinição política do conceito de “casamento” é hoje entendida, pelo politicamente correcto, como a definição real de “casamento”.

A “realidade para nós” (aquilo que nós desejamos que seja a realidade) passa a ser, segundo o politicamente correcto, a Realidade inteira. É neste contexto que surge, por exemplo, a Ideologia de Género.

A redução da Realidade (inteira, ou a Totalidade) à “realidade para nós” é um fenómeno cultural actual que exprime uma psicose colectiva; ou melhor dizendo: a tentativa das elites de impôr à sociedade uma psicose colectiva. E os me®dia, controlados pelas elites, assumem o seu papel neste processo de “psicotização” da sociedade.

Quando o politicamente correcto diz que a definição real de “casamento” inclui o conceito de “casamento” gay, está a impôr um desejo à realidade:

“Nós desejamos que a realidade seja assim, e portanto, a realidade é assim. A realidade depende exclusivamente do nosso desejo”.

Existe, na forma de pensar do esquerdista (leia-se, “politicamente correcto”), uma ruptura entre o Eu e a Realidade, o que deixa o Eu sob domínio do ID (por exemplo, o caso do psiquiatra Júlio Machado Vaz); e, num segundo momento, o Eu reconstrói a realidade segundo os desejos do ID (construções delirantes / delírio interpretativo).

A “definição real” das palavras, conforme concebidas pelo politicamente correcto, são definições que resultam de uma mundividência psicótica. Ou seja, são definições irreais — porque o psicótico dissocia a Realidade, por um lado, do Eu, por outro lado. Na medida em que a realidade passa a ser o que as elites quiserem que ela seja, a definição real das palavras passa a ser o resultado da psicose de muitos membros das elites (políticas, científicas, culturais, económicas e financeiras, etc.) que tende a ser imposta — através dos me®dia — a toda a sociedade.

Sexta-feira, 16 Janeiro 2009

O poder político e a manipulação da comunicação social

Filed under: cultura,me®dia,Sociedade — O. Braga @ 2:11 pm
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Ser jornalista é pertencer a uma máfia controlada pelo poder político. É muito mais credível a Internet que dispõe de fontes alternativas de informação muito próximas da realidade dos factos, do que os me®dia tradicionais.

Quando o jornalista Frederico Duarte de Carvalho escreveu o seu livro acerca do desaparecimento de uma criança inglesa no Algarve, tratou-o como uma obra de ficção literária que utiliza a narrativa como instrumento de comunicação. Embora o livro de Frederico Duarte de Carvalho não faça referência ao nome de Madeleine McCann, quem o ler faz facilmente a conotação ideológica com o “caso Maddie”. Existe, portanto, uma referência ideológica que liga o texto de Carvalho, exarado no seu livro, com a realidade do desaparecimento da menina inglesa na Praia da Luz, no Algarve.

À referência ideológica entre dois textos (ou entre conteúdos ideológicos, que podem ser de diverso tipo), ou entre um texto e a realidade, a semiótica chama de “referência intertextual”.

No caso do livro de Frederico Duarte de Carvalho, a referência intertextual é feita a posteriori, isto é, depois do “caso Maddie” ter acontecido. Contudo, na maioria dos casos, a “referência intertextual” é realizada pela narrativa antes dos factos se realizarem, intuindo no subconsciente colectivo a ideia de que a narrativa a anteriori dos factos leva ao acontecimento dos mesmos (como é o caso da ficção científica). Desta forma, a referência intertextual a anteriori actua no subconsciente colectivo e prepara o caminho para que quando os acontecimentos narrados anteriormente aconteçam na realidade de um futuro que se pretende factível, a sociedade se sinta familiarizada com eles, reduzindo-se assim a possibilidade de existência de anti-corpos ideológicos que coloquem em causa a validade ética desses mesmos acontecimentos, que passam a moldar a realidade.

O futuro é, assim, construído artificialmente através de uma narrativa de desconstrução do passado e do presente. Por outras palavras: distorcem-se os factos do passado e do presente para se poder justificar o futuro que se pretende. É isto que fazem os jornalistas, actualmente.

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