perspectivas

Quinta-feira, 27 Dezembro 2012

O milagre e canonização católica

A propósito de um programa de televisão acerca da Rainha Santa Isabel, ouvi e vi um tal Manuel Vilas-Boas afirmar que “a Igreja Católica terá que rever o critério do milagre como sendo essencial à canonização”.
(more…)

Quarta-feira, 12 Dezembro 2012

Cientismo: do Positivismo ao anti-Positivismo

A permeabilidade da ciência ao cientismo é hoje bem patente. Acontece, porém, um fenómeno novo: o cientismo, hoje, não é apenas Positivismo puro e duro: é também, hoje, a expressão (em termos gerais) da manipulação da ciência positivista por parte da política e/ou das religiões políticas.

Por exemplo, se convém à política e a determinadas ideologias políticas, a propalação de uma crença escatológica e secularista, então os dados estatísticos e científicos são manipulados — como aconteceu recentemente em Inglaterra — no sentido de demonstrar a validade da escatologia (ou de outra teoria política qualquer), milenarista mas secularista, do aquecimento global. No caso do milenarismo escatológico do aquecimento global, e de forma semelhante ao milenarismo clássico, a escatologia é imanente. Estamos em presença de uma religião política.

A ciência positivista começou por transformar a ciência na própria política (religião política imanente). Mais tarde, filósofos como por exemplo Eric Voegelin e Karl Popper demonstraram o absurdo do Positivismo entendido como uma religião política. Hoje, assistimos a um fenómeno novo, que consiste na manipulação directa, por parte das religiões políticas imanentes, do próprio Positivismo.

O supracitado torna-se evidente na discussão que existe no blogue Rerum Natura acerca do reconhecimento ou não, por parte do Estado, da homeopatia. Por exemplo, David Marçal segue o senso-comum e o bom-senso que distingue o objectivo, do subjectivo — o que não significa que o objectivo tenha que ofuscar o subjectivo, como defende o Positivismo. E, por outro lado, temos a expressão deste novo cientismo em Desidério Murcho, em que o subjectivo se impõe ao objectivo segundo o desiderato de determinadas religiões políticas liberais gnósticas que radicalizam o conceito de autonomia do indivíduo.

Segunda-feira, 3 Setembro 2012

Acordo do pensamento com a realidade

« Falar de acordo do pensamento com a realidade é o mesmo que falar de acordo do pensamento consigo mesmo, e reciprocamente. E isto não por o pensamento não poder sair de si e penetrar na realidade, nem por o pensamento ser a realidade, nem por a realidade ser o pensamento — mas porque pensamento e realidade são uma e a mesma coisa. »

— Edmundo Curvelo, Introdução à Lógica, Lisboa, 1942, Edições Cosmos, página 140

Edmundo Curvelo foi considerado o melhor lógico português do século XX, foi professor liceal de História e de Filosofia, e professor universitário de História da Filosofia Antiga, Moderna e Contemporânea, Teoria do Conhecimento, Moral e Lógica. Quem sou eu, um humilde ignaro, para contradizer ou mesmo discordar do professor Edmundo Curvelo?

Em princípio, a proposição em epígrafe está correcta porque decorre da validade do princípio de autoridade de direito que supostamente se baseia numa autoridade de facto.

Vemos nessa proposição a influência de Kant — embora alterada — e a tentativa de negar S. Tomás de Aquino. O santo dizia que “a verdade é a adequação do intelecto (pensamento) à realidade”. E na minha opinião, o santo dizia bem. E, portanto, segundo o santo, se o pensamento [implícito em “intelecto”] tem que se adequar à realidade para descobrir a verdade, pensamento e realidade não são a mesma coisa. Mas o professor Curvelo diz que não: que o santo estava errado…!

Por outro lado, Kant [e também, por exemplo, o neo-kantiano ou neo-criticista Karl Popper] diz — e bem — que o cérebro humano não é uma espécie de balde onde os sentidos despejam as sensações provenientes do mundo exterior. Em vez disso, dizia Kant que existe uma espécie de software implantado no cérebro humano que faz o tratamento dos dados das percepções sensoriais recebidas do exterior por via dos sentidos. Ou seja, o cérebro interpreta; e cada interpretação de um determinado fenómeno inerente à realidade é uma teoria.

Então, como é que o professor Curvelo chega à conclusão de que “o pensamento e a realidade são uma e a mesma coisa”?! Deixo a resposta para o caro leitor, que certamente terá mais perspicácia do que eu.

Porém, eu penso que o professor Curvelo era um hegeliano — o que aliás não era de espantar porque Hegel marcou o espírito do seu (do professor Curvelo) tempo. E Hegel foi conhecido por pegar nas ideias de Kant e adulterá-las. Dizia Hegel que “o que é racional é real”, e vice-versa, o que significa que, segundo Hegel, toda a realidade pode ser traduzida mediante categorias racionais (lógicas). E, portanto, se “o que real é racional”, então “o pensamento e realidade são uma e a mesma coisa” — conclui o professor Curvelo.

Mas não é.

Em primeiro lugar, o professor Curvelo parte do princípio segundo o qual, o pensamento enquanto tal, é sempre racional (ou seja, o pensamento é sempre sustentado pela lógica).

Em segundo lugar, o professor Curvelo parte do princípio de que a realidade, entendida em si mesma, não é nunca logicamente contraditória, e por isso pode ser categorizada racionalmente [Hegel].

Tanto o primeiro princípio como o segundo são falsos. E quando um princípio está errado, toda a concepção teórica está errada [Aristóteles], o que significa que, neste caso, o pensamento do professor Curvelo não se adequa à realidade — lá dizia S. Tomás de Aquino, e com razão!

Quinta-feira, 16 Junho 2011

A dificuldade do conhecimento (2)

Filed under: filosofia — O. Braga @ 8:34 pm
Tags: , , , , , ,

Para S. Tomás de Aquino, “a verdade é a adequação entre a inteligência humana que concebe, por um lado, e a Realidade, por outro lado”. Esta noção de Verdade, segundo S. Tomás de Aquino, tem sido muito mal interpretada por muita gente ilustre, e muitas vezes por má-fé e no sentido de distorcer a sua verdade.

Vejamos uma proposição de Kant: “O entendimento cria as suas leis (as leis da natureza), não a partir da natureza, mas impõe-lhe-as.” (Crítica da Razão Pura).

E por último, uma proposição de Karl Popper: “As nossas teorias científicas, por melhor comprovadas e fundamentadas que sejam, não passam de conjecturas, de hipóteses bem sucedidas, e estão condenadas a permanecer para sempre conjecturas ou hipóteses”.


A Realidade, segundo S. Tomás de Aquino, é algo que está separado da inteligência humana que concebe. E quanto mais próximo (adequação) estiver o espírito (do Homem) em relação à Realidade, mais próximo estará o espírito em relação à Verdade. Porém, para S. Tomás de Aquino, a Realidade não era apenas o mundo das coisas empíricas e da percepção humana; tão pouco, para ele, a Realidade era apenas o mundo da linguagem humana, como os modernos tentam fazer crer e atribuir a S. Tomás de Aquino. A Realidade, para S. Tomás de Aquino, é a totalidade com fundamento em Deus.

Quando Kant diz que o Homem cria as leis da natureza, tem razão até certo ponto: o Homem tenta adequar a sua inteligência à Realidade, e ao fazê-lo, fá-lo inexoravelmente de uma forma unilateral: impõe as suas leis à natureza, independentemente de essas leis estarem, ou não, totalmente certas ou corresponderem à Verdade. O Homem tenta aproximar-se da Realidade e, portanto, da Verdade.

Porém, por mais que o Homem tente aproximar-se da Realidade por via racional, nunca existirá uma total e perfeita adequação entre o sujeito e o objecto. E por isso é que Karl Popper faz-me o favor de concluir este postal dizendo que viveremos sempre à sombra de conjecturas ou hipóteses.

Domingo, 12 Junho 2011

O ser humano religioso sabe que a realidade é paradoxal

Filed under: Ciência,filosofia,Quântica,Religare — O. Braga @ 9:41 am
Tags: , , ,

Para a ciência Física, é possível prever que ½ de grama de urânio se decompõe em 4,5 milhões de anos; porém, à ciência não é possível dizer quando apenas um só átomo de urânio se decompõe: pode levar muitos milhões de anos ou pode decompor-se imediatamente (em termos do nosso tempo).
(more…)

Sábado, 15 Maio 2010

O Homem contemporâneo e a realidade

Filed under: A vida custa,cultura,Sociedade — O. Braga @ 7:46 am
Tags: , ,

O ser humano em geral parece ter uma enorme dificuldade em aceitar a realidade, ou pelo menos algumas estruturas da realidade. Sempre foi assim, mas no mundo contemporâneo, e à falta de outras formas de fuga à realidade talvez mais consentâneas com os ideais que já não existem — e que foram característica do mundo extinto das ideologias — , o Homem serve-se de um mundo virtual (a Internet, as telenovelas, os reality shows) para construir o seu mundo fictício.

Ao Homem aplica-se a frase de Anatole France segundo a qual “o real serve-nos para fabricar, melhor ou pior, um pouco de ideal”. O Homem pode escolher entre a pior ou a melhor forma de fabricar um pouco de ideal. O mundo contemporâneo, alheado por natureza dos ideais, acaba por condicionar o Homem actual de tal forma que a sua escolha acaba, muitas vezes, por ser a pior possível, tornando difícil o fabrico de um pouco de um ideal positivo e finalístico, por mais pequeno que seja.

Alphonse Daudet dizia que “a obra que trazemos em nós parece-nos sempre mais bela do que aquela que fizemos”. Hoje, esta proposição já não é válida, porque a obra que trazemos em nós passou a estar subordinada — e muitas vezes deixa de existir —, não para fazer sobressair aquela outra obra que fizemos, mas antes aquela que gostaríamos de fazer em uma perpétua fuga à realidade.

(bom fim-de-semana)

Sábado, 23 Janeiro 2010

Grito d’Alma

« Acreditas naquilo que os teus olhos vêem, ou naquilo que eu te digo? »

― Groucho Marx (mas poderia ser de José Sócrates)

O que aconteceu em Portugal com José Sócrates foi ― a vários níveis: político, cultural, social, económico, etc. ― a tentativa de racionalização do absurdo. Portugal entrou numa espécie de “Processo” de Kafka. De repente, a política socratina desatou a dizer ao povo que a realidade, tal qual o senso-comum popular a vê, não existe; e que apenas existe a verdade exarada dos gabinetes da elite política, e que a realidade passou a ser aquilo que essa elite política exige que seja.

As coisas já não são como elas se nos apresentam; passaram a ser conforme o socratinismo quer que elas sejam. A realidade objectiva já não existe, senão a realidade subjectiva socratina.

Este desfasamento entre a realidade objectiva que é característica do senso-comum popular, por um lado, e a imposição coerciva e até violenta de uma realidade subjectiva ficcionada e programada para a afirmação de um totalitarismo suave, por outro, implica a necessidade urgente de um combate cerrado contra o regime de José Sócrates ― que se transformou no porta-voz do radicalismo mais abstruso e passadista herdado dos totalitarismos (os mesmos das religiões políticas das realidades ficcionadas) do século passado.

Create a free website or blog at WordPress.com.

%d bloggers like this: