perspectivas

Sexta-feira, 6 Setembro 2013

O “direito novo” e a revolução

Vamos ver um exemplo de um silogismo:

“Todos os tubarões são pássaros; o meu peixe vermelho é um tubarão; então, o meu peixe vermelho é um pássaro”.

Nenhuma destas duas premissas é verdadeira “materialmente”, ou seja, nenhuma delas corresponde à realidade. Mas o encadeamento que as une umas às outras é válido na sua forma: a conclusão do silogismo é a consequência formal necessária das duas premissas. Portanto, embora o conteúdo do silogismo seja falso, a sua forma está correcta. Esta ideia – da diferença entre conteúdo e forma – é importante para se compreender o que se segue.

Agora vamos citar um trecho de Olavo de Carvalho publicado ontem no FaceBook:

«A definição da democracia como “criação de direitos” é uma das ideias mais perversas que já vi. A substância objectiva de um direito não são as vantagens que ele nominalmente traz ao seu titular: é o dever que ele impõe a terceiros. Quanto mais direitos, mais crescem as obrigações, os controles, a fiscalização, a opressão. A democracia, ao contrário, é a ESTABILIZAÇÃO de um conjunto mínimo de direitos que permanecem inviolados a despeito de toda mudança social e política.»

Finalmente, vamos entrar na crítica que Max Weber fez ao positivismo jurídico (o “novo direito”) do Círculo de Viena e a Hans Kelsen.

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Sexta-feira, 13 Julho 2012

Sobre a revolução

“Um período revolucionário é sempre uma ditadura de inferiores.”

— Fernando Pessoa

Segunda-feira, 3 Outubro 2011

A eterna revolução em um manicómio ideológico

A política da chamada “Terceira Via”, anunciada com pompa e circunstância por Tony Blair em meados da década de 90 do século passado, foi defendida pela primeira vez pelo marxista Merleau-Ponty em 1956, no seu livro “As Aventuras da Dialéctica” (Paris, Gallimard). Foram precisos quarenta anos para que as ideias da “Terceira Via” de Merleau-Ponty fossem oficialmente assumidas na política europeia; e depois de Tony Blair, seguiram-se uma série de idiotas úteis: Zapatero, José Sócrates, Lula da Silva, e até o Obama nos Estados Unidos.

Através do seu livro supracitado e do seu conceito de “Terceira Via”, Merleau-Ponty afastou-se definitivamente da ortodoxia leninista e adoptou, embora de forma ambígua, o marxismo cultural da Escola de Francoforte. Os seus discípulos Claude Lefort, Cornelius Castoriadis, e principalmente Alain Touraine, já antes de Maio’68 em Paris mas sob o signo deste movimento, abraçaram definitivamente uma mistura ideológica entre o marxismo cultural e o estruturalismo francês, adoptando não só o conceito político de “Terceira Via”, mas também considerando que o movimento de proletarização terminou, e classificando a classe operária como “esclerosada”.

O que verificámos é que o meios-objecto da revolução se foram alterando sucessivamente de um “meio-objecto revolucionário” para outro, mas esses ideólogos não desistiram do conceito de revolução.

Nos seus escritos de ainda antes de Maio’68, Alain Touraine foi muito claro: os interesses de classe já não são predominantes nas lutas pelo controlo da mudança social e da acção histórica (o proletariado está esclerosado), e agora os meios e objectos da revolução passam a ser as mulheres, os jovens, o estudante, o antinuclear, o regionalista e, segundo o marxista Alain Touraine, mais tarde virão novos meios/objecto da revolução: os ecologistas e os homossexuais. Ei-los aí.

Foram precisos trinta anos para que as ideias de Alain Touraine, e seus camaradas marxistas, fossem oficialmente assumidas pela política europeia — e mais grave: assumidas pelos conservadores europeus! Criou-se, assim, um mito segundo o qual a Esquerda prevê o futuro (os novos profetas), mesmo que esse futuro revolucionário se revele, na prática, catastrófico para a sociedade. As profecias dos novos profetas marxistas têm que ser, mais tarde ou cedo, inexoravelmente adoptadas sob pena de se incorrer em crime de heresia.

O mais perverso, nos novos marxistas culturais, é que não têm problema nenhum em introduzir (enviesando-as) nas suas ideias revolucionárias, as ideias de conservadores como, por exemplo, Tocqueville, e assumi-las como suas. Para o marxismo cultural, vale tudo, e os fins da revolução justificam todos os meios. E como o proletariado se tornou obsoleto para a revolução, qualquer bicho-careta serve de meio-objecto para a revolução: a mulher, o jovem ou o homossexual, são apenas meios-objecto, instrumentos de uma visão utópica do mundo segundo a qual é possível construir um paraíso na Terra através de engenharias sociais construídas através do divórcio entre Direito (o justo) e ética (o bem).

Quando a mulher, o jovem ou o homossexual passarem a ser “objectos revolucionários esclerosados” (como aconteceu com o “proletariado obsoleto”), os revolucionários concentrarão as suas atenções reviralhas na libertação de dominação, por exemplo, em relação aos imigrantes, à ameba, ao pardal e aos animais domésticos. Quiçá, as crianças precisem também de ser libertadas da dominação sexual da merda da cultura ocidental e, assim, a pedofilia seja legalizada. O que é preciso é um eterno e indiferenciado meio-objecto revolucionário para que a revolução nunca acabe.

“Los problemas no se resuelven, meramente pasan de moda.” — Nicolás Gómez Dávila

Quarta-feira, 29 Setembro 2010

O cientismo e a doença mental do revolucionário

« A ciência é a maior força para remover barreiras de desentendimento [entre seres humanos]. »

O revolucionário é um doente mental — não no sentido clínico stricto sensu, mas no sentido cultural e social; trata-se de um sociopata incurável.

O maior perigo da modernidade tem sido — e é, infelizmente — a mente revolucionária que surtiu do Iluminismo. A ciência e a técnica não têm culpa do descalabro humanitário do século XX. Foi a mente revolucionária a responsável por mais de 200 milhões de vítimas, muitas delas inocentes, só no século XX. Naturalmente que a ciência e a técnica foram usadas na criação da morte em massa, mas não podemos responsabilizar a ciência e a técnica em si mesmas; devemos, antes, pedir responsabilidades à mente revolucionária.


É por demais evidente que a ciência, por sua própria natureza, não se ocupa do sujeito, ou seja, do indivíduo como ser humano. Só podemos fundamentar a noção de sujeito de uma forma tautológica, baseando-a na experiência subjectiva.
O conhecimento científico só concebe acções determinadas e determinísticas; não concebe a autonomia, o sujeito, tão pouco a consciência e a responsabilidade. Esta última é não-senso e não-científica. As noções de autonomia, sujeito, consciência e responsabilidade, pertencem à ética e à metafísica — e não à ciência positiva.

Quando a ciência positiva criou as ciências humanas, varreu paulatinamente o sujeito, colocando em lugar dele as leis, determinações e estruturas. Rapidamente a ideia de sujeito tornou-se mistificadora e insensata, à luz da ciência positiva e da opinião opinativa (Doxa).
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Segunda-feira, 5 Julho 2010

A revolução tranquila e o condenado moderno

Quando em princípios dos anos 30 do século passado, Ortega Y Gasset deixou os Estados Unidos para regressar à Europa, foi-lhe perguntada a razão da sua mudança, ao que ele respondeu que “Europa es el único continente que tiene un contenido” — em castelhano, “continente” e “contenido” têm a mesma raiz — ou seja, a “Europa é o único continente que tem um conteúdo”. Muito sinceramente, hoje tenho muitas dúvidas sobre se Ortega Y Gasset teria tido a mesma opinião, depois de todo o processo cultural que a Europa sofreu a partir do início da II Guerra Mundial.
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Sexta-feira, 26 Fevereiro 2010

As prioridades do movimento conservador moderno

Os conservadores não podem olhar para o passado senão procurando os paradigmas perdidos através do “esquecimento imaginativo” (1) próprio do Iluminismo. Antes devem os conservadores olhar para o presente e reconstruir o futuro partindo do princípio de que uma catástrofe civilizacional destruiu as estruturas da sociedade a partir do século XIX. Tal como de nada vale aos haitianos passarem o tempo a lamentarem-se da tragédia que lhes aconteceu, mas antes devem reconstruir o seu país a partir daquilo que existe embora tendo em conta o passado, assim os conservadores devem encarar a situação de decadência civilizacional que já não é só do ocidente, e trabalhar em função da realidade objectiva.
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Terça-feira, 9 Fevereiro 2010

O discurso conservador

« O termo “conservador” denota a adesão a princípios e valores atemporais que devem ser conservados a despeito de toda mudança histórica, quando mais não seja porque somente neles e por eles a História adquire uma forma inteligível. Por exemplo, a noção de uma ordem divina do cosmos ou a de uma natureza humana universal e permanente. »

― Olavo de Carvalho, Por Trás das Palavras

A diferença entre conservadorismo, revolucionarismo (direito e esquerdo) e liberalismo.

Quinta-feira, 14 Janeiro 2010

A ideia de “progresso” e a do “presente autoritarista”

O Iluminismo introduziu na Europa dois novos mitos: o mito da Razão e o mito da Natureza. Ambos os mitos desviaram-se da axiologia universal cósmica, que pressupunha a fonte da ordem, na cosmogonia, ou seja, no mito da criação do universo. Ao mesmo tempo que o Iluminismo introduziu esses dois novos mitos, tentou através deles eliminar da cultura, o mito cosmogónico que situava o Homem na sua dimensão cosmogónica e espiritual.
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Terça-feira, 29 Setembro 2009

I know not what tomorrow will bring

Quem diz que “só a miserável plebe é religiosa” ― como o fez Fernando Pessoa, entulhado nos seus mapas astrológicos ― assume uma atitude do religioso anti-religioso. Fernando Pessoa foi ao ponto de professar a fé religiosa da esperança da vinda do anticristo, e por aqui vemos a influência de Nietzsche no poeta português.

Fernando Pessoa entra tantas vezes em contradição que se revela apenas o poeta e literato ― como aconteceu com Nietzsche ― e jamais o filósofo que não foi propriamente; Pessoa teve apenas relampejos de racionalidade retórica que utilizava para impôr a sua própria visão irracional do mundo. Portanto, a única maneira de dar sentido a Fernando Pessoa é fazer o que ele próprio fez: truncar os seus textos, retirando do seu contexto irracional a razão que a espaços aparece.
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Sexta-feira, 9 Janeiro 2009

O messianismo judaico e a mente revolucionária moderna

Filed under: cultura,filosofia — orlando braga @ 4:24 pm
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A galeria revolucionária

A galeria revolucionária

Quando analisamos a mente revolucionária ― de Esquerda, obviamente ― encontramos todos estes ingredientes messiânicos judaicos do “Homem Novo” que secundariza a individualidade humana, subjugando-a ao colectivo.

Enquanto que Jesus Cristo falava do “futuro de justiça” como se de uma dimensão espiritual do “Reino de Deus” se tratasse, a tradição profética do judaísmo nunca perdeu a esperança de que pelo menos uma elite do seu povo ― ou “um pequeno resto”, na expressão de Isaías ― fosse destinado a salvar o futuro temporal e material. Enquanto que a “certeza” de Jesus Cristo sobre o futuro não pertencia a este mundo material mas a um reino espiritual, a “certeza” da tradição messiânica judaica sobre o futuro escora-se na ideia de um reino material composto por uma plêiade de homens eleitos e por um “rei de justiça”. Esta é uma diferença essencial entre a doutrina de esperança de Jesus e a doutrina da esperança messiânica do judaísmo.

Jesus concentra a sua atenção sobre a necessidade de mudança de comportamentos a nível individual, enquanto que a tradição messiânica judaica abrange os destinos materiais colectivos da nação israelita e de toda a humanidade. Jesus concentra-se na mudança em cada ser humano como uma singularidade individual; a esperança messiânica judaica é colectivista e subjugada por uma potência superior e exterior ao Homem como ser individual (Iavhé) que disciplina a humanidade como uma entidade colectiva. Mude-se o nome dessa potência superior e temos a essência do messianismo da mente revolucionária moderna.
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Segunda-feira, 30 Junho 2008

O perigo da radicalização

«Em toda a revolução, há sempre três elementos causais: (1) a imoralidade e corrupção dos governos ― e a ideia de se fazer uma revolução em vez de uma reforma quer dizer que a nação se tornou incompetente para resolver os seus problemas de governo sãmente; (2) a divisão de ideias principalmente religiosas, no país; (3) a desnacionalização. » ― Fernando Pessoa (O Preconceito Revolucionário)

A imoralidade e corrupção dos governos em Portugal está em processo contínuo evolutivo, por via da interferência da União Europeia na gestão nacional. Sentindo-se protegidos pelo leviatão do Directório das potências militares europeias, os políticos nacionais ganham a confiança e o respaldo necessários para fazer da ética política tábua-rasa, para criarem condições para um sistema de privilégios de casta que se alimenta na permuta que se estabelece entre a subserviência canina aos desígnios do leviatão, e a corrupção e o tráfico de influências em roda-livre. O Tratado de Lisboa dá a esta classe de políticos as garantias de segurança que um qualquer Mugabe almejaria: em caso de revolta popular organizada com apoio das forças armadas nacionais, as forças armadas estrangeiras ― por exemplo, as espanholas ou/e francesas ― podem ser chamadas a repôr a ordem imoral e letárgica que agrilhoaria a nação portuguesa.

A divisão de ideias principalmente religiosas, no país, está em curso, faz parte da ideologia do leviatão.

A desnacionalização é evidente.

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