perspectivas

Segunda-feira, 15 Agosto 2011

“A culpa é da democracia” (2)

O Renascimento marca a explosão do gnosticismo cristão recalcado e reprimido desde Constantino. O Renascimento fez ressurgir as ideias clássicas (greco-romanas) à luz da formidável metafísica cristã, ou seja, coloca o classicismo greco-romano fora de contexto e interpreta-o anacronicamente. O Renascimento é um processo de criação de uma ucronia multifacetada que deu lugar à proliferação das utopias políticas modernas e contemporâneas.
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Sexta-feira, 29 Fevereiro 2008

E o DN paga!

Filed under: ética — O. Braga @ 10:42 am
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Nascimento de Vénus — Botticelli (1485)

Sei que não devia falar nisto, “que será dar demasiada importância a quem não a merece”, mas não resisto. Leiam este artigo da Fernanda Câncio no DN e digam-me se faz algum sentido. Senão vejamos (vamos ao fisking):

1. Critica a FC o facto do Metro de Londres ter retirado uma reprodução de uma pintura de Lucas Cranach de um dos murais de uma estação. Eu concordo, neste particular, com a FC, nomeadamente porque a reprodução do nu faz parte da pintura europeia renascentista, e não podemos esquecer que a cultura da Renascença — nomeadamente, a do renascimento italiano — foi apadrinhada por altos dignitários da Igreja Católica. A partir de finais da Idade Média, a tradição cristã conviveu razoavelmente com a estética do nu, e o cristianismo tem o condão de ser a religião que mais coaduna a ética com a estética — ao contrário do judaísmo, que sacrificou a estética em nome da moral, ou do islamismo, que sacrificou ambas as coisas.

2. Em seguida, a FC confunde a educação sexual do nu implícito no sexo explícito que defende para as crianças de 6 ou 7 anos (que não tem nada a ver com a estética expressa numa pintura renascentista de um nu) com a estética do nu renascentista, quando a educação sexual para essa faixa etária deve ser mais simbolista do que explícita, por razões óbvias.

3. Depois, a FC coloca no mesmo nível de juízo este caso de censura social de manifestação pública de sado-masoquismo com a censura da exposição do quadro de Lucas Cranach, como se fossem ambos os casos passíveis de serem ajuizados à luz dos mesmos critérios.

Ou a FC não se sabe expressar, ou foi isto que entendi. E o DN paga.

Sexta-feira, 8 Fevereiro 2008

Vasco da Gama 3 – Itália 1

No rescaldo da recente derrota futebolística da nossa selecção, não fiquei tão triste quando me lembrei da abada histórica que as cidades-estado italianas levaram do nosso Vasco da Gama. Com a descoberta do caminho marítimo para a Índia, Vasco da Gama acabou com o monopólio do comércio com o oriente por parte de Veneza, Génova e Florença, e consequentemente, o Gama foi o grande responsável pelo fim do renascimento italiano. Não foram os espanhóis da contra-reforma e os franceses ávidos de lucros que acabaram com a Itália renascentista – estes foram apenas os verdugos de uma condenação anunciada; foram antes as contradições internas e a secagem das fontes de enorme rendimento a que as cidades italianas foram sujeitas por culpa do Vasco da Gama e de D. Manuel I. O que Vasco da Gama fez no seu tempo baixou significativamente o valor das especiarias no mercado europeu; equivaleria a que fizéssemos hoje as tampas de Coca-Cola em ouro (salva a hipérbole).

Existe uma teoria sociológica muito em voga, adoptada por uma classe de novos iluminados intelectuais que se manifestam constantemente nos me®dia, que defende a ideia de que a “pluralidade cultural” (= “permissividade cultural” ou “tolerância”) é motor de desenvolvimento social. Decorrente desta teoria redentora está o laxismo no controlo da imigração, a abertura ao “casamento” gay, a permissividade nos costumes e em relação a toda uma série de comportamentos heterodoxos, o anti-teísmo estatal institucionalizado que se manifesta, por exemplo, no aborto liberalizado e na perseguição religiosa sub-reptícia, e o relativismo ético elevado ao estatuto de instituição; a tudo isto, chamam os intelectuais de esquerda de “pluralidade cultural” e que estará na base do desenvolvimento de uma sociedade – e dão como exemplo recorrente o renascimento italiano.
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