perspectivas

Segunda-feira, 16 Março 2015

A cultura actual que elimina o feio

 

Platão escreveu na “República” que “dado que o belo se opõe ao feio, são duas coisas diferentes. (…) E isto é igualmente verdadeiro para o justo e para o injusto, para o bem e para o mal, e para todas as Formas”.

A concepção platónica das Formas — ou das Ideias — já não se aplica na nossa sociedade; ou pelo menos tende a desaparecer. A oposição entre o belo e o feio (estética) e entre o bem e o mal (ética) tende a esbater-se em nome da absolutização do subjectivo. Por exemplo, a arte moderna começou alegadamente como um movimento de protesto contra o filistinismo burguês; mas o corolário da arte moderna é o de que, hoje, a arte não conhece o feio: “é tudo uma questão de gosto”, dizem-nos, “não há o feio nem o belo: há apenas gostos diferentes”. 

O mesmo critério de esbatimento da oposição das Formas aplica-se hoje à  ética (a ética e a estética andam de mãos dadas) e à  justiça (a justiça depende da ética). O ser humano orienta-se na vida pela oposição de conceitos (grande/pequeno, bom/mau, belo/feio, justo/injusto, etc.), e quando esta oposição entre conceitos se esbate, a sociedade tende a regredir a um estado de selvajaria.

O grau do estado de selvajaria de uma sociedade não depende do desenvolvimento tecnológico; o Estado nazi é a demonstração evidente de que uma sociedade pode regredir a um estado de selvajaria alimentando-se de uma tecnologia de ponta. Uma sociedade em regressão para um estado de selvajaria também pode ter muito investimento em dinheiro e meios na ciência positivista que se caracteriza exactamente pela erradicação das Formas platónicas: quando a ciência substitui a ética e os seus valores, o ser humano passa a ser um “selvagem actual”.

dolce gabannaOs homossexuais Domenico Dolce e Stefano Gabanna criticaram as “barrigas de aluguer” e a tecnologia de inseminação artificial.

Há nestas duas pessoas a ideia do belo e do feio, da justiça e da injustiça, do bom e do mau — para além da ciência e da tecnologia, e mesmo apesar da condição homossexual. Não é porque uma pessoa é homossexual que tem que abdicar de uma visão realista do mundo e da vida, que tem que deixar de pensar na ética e na estética, que tem que deixar de conceber os valores como existentes independentemente de nós e que não podem ser deduzidos de uma qualquer utilidade.

Por exemplo, eu não sou rico, mas aceito perfeitamente que existam ricos, porque o realismo e o conhecimento da Natureza Humana diz-me que sempre houve e haverá ricos. Não tenho inveja dos ricos (sinceramente!) nem qualquer ressentimento em relação a eles. O que eu não posso conceber, em nome a oposição entre o justo e o injusto, é que os ricos retirem direitos naturais aos pobres, como está a acontecer hoje em larga escala, criando uma situação política e social a que Hegel chamou de Notrecht (direito de necessidade).

No mundo das Ideias de Platão, um rico também pode ter a noção da oposição entre o belo e o feio, o bem e o mal, o justo e o injusto — porque a desigualdade injusta não se cura com igualdade, mas com desigualdade justa (Nicolás Gómez Dávila). A desigualdade justa tem em conta a equidade, e não a igualdade, porque é impossível sermos todos iguais.

Quando se pretende tornar igual aquilo que não é realmente possível que seja igual, perdemos a noção da oposição dos valores das Ideias de Platão que orientam a sociedade e o indivíduo; caímos em uma nova espécie de selvajaria nazi, em que o ser humano, enquanto pessoa, é desvalorizado em nome da absolutização do subjectivo, seja este individual ou colectivo.

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Quarta-feira, 12 Dezembro 2012

Cientismo: do Positivismo ao anti-Positivismo

A permeabilidade da ciência ao cientismo é hoje bem patente. Acontece, porém, um fenómeno novo: o cientismo, hoje, não é apenas Positivismo puro e duro: é também, hoje, a expressão (em termos gerais) da manipulação da ciência positivista por parte da política e/ou das religiões políticas.

Por exemplo, se convém à política e a determinadas ideologias políticas, a propalação de uma crença escatológica e secularista, então os dados estatísticos e científicos são manipulados — como aconteceu recentemente em Inglaterra — no sentido de demonstrar a validade da escatologia (ou de outra teoria política qualquer), milenarista mas secularista, do aquecimento global. No caso do milenarismo escatológico do aquecimento global, e de forma semelhante ao milenarismo clássico, a escatologia é imanente. Estamos em presença de uma religião política.

A ciência positivista começou por transformar a ciência na própria política (religião política imanente). Mais tarde, filósofos como por exemplo Eric Voegelin e Karl Popper demonstraram o absurdo do Positivismo entendido como uma religião política. Hoje, assistimos a um fenómeno novo, que consiste na manipulação directa, por parte das religiões políticas imanentes, do próprio Positivismo.

O supracitado torna-se evidente na discussão que existe no blogue Rerum Natura acerca do reconhecimento ou não, por parte do Estado, da homeopatia. Por exemplo, David Marçal segue o senso-comum e o bom-senso que distingue o objectivo, do subjectivo — o que não significa que o objectivo tenha que ofuscar o subjectivo, como defende o Positivismo. E, por outro lado, temos a expressão deste novo cientismo em Desidério Murcho, em que o subjectivo se impõe ao objectivo segundo o desiderato de determinadas religiões políticas liberais gnósticas que radicalizam o conceito de autonomia do indivíduo.

Segunda-feira, 14 Maio 2012

O primarismo do realismo ingénuo da Esquerda

Filed under: cultura,filosofia,Religare,Ut Edita — O. Braga @ 6:45 am
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Uma críticas da Esquerda ao fenómeno de Fátima é o alegado “primarismo das promessas” que implicam o milagre. Mas será que a Esquerda tem um pensamento científico? A ideia segundo a qual a Esquerda possui um raciocínio científico, é falsa. Acreditar exclusivamente naquilo que se vê não é ser detentor de um raciocínio científico: antes, é “realismo ingénuo”, ou seja, é ser estúpido.
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Domingo, 25 Setembro 2011

G. E. Moore e o conceito de Bem

Dos filósofos modernos, G. E. Moore é um dos mais importantes (na linha de Sidgwick, de quem foi aluno), aproximando-se bastante das teses realistas de Nicolau Hartmann, embora, como este, aquele não pudesse levar a sua teoria ética até às suas últimas consequências porque o realismo de ambos não o permitiu.

Vou servir-me da diferença conceptual entre Bem e Bom, segundo Moore, para fazer uma analogia entre os conceitos de Deus e de Divino; mas antes, vou abordar a noção de “falácia naturalista” segundo G. E. Moore — noção que é muito importante na ética contemporânea.


Se a todos os homens crescem pêlos na cara, não podemos deste facto deduzir a norma segundo a qual todos os homens deveriam ter barba. E quem defende, por exemplo, a tese ética segundo a qual todos os homens deveriam ter barba, incorre na “falácia naturalista” (segundo Moore). Isto significa que os factos não fundamentam quaisquer normas, embora as normas possam criar os factos.


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Segunda-feira, 6 Dezembro 2010

O Mundo 3 de Karl Popper

Este postal, que fala nos números primos, sugeriu-me falar de Karl Popper e do “seu” Mundo 3. Em minha opinião, Karl Popper foi um dos 5 maiores filósofos do século XX, mas também cometeu alguns erros, o que corrobora a ideia de que ninguém está isento de erros. Karl Popper tentou fazer a ponte ideológica entre solipsistas e realistas, e na medida em que não é possível adoptar uma posição imparcial entre a imparcialidade e a parcialidade, Karl Popper acabou por cair num solipsismo mitigado.


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Quinta-feira, 5 Agosto 2010

Realismo quântico em oposição ao monismo

A filosofia de Amit Goswami é um monismo, e portanto apenas uma das possíveis interpretações quânticas. A concepção quântica que eu defendo é mais realista do que idealista (note-se que o realismo não é exclusivamente materialista no sentido positivista), e não é de todo panteísta como parece ser a concepção de Amit Goswami.

Amit Goswami diz que “o universo é auto-consciente através de nós”. Eu digo que existem vários níveis de consciência e que a nossa (humana) é apenas uma delas. Portanto, é um exagero dizer-se que “o universo é auto-consciente através de nós”. A manutenção do universo no espaço-tempo exige um tipo de consciência que “observe” todo o universo — e que faça as escolhas de todas as possibilidades — e não apenas uma parte dele. A essa consciência chamamos de Deus.

É notável como um Padre da patrística, Orígenes, defendeu a ideia de que “o Logos mantém o universo quando contempla constantemente o Pai”. Já nessa altura Orígenes estabelecia a diferença entre os diversos graus de consciência. Talvez por isso ele tivesse sido considerado herético pela Igreja Católica no Concílio de Niceia.

À excepção desta pequena grande divergência que me opõe a uma concepção monista da mundividência quântica, estou em geral de acordo com Amit Goswami.

Sábado, 29 Maio 2010

Solipsismo

Filed under: filosofia,Novo Guia dos Perplexos,Ut Edita — O. Braga @ 8:56 pm
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“Se uma árvore cair na floresta, e não existir ninguém por perto para ouvir o ruído causado pela sua queda, será que a árvore existe?”

Eu escrevi isto e alguém me chamou à atenção para isto. Antes de mais, vamos definir um “palavrão”: solipsismo.
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Sábado, 15 Maio 2010

O Homem contemporâneo e a realidade

Filed under: A vida custa,cultura,Sociedade — O. Braga @ 7:46 am
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O ser humano em geral parece ter uma enorme dificuldade em aceitar a realidade, ou pelo menos algumas estruturas da realidade. Sempre foi assim, mas no mundo contemporâneo, e à falta de outras formas de fuga à realidade talvez mais consentâneas com os ideais que já não existem — e que foram característica do mundo extinto das ideologias — , o Homem serve-se de um mundo virtual (a Internet, as telenovelas, os reality shows) para construir o seu mundo fictício.

Ao Homem aplica-se a frase de Anatole France segundo a qual “o real serve-nos para fabricar, melhor ou pior, um pouco de ideal”. O Homem pode escolher entre a pior ou a melhor forma de fabricar um pouco de ideal. O mundo contemporâneo, alheado por natureza dos ideais, acaba por condicionar o Homem actual de tal forma que a sua escolha acaba, muitas vezes, por ser a pior possível, tornando difícil o fabrico de um pouco de um ideal positivo e finalístico, por mais pequeno que seja.

Alphonse Daudet dizia que “a obra que trazemos em nós parece-nos sempre mais bela do que aquela que fizemos”. Hoje, esta proposição já não é válida, porque a obra que trazemos em nós passou a estar subordinada — e muitas vezes deixa de existir —, não para fazer sobressair aquela outra obra que fizemos, mas antes aquela que gostaríamos de fazer em uma perpétua fuga à realidade.

(bom fim-de-semana)

Sábado, 24 Abril 2010

Antes realista que positivista

Filed under: filosofia — O. Braga @ 7:44 am
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É comum definir “realismo” como qualquer doutrina que defenda a ideia de que existe uma realidade — seja esta composta de objectos, ideias e/ou relações lógico-matemáticas — independente do espírito humano.

Eu já fui “acusado” de realismo nos comentários a este postal. Diz-se que a filosofia recusa o realismo na medida em que aquela critica as certezas imediatas e mal fundamentadas. Porém, esta concepção de filosofia é absolutamente errada porque a reduz ao método positivista (filosofia = positivismo). Pelo contrário, talvez a filosofia possa ser entendida como uma ciência experimental, na medida em que acumula as experiências das tentativas humanas de explicação do mundo ao logo de milhares de anos — e a experiência humana não é só de carácter empírico ou positivista.

A definição supracitada está errada no seu próprio princípio, na medida em que ignora a validade e a importância dos axiomas universais; a definição parte do princípio implícito de que, em todo o universo e para além dele, só existe o espírito humano e que não existe mais nenhum tipo de consciência para além da humana — e nesta medida trata-se de um solipsismo existencial e de um antropocentrismo primário e básico.

O conceito de realismo está expresso nesta popular proposição inquisitiva: “Se uma árvore cair na floresta, e não existir ninguém por perto para ouvir o ruído causado pela sua queda, será que a árvore existe?”
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Terça-feira, 26 Janeiro 2010

O Homem constrói as leis através de um processo de descoberta

Filed under: filosofia,Quântica — O. Braga @ 9:13 am
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Atentemos à seguinte proposição:

« A gravidade (…), embora intuída, tem um carácter hipotético. Os corpos não se atraem por causa da lei, mas a lei é que se constrói para explicar o movimento dos corpos. (…)

Em suma: as leis não se descobrem ― constroem-se. »

Esta concepção lógica sobre as leis da física (e das leis da ciência em geral) é a predominante do nosso tempo; moldou-se a partir do Iluminismo com uma mistura entre o positivismo (naturalismo materialista que evoluiu de Demócrito, Epicuro, Hobbes, os Enciclopedistas, Comte, os materialistas modernos) com o idealismo objectivo (de Heraclito, estóicos, Espinosa, Schelling, Schleiermacher, Hegel).
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