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Quarta-feira, 7 Novembro 2018

¿Salazar era de Direita?

Filed under: Portugal — O. Braga @ 2:00 pm
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Era.

O facto de Salazar ter sido um autocrata, foi um acidente da História que resultou do caos político e económico do Portugal da I república.

O Estado Novo foi uma consequência necessária do descalabro cultural, social e económico causado pelo golpe-de-estado republicano e jacobino de 1910.

Ou seja: para se ser de Direita não é necessário ser um ditador: ser um ditador é independente do facto de se ser de Direita ou de Esquerda (vejam, por exemplo, o Maduro na Venezuela: é ditador, mas é de Esquerda).

Em geral, um indivíduo de Direita defende um Estado fraco (ou seja, um Estado desburocratizado), mas com um governo forte. Neste sentido, por exemplo, Donald Trump é de Direita; e Rui Rio e Assunção Cristas são de Esquerda.

Salazar — como a maioria dos políticos e intelectuais europeus da sua (dele) época — tinha uma visão hegeliana (Hegel) da História e da política (ver “Direita hegeliana” no Google). Portanto, só podemos julgar Salazar à luz das ideias na moda na sua época.

A elite intelectual europeia do princípio do século XX adoptou uma visão corporativista da sociedade — por exemplo, Durkheim defendeu uma forma de corporativismo, emulação sucedânea das guildas medievais: ou seja, é um erro afirmar que o corporativismo é uma consequência do fascismo: pelo contrário, o fascismo italiano adoptou uma deriva do corporativismo que já vinha do passado.

Isto significa que ser “corporativista” não significa necessariamente ser “fascista” — porque o corporativismo é historicamente anterior ao fascismo italiano. E o facto de Salazar ter sido o protagonista político de um Estado forte e burocrático, deve-se ao facto de os republicanos jacobinos da I república terem conduzido Portugal à falência económica, financeira, social e cultural. salazar-direita-web

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Domingo, 17 Abril 2016

O que existe hoje não é democracia

Filed under: Política — O. Braga @ 8:02 pm
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“Não creio no sufrágio universal, porque o voto individual não tem em conta a diferenciação humana. Não creio na igualdade, mas na hierarquia. Os homens, na minha opinião, devem ser iguais perante a lei, mas considero perigoso atribuir a todos os mesmos direitos políticos.”

António de Oliveira Salazar, entrevista ao jornal «Le Figaro», Setembro de 1958.

O problema desta proposição de Salazar é o seguinte: ¿quem deve governar? Esta pergunta foi feita por Platão. ¿Quem estabelece o critério da desigualdade dos direitos políticos?

A democracia tem a vantagem de as mudanças políticas se operarem sem derramamento de sangue. Por outro lado, a igualdade natural não significa que as pessoas sejam idênticas, ou seja, a igualdade natural (Direito Natural) não é impedimento da hierarquia.

Não devemos confundir democracia com o que existe hoje. Vejamos o que escreve o reaccionário Alain de Benoist:

“A democracia mudou. Foi no início um meio para o povo participar na vida pública elegendo representantes. Em vez disso, a democracia tornou-se em um meio para que os representantes adquirissem legitimidade popular para o exercício do Poder. O povo já não governa através de representantes: são os representantes que se governam a si própios. ¿Quem representa o quê? A noção de ‘representação’ está em crise”.

Alain de Benoist, The Problem of Democracy

Segunda-feira, 15 Fevereiro 2016

Salazar et la révolution au Portugal

Filed under: Política — O. Braga @ 7:58 pm
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“Sous la direction de Salazar, l’Etat ne confisque pas la vie de ceux qui le constitue, mais fait en sorte que la personne humaine conserve tous ces droits naturels. La liberté chrétienne n’est pas le libéralisme ni le libertarisme”.

Salazar et la révolution au Portugal (Mircea Eliade)

 

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Sexta-feira, 18 Dezembro 2015

Um livro que não será traduzido e publicado em Portugal

Filed under: Política,Portugal — O. Braga @ 3:01 pm
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“Antonio de Oliveira Salazar (1889-1970), à la tête du Portugal de 1926 à 1968, est un modèle de chef politique intègre et soucieux du bien commun.

Profondément catholique, Salazar a conduit le pays avec cette conscience de la primauté du spirituel. Ce qui ne l’empêcha pas d’assainir les finances de l’Etat portugais en instituant un système corporatif qui fit ses preuves. Mais Salazar a protégé tant qu’il a pu son pays et son peuple de cette mentalité matérialiste qui a envenimé l’Europe de l’Ouest”.

Salazar le regretté (Jean-Claude Rolinat)

salazar-le-regrette

Segunda-feira, 9 Novembro 2015

Saudades de Salazar

Filed under: A vida custa,Política — O. Braga @ 8:03 am
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Quinta-feira, 19 Março 2015

¿ Salazar estaria na Lista Fiscal VIP?

Filed under: Política,Portugal — O. Braga @ 6:26 pm
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“Demagogia é o vocábulo que os democratas empregam quando a democracia os assusta.”

— Nicolás Gómez Dávila


Se Salazar estivesse hoje no Poder, ¿haveria uma Lista Fiscal VIP para membros da classe política?

Duvido que houvesse. Poderia talvez existir uma Lista Fiscal VIP para os banqueiros, mas nunca Salazar permitiria que existisse uma Lista Fiscal VIP para deputados, presidente da república, funcionários públicos, ou outros membros da classe política.

“Conta-se que filho do presidente da república Francisco Higino Craveiro Lopes, Nuno Craveiro Lopes e sua mulher, então grávida, se encontravam entre os passageiros do comboio da linha do Estoril que descarrilou devido à derrocada da barreira junto ao farol de Caxias, em 1952. Embora não tenham ficado feridos, no meio da confusão entre mortos e feridos a esposa ter-se-á sentido mal. Não sendo possível arranjar transporte no local, o filho telefonou ao Presidente, no sentido de lhe enviar um carro da Presidência para os levar a casa. Francisco Higino, depois de se certificar de que se encontravam bem, retorquiu que não podia dar ordem para enviarem o carro pois estes eram exclusivamente para serviço oficial; que procurassem um táxi para o efeito. E seu filho assim fez: foram andando a pé em direcção a Lisboa e um pouco adiante conseguiram apanhar um táxi.

Como norma, nas viagens e visitas, não eram oferecidos objectos de valor, conforme o desejo do Presidente que era transmitido previamente às entidades pelos elementos do protocolo. Apenas aceitava flores, medalhas comemorativas e diplomas honoríficos. Livros, só oferecidos pelos autores. Isto devia-se ao facto de que durante a inauguração das Feiras do Livro, era usual nos governos anteriores enviar uma camioneta que os livreiros faziam carregar com livros, facto que o Presidente achava despropositado. Do mesmo modo, nas visitas ao Ultramar, fez saber que não aceitava diamantes, metais de valor, peles, marfim, e coisas semelhantes. Até um boi que lhe foi oferecido pelo Rei do Congo, que não podia recusar por motivos de protocolo, foi abatido e comido pelo seu povo, com grande satisfação.”1

A Lista Fiscal VIP é um fenómeno democrático que é, em si mesmo, anti-democrático. Por isso é que os democratas dizem que Salazar era “faxista”.


Nota
1. Fonte

Quinta-feira, 4 Dezembro 2014

A nova plutocracia

Filed under: Política — O. Braga @ 9:17 am
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«O plutocrata não é, pois, nem o grande industrial nem o financeiro: é uma espécie híbrida, intermediária entre a economia e a finança; é a «flor do mal» do pior capitalismo.

Na produção não lhe interessa a produção, mas a operação financeira a que pode dar lugar; na finança não lhe interessa a regular administração dos seus capitais, mas a sua multiplicação por jogos ousados contra os interesses alheios. O seu campo de acção está fora da produção organizada de qualquer riqueza e fora do giro normal dos capitais em moeda; não conhece os direitos do trabalho, as exigências da moral, as leis da humanidade.

Se funda sociedades é para lucrar apports e passá-las a outros; se obtém uma concessão gratuita é para a transferir já como um valor; se se apodera de uma empresa é para que esta lhe tome os prejuízos que sofreu noutras.

Para tanto, o plutocrata age no meio económico e no meio político sempre pelo mesmo processo — corrompendo. Porque estes indivíduos, a quem alguns também chamam grandes homens de negócios, vivem precisamente de três condições dos nossos dias: a instabilidade das condições económicas; a falta de organização da economia nacional; a corrupção política. — Quem tenha os olhos abertos para o que se passou aqui e para o que se passa lá fora não pode duvidar do que afirmei.»

SALAZAR, António de Oliveira – Problemas da organização corporativa. Conferência no S. P. N., em 13 de Janeiro de 1934, Discursos, Vol. 1, pp. 292-294


O conceito de “plutocrata”, segundo Salazar, era adequado à década de 1930, e continua, em grande parte, válido. Mas deve-lhe ser acrescentado (ao conceito de plutocrata) alguns elementos que decorrem do globalismo (e não da “globalização” que começou no século XV) que não existiam na época em que Salazar proferiu aquela conferência.

Vamos dar como exemplos de plutocratas, Bill Gates e George Soros; mas, antes de mais, vamos ver a raiz etimológica da palavra “plutocracia”, que vem do grego Pluto (ou o deus Plutão, que era o deus dos ricos) + cratia (“poder”, ”governo”). Ou seja, uma plutocracia é um governo coordenado e dirigido por ricos e segundo os seus interesses, e um plutocrata ou é um membro desse governo, ou é alguém que defende a legitimidade desse tipo de governo.

Não podemos confundir uma plutocracia com uma aristocracia que vem do grego aristoi (“os melhores”, no sentido das virtudes que não se reduzem ao dinheiro) + cratia (poder, governo). Uma aristocracia é um “governo dos melhores em virtudes”; um aristocrata pode ser rico ou não. Por exemplo, em Inglaterra, existem aristocratas que o são na medida em que recebem o título de “Sir”, mas que não têm que ser ricos — como acontece com o prémio Nobel James Watson que tem o título de “Sir” e vive praticamente na pobreza.

Vemos, portanto, como a noção de “plutocrata”, segundo Salazar, se afastava da raiz etimológica da palavra. Para Salazar, um plutocrata era apenas uma espécie de oportunista, de um parasita da economia e das finanças. Se a noção de Salazar de “plutocrata” se pode aplicar literalmente a George Soros, já não se aplica a Bill Gates; e, no entanto, este também é um plutocrata no sentido globalista actual.

As acções políticas e globalistas de Bill Gates e sua mulher, por um lado, e de George Soros, por outro lado, têm as seguintes características: 1/ a necessidade de afirmação do acto gratuito como manifestação de Poder; a vontade dos plutocratas passa a ser um fim em si mesma, destituída de qualquer ética universal e de qualquer verdade partilhada, ou a vontade passa a fundamentar o direito de imposição, a toda a humanidade, de um qualquer tipo subjectivista de ética; 2/ a obliteração do poder político e das hierarquias sociais tradicionais em favor de um novo tipo de fascismo, a que podemos chamar de sinificação global.

Um plutocrata não é apenas um parasita; também é alguém que pretende moldar o futuro da humanidade segundo critérios exclusivamente utilitaristas ou subjectivistas.

Domingo, 9 Novembro 2014

Segundo Salazar, eu não sou português

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 12:31 pm
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Dado que a minha família, de pai e mãe, é oriunda do Minho, acontece que, segundo Salazar, eu não sou português.

Sábado, 17 Maio 2014

Salazar: era ¿monárquico ou republicano?

Filed under: Política — O. Braga @ 6:21 am
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“(…) era certo que [Salazar] temia que o regime republicano viesse a descambar no sistema de partidos e na confusão de que nos libertáramos havia 30 anos. Mas tinha ainda mais dúvidas do que eu acerca da viabilidade e da idoneidade da Monarquia, pois às que eu formulara se juntavam as dele sobre a dinastia. Não lhe parecia que D. Duarte Nuno possuísse as qualidades necessárias para o reatamento do regime monárquico, e as provas até então dadas pelos filhos ainda eram piores.

No seu discurso [de Salazar], a referência à eventualidade de a solução monárquica vir a ser uma solução nacional queria dizer que poderia chegar um momento em que, à consciência da Nação, a restauração da Monarquia surgisse como forma única de salvaguardar a sua existência e o seu património moral. Nada mais do que isso.”

Marcello Caetano, “Minhas Memórias de Salazar”, Lisboa, 2006, página 733

Salazar, antes de ser um economista, era um professor de Direito na Universidade de Coimbra. Salazar foi bastante influenciado, na sua formação, pela Filosofia do Direito, de Hegel — como, aliás, a esmagadora maioria dos seus contemporâneos. Salazar substituiu o conceito de “Ideia” (imanente, e proveniente do protestantismo), de Hegel, pelo conceito católico e tradicional de “Providência” (transcendente). Ou seja, Salazar não seguiu exactamente a metafísica de Hegel, mas é certo que foi influenciado, de forma marcada, pela Filosofia do Direito do filósofo alemão.

(more…)

Quarta-feira, 5 Junho 2013

Para quando uma avenida em Lisboa com o nome António Oliveira Salazar?

Filed under: Política,politicamente correcto,Portugal — O. Braga @ 4:51 pm
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“A Câmara de Lisboa vai inaugurar, no próximo sábado, uma avenida com o nome de Álvaro Cunhal, junto à quinta das Conchas, no Lumiar. Esta já existe nos mapas e nos sistemas de navegação electrónicos, mas só agora é que vai ser oficializada. No ano do centenário do nascimento do líder histórico dos comunistas portugueses, Lisboa faz o que outras cidades e concelhos portugueses estão a fazer: associar o líder comunista à toponímia. Na nota que acompanha a atribuição do nome de Álvaro Cunhal a uma das novas avenidas de Lisboa, o presidente da Câmara, António Costa, diz que a autarquia está a cumprir a responsabilidade institucional com a memória histórica comum.”

Lisboa vai ter avenida com o nome de Álvaro Cunhal

Sábado, 25 Maio 2013

O reaccionarismo de Fernando Pessoa

“Ser revolucionário é servir o inimigo. Ser liberal é odiar a pátria. A Democracia Moderna é uma orgia de traidores.” Fernando Pessoa

Eu, que me considero reaccionário, ao ler Fernando Pessoa fico corado. Há passagens dele que fazem lembrar Nicolás Gómez Dávila. Fernando Pessoa é tão reaccionário que considerou que Salazar, ao tirar partido do movimento revolucionário para subir ao Poder, é também uma vergôntea deste. Dizer que Salazar foi uma espécie de revolucionário só pode vir de uma mente ultra-reaccionária.

Já se viu alguém de esquerda citar a prosa de Fernando Pessoa? É muito raro. Até os escritores e artistas de esquerda cobrem hoje Fernando Pessoa com um véu de ignorância. O ódio do politicamente correcto a Fernando Pessoa é de tal modo que lhe querem mesmo destruir a língua com este Acordo Ortográfico.

Quinta-feira, 21 Março 2013

Memórias de Marcello Caetano acerca das cidades de Nampula e da Ilha de Moçambique

Filed under: Portugal — O. Braga @ 9:28 pm
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A África portuguesa era assim. Ao contrário de outras zonas colonizadas recentemente por países europeus, na África portuguesa havia marcas de uma presença secular, de uma presença amorável onde se notava sempre a preocupação de refazer os ambientes saudosamente deixados no reino longínquo.

«Um dos encantos da África era o de ver a face da terra a transformar-se de dia para dia pelo esforço inteligente do homem. Rompiam, no meio do mato, fazendas e plantações cuidadosamente ordenadas. Revolvia-se em minas o subsolo. Surgiam indústrias aqui e acolá. A faia branca ou negra das estradas cortava a imensidade do sertão. E onde só havia algumas pobres palhotas brotavam cidades como por milagre.

Nampula, que mais tarde se converteu num grande centro populacional, era em 1945 uma idade recente onde, não sei porquê, tinha sido implantada a capital da, ao tempo, província do Niassa, pois ficava no limite sul dela.

Nascera de um acampamento: por ocasião da primeira grande guerra tinham sido ali aquarteladas algumas unidades e ficou depois nos locais uma guarnição de infantaria e artilharia. Posteriormente, a construção do caminho de ferro que do litoral devia atingir (como depois atingiu) a região do Lago Niassa, fez com que em Nampula, um tanto distanciados do bairro militar, se erguessem os estaleiros, e, quando a exploração ferroviária pôde começar, estabeleceu-se junto da estação um centro de manutenção de material e de rendição de pessoal, donde a necessidade de oficinas, armazéns, dormitórios, o clube ferroviário, as casas para os empregados fixos. Logo o comércio se foi estabelecendo entre os dois bairros. E depois, capital de província e sede de diocese, os vazios foram-se enchendo com edifícios públicos e residências. Tudo novinho em folha e às vezes com certo ar de provisório.

Em contraste, que delícia aquela velha cidade de Moçambique, na ilha que deu o nome ao território e que foi dele capital política até 1897! Que comovente aquele conjunto venerando da fortaleza que servia, já no século de quinhentos, de apoio à navegação das naus da carreira da Índia, com a igreja onde estão sepultados soldados e marinheiros da gesta portuguesa do Oriente! Que encanto o daquelas ruas marginadas de casas construídas com pedras levadas do reino e onde se cruzam vultos de várias raças e religiões, num primeiro encontro de África com o Oriente! Que emoção a de percorrer os lugares onde poetou Camões, onde S. Francisco Xavier rezou, onde D. João de Castro estudou, e tanta gente humilde passou levando para a Índia seus sonhos e ambições ou de lá trazendo riquezas e desconsolos!

Padrão da presença portuguesa na costa oriental africana há quase 500 anos, a ilha de Moçambique constitui uma relíquia histórica, uma jóia arquitectónica, um valor humano inestimável. Entrei comovido no Palácio onde tantos governadores residiram, um palácio do estilo português das moradias nobres, com rés-do-chão e andar principal, este abrindo-se em salões magníficos de recepção. Lá dormi entre sombras de heróis e de governadores de outros tempos. E às primeiras horas da manhã fui acordado ao som da suave melopeia entoada por um coro de muitas vozes femininas com a preguiçosa doçura própria dos cantos africanos. Corri à janela. Lá em baixo, em frente ao Palácio, estava uma multidão de mulheres vestidas de garridas capulanas completadas pelos panos brancos ou coloridos, que lhes cingiam os bustos, elegantemente traçados sobre um dos ombros. Era um espectáculo admirável! E os versos cantados haviam sido compostos em honra do Ministro numa saudação carinhosa que soube depois, por informação de um dos criados do Palácio, ser da autoria do “Padre mouro”. Recebi mais tarde esse muçulmano culto, figura destacada na sua comunidade por haver estudado em Zanzibar e já ter peregrinado a Meca. E conversámos sobre os problemas dos maometanos de Moçambique que constituíam a maioria na província do Niassa: sóbrios na comida e na bebida, honestos e cumpridores, e por isso mesmo preferidos pelos europeus para o trabalho.

A cidade de Moçambique e a de Nampula: que contraste! Uma cheia de monumentos e de história, com a pátina do passado a doirar as suas pedras, parada na sua expansão pelos limites da ilha em que fora edificada; a outra fremente de vida, a crescer todos os dias, de aspecto recente e luzidio, cada casa a pretender ser mais moderna do que a outra, vendo-se por todo o lado romper o futuro pelos interstícios das suas improvisações actuais…

A África portuguesa era assim. Ao contrário de outras zonas colonizadas recentemente por países europeus, na África portuguesa havia marcas de uma presença secular, de uma presença amorável onde se notava sempre a preocupação de refazer os ambientes saudosamente deixados no reino longínquo.

E ao lado dessas relíquias surgiram as realizações actuais, traduzindo o transporte para as regiões tropicais de modos de viver e de técnicas dos tempos presentes.

Bem dizia em Luanda o governador Bayardelle:

“Vocês, os portugueses, são únicos em África!”»

(Marcello Caetano, in “Minhas memórias de Salazar”, 1977, página 368 e seguintes)

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