perspectivas

Terça-feira, 28 Julho 2015

Os magistrados do politicamente correcto, e a estatização da sociedade

Filed under: Política,politicamente correcto — O. Braga @ 10:02 am
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Está aqui um texto do Alberto Gonçalves (ex “Homem a Dias”) que reflecte o aumento dos poderes dos juízes. Os juízes já começam a decidir sobre detalhes íntimos da nossa vida privada. Parece que a tendência é a de que o cidadão só terá vida privada quando estiver a dormir. Mas o cidadão também é culpado quando não respeita a sua própria privacidade: temos, portanto, uma pescadinha de rabo na boca que alimenta a estatização do cidadão, nomeadamente através dos juízes que desempenham o papel dos magistrados na República de Platão.

Platão divide a sociedade em três classes: povo, militares e magistrados. Só estes últimos detêm o poder político e são em número muitíssimo inferior ao das outras classes. Os magistrados são escolhidos a dedo pelo Legislador (o Rei-filósofo). Platão está certo de que os magistrados seguirão sempre as intenções do Legislador (o que é um absurdo), e considera que os magistrados são uma classe à parte (como eram os membros do Partido Comunista na URSS). Parece ser esse o papel dos juízes que se prepara para a nossa sociedade.

“ (…) custa perceber a recente decisão dos tribunais de Setúbal e Évora, que proibiram um casal de exibir a filha nas ‘redes sociais’ (…)

A segunda razão [do tribunal] é um primor: ‘os filhos não são coisas ou objectos pertencentes aos pais e de que estes podem dispor a seu belo sic prazer’.”

A coisificação das crianças tende a ser um direito monopolista do Estado patrocinado pelos magistrados que, alegadamente, seguem as instruções do Legislador. “Alegadamente”, dizemos nós – porque na realidade os magistrados tendem a actuar em roda livre. Os magistrados acusam os pais de coisificação das crianças, justificando assim que passe a ser o Estado a deter o exclusivo da coisificação das crianças.

Para que esta estratégia de estatização da sociedade tenha sucesso, o Legislador e os magistrados têm, em primeiro lugar, de classificar toda e qualquer dissidência politicamente incorrecta (em geral e em abstracto) como sendo doença mental. A seguir, os magistrados decidirão que os malucos dissidentes (politicamente incorrectos) devem ser interditados e internados em hospitais psiquiátricos. Será nesta altura que o Júlio Machado Vaz (ou quejando) assumirá as funções de Ministro da Sanidade Mental.

Por exemplo: ¿não gostas da ideia do “casamento” gay e manifestas a tua opinião em público? Então, por decisão do magistrado, tens que ser internado, porque certamente estás maluco.


Na República de Platão, por exemplo, mães e amas só podem contar às crianças histórias autorizadas pelos magistrados que, alegadamente, seguem as instruções do Legislador; também não podem ser contadas histórias em que as pessoas politicamente incorrectas são felizes e em que as politicamente correctas são infelizes — porque o efeito moral entre os espíritos tenros pode ser desastroso. Impõe-se também uma austera alimentação das crianças: a politicamente correcta, se possível vegetariana; peixe e carne só assados, sem molhos nem doçuras; diz Platão que as crianças que seguem este regime não precisam de médico.

No fulcro da estatização das crianças está a abolição (em termos práticos) do casamento — tal como previra Platão na sua utopia: “Estas mulheres serão, sem excepção, esposas comuns, e ninguém terá mulher sua”.

Todas as crianças devem ser separadas dos pais ao nascer ou em tenra idade, e ter-se-á todo o cuidado em que os pais não as conheçam, nem elas aos pais. Crianças deformadas são eutanasiadas (já está acontecer hoje na Holanda e na Bélgica). Os filhos de uma união não sancionada pelo Estado são considerados ilegítimos. Nos casamentos controlados pelo Estado, as pessoas não têm direito a opinião: têm que pensar segundo o seu dever para com o Estado e não segundo aquelas emoções vulgares como, por exemplo, o afecto maternal — isto já é defendido hoje pela deputada socialista Isabel Moreira: procura-se diminuir as emoções privadas, removendo obstáculos ao domínio do espírito público estatal e concordar-se com a ausência da propriedade privada (não veremos, por exemplo, o José Pacheco Pereira a discordar disto).

Como ninguém sabe quem sãos os pais, pode-se chamar “pai” a quem quiser e que tenha idade conveniente, e o mesmo quanto à “mãe”, “irmão” e “irmã”.


A coisa política vai por este caminho.
O actual aumento do poder dos juízes (dos actuais magistrados da República de Platão) deve-se essencialmente a uma concepção determinista do ser humano fundamentada pela ideia (errada!), e que está na moda, de que as ciências sociais são ciências exactas. Não existindo (alegadamente) livre-arbítrio no ser humano, aumenta o poder discricionário dos juízes (que são os únicos que têm livre-arbítrio!). Do que estamos aqui a falar é de liberdade, e do Estado que no-la quer tirar.

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Sexta-feira, 1 Maio 2015

A Forma: Platão, Aristóteles e Avicena

Filed under: filosofia — O. Braga @ 6:26 pm
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A diferença entre Platão e Aristóteles no que respeita ao conceito de “mimesis” tem a ver com diferentes concepções da política. Aristóteles considera a ética como ramo da política; Platão considera a política como vergôntea da ética. Neste aspecto estou mais próximo do segundo do que do primeiro.

Platão considera — e com alguma razão — que o impacto do apelo emocional inerente à representação artística (mimesis) na populaça retira algum discernimento e racionalidade à ética e, em consequência, à política. É neste contexto que Platão critica Homero, e defendia mesmo que Homero fosse proibido — ao contrário do que se diz por aí, nunca Platão defendeu que os livros de Homero fosse queimados.

Há que escolher: ou você acha que a ética é consequência da política (Aristóteles), ou você acha que a política é consequência da ética (Platão). Esta é a grande diferença entre os dois que se reflecte na forma como a representação artística é concebida.

De resto, Aristóteles não colocou de parte a “teoria das ideias” de Platão que está na base do problema dos universais. Aristóteles tem a este respeito duas concepções: uma, quando pensa; e outra, quando se opõe a Platão. Mas quando Aristóteles pensa por si mesmo, não difere grande coisa de Platão.

A teoria das ideias e os universais estão na base de uma certa aversão de Platão à mimesis: uma cópia, para além de não ser obviamente o original, pode ser corrompida ou mal interpretada.

Sobre os universais, Avicena tem um conceito que destrói o nominalismo: os universais são simultaneamente antes das coisas, nas coisas, e depois das coisas; são antes das coisas no pensamento divino; são nas coisas nos objectos naturais; e são depois das coisas no nosso pensamento.

Sábado, 25 Abril 2015

Platão, Aristóteles e a mimesis

Filed under: filosofia — O. Braga @ 4:38 am
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Platão nasceu em Atenas, no seio de uma família aristocrática. Como muitos filhos de aristocratas atenienses, foi discípulo de Sócrates. Quando Sócrates era jovem, chegou a conviver com Parménides que já era velho. Parménides ficou conhecido pela sua polémica com Heraclito: Parménides era pitagórico ao passo que Heraclito era herdeiro ideológico do pensamento da Ásia Menor (Tales, Demócrito, etc.).

Aristóteles nasceu na Trácia, longe de Atenas, em um território que era considerado em parte como “bárbaro” pelos atenienses. Portanto, para além de Aristóteles não ter convivido directamente com Sócrates, e embora tendo sido discípulo de Platão, as heranças culturais e o tipo de experiência de vida são muito diferentes em Platão e Aristóteles.

Para que possamos ter uma noção da base fundamental do pensamento de Platão (e não tanto de Aristóteles), temos que ter uma ideia do fluxo ideológico do platonismo:

Religiões dionisíacas → orfismo (reforma intelectual de Orfeu) → pitagorismo (reforma intelectual de Pitágoras) → platonismo → neoplatonismo (Plotino).

Existiu um outro fluxo ideológico a partir das mesmas origens:

Religiões dionisíacas → religiões de mistérios (populares) → gnosticismo da Antiguidade Tardia.

De facto Plotino criticou o gnosticismo, embora com certa dificuldade porque as origens do platonismo e do gnosticismo mergulham nas mesmas origens ancestrais e remotas (religiões báquicas).

A oposição ao conceito de mimesis — como cópia ou representação da “verdadeira realidade” — é tão antigo quanto o orfismo; por isso Platão assumiu-o segundo a sua herança cultural a partir do pitagorismo — ao passo que a influência de Alexandre e dos macedónios em Aristóteles, por um lado, e por outro lado as sua origens culturais, filtraram, por assim dizer, neste último a tendência pitagórica de Platão.

Finalmente, não é verdade que Aristóteles não tenha seguido o conceito de “forma” de Platão (a “teoria das ideias”): a “doutrina dos universais” foi desenvolvida por Aristóteles e essa doutrina baseia-se no conceito de “forma” de Platão. O que Aristóteles fez foi dar uma interpretação diferente da teoria de Platão, o que não significa que a não tenha seguido.

Segunda-feira, 16 Março 2015

A cultura actual que elimina o feio

 

Platão escreveu na “República” que “dado que o belo se opõe ao feio, são duas coisas diferentes. (…) E isto é igualmente verdadeiro para o justo e para o injusto, para o bem e para o mal, e para todas as Formas”.

A concepção platónica das Formas — ou das Ideias — já não se aplica na nossa sociedade; ou pelo menos tende a desaparecer. A oposição entre o belo e o feio (estética) e entre o bem e o mal (ética) tende a esbater-se em nome da absolutização do subjectivo. Por exemplo, a arte moderna começou alegadamente como um movimento de protesto contra o filistinismo burguês; mas o corolário da arte moderna é o de que, hoje, a arte não conhece o feio: “é tudo uma questão de gosto”, dizem-nos, “não há o feio nem o belo: há apenas gostos diferentes”. 

O mesmo critério de esbatimento da oposição das Formas aplica-se hoje à  ética (a ética e a estética andam de mãos dadas) e à  justiça (a justiça depende da ética). O ser humano orienta-se na vida pela oposição de conceitos (grande/pequeno, bom/mau, belo/feio, justo/injusto, etc.), e quando esta oposição entre conceitos se esbate, a sociedade tende a regredir a um estado de selvajaria.

O grau do estado de selvajaria de uma sociedade não depende do desenvolvimento tecnológico; o Estado nazi é a demonstração evidente de que uma sociedade pode regredir a um estado de selvajaria alimentando-se de uma tecnologia de ponta. Uma sociedade em regressão para um estado de selvajaria também pode ter muito investimento em dinheiro e meios na ciência positivista que se caracteriza exactamente pela erradicação das Formas platónicas: quando a ciência substitui a ética e os seus valores, o ser humano passa a ser um “selvagem actual”.

dolce gabannaOs homossexuais Domenico Dolce e Stefano Gabanna criticaram as “barrigas de aluguer” e a tecnologia de inseminação artificial.

Há nestas duas pessoas a ideia do belo e do feio, da justiça e da injustiça, do bom e do mau — para além da ciência e da tecnologia, e mesmo apesar da condição homossexual. Não é porque uma pessoa é homossexual que tem que abdicar de uma visão realista do mundo e da vida, que tem que deixar de pensar na ética e na estética, que tem que deixar de conceber os valores como existentes independentemente de nós e que não podem ser deduzidos de uma qualquer utilidade.

Por exemplo, eu não sou rico, mas aceito perfeitamente que existam ricos, porque o realismo e o conhecimento da Natureza Humana diz-me que sempre houve e haverá ricos. Não tenho inveja dos ricos (sinceramente!) nem qualquer ressentimento em relação a eles. O que eu não posso conceber, em nome a oposição entre o justo e o injusto, é que os ricos retirem direitos naturais aos pobres, como está a acontecer hoje em larga escala, criando uma situação política e social a que Hegel chamou de Notrecht (direito de necessidade).

No mundo das Ideias de Platão, um rico também pode ter a noção da oposição entre o belo e o feio, o bem e o mal, o justo e o injusto — porque a desigualdade injusta não se cura com igualdade, mas com desigualdade justa (Nicolás Gómez Dávila). A desigualdade justa tem em conta a equidade, e não a igualdade, porque é impossível sermos todos iguais.

Quando se pretende tornar igual aquilo que não é realmente possível que seja igual, perdemos a noção da oposição dos valores das Ideias de Platão que orientam a sociedade e o indivíduo; caímos em uma nova espécie de selvajaria nazi, em que o ser humano, enquanto pessoa, é desvalorizado em nome da absolutização do subjectivo, seja este individual ou colectivo.

Quarta-feira, 24 Abril 2013

Para François Hollande, a medida do verdadeiro bem é a vida animal

Hollande 225 webPara entender o que se passa hoje em França e na União Europeia em geral, talvez não seja má ideia recorrer a Platão, embora os clássicos gregos tenham vindo a ser, cada vez mais, proibidos na educação dos nossos adolescentes. De Platão, as elites actuais propalam somente aquilo que lhes convém: a validação da ideia gnóstica do rei-filósofo omnipotente e a defesa da legitimidade da censura da obra de Homero.

A União Europeia é hoje o lugar por excelência de Cálicles, do diálogo “Górgias”, de Filebo do diálogo do mesmo nome, e de Trasímaco de “A República”.

Ao cidadão normal e trabalhador, que formou a sua família e se dedica a ela, Cálicles diz dele que é um indolente e um desleixado, e critica a sua sujeição às leis da cidade que sustentam e fundamentam o remanso da vida familiar. Cálicles critica o pai de família e as leis da cidade. Em alternativa à indolência e ao desleixo do vulgar cidadão com família, Cálicles defende um modelo de vida feliz que consiste nas paixões mais violentas e numa vida desprovida de comportamentos moderados, e que consista na acumulação dos prazeres mais intensos.

De igual modo, Filebo defende a ideia do prazer como um bem absoluto e de um excesso sem limites — e o mesmo se passa com Trasímaco. Todos eles defendem a necessidade de um poder supremo que crie as condições da entrega livre à satisfação desregrada dos prazeres sem punição legal ou de consciência. Esse poder supremo, que Cálicles, Filebo e Trasímaco defendem, é a tirania que permite a quem o detém desfrutar os excessos comportamentais a seu bel-prazer e satisfazer todos os seus desejos. Ademais, a afirmação da superioridade do tirano em relação ao vulgar cidadão encontra nessa superioridade um prazer suplementar. Para estes três personagens de Platão, a medida do verdadeiro bem é a vida animal.

Sábado, 22 Dezembro 2012

Husserl (4)

Filed under: filosofia — O. Braga @ 9:16 am
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Husserl introduziu o conceito de “noema” (ver explicação deste conceito em fenomenologia)
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Sexta-feira, 20 Julho 2012

A autonomia do indivíduo e a desconstrução da família nuclear (2)

Estava eu a ler um texto sobre a Lei Natural [em inglês] segundo S. Tomás de Aquino, quando me lembrei de escrever qualquer coisa sobre o assunto, e ainda a propósito da política absolutista da autonomia do indivíduo — ou política dos direitos humanos, sendo lógico que os direitos humanos não podem ser, em si mesmos, uma política.

Desde logo, fica-me a ideia de que a Lei Natural de S. Tomás de Aquino não é exactamente a mesma Lei Natural de Santo Agostinho e do apóstolo Paulo [este assunto fica para o próximo verbete]. E toda esta história da Lei Natural [com excepção da visão tomista da Lei Natural] se relaciona com o gnosticismo e, consequentemente, mais tarde na História, com o cientismo [ou talvez possamos chamar-lhe “positivismo degradado”].

Eric Voegelin definiu assim o gnosticismo:

“O gnosticismo é um sistema de crenças que nega e rejeita a estrutura da realidade, particularmente a realidade da natureza humana, e substitui-a por um mundo imaginário construído por intelectuais gnósticos e controlado por activistas gnósticos.” — Eric Voegelin, “A Nova Ciência da Política”, 1952

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O Conselho da Europa decretou que a ciência biológica é uma construção social

«The convention redefines gender as a social construct, rather than as a distinction grounded in biology, and suggests violence towards women is systemic with roots in religion and culture.»

via European convention defining gender as social construct condemned as “rape” of Polish society | LifeSiteNews.com.

Sem que os portugueses tenham sido consultados, o governo de José Sócrates subscreveu em Abril de 2011 uma Convenção do Conselho da Europa que define o “género” como produto exclusivo de “construção social”, e não como distinção escorada na biologia.
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Sábado, 25 Fevereiro 2012

Platão defendeu uma forma política de comunismo

Filed under: filosofia — O. Braga @ 9:49 pm
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“As preferências políticas de Platão são conhecidas. Organizaria uma polis do seguinte modo: à sua cabeça estaria o Filósofo-Rei, aquele que é capaz de alcançar a Verdade que habita no mundo das Ideias e apenas ao alcance dos filósofos; os Guardiões assegurariam a segurança interna e a protecção externa; e os Trabalhadores conceberiam os bens e serviços para a sociedade.”

via A Cigarrilha de Chesterton: Estado Ideal.

Não se trata de um “filósofo-rei” — conforme está escrito no trecho citado — mas antes de um “filósofo”. Só. Platão não defendeu, na sua República, uma monarquia: a sucessão do filósofo no Poder não era dinástica. Convém que estes pequenos detalhes sejam claros.


Há uma frase do insuspeito Nicolás Gómez Dávila que reza assim:

“O totalitarismo é a fusão sinistra da religião e do Estado.”

O que varia, nos totalitarismos de todos os tempos, é o tipo de religião. As religiões políticas são formas imanentes de religião.
O movimento revolucionário europeu começou com uma teocracia: a de Calvino; e depois expandiu-se à Holanda e à Inglaterra dos puritanos. Portanto, ser a favor de uma teocracia e ser, simultaneamente, tradicionalista, é uma contradição em termos.
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Quarta-feira, 28 Dezembro 2011

O “X” de Kant, ou a “alma” de Platão

Filed under: filosofia — O. Braga @ 12:01 am
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O “X” de Kant e a “alma” de Platão são conceitos semelhantes.

O que me leva a desprezar os naturalistas é apenas e só o facto de estes se recusarem a pensar; esta recusa do pensamento é anti-natura, em função daquilo que Kant definiu como sendo o “X” da condição humana.

Se imaginarmos alguém que afirma, de uma forma implícita: “eu não penso”, esse alguém é concerteza um naturalista; mas se o naturalista “pensa que não pensa”, pretende que a forma como “ele pensa o seu não-pensamento” seja considerada verdadeira e elevada a norma. É esta esquizofrenia intelectual do naturalista que me merece o maior desprezo.

Immanuel Kant chamou à atenção para o facto de nós termos sempre de acrescentar um suplemento a todos os nossos pensamentos, independentemente daquilo que estamos a pensar: a frase “eu penso”. Sem a consciência de que “sou eu que penso”, não existe qualquer pensamento que mereça esse nome. Sem a autoconsciência de que a consciência se pensa a si mesma, não é possível qualquer conteúdo dessa consciência.

Um computador pode percorrer o seu programa sem este “eu penso”, mas não pode, por isso, pensar como um ser humano. No “eu penso” do sujeito humano, todos os conteúdos da consciência estão ligados; o “eu penso” do humano é a condição lógica de qualquer pensamento — constitui o último ponto de referência lógico e o ponto de unidade de todo o conhecimento. Na linguagem de Kant: o “eu penso” é a condição da possibilidade do pensamento.

Este “eu penso”, de Kant, é o “X” da condição humana. Não é possível reconhecer este X, porque qualquer acto de pensamento o pressupõe: o X é anterior ao próprio pensamento. — e por isso é que nenhum computador tem ou alguma vez terá este X.

A comparação que os naturalistas fazem entre um computador, por um lado, e um ser humano, por outro lado, é uma estupidez de uma grandeza elevada à potência infinita; é uma estupidez sem classificação possível…!

Sexta-feira, 1 Julho 2011

Quem deve governar?

Eu tenho imensa dificuldade em acompanhar quem defenda a ideia segundo a qual a governança deve ser atribuída, sem eleições, a uma elite — seja essa elite de sábios, como preconizado por Platão, seja a uma elite aristocrática, ou uma neognóstica marxista. Os conceitos contrapostos de “elite” e de “massas”, repugnam-me.

Platão foi o primeiro teórico a defender a necessidade dos campos de concentração para os dissidentes de opinião. E foi também o precursor da ideia peregrina do governo de uma elite não-eleita de sábios. Platão pergunta: “quem deve governar?”, e responde que devem ser os sábios a governar sem democracia.

Esta mesma pergunta de Platão — “quem deve governar?” — foi assimilada por Rousseau através do seu conceito de “vontade geral”, que não corresponde à “vontade da maioria”. A vontade geral de Rousseau é a vontade da classe política que se assume como uma espécie de elite de sábios que deve governar, mesmo que em detrimento da vontade da maioria. O tipo de democracia que temos hoje provém directamente de Rousseau.

Se eu estivesse de acordo com uma certa direita que defende que “quem deve governar” é uma elite aristocrática — então com que moral poderia eu criticar a ideia marxista cultural segundo a qual “quem deve governar” é uma elite de neognósticos? A alternativa possível a um qualquer governo de elite é alterar a pergunta de Platão: em vez de “quem deve governar?”, a pergunta deveria ser outra (Karl Popper): “que poder deve ser concedido ao governo?”

Só com a limitação dos poderes do governo rousseauniano, e por via da concessão de mais poderes às instituições (por exemplo, a família) e às comunidades da sociedade civil (por exemplo, as associações de cidadãos livres, ou a Igreja Católica), será possível evitar as tragédias humanitárias do passado recente, em que elites de neognósticos tomaram o poder absoluto (nazismo e comunismo).

Sexta-feira, 13 Maio 2011

A política segundo Platão, Maquiavel, Rousseau, e a democracia directa

Existem basicamente duas concepções da política: a platónica e a maquiavélica.
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