perspectivas

Sábado, 25 Junho 2016

O protestantismo de Anselmo Borges

 

O Anselmo Borges escreve o seguinte:

Muitos terão ouvido sermões semelhantes a este, de São Leonardo de Porto Maurício. Jesus tinha de morrer para pagar uma dívida infinita contraída com Deus pela humanidade e assim reconciliá-lo. Foi esta concepção que levou muitos ao abandono da fé. Aí está um Deus bárbaro, inexorável, que se não deixa comover, e uma teologia da satisfação expiatória que santifica a justiça próxima da vingança. O contrário do Deus que Jesus revelou como Abbá e Misericórdia, na parábola do filho pródigo. "O dolorismo heterodoxo que a Cruz produziu no nosso catolicismo vem, em boa parte, daqui: estamos a um passo de uma redenção "sadomasoquista", com a perversão de uma grande verdade: "Tudo o que vale custa" transformou-se num falso princípio: "Tudo o que custa vale."

As dez heresias do catolicismo actual (1)


Em traços muito gerais e básicos, podemos distinguir os católicos, os luteranos e os calvinistas da seguinte forma:

1/ Os católicos seguiam a doutrina da salvação de S. Anselmo (baseada em Santo Agostinho), segundo a qual o pecado humano poderia ser resgatado por intermédio da expiação e da penitência, através das quais o ser humano se tornaria “amigo de Deus” através da Graça; ou seja, segundo a Igreja Católica tradicional, existe uma relação “social” cognoscível entre Deus e o ser humano (a ideia cristã de Deus como “Pai”).

2/ Lutero convenceu-se (seguindo a ideia de Erasmo de Roterdão) de que a ideia de expiação do/pelo pecado, estava contra o Evangelho; e que todas as formas de comportamento penitencial ou compensatório eram inúteis — através de uma interpretação enviesada de S. Paulo. Ao dizer que estamos desculpados só porque temos fé, ou apenas pela dádiva gratuita de uma Graça que é recebida em um estado de desconfiança quanto à bondade de Deus, Lutero estava a dizer ao seu povo que a expiação ou a reparação dos actos eram irrelevantes para a reconciliação com Deus; ou que, se pensavam que Deus ficaria satisfeito com os actos compensatórios realizados em relação ao outro, estavam enganados.

Ao contrário de S. Anselmo, o pensamento de Lutero não partiu da relação entre o Pai e o Filho.

O que em Anselmo era uma oferta adequada de compensação para afastar a justa vingança de Deus, e reatar as relações amigáveis entre Deus ofendido e o homem ofensor, foi adaptado por Lutero como uma submissão ao castigo exigido por uma ofensa criminal (introdução ao Direito Positivo, que culminou em Grócio) de carácter público. Na teoria criminal e penal de Lutero sobre a expiação, não havia “troca” entre Deus e o pecador: as partes não eram propriamente “reconciliadas” no sentido em que os dois se poderiam transformar em um só, uma vez que o acto de reconciliação era puramente unilateral e unívoco (de Deus para o homem).

Não havia, em Lutero (e ao contrário do que acontecia em Anselmo, que explicava a relação de Jesus Cristo e Deus através do parentesco entre o Pai e o Filho), nenhum axioma natural ou social para explicar a ideia segundo a qual Jesus era um substituto do ser humano em geral, na relação com Deus.

3/ Calvino, nas “Instituições” [II XVI – XVII], representou em Cristo “as penas propostas a ladrões e malfeitores”, evocando a agonia que Cristo sentiu na cruz ao ser finalmente julgado pelo Pai, e “sofreu na sua alma os terríveis tormentos de um condenado e escorraçado”. Calvino aplicou à justiça divina a moderna analogia da lei do Direito Positivo, que já estava, de certo modo, implícita (mas não explícita) em Lutero — e de tal modo que o mistério da reconciliação com Deus, de Lutero, se transformou, com Calvino, na doutrina da predestinação.

Eu penso que o raciocínio do Anselmo Borges se aproxima do Calvinismo, ou pelo menos do luteranismo.

Sábado, 20 Julho 2013

Somos certezas. Somos fé.

Alguém escreveu aqui um artigo com o título: “Somos incertezas. Somos fé” (ver ficheiro PDF). O título é auto-contraditório, e essa contradição reflecte-se em todo o artigo. E por isso não posso concordar com ele. O assunto é algo complexo, e vamos a ver se o consigo condensar num verbete, como mandam as regras da Internet.

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Segunda-feira, 27 Dezembro 2010

Santo Anselmo de Aosta e o argumento ontológico

Filed under: filosofia — O. Braga @ 5:20 pm
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De todos os doutores da Igreja Católica, o meu preferido é Anselmo de Aosta (que me perdoem os outros), porque conseguiu, de uma forma extraordinária para uma mente do século XI, conciliar a fé e a razão. Neste primeiro postal vou falar de Santo Anselmo, e no seguinte nos seus detractores, principalmente de Kant que foi talvez o mais perigoso de todos eles.
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Quinta-feira, 17 Setembro 2009

Anselmo de Aosta e a refutação de Hellin

Filed under: filosofia — O. Braga @ 6:52 pm
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Este postal (e este) sobre o filósofo Mário Ferreira e a prova ontológica de Santo Anselmo ― que é mais um “princípio” do que uma “prova” ― é interessante. Entretanto, chamou-me à atenção a refutação de Hellin.

Refutação de Hellin – em nenhuma proposição, o predicado pode ter maior realidade que o sujeito. A prova de Deus não pode depender do predicado a priori, “máximo excogitável”, (este precisa ser demonstrado a posteriori).
Tais argumentos servem como objecção também às defesas de Leibniz e a Descartes.


Desde logo, é impossível fazer a “prova” directa da existência de Deus. Porém, o argumento cosmológico prova de facto a existência de um desenho inteligente no universo, o que significa que a “prova” da existência de Deus é feita por via indirecta, isto é, por dedução lógica.

Tomemos por exemplo a constante gravitacional G: ela é de cerca de 6 * 10^-11, o que dá qualquer coisa como 0,00000000006 ― o que significa que a gravidade é a força mais fraca de todas as forças fundamentais. Contudo, se G fosse milimetricamente maior do que 0,00000000006, as estrelas teriam sido formadas com tal vigor que se transformariam em anãs brancas, em vez de anãs amarelas como é o caso do nosso sol. As estrelas anãs brancas produzem calor mas não duram o suficiente para permitir a evolução da vida em qualquer sistema solar. Se G fosse milimetricamente mais pequena, então as estrelas tornar-se-iam gigantes vermelhas que seriam demasiado frias para permitir a vida. Para além da constante gravitacional, existem muitas outras constantes que, de igual modo, corroboram um desenho inteligente do universo: por exemplo, a constante de Planck, a massa de um protão, a constante de Boltzmann, etc. Centenas de constantes formaram-se no primeiro micro-segundo depois da Singularidade do Big Bang.


Em relação à refutação de Hellin: vamos ver o argumento da constante cosmológica.

O biofísico Alfred Gierer chamou à atenção para uma dificuldade particular: a densidade média da matéria no universo foi calculada com base em medições astrofísicas, e aquela é da ordem de uma partícula elementar longeva [protão, neutrão, electrão, etc.] por metro cúbico; considerando a dimensão do universo, resulta daí um número total de cerca de 10^80 (1 seguido de oitenta zeros) de partículas no universo.
Se multiplicarmos este número pela idade do universo: 20 mil milhões de anos-luz = 10^40 (1 seguido de 40 zeros) períodos elementares [período mínimo de estabilidade de partículas elementares], obtém-se o número 10^120 (1 seguido de 120 zeros) que corresponde à constante cosmológica da natureza (que se designa pelo símbolo Λ).
Este número Λ representa o limite superior lógico para o trabalho de cálculo de um computador cuja dimensão e idade seriam iguais a todo o universo, que efectuasse cálculos ininterruptamente desde o início da sua existência, e cujos elementos constitutivos fossem partículas elementares longevas individuais.
Portanto, podemos dizer que Λ é o “máximo excogitável” do universo, como é também o máximo da realidade da existência do universo ― nada é possível, em termos do espaço-tempo, acima de Λ.

Agora, atentemos à seguinte proposição:

«10^120 é o máximo excogitável do universo.»

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Segundo, Hellin, esta proposição está errada não obstante ser baseada em dedução lógica. A conclusão a que podemos chegar é de que não é necessário que o sujeito tenha, a priori, menor realidade do que o predicado; o que é necessário é que a proposição tenha um desenvolvimento lógico que suporte e justifique a superioridade do predicado em relação ao sujeito. Ora, essa demonstração a posteriori — no caso da prova ontológica de Anselmo — é feita através do argumento cosmológico.

A proposição 10^120 é o máximo excogitável do universo” pode ser entendida e compreendida com a explanação do conceito de constante cosmológica do universo (Λ). Hellin partiu de um sofisma da razão.

Quarta-feira, 16 Setembro 2009

A modernidade de Anselmo de Aosta

Filed under: filosofia — O. Braga @ 3:47 pm
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Santo Anselmo de Aosta é de extrema importância na história da filosofia quanto mais não seja por ter sido o precursor da investigação na Idade Média. Porém, aprendemos que Anselmo partiu da fé para a razão que ajuda o crente a compreender a sua própria fé; eu não creio que assim seja. Se intercruzarmos a filosofia quântica com a de Anselmo, verificamos que a relação entre a fé e a razão é biunívoca.
Por exemplo, quando Anselmo diz que “Deus cria constantemente”, podemos encontrar um conceito idêntico na quântica através do conceito da “espuma quântica” [John Wheeler] que consiste numa infinidade de mini-buracos negros à escala quântica, através dos quais a função ondulatória quântica [que não é matéria porque não tem massa] interage com a Singularidade em fluxos contínuos não só desta para o espaço-tempo, como do espaço-tempo para a Singularidade. Através deste fluxo contínuo bi-direccional, não só o universo é constantemente recriado como é mantido [conservado] através de uma quantidade incomensurável de colapsos de funções quânticas ― exactamente o que defendia Anselmo quando dizia que Deus criou, recria e mantém [conserva] o universo.

Poderia dar muitos outros exemplos de identificação entre Anselmo e a filosofia quântica ― como por exemplo a noção de Anselmo sobre o “Nada” que corresponde ao estado anterior ao Big Bang, ou seja, à ausência do espaço e do tempo. Para Anselmo, o “Nada” não é a ausência de “Tudo”, mas simplesmente a ausência do espaço-tempo tendo como pressuposto a pré-existência da Singularidade anterior ao Big Bang [que é a conclusão da filosofia quântica]. Para um homem que viveu no primeiro século do segundo milénio, esta conclusão ― embora com palavras da sua época ― é simplesmente extraordinária.
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