perspectivas

Sábado, 5 Janeiro 2013

O pensamento tomista do Padre Nuno Serras Pereira

Filed under: ética,filosofia,Ut Edita — O. Braga @ 6:00 am
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«Se mato, directa e deliberadamente um inocente, faço-me assassino. Se minto, sou mentiroso. Se compartilho os meus bens e o meu tempo, sou generoso. Se me abstenho de consentir em pensamentos, palavras e actos impuros, sou casto, etc., etc. É, por isso, que uma pessoa é aquilo que consente e não aquilo que sente.»

via Logos: Uma vez isto, para sempre isso? – por Nuno Serras Pereira.

A fractura da cristandade europeia do século XVI teve a sua origem na discrepância entre a ética aristotélica (S. Tomás de Aquino), por um lado, e a ética platónica ou neoplatónica (Santo Agostinho), por outro lado. A outra componente dessa fractura foi a importância dada ao Antigo Testamento que reforçou a influência do Judaísmo no protestantismo cristão, principalmente no calvinismo.

A ética de Aristóteles define a importância da objectividade da obra na acção, porque não podemos saber nem avaliar ou julgar a intenção de quem faz a obra; apenas podemos verificar objectivamente os efeitos causados pela obra. Como diz o povo: “de boas intenções está o inferno cheio”.
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Domingo, 12 Agosto 2012

Os macacos e os ateus

«Este vídeo mostra um experimento sobre moralidade em animais, que foi conduzido por Frans de Wall, um primatólogo, que mostrou os resultados da sua investigação numa palestra da TED.

De vários assuntos de grande interesse, um ressalta que é moralidade que pode ser observada nos nossos primos macacos.»

via Portal Ateu » De onde vêm a moralidade.

Ao ver um ateu defender a ideia segundo a qual os macacos têm moral, por alguns segundos acreditei sinceramente que fosse verdade!.

S. Tomás de Aquino

Eu percebo que, para o ateísmo, a moralidade é puro adestramento comportamental [behaviourismo]: adestra-se a besta humana a responder a estímulos segundo o princípio de Pavlov, e temos ética!. Depois da besta humana devidamente adestrada mediante o reflexo condicionado, o ateísmo conclui então que o comportamento daí resultante é a própria moralidade.

Um fenómeno da nossa cultura universitária coeva é falta de leitura dos clássicos. A academia contemporânea vive exclusivamente no presente, e por isso diz e faz muitas asneiras. A academia actual não aprende com o passado e com a história das ideias.

Os ateus não têm culpa de ser estúpidos porque, ao contrário do que acontece com a moral que é independente do QI da pessoa, a estupidez decorre da genética ou da epigenética.

S. Tomás de Aquino, no século XIII, demonstra por que os ateus são estúpidos.

S. Tomás de Aquino fez a diferença entre o arbítrio no ser humano, por um lado, e o arbítrio num animal irracional, por outro lado.
Dizia o santo que a principal diferença entre os dois arbítrios é a de que o ser humano é capaz de representar o objecto do seu desejo na ausência desse objecto e, portanto, o arbítrio do ser humano é livre — enquanto que um animal irracional não é capaz de o fazer e, portanto, o arbítrio de um animal irracional não é livre.

Vai daí — conclui o santo com pertinência — que, no ser humano, que é um animal racional, a vontade é um desejo informado pelo intelecto (ou seja, informado pela razão), o que não acontece, por exemplo, com os macacos e com os ateus.

Quarta-feira, 25 Julho 2012

Neognosticismo (2) — a cisão de Duns Escoto

É vulgar ouvirmos alguns católicos dizer que o movimento revolucionário iniciou-se com a Reforma protestante. Isso é parcialmente verdadeiro, mas as sementes ideológicas do movimento revolucionário e da Reforma estavam já presentes na Igreja Católica medieval. Para além da irmandade franciscana, e de um caso ou outro como o de Joaquim de Fiore, é importante falar na cisão de Duns Escoto.

O futuro é apenas uma miríade infinita de possibilidades, e nada está pré-determinado. E mesmo aquilo que parece estar pré-determinado, por exemplo, as leis da física, não só não têm qualquer valor face à singularidade [por exemplo, face a um buraco negro], como não existe racionalmente qualquer certeza de que não possam ser anuladas a qualquer momento.

Vimos no verbete anterior, grosso modo, as diferenças entre a ética voluntarista neoplatónica baseada no “paradoxo paulino” e em parte adoptada por Santo Agostinho, e que se estendeu ao longo dos séculos, tornando-se dominante, até que surgiu S. Tomás de Aquino. Este último introduziu uma nova ética cristã e católica, embora intelectualista e racional. Depois de Aquino surgiu Duns Escoto com o retorno a uma ética voluntarista radical e de ruptura total com S. Tomás de Aquino. Duns Escoto levou o paradoxo paulino a um extremo radical e absurdo, comparável em absurdez à ciência actual que diz que o universo surgiu do Nada.

Duns Escoto levou o determinismo e a recusa do livre-arbítrio a tal ponto que defendeu que Deus é desprovido de liberdade [evolução para Espinoza, misturada com o estoicismo: Deus sive Natura].
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Terça-feira, 24 Julho 2012

Neognosticismo

Existe (ainda) uma certa ética cristã “voluntarista” — de origem em S. Paulo, continua por Santo Agostinho, segue com a irmandade franciscana, é adoptada por gente como Henrique de Gand ou Abelardo, foi seguida pela Escola de Port-Royal e por Pascal, entrou na Reforma através do calvinismo e do puritanismo, influenciou Kant, Hegel e o romantismo alemão, e finalmente descambou com Nietzsche com a sua inversão da vontade. Esta corrente ética voluntarista parte do paradoxo paulino: por um lado, a ética depende exclusivamente da nossa vontade; e por outro lado, depende do determinismo imposto por Deus — hoje, o determinismo de origem divina foi substituído pelo determinismo da natureza, mesmo sabendo-se que existe a física quântica.

Prefiro a concepção ética de S. Tomás de Aquino:

  • (1) é preciso obedecer sempre à nossa consciência, mesmo que possamos estar eventualmente errados;
  • (2) o acto cometido por uma consciência errada ou errónea continua a ser mau e distinto do de uma consciência informada; e por isso, há também a necessidade de informarmos a nossa consciência no sentido de evitarmos, quanto seja possível, os erros grosseiros na acção ética;
  • (3) o Direito Positivo tem a sua origem no direito natural que pertence às origens da criatura racional e que o tempo não muda, mas antes é imutavelmente permanente;
  • (4) o Direito Positivo é a incarnação do direito natural na História; e a dominação de um homem pelo outro já existia antes da “queda” e no estado de natureza no sentido das relações políticas entre um príncipe e os seus súbditos — porque o homem é um ser político: o direito natural é a forma do direito histórico;
  • (5) o ser humano é possuidor de livre-arbítrio, e a verdade é a adequação da consciência à realidade.

Ao contrário da concepção ética aristotélica de S. Tomás de Aquino, a estirpe platónica da ética — o “voluntarismo” — é iminentemente escapista [escape à realidade objectiva] e potencialmente gnóstica.

Por exemplo, os franciscanos medievais [desde a Alta Idade Média] defendiam a tese segundo a qual a própria natureza foi “quebrada” pela História [vemos as semelhanças com o movimento revolucionário moderno] por causa do pecado original [o “bom selvagem”, de Rousseau]. E os franciscanos baseavam esta sua tese na concepção ética de Santo Agostinho que, por sua vez, a foi buscar a S. Paulo.

Antes da “queda” — cogitavam os franciscanos medievais —, ou seja, antes do pecado original, no estado de uma natureza instituída, não existia nem senhor nem escravo [Rousseau], mas apenas a posse natural sem direito sobre as coisas [utopia platónica da República]; depois disto, para acudir às fraquezas humanas, foi instituída pelo homem a propriedade privada, (por exemplo, em Alexandre de Hales, “Suma do Irmão Alexandre”) introduzindo assim o direito e as relações de dominação [desconstrutivismo moderno e, por exemplo, marxismo cultural ou Derrida].

O próprio direito — ruminavam ainda os franciscanos — foi cindido pela “queda”, porque o direito natural é o estado da natureza humana antes do pecado original, antes da propriedade privada e antes da dominação: o Direito Positivo é, assim, concebido para uma natureza pecadora, o que significa que, para os franciscanos, existiu na Terra o Homem sem pecado e perfeito, e uma sociedade em que não existia o sofrimento nem a morte. Estamos em pleno gnosticismo cristão!

Podemos vislumbrar as influências da estirpe voluntarista da ética franciscana / agostiniana em gente tão diversa como, por exemplo, no bispo esquerdista Torgal Ferreira ou no radical Francisco Louçã. É isto que chamamos, grosso modo e entre outras razões, de “gnosticismo moderno”, ou neognosticismo.

Sexta-feira, 20 Julho 2012

A autonomia do indivíduo e a desconstrução da família nuclear (2)

Estava eu a ler um texto sobre a Lei Natural [em inglês] segundo S. Tomás de Aquino, quando me lembrei de escrever qualquer coisa sobre o assunto, e ainda a propósito da política absolutista da autonomia do indivíduo — ou política dos direitos humanos, sendo lógico que os direitos humanos não podem ser, em si mesmos, uma política.

Desde logo, fica-me a ideia de que a Lei Natural de S. Tomás de Aquino não é exactamente a mesma Lei Natural de Santo Agostinho e do apóstolo Paulo [este assunto fica para o próximo verbete]. E toda esta história da Lei Natural [com excepção da visão tomista da Lei Natural] se relaciona com o gnosticismo e, consequentemente, mais tarde na História, com o cientismo [ou talvez possamos chamar-lhe “positivismo degradado”].

Eric Voegelin definiu assim o gnosticismo:

“O gnosticismo é um sistema de crenças que nega e rejeita a estrutura da realidade, particularmente a realidade da natureza humana, e substitui-a por um mundo imaginário construído por intelectuais gnósticos e controlado por activistas gnósticos.” — Eric Voegelin, “A Nova Ciência da Política”, 1952

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Terça-feira, 21 Fevereiro 2012

Não existe maior e mais execrável paternalismo do que o do Estado-monopólio

Filed under: ética — O. Braga @ 9:22 am
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Há décadas que, por opções ideológicas e populismo eleitoral, os poderes públicos nacionalizam as esmolas.

Metem-se entre pobres e benfeitores, tributando os segundos para ter o mérito de ajudar os primeiros. A fúria regulatória de uma burocracia crescente persegue qualquer obra de solidariedade, enquanto cria alternativas estatais para as estrangular. Foi este suposto Estado-providência que se mostrou insustentável. Agora os poderes públicos têm de encontrar o seu lugar subsidiário numa sociedade equilibrada.”

via Logos: Brincar à criticazinha – por João César das Neves.

Numa sociedade civilizada, justiça e igualdade não são sinónimos ou valores equivalentes. E se podemos criticar a atitude de quem dá aos pobres para aparecer na fotografia dos jornais, também podemos criticar o Estado que isola e atomiza o cidadão em nome de uma caridade de imposição obrigatória e exclusivista. Não existe maior e mais execrável paternalismo do que o do Estado-monopólio.


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Sexta-feira, 2 Setembro 2011

Leibniz e o bêbedo de Locke (salvo seja)

Em termos de metafísica (e também da ética), a história depois de Jesus Cristo e até ao fim da Idade Clássica, resume-se em três nomes: Santo Agostinho, S. Tomás de Aquino, e Leibniz.

Estes três são diferentes entre si mas complementam-se. E depois temos uma segunda linha de pensadores, como por exemplo Anselmo de Aosta, uma parte de Pascal, o próprio Locke na sua primeira fase, Erasmo, Nicolau de Cusa, e poucos mais.
Ao entramos pela Idade Moderna adentro, a coisa complica-se, e até ao século XX só Kant se salva (parcialmente). A partir do século XX surgiram alguns pensadores metafísicos de relevo, como por exemplo Schiller, Husserl, Karl Jaspers, Louis Lavelle, e pouco mais do que isto.


No seu “Ensaio sobre o Entendimento Humano”, Locke invoca o exemplo do bêbedo que se alcooliza ainda que saiba que coloca em risco a sua saúde: o bêbedo não pode parar de beber em função da prevalência do desejo sobre o entendimento (o juízo). A partir deste exemplo, Locke generaliza: “aquilo que leva a vontade a agir não é o maior bem, como se supõe vulgarmente, mas antes uma inquietação presente (desejo) e, regra geral, a que é mais premente. Podemos dar-lhe o nome de desejo, que é efectivamente uma inquietação do espírito”.

A posição de Locke é pessimista: o homem verga-se perante o desejo e não há razão que o valha. Este pessimismo foi posteriormente seguido por Hume, pelos utilitaristas ingleses, e até pelo neoliberalismo de Hayek.

Leibniz retoma o exemplo do bêbedo de Locke e aplica-lhe a fórmula de S. Tomás de Aquino (que por sua vez já vinha de Santo Agostinho, nas “Confissões”):

DESEJO → VONTADE → JUÍZO → LIBERDADE

Segundo Leibniz — cuja ética não é normativa, mas sim prescritiva —, o que prejudica o bêbedo de Locke “não é a inquietação, que nem sempre é desprazer, mas muitas vezes uma percepção sensível em que se torna difícil distinguir o que faz pender mais para um lado do que para outro”. Ou seja, é a escolha (o juízo, ou o entendimento) do objecto de desejo em si mesmo que se torna importante (os fins últimos de Aristóteles), e não a simples procura, em si mesma — muitas vezes, infindável —, do objecto do desejo (os fins próximos, como defendiam Locke e Hobbes, sendo que este último inverteu a ética aristotélica).

Leibniz dá o exemplo do frade jesuíta que gostava da “pinga”, e que por isso acrescentava, todos os dias, um pingo de cera na sua taça por onde bebia o vinho. E à medida que os dias passavam, a cera acumulava-se na taça e, assim, a quantidade de vinho ia sendo cada vez menor. Para Leibniz, a experiência atesta a possibilidade de deslocar o objecto de desejo negativo ou prejudicial, para um outro objecto mais sublime e aliciante.

Se escolhemos muitas vezes o pior, “é porque pressentimos o bem nele contido”, sem sentirmos o mal que esconde: o problema moral é uma questão de condução ou orientação do desejo, através da qual as energias do desejo são transferidas para um objecto bom ou para uma boa representação do divino.

Sábado, 13 Agosto 2011

Sobre a liberdade

Filed under: filosofia — O. Braga @ 11:16 am
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Segundo S. Tomás de Aquino existe diferença entre “liberdade” e “livre-arbítrio”.

Por exemplo, um animal irracional, no seu habitat natural, também tem um arbítrio, porque tende naturalmente para o seu fim e escolhe certos actos entre outros.

Porém, e ao contrário do animal irracional, o ser humano é capaz de se representar o objecto do seu desejo na sua ausência, na medida em que pode tornar (ou não) presente um objecto como desejável ao seu arbítrio que é, assim, livre. O arbítrio do Homem é livre; o arbítrio do animal não é livre.

No Homem, a vontade é um desejo informado pelo intelecto (S. Tomás de Aquino). Isto significa que a liberdade consiste em querer aquilo que é racional: o homem age porque é livre, e não é livre porque age (como acontece com os animais irracionais).

Quinta-feira, 16 Junho 2011

A dificuldade do conhecimento (2)

Filed under: filosofia — O. Braga @ 8:34 pm
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Para S. Tomás de Aquino, “a verdade é a adequação entre a inteligência humana que concebe, por um lado, e a Realidade, por outro lado”. Esta noção de Verdade, segundo S. Tomás de Aquino, tem sido muito mal interpretada por muita gente ilustre, e muitas vezes por má-fé e no sentido de distorcer a sua verdade.

Vejamos uma proposição de Kant: “O entendimento cria as suas leis (as leis da natureza), não a partir da natureza, mas impõe-lhe-as.” (Crítica da Razão Pura).

E por último, uma proposição de Karl Popper: “As nossas teorias científicas, por melhor comprovadas e fundamentadas que sejam, não passam de conjecturas, de hipóteses bem sucedidas, e estão condenadas a permanecer para sempre conjecturas ou hipóteses”.


A Realidade, segundo S. Tomás de Aquino, é algo que está separado da inteligência humana que concebe. E quanto mais próximo (adequação) estiver o espírito (do Homem) em relação à Realidade, mais próximo estará o espírito em relação à Verdade. Porém, para S. Tomás de Aquino, a Realidade não era apenas o mundo das coisas empíricas e da percepção humana; tão pouco, para ele, a Realidade era apenas o mundo da linguagem humana, como os modernos tentam fazer crer e atribuir a S. Tomás de Aquino. A Realidade, para S. Tomás de Aquino, é a totalidade com fundamento em Deus.

Quando Kant diz que o Homem cria as leis da natureza, tem razão até certo ponto: o Homem tenta adequar a sua inteligência à Realidade, e ao fazê-lo, fá-lo inexoravelmente de uma forma unilateral: impõe as suas leis à natureza, independentemente de essas leis estarem, ou não, totalmente certas ou corresponderem à Verdade. O Homem tenta aproximar-se da Realidade e, portanto, da Verdade.

Porém, por mais que o Homem tente aproximar-se da Realidade por via racional, nunca existirá uma total e perfeita adequação entre o sujeito e o objecto. E por isso é que Karl Popper faz-me o favor de concluir este postal dizendo que viveremos sempre à sombra de conjecturas ou hipóteses.

Quarta-feira, 15 Junho 2011

A dificuldade do conhecimento (1)

A física quântica demonstrou que S. Tomás de Aquino estava certo e que, consequentemente, Siger de Brabante estava errado. Nesta área do conhecimento, já não se trata de admitir diferenças de opinião entre um e outro: objectivamente, Siger de Brabante estava errado pelas seguintes razões:

  • o nosso universo não é eterno; tudo o que tem um princípio é finito;
  • a doutrina da “dupla verdade” — que existia já muito antes de Siger de Brabante, e que este apenas perfilhou — decorre de uma ilusão da percepção humana em relação à realidade específica do macrocosmos.

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Segunda-feira, 25 Abril 2011

O direito positivo contra-natura

Se é inexoravelmente necessária, no futuro, uma revolução, esta será sempre e lógica e inevitavelmente uma revolução que reponha no devido lugar os valores da conservação da sociedade segundo o Direito Natural.

Não há ninguém que possa colocar em causa a racionalidade do conceito de Lei Natural segundo S. Tomás de Aquino. Desafio quem quer que seja a fazê-lo.

O Direito Natural, segundo S. Tomás de Aquino, foi decalcado do estoicismo, e assenta em três pilares fundamentais: 1) a conservação do indivíduo e da sociedade; 2) a inclinação humana para actos maioritariamente constatáveis e/ou verificáveis na natureza; 3) a inclinação humana para o Bem em função da racionalidade que é própria do Homem.
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Quarta-feira, 28 Julho 2010

A igreja católica não defende a pena-de-morte

Defender a pena de morte em nome da tradição católica e invocando S. Tomás de Aquino ou Santo Agostinho, é um absurdo. Quem ler esses católicos pensará que S. Tomás de Aquino frequentava a pastelaria Brasileira (à praça do Rossio) há meia dúzia de anos atrás, e que gostava de visitar o santuário de Fátima.

S. Tomás de Aquino nasceu no primeiro quartel do século XIII !!! (porra!!) S. Tomás de Aquino é contemporâneo do rei D. Sancho II, que foi o nosso quarto rei.

A razão porque a igreja medieval — e o próprio S. Tomas de Aquino — defendeu a pena de morte liga-se com a mesma razão porque o fizeram os antigos judeus: não existiam prisões. Os judeus antigos eram um povo nómada, e os nómadas, exactamente na medida em que deambulam de um lado para outro, não podem ter uma tradição de encarceramento dos seus criminosos. Com a ocupação dos pagãos romanos, a tradição da pena de morte manteve-se em todo o império romano.

Na Europa medieval não existiam praticamente prisões. Por exemplo, a Torre de Londres (construída em 1066) só passou a servir de prisão a partir do século XII (antes disso, decapitavam os criminosos porque não existiam prisões), e mesmo este tipo de edifícios era muito raro na Europa.

O castelo da Bastilha foi construído no século XIV (durante a guerra dos Cem Anos) mas não serviu de prisão senão a partir do fim da guerra (meados do século XV).

Contudo, edifícios como a Torre de Londres ou a Bastilha eram muitíssimo raros em toda a Europa. Só a partir de finais do século XVIII é que as prisões se tornaram comuns na Europa.

Em uma encíclica de 1995, o Papa João Paulo II opôs-se à pena de morte, exactamente porque esta já não faz sentido — já existem prisões e já não vivemos em uma sociedade nómada.

Naturalmente que nem sequer vou invocar aqui argumentos éticos; fico-me pelos factos e pela lógica. Porém, não deixo de ficar com os cabelos em pé com alguns “católicos” que pretendem voltar à idade da pedra — são esses “católicos” que dão razão aos ateus.

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