perspectivas

Sábado, 3 Agosto 2013

A porcaria dos livros de filosofia que se vendem por aí

Quando se diz, num livro sobre a Teoria do Conhecimento, que em Descartes existia uma “dúvida céptica”, fico sem saber se quem escreveu o livro não sabe o que escreveu, ou se sabe e tenta alterar conceitos básicos da Teoria do Conhecimento.

1bertrand-russell-300-web.jpg A dúvida de Descartes era uma “dúvida metódica”, e não uma “dúvida céptica”. Qualquer pessoa com um mínimo dos mínimos de conhecimento de filosofia e de Teoria do Conhecimento – como é, por exemplo, o meu caso – tem a obrigação de saber isto.

A “dúvida céptica” é aquela que conclui pela impossibilidade de se decidir entre uma coisa ou outra. Talvez o melhor intérprete da “dúvida céptica” do século XX tenha sido Bertrand Russell (na imagem). A “dúvida metódica” – protagonizada por Descartes – é aquela que consiste em procurar todas as causas possíveis de erro, e é aquela que fundamenta o método científico.

2 Depois, o texto do “filósofo” que escreveu “aquilo” fala em “conhecimento a priori”, por um lado, e, por outro lado, no contexto do “conhecimento a priori”, o texto refere-se a Descartes.

É impróprio falar, em Descartes, de “conhecimento a priori”, porque Descartes parte apenas de conhecimentos geométricos e de hipóteses físicas (o ser humano é visto por Descartes, do ponto de vista físico, como uma espécie de máquina, com tubos e roldanas, etc.). Seria como se disséssemos que em Hobbes também existiu um “conhecimento a priori” acerca do ser humano – o que é absurdo. Só podemos falar propriamente de “conhecimento a priori” em Kant.

Em Kant, encontramos os “juízos analíticos a priori” – por exemplo, uma definição: “o ser humano é um animal bípede, dotado de inteligência e de linguagem”. Temos aqui, segundo Kant, um “juízo analítico a priori”.

Depois, e segundo Kant, temos os “juízos sintéticos a posteriori”, que decorrem exclusivamente da experiência empírica. Ora, como sabemos, do empirismo só resultam soluções empíricas.

E temos também – segundo Kant – os “juízos sintéticos a priori”, que englobam a matemática e a física, e que se formam independentemente de qualquer experiência e mediante uma intuição intelectual obrigatória.

3 O “filósofo” que escreveu “aquilo” especula em torno dos conceitos de “facto”, de “questão de facto”, e de “tautologia”, como segue:

« As verdades da razão pura, as proposições que sabemos serem válidas independentemente de toda a experiência, são-no em virtude da sua falta de conteúdo factual. Dizer que uma proposição é verdadeira a priori é dizer que é uma tautologia. E as tautologias, embora possam servir para nos guiar na nossa demanda empírica do conhecimento, não contêm em si mesmas qualquer informação sobre qualquer questão de facto. »

Um facto é algo que adquiriu uma estrutura na nossa consciência através da experiência. Acontece que essa experiência pode ser, ou subjectiva, ou intersubjectiva. Por uma experiência ser apenas subjectiva (e que pode ser produto da intuição), não deixa de ser um facto!, embora um “facto subjectivo”. Quando falamos em “factos objectivos”, queremos dizer, mais propriamente, “factos intersubjectivos”.

Uma “questão de facto” não significa necessariamente e apenas “conhecimento empírico objectivo”. Ademais, as tautologias são essenciais porque enunciam as leis lógicas – os axiomas da lógica, que não são físicos, são tautológicos: por exemplo, o princípio de identidade, A = A – sem as quais o pensamento e o discurso seriam incoerentes. Ou seja, sem as “tautologias das leis da lógica”, não seria possível saber sequer o que é uma “questão de facto” – e por aqui se vê a estupidez de quem escreveu aquela merda!

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Domingo, 9 Setembro 2012

O pragmatismo do Pragmatismo

Filed under: A vida custa,ética — O. Braga @ 3:52 pm
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A principal característica do Pragmatismo é ser pragmatista; e as outras características, também. Do Pragmatismo empirista só podemos esperar soluções empíricas e pragmáticas; por isso, acaba por ser surpreendente que o Pragmatismo tenha sequer concebido a ideia de Pragmatismo.

Segundo o pragmatista J. Dewey [Human Nature and Conduct], a moral implica o ser social do Homem: é porque o Homem é um ser social que é capaz de moralidade.

Praticamente todos os pragmatistas estão de acordo com Dewey, tal como estariam certamente de acordo, por analogia, com a seguinte proposição:

As raízes de uma árvore implicam as suas folhas: é porque a árvore tem raízes que tem folhas — o que significa que se a árvore não tivesse raízes, não teria folhas.

Quarta-feira, 6 Junho 2012

A Teoria do Balde, de Karl Popper

“É revelador da condição humana que todas as provas e factos empíricos são por norma incapazes de mudar as fortes crenças ideológicas dos indivíduos. É por isso que só é possível contrapor uma narrativa (política) com outra mais sedutora.”

Esta proposição foi respigada no FaceBook e é da autoria de um jovem que faz um mestrado universitário, e que colabora num blogue hayekiano. A proposição necessita de ser interpretada para fazer algum sentido, porque inclui nela uma série de conceitos que, sem uma interpretação, valem pouco.

Duas perguntas: 1) o que é um facto? 2) será que depois de definirmos “facto”, podemos saber se os factos conduzem a uma aproximação da verdade que racionalize [ou seja, que as fundamentem logicamente] as crenças ideológicas?
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Quarta-feira, 30 Maio 2012

O cientismo não aceita o “princípio da incerteza” de Heisenberg

O “princípio da incerteza” de Heisenberg — diz-nos, a traço grosso, que existem sempre dois modos complementares de “construir” a realidade. Se observarmos a realidade de um desses modos, o outro torna-se indefinido — ou seja, por exemplo, é impossível fazer a observação de uma Partícula Elementar Longeva [ou partícula subatómica], e simultaneamente definir a sua posição; ou se faz a sua observação (tempo), ou se define a sua posição (espaço), isto é, numa observação, por exemplo, de um electrão, ou se define o tempo ou o espaço que ele ocupa, e não as duas coisas simultaneamente.

Todas as actividades do ser humano, incluindo as ciências, estão sujeitas a esta lei. Porém, a filosofia já tinha chegado, há milénios, à mesma conclusão de Heisenberg [por exemplo, com Xenófanes], mediante o conceito da limitação do conhecimento imposta pela relação sujeito-objecto a que está submetido o ser humano [Karl Jaspers aperfeiçoou e desenvolveu este conceito].

A Incerteza, de Heisenberg


Nas ciências, em todas elas, ou valorizamos a generalização precisa [a abstracção que corresponde às leis gerais, por exemplo, na física], ou valorizamos o particularismo dos fenómenos [a acuidade nominalista e particularista, por exemplo, na paleontologia]. E aqui voltamos ao problema da querela entre o nominalismo e os universais, e à constatação de facto de que o franciscano Guilherme de Ockham, ao excluir a importância dos universais para o conhecimento da natureza, foi um dos precursores do cientismo.

Se partirmos do pressuposto segundo o qual o princípio de Heisenberg é verdadeiro, então não existem, intrinsecamente, áreas do conhecimento que sejam superiores, em valia, a outras [são complementares]. Não podemos dizer, por exemplo, que a biologia é superior à filosofia, porque ambas estão sujeitas às limitações impostas pela realidade macroscópica da relação sujeito-objecto, e à dualidade modal de construção da realidade.

Segunda-feira, 26 Setembro 2011

Diálogo de surdos

“Mesmo que os axiomas da teoria [de Newton] seja formulados pelo ser humano, o sucesso de um tal empreendimento pressupõe uma elevada ordem do mundo objectivo que não se podia esperar de maneira alguma.” — Albert Einstein

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A inteligência míope do pragmatista

Filed under: A vida custa,Esta gente vota,filosofia — O. Braga @ 10:13 am
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Para um pragmatista, as coisas existem porque existem, e não se fala mais nisso. Ele não duvida daquilo que é objectivo; porém, duvida da própria dúvida, o que o transforma, de uma forma objectiva, no maior incrédulo que pode existir.

O pragmatista é um esperto que coloca orgulhosamente em causa a inteligência humana; é um especialista na constatação do simples e do óbvio, transformando-os na negação do complexo. A inteligência míope do pragmatista é a sua razão de ser.

Terça-feira, 2 Agosto 2011

O universo não cabe num laboratório

Este postal é interessante e vou interligá-lo com estoutro.

1.
Hans Albert colocou o problema desta maneira: “Não é possível garantir absolutamente a verdade de qualquer afirmação, nem sequer a verdade desta afirmação.”

O conceito de “hipótese” (ou “teoria”) só tem sentido racional e lógico se existe uma realidade que comprova a hipótese como sendo correcta ou falsa. Por isso, se nada no mundo é absolutamente certo — ou se não existe uma certeza absoluta acerca do que seja — pelo menos a Totalidade (ou o Englobante), da qual a minha vida e o meu mundo fazem parte, tem que ser real. A realidade da Totalidade garante a realidade da parte [e a Totalidade não é idêntica a uma parte de si própria], por um lado, e a realidade só pode ser deduzida da Totalidade [que não pode ser sujeito nem objecto, mas aquilo que engloba ambos], por outro lado.

Em consequência, a realidade da Totalidade é o pressuposto fundamental de uma visão realista do mundo: temos, pelo menos, uma certeza absoluta (passo a redundância enfatizante): a de que a Totalidade existe e não é só uma hipótese.
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Quinta-feira, 29 Julho 2010

A “coisa-em-si” e a coisicidade do coiso das coisas

Um dos grandes mistérios da filosofia iluminista, é o conceito kantiano de “coisa-em-si”. Depois de tantas interpretações sobre a “coisa-em-si” de Kant (salvo seja), já não faz mal que eu venha agora com mais uma.
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Sexta-feira, 9 Julho 2010

Fé, razão e ciência

Filed under: Religare — O. Braga @ 4:44 pm
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« Quem não acredita em Deus, acaba por acreditar em tudo o resto. »
Aura Miguel

A crença é constitutiva da existência — assim como o é a linguagem e a razão. O ser humano não pode viver sem crer; mesmo o pobre suicida, na sua descrença de tudo o resto, tem que crer que a morte é a solução para os seus problemas. Não há como fugir à crença em alguma coisa; o problema é saber em que devemos crer, e como devemos crer.
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Terça-feira, 18 Novembro 2008

Encruzilhada da História

utilitarismo11A ideia de que o Homem é “Deus na Terra” é antiquíssima, tão antiga quanto a idade de 150.000 anos atribuída ao Homo Sapiens. As diferenças que sobre-existiram ao longo do tempo não são substanciais, mas antes formais; muda-se a forma com o tempo mas mantém-se a substância. Contudo, a deificação de uma casta de seres humanos nunca foi tão perigosa para a espécie humana como é hoje.

A civilização europeia culminou com a burguesia; é produto de uma súmula utilitarista que se acumulou ao longo de dois milénios ― a utilidade prática do conhecimento para o domínio da matéria. O burguês europeu, ao contrário dos antigos gregos, não se sentia atraído pela contemplação, mas antes pela utilidade prática; quis instalar-se comodamente no mundo, modificando-o a seu bel-prazer.

Enquanto Platão e Aristóteles pensavam os rudimentos que tornaram possíveis a Física moderna, eles tinham ― como a maioria dos gregos ― uma vida difícil, rude e sem conforto. Nesse momento histórico, os chineses que nunca tinham tido um único pensamento científico, que nunca se preocuparam com a contemplação e que nunca desenvolveram uma teoria, todavia já desenvolviam a Técnica, teciam telas esplendorosas, fabricavam objectos de grande utilidade, a tinta, o papel e a pólvora, e construíam muitos artefactos de excepcional conforto. Enquanto que em Atenas se inventava a matemática pura, em Pequim inventava-se o forro da casaca.
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Domingo, 25 Maio 2008

Pragmatismo = Relativismo

Filed under: cultura — O. Braga @ 8:29 pm
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Deparei-me com este texto, através do qual a autora se insurge contra Richard Rorty. Naturalmente que a autora é – como se pode constatar facilmente – uma defensora acérrima do cientificismo neopositivista. É certo que estou de acordo com a autora na crítica a Rorty, mas as razões que me assistem na divergência ao pragmatista americano são diferentes das dela: acontece que eu não concordo com Rorty, mas tão pouco concordo com a sacralização do cientificismo neopositivista que ela tacitamente defende, e muito menos com o Objectivismo de Ayn Rand; penso que a autora do texto liga a ideia de “objectivismo” ao “cientificismo”, e não à teoria de Ayn Rand, teoria esta que assume, para além do ateísmo próprio do cientificismo, algumas conotações ideológicas inerentes a um darwinismo social próprio do neoliberalismo de Hayek.

Rorty define-se como um “pragmatista”. Um pragmatista é, e sempre foi, um relativista ― deixemo-nos de eufemismos. As diferenças entre os relativistas do princípio do século 20 e os relativistas do pós-modernismo, são basicamente:

    1) estes últimos já perderam a vergonha e deixaram de considerar (em teoria, porque na prática impera a hipocrisia ou a incoerência), como sendo preponderante, a opinião maioritária presente numa sociedade ― ou numa comunidade, seja científica ou outra ― como defenderam Charles Peirce e Bertrand Russell;

    2) os pragmatistas do princípio do século 20 sempre consideraram o método científico como o único que inclui em si próprio a possibilidade de erro, e que, portanto, se apresenta organizado de forma a permitir correcções – ao contrário dos outros métodos de procura de conhecimento.

De resto, o Pragmatismo primordial considera que toda a procura de conhecimento subjaz no estabelecimento de uma “crença”, entendendo-se por “crença” um hábito ou uma regra de acção que torna possível um dado comportamento em determinada ocasião, isto é, essa “crença” justifica qualquer tipo de acção no sentido do sucesso na busca da “verdade” que essa “crença” defende ou pressupõe. Convenhamos que esta ideia é perigosa, porque pode até justificar as acções de Hitler. Acontece que os pragmatistas pós-modernistas (como Rorty) consideram todas as “crenças” por igual, isto é, dentro de um relativismo absoluto e radical.
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